O Décimo andar

6 Prato Principal: Deboche




​O cheiro de assado preenchia o apartamento 901, mas para Eloah, o ar estava irrespirável. Marta havia passado a manhã inteira nervosa, organizando a mesa posta com o melhor aparelho de jantar. O motivo? O almoço de domingo para "integrar o vizinho" e, de quebra, apresentar a ele uma "amiga da família", a advogada bem-sucedida e impecavelmente loira, Beatriz.

​Eloah desceu do quarto usando um vestido preto curto, coturnos pesados e um delineado gatinho tão afiado que poderia cortar vidro.

​— Filha, você não acha esse visual um pouco... pesado para um almoço de domingo? — Marta perguntou, ajeitando os talheres.

​— É um funeral, mãe — Eloah respondeu, pegando uma azeitona da mesa. — O funeral da minha paciência.

​A campainha tocou. Ricardo abriu a porta com um sorriso largo. Arthur entrou, vestindo uma camisa social branca com os primeiros botões abertos, exalando aquele perfume que Eloah sentira na cobertura. Atrás dele, Beatriz já se posicionava, pronta para o ataque.

​— Arthur, que prazer! — Ricardo o conduziu para a sala. — Esta é a Beatriz, uma grande amiga nossa e uma das melhores mentes jurídicas de São Paulo.

​Arthur cumprimentou a todos com sua polidez habitual. Quando seus olhos encontraram os de Eloah, houve um segundo de silêncio absoluto. Ela não desviou o olhar. Em vez disso, deu um sorriso enviesado e debochado.

​— Cuidado, Arthur — Eloah soltou, a voz carregada de ironia. — Dizem que mentes jurídicas são especialistas em ler as letras miúdas. Você tem algo a esconder?

​— Eloah! — Marta repreendeu, ficando vermelha. — Peço desculpas, Arthur. Ela está naquela fase de achar que tudo é um debate acadêmico.

​— Não se preocupe, Marta — Arthur respondeu, sentando-se à mesa, exatamente de frente para Eloah. — Eu aprecio a transparência. É raro hoje em dia.

​O almoço seguiu com Beatriz tentando impressionar Arthur com histórias sobre tribunais e viagens à Europa. Eloah apenas observava, girando o vinho (que o pai permitira que ela provasse) na taça com tédio visível.

​— E você, Eloah? — Beatriz tentou incluí-la, com um tom condescendente. — Animada para começar Direito? É uma carreira que exige muita... maturidade.

​Eloah soltou uma risadinha seca que interrompeu a conversa na mesa.

​— Ah, com certeza. Estou ansiosíssima para passar cinco anos estudando como as pessoas fingem seguir regras enquanto fazem o que querem por baixo dos panos — ela olhou fixamente para Arthur, que levava o garfo à boca com uma calma irritante. — Aliás, Arthur, você que é um homem experiente... qual o crime para quem invade a propriedade alheia e rouba o que não devia?

​Ricardo engasgou com o vinho. Marta olhou para a filha com pânico. Beatriz ficou sem entender. Arthur, no entanto, limpou os lábios com o guardanapo de linho, mantendo o olhar cravado no de Eloah.

​— Depende da intenção, Eloah — ele disse, a voz baixa e perigosa. — Se a porta estava aberta e o objeto queria ser roubado, o juiz pode ser... indulgente.

​— Entendi — Eloah retrucou, inclinando-se para frente, o deboche escorrendo em cada palavra. — Então é tudo uma questão de quem seduz quem no tribunal? Que pedagógico.

​O clima na mesa ficou tão denso que Marta apressou-se em servir a sobremesa.

​— Beatriz, você precisa provar o pavê da Marta — Ricardo tentou mudar de assunto.

​— Eu adoraria — Beatriz sorriu para Arthur. — Você também gosta de doces, Arthur?

​— Eu prefiro os que têm um toque de amargor — ele respondeu, olhando para Eloah enquanto ela lambia o canto da colher de forma provocante. — São mais interessantes.

​Quando o almoço finalmente acabou, Eloah levantou-se antes de todos.

​— Bom, o show foi ótimo, mas eu tenho "letras miúdas" para ler no meu quarto. Beatriz, boa sorte com o... processo. Arthur, tente não se perder no nono andar. A saída é logo ali.

​Ela saiu da sala com um andar confiante, sentindo o olhar de Arthur queimar sua nuca. Ela fora debochada, fora rebelde e tentara humilhá-lo na frente da "pretendente". Mas, ao fechar a porta do quarto, seu coração batia tão rápido que ela mal conseguia respirar. O jogo de gato e rato estava apenas começando, e ela não tinha certeza de quem era a presa.