O Décimo andar

22 Entre o Código e a Entrega


O Meirelles & Associados nunca foi um lugar de fofocas, mas o ar parecia ter mudado. Pelos corredores de vidro, o que se via era uma sinergia impecável. Arthur e Eloah eram uma máquina jurídica: ele com a experiência estratégica e ela com o fogo da nova geração. No escritório, o tratamento era estritamente profissional, mas o respeito mútuo era tão evidente que todos sentiam a eletricidade.


​Eram 18:30. Eloah estava na sala de arquivos, organizando as últimas provas contra o político corrupto, quando Arthur entrou. Ele parou à porta, observando-a sob a luz fria do escritório.

​— Dra. Cavalcante, os documentos da perícia já foram anexados? — ele perguntou, com a voz profissional, para o caso de algum estagiário passar pelo corredor.

​— Sim, Dr. Meirelles. Tudo em conformidade com o prazo — ela respondeu, sem levantar os olhos do papel, mas com um sorriso de canto.

​— Excelente. Tenha uma boa noite.

​Ele saiu. Dez minutos depois, no estacionamento subterrâneo, o cenário era outro. Eloah mal tinha destravado o carro quando sentiu braços fortes a envolverem por trás. O cheiro de sândalo de Arthur a embriagou instantaneamente.

​— Eu não aguentava mais ver você de longe hoje — ele sussurrou no pescoço dela, a voz rouca e livre de qualquer formalidade.

​— Você é um ótimo ator, Arthur — ela brincou, virando-se nos braços dele e enlaçando seu pescoço. — "Dra. Cavalcante"? Sério?

​— O segredo do sucesso é a disciplina, meu amor — ele sorriu, antes de calá-la com um beijo urgente, daqueles que faziam o metal do carro parecer quente. — Mas agora que o expediente acabou... eu não sou seu chefe. E você não é minha associada.

​Eles dirigiram para a cobertura. Assim que a porta se fechou e a cidade de São Paulo ficou do lado de fora, a entrega foi total. Arthur jogou o paletó no sofá e puxou Eloah para si, mergulhando no silêncio da noite.

​— Às vezes eu acho que o escritório é só um pretexto para eu poder te olhar o dia todo — Arthur confessou, enquanto servia duas taças de vinho e se sentava com ela no tapete.

​— E eu acho que o Direito é muito mais interessante quando o meu mentor me olha daquele jeito no meio de uma reunião — Eloah retrucou, deitando a cabeça no ombro dele. — Você viu a cara do Gustavo hoje quando você concordou com a minha tese?

​Arthur riu, beijando a testa dela.

​— Ele ficou chocado porque eu nunca concordo com ninguém de primeira. Mas a sua tese era brilhante, Eloah. Você é brilhante.

​— Sabe o que é mais engraçado? — ela perguntou, girando o vinho na taça. — Todo mundo no prédio acha que somos o casal mais sério do mundo. Se eles vissem a gente aqui agora...

​— Deixe que achem — ele sussurrou, puxando-a para mais perto e deslizando a mão por sua cintura. — O mundo pode ter a Dra. Cavalcante e o Dr. Meirelles. Mas aqui, nessas quatro paredes, eu só quero a minha Eloah. E eu quero que você se esqueça de todas as leis, menos de uma.

​— Qual? — ela perguntou, com o olhar brilhando.

​— A lei da reciprocidade — ele respondeu, baixando a voz. — Eu me entrego a você, e você se entrega a mim. Sem prazos, sem recursos e sem julgamentos.

​Naquela noite, a entrega foi ainda mais profunda. Eles não eram apenas amantes, eram cúmplices. O respeito que cultivavam sob as luzes do escritório tornava a paixão entre quatro paredes ainda mais sagrada. Eles haviam aprendido que o amor não precisava de plateia; ele só precisava de verdade.