O Daiyōkai

1 Destinos cruzados


Notas iniciais
Adoro esse casal, espero que gostem da fic! Deixem seus comentários!

Em um pequeno vilarejo medieval no Japão, vivia uma garota chamada Rin.

Não era nada popular, não tinha amigos, sua mãe morrerá ao lhe dar a luz. Desde então uma mulher chamada Ayuka havia a adotado e cuidado dela.

Rin não costumava se divertir muito, ajudava Ayuka em tudo que ela mandava, lavava roupa, limpava templos, preparava a terra para o plantio de frutas e hortaliças.

Os dias eram cheios e sem descanso, Rin sentia dores nas costas, nas mãos, todo o seu corpo a incomodava, mesmo depois de oito anos, ela ainda não havia se acostumado ao trabalho duro.

As outras crianças riam dela. Faziam de tudo para que ela derrubasse os baldes de água que carregava. Atiravam pedras quando ela passava. E a chamavam de bastarda sempre que podiam.

Ayuka era uma mulher de estatura baixa, cabelos negros sempre presos em um coque alto na cabeça, estava quase sempre com o mesmo quimono verde, e desbotado. Seus olhos eram escuros e sua pele muito clara. Não era feia mas já apresentava sinais de idade. Desde que completara 53 anos, havia dado a Rin muito mais trabalho a fazer. Era uma mulher rígida e solitária, nunca se casara, quando viu a mãe de Rin morrer ao dar a luz a menina, imediatamente tomou a criança pra si. Sabia que Rin quando crescesse poderia lhe ajudar e também a fazer companhia. Mas tinha o coração muito frio e machucado por nunca ter sido amada ou correspondida.

Sua relação com Rin era sempre monossilábica, não tinha longas conversas com a menina, ignorava várias de suas perguntas e não gostava de ser desobedecida.

Rin, sempre respeitou Ayuka e a obedecia sem pensar duas vezes. A mulher era a única família que ela tinha e as outras pessoas do vilarejo não eram nenhuma referência para ela.

A menina estava com 15 anos, iria completar 16 anos dali a duas semana. Se pegou pensando em como seria sair daquele lugar, explorar as terras, subir nos montes, descer correndo e ver o que havia do outro lado, queria se embrenhar nas florestas, tomar banho nos córregos e ver os tão temidos youkais.

Rin sabia que era perigoso e que uma vez que fosse jamais poderia voltar. Queria a aprovação de Ayuka mesmo assim. Apesar de tudo aquela era a sua mãe de criação e Rin devia isso a ela. O problema é que não conseguia encontrar a coragem necessária dentro de si para pedir tal coisa. Queria ser livre como os pássaros mas não possuía a voz necessária para isso.

Pensando em todas as possibilidades de uma vida mais feliz e livre, longe daquele vilarejo, Rin pegou no sono e dormiu profundamente.

-Jaken? Jaken? Arrrrrr, onde aquele inútil se meteu?...

Sesshoumaru Taisho era um grande youkai. Estava ferido e sentia muita dor. Havia lutado na noite passada com o seu meio irmão Inuyasha um hanyou que ele desprezava por ser meio youkai meio humano.

Sesshoumaru tinha um verdadeiro ódio por humanos, os achava sujos, e indignos, seres que nada representavam para ele. Tinha perdido o seu braço direito na batalha contra o seu irmão pela espada Tessaiga, uma antiga herança deixada pelo seu falecido pai.

Ferido e desorientado, havia se refugiado em um bosque, precisava recuperar suas energias para se vingar ou coisa parecida, mas não encontrava forças, estava faminto mas não podia caçar, havia conseguido estancar o sangue. Era muito forte e poderoso, mas estava sozinho e sem escolha a não ser esperar.

-Jaken? JAKEN?!

O seu fiel seguidor Jaken, um pequeno youkai anão demônio não estava por perto para lhe ajudar, haviam se perdido um do outro. Sesshoumaru parou de fazer ruídos assim que ouviu passos.

