O Cão e o Rato
1 001: Apagão
Notas iniciais
Com o próximo Exame Hunter se aproximando, todo o escritório da Associação se preparava. E, mesmo enquanto o Comitê do Exame e o Zodíaco têm tudo sob controle, ainda cabe ao líder da Associação passar horas extras esforçando-se para ter certeza que o evento ocorra sem problemas.
Então, quando Cheadle finalmente olhou para o relógio e viu que eram três horas depois do horário em que ela costuma ir embora, ela olhou para as mesas vazias e soube que ainda restava no mínimo uma hora para que ela fosse embora antes que pudesse dizer que era noite.
De repente, as luzes piscaram, e tudo se apagou. Cheadle tropeçou em seus próprios pés e foi em direção à janela, abrindo as cortinas. Lá fora, o céu estava escuro e estranho, e uma chuva forte caía.
Embora ela pensasse que era a única no prédio, alguns minutos depois ouviu passos no corredor e o rangido da porta do escritório se abrindo. Os olhos de Cheadle ainda se ajustavam à escuridão, mas a luz branca de um relâmpago vinda da janela, por alguns segundos, clareou sua visão para a identidade do dono ou dona dos passos.
“Senhorita Cheadle!” Era Pariston. É claro que tinha que ser ele a única outra pessoa ali. “Como você gosta de trabalhar até tarde, hein? Parece que teremos que resolver esse problema sozinhos, não é?” disse ele, se referindo ao apagão. “Você viria comigo procurar os conjuntores de energia?”
Ela não via outra opção, visto que sentar-se sozinha em um escritório escuro não era uma alternativa interessante. Ela então concordou, acompanhando os passos rápidos de Pariston enquanto ele os guiava até o andar mais baixo da construção.
Ao ouvir um barulho muito alto de trovão, Cheadle deu um pulo.
“Não gosta de trovões?” perguntou Pariston, com um tom informal.
“Não exatamente” respondeu Cheadle.
Pariston girou a chave na porta estreita da sala de manutenção, e colocou uma lanterna nas mãos de Cheadle. “Segure isso pra mim. Ah, e trovões tão fortes assim nunca duram muito. Vamos ficar bem.”
Depois de entrarem, ele rapidamente começou a trabalhar nas chaves de energia. “Isso tudo funciona eletronicamente” disse ele, falando sem parar para distraí-la dos trovões. “Vamos ter que reiniciar o sistema – mesmo se a energia voltar, não temos garantia de que tudo no escritório vai funcionar corretamente.”
“Então, deixe-me ajudar” respondeu Cheadle, tentando visualizar acima do ombro dele o que deveria ser feito. Não iria ser inútil enquanto ele resolvia sozinho o problema. Pariston permaneceu quieto por alguns instantes, fitando-a, ligeiramente surpreso.
“Mas, senhorita Cheadle, a senhorita consegue alcançar as chaves?” disse ele, um pequeno sorriso zombeteiro tomando seu rosto.
Cheadle ficou vermelha de raiva. “Mas é claro que consigo!” disse ela, pulando, numa tentativa frustrada de alcançar os conjuntores. Seu rosto foi tomado por uma feição de indignação, e ela fez um bico irritado ao olhar para ele.
“Então” Pariston ergueu as mangas de seu perfeito paletó de linho, e juntou as mãos na altura de seu joelho. “Venha. Eu vou lhe erguer”
“O quê? Mas– eu...” Cheadle não sabia o que dizer ou fazer.
“Venha, não há problema” disse ele, com seu sorriso de sempre.
Cheadle então baixou a cabeça, tentando tomar uma decisão. Pariston estava sendo suspeitamente muito gentil com ela. Depois ela acertaria as contas com esse rato idiota.
Então ela colocou seu pé direito sobre as mãos dele, pegando-o de surpresa. Ele não achava que ela iria mesmo aceitar. Estava virado de costas para as chaves de energia, então a parte da frente do vestido esverdeado de Cheadle era tudo o que ele via. O tecido chegou a roçar em seu rosto por alguns segundos quando ela esticou seus braços para tocar as chaves e as colocar nos lugares, e depois reiniciar o sistema.
“Acho que… acho que terminei aqui” disse Cheadle, olhando para baixo, na direção do rosto de Pariston. Ele também olhava para ela, mas não com seu habitual sorriso falso; eram feições diferentes, que ela nunca havia visto antes. Ele parecia… intrigado com as atitudes dela. Ela o notou a encarando, e ele então desviou o rosto. “É mesmo?” respondeu ele. Cheadle franziu a testa enquanto descia. “Esquisito.” pensou.
Ele então deu uma risada leve e verdadeira para si mesmo. Cheadle ficou ainda mais confusa. “O que foi?” perguntou ela. Pariston não respondeu, cobrindo o rosto com as mãos. “Acho que devemos voltar, agora que arrumamos aqui” disse, sua voz abafada por suas mãos. Ela então saiu da pequena sala, sentindo aquela irritação familiar por Pariston voltar. Ele estava rindo da cara dela?
Era difícil decidir o que ela mais odiava: trovões, ou Pariston.
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