Capítulo 4 — O encontro

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Dois anos se passaram e um novo ano escolar começava. Aya, com um vermelho lhe cobrindo a face e uma franja que quase lhe impedia a visão, entra timidamente em sua nova classe.

Ela não conhecia ninguém ali, e tudo que podia fazer era ver se haveria alguma criança disposta a conversar com ela. Cada vez mais meninos e meninas tímidos entravam pela porta e, para o alívio de Aya, estavam tão inseguros quanto ela.

O primeiro sinal tocou, assustando alguns alunos.

Sem terem opção do que fazer, os pequenos estudantes escolheram um lugar aleatório e se sentaram num silêncio angustiante. Por mais estranho que soasse, era pela chegada do professor que eles tanto ansiavam.

Outro sinal e passos no corredor. Alguns alunos prenderam a respiração.

Entra uma mulher cantarolando uma música animada baixinho. Aya conhecia aquela música infantil e sorriu ao se lembrar mentalmente da letra toda.

–Muito bom dia, crianças! — a mulher abriu um enorme sorriso — Meu nome é Yuki Tanae e eu serei a professora de vocês esse ano.

Vendo que ninguém nem se mexia direito, a professora viu o primeiro obstáculo que teria que ajudar aquelas crianças a superar. Depois de uma risadinha que ninguém entendeu, ela pediu que cada um se levantasse e dissesse seu nome para a turma.

Ao ouvir isso, cada centímetro da superfície da pele de Aya — e de muitos outros alunos — foi coberta por um arrepio.

Os alunos começaram:

–Akiko Yamada

– Asami Saito

Pareciam pequenos robôs ao falar.

–Ren Okada

Aya sentia seu coração acelerar à medida que sua vez chegava.

–Usagi Tamura

–Akemi Michiyo

Aya prendeu a respiração e olhou estarrecida para a garota que acabara de dizer aquele nome. A menina que ela procurou por todos esses anos, a que jurou se tornar amiga, estava ali, em sua sala e tão perto dela como jamais estivera.

Vendo que o aluno sentado a sua frente e a menina ao seu lado olhavam para ela, foi que Aya percebeu que tinha que voltar ao presente.

–Seu nome, qual é? — a professora perguntou, talvez pela segunda ou terceira vez.

– D-desculpe — Aya levantou-se às pressas. — É Aya Hirano.

Ela não prestou mais atenção aos outros alunos da sala. A garota tinha achado quem tanto procurava.

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Capítulo 5 — O início

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Aya corria em direção à saída em busca de Akemi. Para todos os cantos, todos os lugares, ela lançava um olhar aflito. A menina nem tinha percebido quando Akemi deixara a sala no final da aula, mas não era por isso que Aya não procuraria por ela, como fez durante esses dois longos anos — em cada rua, cada parque de diversões e grupos de crianças ela via uma esperança de encontrar Akemi.

A garota já havia dado a volta na escola e, sem fôlego, teve que parar um instante para recuperar a força. Seus punhos, apoiados no joelho, estavam cerrados e tremiam. Aya não tinha sido capaz de encontrar sequer um sinal dela.

Sem saber o que fazer agora, foi um grito ao longe que a tirou de seu transe.

–Por que vocês fizeram isso!!?

Aquela voz carregada de desespero e raiva fez Aya colocar-se em alerta no mesmo instante.

Uma risada abafada soou logo em seguida. O senso de alerta da garota a fez concentrar-se o máximo que conseguia a fim de descobrir de onde vinham as vozes. Ela começou a se mover. Atrás de uma árvore ao sul da praça perto da escola, Aya viu uma menina apertando uma caixa de papelão nos braços e encarando um trio, dois meninos e uma menina, a sua frente. Uma expressão feroz, quase felina, cobria o rosto da garota que segurava a caixa.

Não foi preciso mais que um segundo. Aya correu em direção à menina assim que percebeu quem ela era.

–Deixem a Akemi em paz — Aya manteve o olhar firme, e sua própria voz a tinha assustado naquele momento — Saiam daqui agora!

O trio a olhou com desprezo e não se mexeu do lugar. Akemi pôs a caixa no chão e ficou ao lado de Aya.

–Humanos como vocês não merecem viver — o olhar frio de Akemi juntamente com sua voz tão adulta para a idade tiveram o poder de congelar o ambiente por um instante.

Os três garotos entreolharam-se. Até Aya sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha depois de ouvir aquilo. Não bastou um minuto para os garotos virem que não iriam conseguir mais nada ali e irem embora.

Só quando estes já estavam longe é que Akemi recuperou aquela doçura que a maioria das crianças tem.

Ela suspirou e voltou sua atenção para a caixa.

–Obrigada pela ajuda — ela disse a Aya, fazendo a garota enrubescer.

–O-oque tem nessa caixa...? — Aya perguntou, aproximando-se timidamente.

Depois de ajoelhar, só precisou que a garota desse uma rápida olhada para sentir seu estômago sair do lugar. Aya colocou as mãos na boca, para impedir um grito — e o que mais pudesse vir-, e desviou o olhar.

–Ela era minha amiga... — Akemi falou, talvez mais consigo mesma do que com Aya — Por isso que odeio alguns humanos. Eram eles que mereciam estar nessa caixa.

Aya ficou sem saber o que dizer e a única coisa que conseguiu fazer foi lançar um último olhar para aquilo. Ela precisava ter certeza que não eram seus olhos que mentiam para ela.

Numa poça de sangue seco, um passarinho tivera suas asas arrancadas e suas garras queimadas. Era agora um pássaro tingido de vermelho. Somente sangue e desespero cobriam cada partícula de seu corpo frágil e frio.

Morto por mãos humanas.

Morto pela dor...

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Capítulo 6 — Contato

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–Vamos enterrar ele — Aya falou, totalmente convicta.

Akemi olhou diretamente para ela pela primeira vez — e Aya se perdeu naquele olhar de uma escuridão tão profunda que parecia não ter fim.

–V-vamos.

Sem dizerem mais nada, ambas se levantaram e andaram pela praça a procura de um lugar para enterrar o pássaro.

Escolheram a árvore mais antiga da praça, cujos pequenos galhos estavam repletos de pequenas flores prestes a desabrochar.

–Aqui está bom — Akemi disse, ao mesmo tempo em que, com as próprias mãos, começava a cavar um pequeno túmulo.

–Não quer procurar por uma pá primeiro? — Aya sugeriu preocupada, vendo as mãos de Akemi sumirem cada vez mais naquela terra escura.

–Não.

Aya não sabia mais o que argumentar. Apenas ficou ali em pé, observando cada movimento da garota.

Por fim, enterraram o animal e fizeram uma pequena prece. Antes de partirem, cada uma pegou uma flor amarela num dos arbustos da praça e colocaram sobre o túmulo.

Caminharam sem rumo.

–Como era o nome dele? — Aya perguntou, quebrando o silêncio que já começava a incomodar.

–Umi.

–Mar... que nome lindo.

Akemi não respondeu, nem disse mais nada.

–Akemi — Aya tinha que dizer alguma coisa, antes que perdesse Akemi para o silêncio — a gente se vê amanhã na escola então?!

–Tudo bem.

Já era alguma coisa.