Esperou quieto sob a sombra das árvores, sentado recostado a uma velha árvore com um cheiro muito forte de líquens. Não tinha medo de nada. Qualquer coisa ou criatura que aparece em sua frente seria eliminada mesmo que ele não estivesse em sua melhor forma ou não pudesse se transformar completamente em toda a sua forma de youkai.

Esperou paciente mas nada viu. Se sentia observado mas não tinha a mínima vontade de se levantar dali e ver o que era.

Rin acordara naquela manhã ensolarada de ótimo humor, estava decidida que até o final da semana pediria a Ayuka que deixasse-a sair do vilarejo por um tempo e explorar a região. Estava se sentindo corajosa. Saiu de casa apanhando duas maçãs no caminho a margem da floresta, queria achar cogumelos para fazer o prato favorito de Ayuka, queria agradá-la. Achava que assim a mulher diria sim e concordaria com a vontade de Rin. Afinal Rin nunca havia pedido nada a ela, esse poderia ser o momento certo.

Sentiu um cheiro diferente dos que conhecia logo na entrada da floresta. Era um cheiro sútil mas marcante, parecia cheiro de sangue misturado com algo que ela não saberia dizer o que era. Seguiu o cheiro até pensar ter ouvido algo, uma voz. Era uma voz forte e marcante e chamava por alguém. Rin se abaixou e engatinhou em direção a voz que como se percebesse a sua presença parou imediatamente. Rin sentiu seu coração pular. Não sabia dizer se estava assustada ou curiosa demais. Queria ver quem era mas no fundo tinha medo que pudesse ser um youkai dos que os homens do vilarejo falavam.

Tudo havia ficado silencioso, só se ouvia o vento nas copas das árvores e nada mais. Rin arredou com os dedos as folhas de um arbusto e pode ver a alguns metros de si logo a frente o que parecia ser um Deus.

Tinha os cabelos longos, lisos e de uma cor prateada como se fosse a lua. Seu rosto era geometricamente perfeito, tinha marcas como se tivessem sido feitas com tinta roxa nas laterais do rosto e uma lua crescente em sua testa. Seus olhos eram de uma cor hazel incrível, tinha orelhas pontudas e parecia ser muito alto, mas Rin não tinha certeza pois ele estava sentado e completamente imóvel como se escutasse e percebesse tudo ao seu redor. Rin viu que se tratava de um youkai, nunca havia visto nada parecido com ele antes. Ele estava ferido ao que parecia, tinha pequenos arranhões no rosto, e em uma das mãos, seu quimono branco estava manchado de vermelho do lado direito.

Rin o olhou com admiração, apesar de parecer profundamente machucado, era imponente e parecia ser muito poderoso.

Rin foi engatinhando para trás, quando achou que estava há uma distância segura, se levantou e voltou correndo para o vilarejo.

Procurou em sua casa tudo que podia lhe servir, juntou água em uma vasilha, reuniu ataduras, fitas e remédios caseiros, colocou em um recipiente um pouco de missoshiru quente, juntou tudo e saiu pra fora da casa cuidando para não ser vista. Ayuka estava na plantação colhendo frutos e não viu a menina sair.

Prestes a entrar na floresta, Rin sentiu um medo, e se ele tentasse a matar? E se fosse mau e a devorasse? Afinal era isso que youkais faziam. O rosto gélido e bonito do youkai lhe veio a mente e Rin deu mais um passo em direção a floresta.

“ Ele não me machucará.”

Sesshoumaru ouviu os passos mais uma vez se aproximando, eram rápidos mas cautelosos, não eram de um youkai, podia sentir um cheiro doce se aproximar cada vez mais. Mesmo assim se preparou, fechou os olhos para poder prestar mais atenção ao som e sentiu quando o que o observava saiu do meio dos arbustos. Não queria lutar então reuniu suas forças e transformou-se um pouco, seus olhos aumentaram de tamanho e se tornaram vermelho e suas presas desceram se tornando enormes.

- ARRRRRRRRRRRRRRRRRRRR!!!

Rin se assustou e deu um pulinho para trás. Aquele ser tão sereno e gélido de antes estava de olhos vermelhos e expressão feroz olhando para ela como se fosse a matar. Rosnava alto como um cão enraivecido.

