Eu nunca vou me esquecer desse dia.

Eu vivia em um pequeno aglomerado de vilarejos então vivíamos bem entre muitas árvores, florestas e mesmo um pequeno lago onde íamos ocasionalmente para nos divertir, além de uma peculiar área lotada de sinos dos ventos de bambu pálido o qual era um patrimônio da cidade pois eram rastros indígenas dali além de abrigar algumas histórias. Flint Jacob, que morava na frente da minha casa, era um garoto muito alegre nos seus 6 anos de idade. Pequeno, frágil e seus dois dentes da frente nunca nasceram. Usava óculos fundo de garrafa por ter problemas de visão e seus pais quase nunca estavam lá para cuidar dele. De fato, a mãe trabalhava tarde numa lanchonete e traia o pai de Flint, que também traia a mãe de Flint então não podemos dizer que era uma família feliz. Ás vezes até ouvíamos brigas na casa da frente, na casa de Flint, que sempre corria em lágrimas até a minha casa, onde chegamos até a chamar a polícia uma vez e ameaçaram levar o menino se isso se repetisse, ele tinha até um roxo no braço. Pobre Flint, ele era um garoto inocente, curioso e gentil mas que infelizmente acreditava em tudo e todos e acabava se metendo em encrencas e até com bully. Quase se machucou quando enfiou o dedo no caminho da agulha que meu tatuador estava trabalhando, numa bela tatuagem de uma maçãzinha com uma delicada minhoquinha sorridente saindo, logo no meu ombro. Essa é a história de como ele desapareceu.

Num certo dia, convidamos Flint, que era muito maduro para sua idade, para ir ao lago e ele de prontidão aceitou. Dessa vez seu pai estava em casa e ele nos deu autorização de levá-lo, sem lá muita instrução se havia algum cuidado com ele ou coisa do tipo.

Fomos logo de manhã para o lago para pegar um bom ponto entre as árvores, logo praticamente na entrada da floresta. Assim o conseguimos. Brincamos muito no lago esse dia e depois voltamos na hora do almoço para comer hambúrgueres, brincar mais um pouco e nos preparar para voltarmos pois já estava anoitecendo. Nisso ele ficou um pouco mais na água do lago enquanto nos vestíamos. Quando fomos chamá-lo novamente, o perdemos de vista, sua roupa ainda estava em nossa pequena área, procuramos o menino mas nem sinal de Flint.

Anoiteceu. Juntamos muitas pessoas para procurar o garoto, munidos de lanternas e até um cachorro que farejou, farejou, até localizar os óculos do garoto, bem em meio a floresta, fundo, numa área que nunca havíamos explorado antes.

Foi então que nossos esforços se exauriram e retornamos para casa. Contamos aos pais de Flint o ocorrido e não pareciam muito se importam embora depois foi possível ouvir a mãe dele se lamentando, talvez tenha se arrepedindo por ter sido uma péssima mãe. Mas se foi também lágrimas de crocodilo, isso nunca vou saber.

As investigações policias então se iniciaram e seguiram, não encontraram nenhuma pista que valesse a pena investigar, absolutamente nenhum rastro, era como se fosse mágica.

Eu mesmo então resolvi realizar a minha própria investigação, eu apenas. Lyanne, minha irmã, queria ir comigo mas não permiti por ser muito nova. Fui no mesmo local em que encontraram seus óculos e vasculhei o solo. Nada realmente encontrei. A polícia foi tão realmente cuidadosa que nem os rastros dele estavam no chão. Espera... O chão. Não tinha nada no chão... Mas e nas árvores? Examinei cuidadosamente as árvores e percebi que em algumas havia algo muito peculiar nos troncos, um tanto acima de minha cabeça. Marcas. Marcas que pareciam... Garras profundas?

A medida que fui analizando o tronco de algumas árvores, eu percebi um caminho que foi se estendendo e fui seguindo, mais fundo na floresta até encontrar uma cabana solitária que foi se dando vista no horizonte. Nossa, já era noite?

Ouvi um farfalhar atrás de mim, um barulho estranho.. Esse barulho...Vinha da copa de uma das árvores que estava logo em cima de mim e vi o que parecia ser uma mão.

Corri com todas as minhas forças em direção a cabana, onde um homem apareceu em meio a uma luz alaranjada de fogo, ele me apressou em entrar e fechou a porta. Era, aparentemente, um descentende dos indígenas na região.

Assustada, perguntei a ele o que era aquilo.

"Wendigo" — Ele me disse.

Não era possível. Wendigos não existem. Não era possível não.

Um Wendigo havia pego Flint?

"Muito provavelmente" — O homem me respondeu.

Um wendigo era uma criatura que nasce a partir do canibalismo em um terreno sagrado antigo. Uma criatura esquelética, muito rápida, voraz e resistente cuja pele era como se fosse de uma armadura profana. Além de suas habilidades de imitar a voz das pessoas para atrair novas vítimas, um Wendigo não enxergava muito bem e se guiava, na maioria das vezes, pelo som.

Não acreditava ainda, o homem permitiu que eu passasse a noite ali mas fosse embora de manhã quando estivesse seguro. Eu pedi para que ele me ajudasse a encontrar Flint mas ele apenas saberia me apontar a direção, enquanto o mesmo se armava pois ele mantinha certo equilíbiro da região e por isso o wendigo nunca saíra para os vilarejos.

Eu fui na direção apontada pelo homem. Aquela direção dava direto nas minas abandonadas da região, que tinha a porta lacrada, eu passei por ela e ouvi logo o barulho de sino dos ventos de bambu. Aquela área que eu tinha falado anteriormente.

Ali, na luz do sol, olhei para cima e vi aqueles muitos sinos dos ventos, depois de muito andar. Eram realmente centenas deles. A luz do sol não deixava eu enxergar tão bem mas fiz o possível. Foi quanto notei. Os sinos dos ventos não eram bambus, eram ossos. Ossos e a parte superior feito com crânio sem o maxilar. E eu percebi logo ali no meio um crânio menor... com dois dentes da frente faltando e pequenos ossos embaixo pendurados e batendo em meio a brisa. Havia localizado ao menos os restos de Flint. Foi quando corri para dar a notícia para as pessoas mas eu então... Eu ouvi a voz de Flint pedindo socorro.

Era o Wendigo? Eu não sei, só sei que corri o mais que pude e eu acabei tropeçando e cai em um buraco fundo. Depois de me recuperar de meu enorme tombo eu olhei para os lados e achei equipamentos empoeirados... Eu estava no interior da mina abandonada... E eu não sei para onde ir. Eu encontrei este caderno em uma velha mochila e estou escrevendo com carvão o meu registro para que saibam o que ocorreu.

Eu vou tentar novamente escalar pelo buraco onde caí pois é o único lugar que tem alguma luz e estou perto da cabana do homem. Será que eu grito? Eu tenho medo do Wendigo me achar, mas... Só sei que agora... Eu sinto tanta fome...

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