O Décimo Terceiro Espírito
8 A filha de Ophichulus (Parte 2)
Fiore, X764
Ela se sentia uma formiguinha diante de uma figura tão onipotente. O brilho que emanava do Rei dos espíritos celestiais ofuscava em seus olhos, e uma corrente de ar percorria sua espinha de tempos em tempos. Estavam sozinhos sobre um espaço que só não poderia ser chamado de breu porque estava repleto de estrelas.
- O que a tormenta, criança ?
Intimidada e um pouco assustada, Serpentarius deu um passo a frente, ergueu a cabeça e disse, com a voz fraca :
- M-Marion... Ela previu que iria morrer. Ela e a criança. – seu queixo estava trêmulo, e um nó se formava em sua garganta.
O Rei dos Espíritos cruzou os grandes braços sobre o peito e abaixou o rosto para olhar aquela pequena moça:
- Sabe que nenhuma previsão tem total garantia que irá acontecer.
- Eu sei... Por isso vim aqui. Preciso de sua ajuda, Alteza. – ela fez uma reverência rápida.
- Não posso trazer ninguém do mundo dos mortos. Ninguém pode.
- Não é isso ! – seu coração martelava, aflito – Eu só gostaria de um jeito para salvá-los desse destino !
- Serpentarius. – ele disse com uma voz calma, porém intimidadora. – A causa da morte de Marion e Marco Ravelle é desconhecida. Foi uma previsão. Não há nada que eu possa fazer.
Uma gota de suor escorreu pelo rosto do espírito.
- Por favor ! – ela se ajoelhou, controlando as lágrimas que queriam cair – Não há nenhuma magia capaz de impedir que isso aconteça ?
- Sinto muito, criança.
E ela não conseguiu mais aguentar. Apertou as mãos sobre o rosto para que pelo menos evitasse a cena constrangedora de chorar na frente do Rei dos Espíritos.
- No entanto...
Ela levantou o rosto rapidamente. Aquela frase a fez arrepiar até o último fio de cabelo.
- Se estiver disposta a ceder parte de sua energia vital... Uma vida poderá ser salva.
Depois de alguns segundos tentando processar o que acabara de ouvir, um turbilhão de lembranças começou a atingí-la. Lembrou-se de quando fora resgatada por Jonah, – que na época achava ser mais um pilantra que iria se aproveitar dela — quando conhecera Marion e ficara encantada por sua doçura e dons extraordinários, quando pela primeira vez pôde ver um livro sendo feito sobre sua história, quando soube que Marion estava grávida e daria a luz a um lindo menininho...
Seu coração se apertou. Queria ser capaz de ceder toda a sua energia para salvar aqueles dois. Mas sabia que seria impossível, e mesmo se conseguisse, Marion nunca a perdoaria por trocar sua vida pela dela.
Assim como ela nunca a perdoaria se escolhesse salvá-la e deixar Marco morrer.
A escolha não dependia de Serpentarius, até porque ela não conseguiria escolher. Estava quase escrito nas estrelas que o destino daquele menino não se encontrava com o de sua mãe.
Trôpega, ela se levantou e encarou aquela figura brilhante e gigantesca e disse, limpando as lágrimas :
- Me mostre como, Alteza. Eu imploro.
Uma semana depois
Marion respirava ofegante na cama. Seus cabelos estavam encharcados de suor, e a cama tinha um cheiro forte do líquido de sua bolsa que acabara de estourar.
Jonah segurava as mãos da esposa e murmurava frases de consolo e de apoio. Serpentarius estava ao lado da parteira do outro lado da cama. Era a segunda vez que aparecia naquela semana para visitar o casal. A primeira havia sido exclusiva para Marion, para contar o que conseguira com o Rei dos Espíritos. Ela olhava para aqueles olhos azuis cansados e úmidos, com o coração se dilacerando.
- Força ! – ela disse, e Marion soltou um berro de dor. – Você consegue, vamos !
Marion erguia o corpo até ficar sentada e empurrava o bebê com toda a força que conseguia. Seu rosto ficava vermelho, e veias pulsavam em sua testa e seu pescoço. Ela repetiu isso inúmeras vezes, o que deixava sua família extremamente preocupada.
