O Cão
2 Segunda fase: percepção
O céu ia assumindo um longo espectro de cores, como que se recusando a ceder à escuridão da noite. Não havia uma nuvem, fosse branca ou cinzenta, e contemplar a vastidão de tons era inevitável. Fiz os últimos ajustes na agenda de Doutor Antônio e saí apressada do trabalho, sabendo que deveria me arrumar com uma dose de pressa.
Bruno também saía de seu expediente, tinha a gravata torta e uma mancha de café em suas vestes, cortesia de um colega distraído. Sua mente vagava em pensamentos que ele logo esqueceria, mas isto não impedia que desviassem sua atenção para o mundo que o rondava.
Desligou os computadores sobre sua mesa e avisou aos funcionários que sairia mais cedo aquele dia. Como último gesto, foi até a sala do chefe.
Pegou o elevador mais próximo, ansioso por chegar em casa. Pensou em mim e como queria me ver logo, e depois disto esperar se tornou uma tortura. Decidiu então que passaria numa loja de chocolates e me presentearia. Ah, lembrou, Mas ela vai demorar, Pois hoje temos Constância na equação. Não importava, me veria do mesmo jeito. Mas a demora...
A porta do elevador se abriu com um clique artificial. Ficou surpreso ao ver que havia mais alguém ali, um homem cego com o que deveria ser um cão-guia. Mas, olhando com mais cautela, viu que o olhar do cachorro era desvanecido, sem luz. O cão era tão cego quanto o dono.
O pelo do animal exalava um odor desagradável, e ele não soube dizer se era realmente o de um bicho morto e depredado pelos vermes ou algo pior. O cheiro transportou sua imaginação para um cenário sangrento, repleto de animais jogados ao mato e putrefeitos ou com a carne vermelha à mostra. Segurou o impulso de vômito provocado pela ânsia.
Se sentiu desconfortável, mas tentou fazer parecer que era capaz de agir com perfeita normalidade. Apertou o botão da garagem e esperou a longa descida.
Será que ela vai gostar mais de chocolates ou flores? Vai estar tarde, talvez eu devesse pensar em outra coisa.
“Dia puxado, amigo? ” Perguntou o homem, a voz soando como o sussurro de um fantasma. Ele era muito alto, o que talvez justificasse seus ombros curvados como um anzol. A pele era de um estranho cinza lúgubre e melancólico, e as bochechas de seu rosto finíssimo eram murchas; aquele aspecto fez com que Bruno se recordasse do Grito de Munch. O nariz era pontudo e acentuado, fazendo com que os óculos escuros pendessem sobre ele, deslizando para além do rosto e obrigando-o a ajeitá-los de momento em momento.
O cheiro, aquele terrível cheiro de morte, parecia impregnar todo seu ser. Pensou Bruno que jamais poderia ser possível entrar novamente naquele espaço, e a imagem da carcaça animal retornou, desta vez enganando como um surto de realidade.
“Sim” respondeu por fim, não sem uma evidente falta de vigor em relação a tal atitude.
“ Se quer um consolo “ disse, e Bruno jurou poder ter visto um brilho verde através da tela escura que eram seus óculos “Tudo termina, bom ou mau”.
Logo ao chegar em casa, naquela noite, Bruno tomou o banho mais longo que podia se lembrar. Mas, mesmo com as águas caindo sobre seus ombros e tirando a sujeira da superfície de sua pele, o cheiro pestilento se recusava a sair.
Vomitou. Um líquido amarelo e viscoso escorreu pelo ralo junto com as águas. E vomitou de novo, e de novo, e de novo, e de novo até se sentir que todas suas forças haviam se esvaído.
Deitou-se no sofá da sala e se pôs a ler por horas a fio. Naquela mesma noite, O cão dos Baskerville exerceu sobre Bruno um magnetismo de fascínio certamente inexplicável.
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