Rin abaixou as coisas que trouxera devagar e as colou no chão a sua frente.

- Você está machucado...achei que...
— VÁ EMBORA! NÃO PRECISO DA AJUDA DE UMA HUMANA!

O youkai rangeu entre os dentes.

Rin se afastou, mas não foi embora, abriu seu pacote e tirou o pote com a sopa de dentro. O estendeu com um dos braços enquanto se ajoelhava em frente aquele ser tão incrível e intimidador.

- Não como comida humana. Vá embora.

O tom vermelho foi desaparecendo dos olhos do youkai e suas presas se recolheram. Ele voltou ao tom frio e olhar gélido penetrante.

- Mas você perdeu muito sangue...precisa comer algo...O que gosta?

- Você é surda garota? Eu quero ficar sozinho, vá embora antes que eu rasgue sua garganta.

Rin notou as garras que eram suas unhas na mão esquerda, mas não conseguia ver seu braço direito. Largou o pote de sopa e mexeu em suas coisas mais uma vez. Pegou um pano e ataduras, uma corda pequena e um pote com uma mistura estranha e gelatinosa.

Se aproximou do lado direito do youkai que a olhava incrédulo.

- Você não tem medo de mim?
— Sim. Mas você precisa disso.
— Por que? Sabe o que ou quem eu sou?
— É um youkai não é? Contudo nunca vi você antes, nunca tentou destruir nossa aldeia, você não é como os outros youkais não é?
— Sou pior. Mais forte e poderoso do que esses outros youkais ridículos.
— Parece precisar de ajuda.
— Garota estupida não se aproxime mais de mim!

Rin não se importou com a voz raivosa e a postura agressiva dele. O olhou bem fundo nos olhos e sorriu abertamente.

Sesshoumaru a olhou espantado. “Essa menina é louca!”

Rin se aproximou um pouco mais e tocou no quimono branco de Sesshoumaru bem perto de onde toda a mancha de sangue estava, o puxou devagar para baixo, expondo o braço amputado do youkai e um tórax forte e definido. Rin se arrepiou, nunca havia visto algo assim, tão forte e poderoso antes.

Sentiu pena, mas não quis demonstrar isso, olhou no rosto do youkai. Ele estava olhando para ela com seus olhos amarelos, mas a expressão estava indecifrável.

- Essas ervas e esse unguentos são cicatrizantes e diminuem a dor. Disse ela limpando o ferimento com o pano úmido e mostrando as eravas enquanto sorria.

“Esse sorriso...por que ela está sorrindo? Que humana mais estranha!”

- Por que esta fazendo isso? Por que se importa?
— Se eu estivesse sozinha e machucada ia gostar que alguém me ajudasse.
— Você é da vila daqueles pescadores?
— Sim.
— Seus pais vão dar falta de você.

Sesshoumaru a olhava agora com uma expressão mais relaxada, enquanto a via enfaixar o seu braço. Não adiantava a mandar embora a garota não saia dali, então resolveu deixá-la fazer o que quisesse.

- Não conheci meus pais. A mulher que cuida de mim, ela...
— Não quero saber.

Rin se calou e olhou para o rosto do youkai, estava com uma expressão de dor que tentava disfarçar fechando os olhos.

“Ele quer ser mau e agressivo, ao mesmo tempo quer demonstrar o quão forte é. Por que ele não aceita de bom grado minha ajuda?”

- Está quase terminado. O que você come?
— Escute garota. Não quero que volte aqui! Entendeu? Eu não gosto de humanos, odeio humanos.
— Então por que não me matou quando me viu? Parecia bastante assustador.
— Matar...matar não é algo que faço por prazer.
— Matou aquele que te fez isso?

Rin perguntou enquanto terminava de vestir o quimono nele de volta.

- Não. Ele foi mais rápido que eu.

Sesshoumaru disse olhando para o alto, fitando as copas das árvores e um pouco de céu.

Rin viu que ele havia se perdido em lembranças, se levantou devagar, recolheu tudo e começou a deixar o local sem dizer nada. Ela queria ouvir um “obrigado” mas não ouviu nada. Seguiu direto para seu vilarejo.