O sangue sujou toda a roupa da parteira, que após algumas horas conseguiu concluir o trabalho de parto. Marion jogou o corpo para trás, exausta, e Jonah abanou-a e secou o suor de sua testa com um pedaço de tecido da camisa.
Serpentarius foi a primeira a ter contato visual com o bebê. Quando seus olhos dourados encontraram-se com aqueles pequeninos olhos castanhos, sentiu seu mundo desabar. A necessidade de salvá-lo aumentou em dimensões estratosféricas. Foi repentino e inexplicável, como se uma chama tivesse acendido dentro de seu corpo ao entrar em contato com aquela criança.
A parteira, após limpar o bebê com um pano, estendeu-o à moça. Sem saber direito o que fazer, ela pegou o pequenino nos braços. Ele estava tão perto que mexeu com sua alma.
- Marco... – ela deixou uma lágrima cair sobre a pequena bochecha do bebê.
- Serp... – ela ouviu uma voz fraquíssima chamá-la do outro lado da cama. – Meu...bebê...
Aflita, ela levou a criança ao encontro da mãe, que agora estava pálida.
- Salve...meu...bebê.
Serpentarius olhou de novo nos olhinhos castanhos da criança, depois nos azuis de Marion, que agora estavam cinzas.
- Desculpe, Marion...
- Não se desculpe, querida. Está fazendo a coisa certa.
Ela assentiu com a cabeça, depois afastou-se alguns centímetros do casal. Ainda segurando Marco nos braços, fechou os olhos e concentrou toda a sua energia. Lembrou-se do que o Rei dos Espíritos lhe dissera, que o mais importante era deixá-la guiar por seu coração.
“Marco...”, ela podia ouvir sua alma falando com ela mesma. “Eu quero salvar...Marco...”
E diante de seus olhos, Jonah e Marion viram uma aura esverdeada cobrindo o corpo inteiro da moça que crescia cada vez mais. Era diferente de qualquer coisa que Jonah vira naqueles anos em que estiveram juntos. Nunca sentira uma energia tão pura como aquela.
E então, para seu espanto, a luz começou a sair do espírito e cobrir a criança em seus braços. O poder que aquilo emanava fez as cortinas do quarto e os papéis soltos voarem. Só depois de meia hora, depois de deixá-la brilhando inteiramente, Serpentarius parou seu ritual e caiu de joelhos, fraca. Em compensação, a criança agora parecia mais saudável do que nunca.
- Serp ! – ele gritou
- Estou...bem. – ela disse, encarando o bebê e sentindo seu corpo inteiro pesando. Mas não se importava, não ia soltá-lo. – Seu filho está a salvo. Eu...consegui.
Jonah encarava aquela cena estupefato, mas ainda segurando as mãos da esposa. Marion não conseguiu se levantar, mas deu um pequeno sorriso:
- Obrigada...
E depois daquilo, Jonah sentiu que aquelas mãos não tinham mais vida.
- Marion ! – ele chorava, abraçando o corpo da esposa.
Marco, por incrível que parecesse, era o único que não chorava. Estava quieto nos braços do espírito, com os olhos bem abertos olhando para ela.
- Jonah... – Serpentarius disse, com a voz fraca – Eu...preciso voltar ao mundo dos espíritos. – ela estendeu Marco até os braços do pai.
- Você.... Cedeu sua energia vital para salvar a vida do meu filho.... – Jonah respondeu, trêmulo
Ela sorriu.
- Eu voltarei quando Marco estiver pronto para se tornar um grande mago.
- E você...cuidará dele quando eu não puder mais cuidar ?
- Sim. Eu prometo.
Com cuidado, Jonah abraçou-a.
- Você é um anjo. Muito obrigado, Serp. Por tudo.
Ela negou com a cabeça.
- Eu que devo agradecer. Você me deu uma família. Algo pelo que posso lutar.
Aquelas palavras eram verdadeiras. Ela havia encontrado uma razão para viver, e mesmo que sua recuperação custasse a acontecer, ela jamais os abandonaria. Ela os amava.
Serpentarius levantou-se com dificuldade, beijou a testa de Jonah, a de Marion e por último a de Marco, cochichando:
- Mesmo que eu não esteja com você, saiba que eu sempre o protegerei.
Dito isso, transformou-se em uma luz verde que logo se apagou ao voltar para sua chave.
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