O Cão
5 Quinta fase: Participação
Notas iniciais
Estava furioso, é óbvio, não poderia evitar. Razão não lhe faltava. Fora eu, Melina, quem agira de forma errada. Apenas não esperava a reação um tanto... agressiva, mas tampouco posso condená-lo por isto. Bruno é sempre companheiro e julgá-lo seria uma atitude injusta.
Ramiro era um querido amigo meu. Há muitos, muitos anos havíamos sido namorados, fato que parece ter esvaído de significado no tempo. Se houve algum sentimento de minha parte, já não existe mais no presente. Eu incontáveis vezes explicara isto a Bruno. As vezes ele pareceria convencido, as vezes não e se punha a me perguntar mais sobre como tinha sido o relacionamento com Ramiro.
Por pura coincidência terminamos por virar colegas de trabalho na clínica do doutor Antônio. Eu, a secretária, ele, o assistente. Ramiro usava o dinheiro para ajudar com as despesas dos estudos da faculdade e jamais se atrasava ou faltava com responsabilidade. Voltamos a nos falar, é claro, unidos pela convivência obrigatória. Mas Bruno, quando soube, ficou imediatamente preocupado. Por isso também não posso culpa-lo, creio eu que seja algo natural.
Acontece que Ramiro ainda me conhecia um tanto bem. Durante a tarde, sem consciência da festa que estava por vir, me perguntou o motivo de minha tristeza. Pouco antes eu lhe parabenizei pelo dia, menos alegre do que gostaria de estar, e foi aí que ele notou meu desconforto.
“Nada demais, sério mesmo. Na verdade, não deveria nem estar abatida por isso.”
“Você sempre diz essas coisas”
“Porque é verdade!”
“Se não quiser falar, ok” e tornou a mexer numa pilha de papéis sem significância aparente.
“Só um desentendimento pequeno com Bruno, dos que se resolvem facilmente. ”
Ramiro tirou o olhar dos papéis e este recaiu sobre mim.
“Deixa eu adivinhar. Ele está dando algum chilique de ciúmes outra vez? ”
Demonstrei meu aborrecimento em relação ao comentário maldoso e desprovido de argumento real. Ramiro sabia que eu ficaria pouco contente, é claro, mas ele jamais se impunha limites. Isto fazia com que frequentemente ficássemos um tempo sem trocar nenhuma palavra, coisa que se resolvia também com menos de um dia, mas ainda assim era desconfortável.
“Por que não para de tentar dar palpites no meu relacionamento? Você não conhece Bruno de verdade. É ofensiva a maneira como se refere a ele! ”
“Quem não conhece é você”, ele murmurou, mas não em altura baixa o suficiente para que eu não ouvisse. Segurei a raiva que começou a fervilhar, em respeito ao dia do aniversário de Ramiro.
“Por que mulheres são sempre assim?” Bruno perguntou a si mesmo, no momento lutando contra um turbilhão de pensamentos e sensações- nem todos exatamente agradáveis.
Não, Eu era diferente, me diria Bruno muitas e muitas vezes. Ele soubera disto no momento em que me vira naquele bar sem reputação da cidade adormecida. Bastou um olhar, uma troca de palavras e ideias. Eu não era como nenhuma outra que ele conhecia. Uma energia especial fluía, algo que provocava uma sinergia inevitável entre ambos. Era eu sua namorada, sua melhor amiga ou qualquer coisa que ele precisasse.
Mas, mesmo nos melhores relacionamentos, momentos assim são inevitáveis, pensou ele.
Já ia retornando ao carro estacionado num beco; tirou inclusive as chaves do bolso. Mas se deteve, tão alarmado que ficou. Apurou os ouvidos a fim de ver se não era algum equívoco. Parecia escutar o distante rosnar de um animal.
Olhou ao seu redor. Não havia mais nada por perto, muito menos algo sobre quatro patas.
Adentrou o ambiente fechado do veículo e fechou as portas, se prontificando a ativar o ar condicionado. Estava suado, encharcado. Acontecia no calor das emoções.
O ruído, contrariamente ao que se deve esperar, tornou-se mais intenso. Com o dedo, Bruno ligou o rádio e pôs o volume no máximo, como aquele rapazes novos que querem chamar a atenção alheia espalhando música em volume absurdo. E por segundos o rosnado pareceu cessar, mas, quando retornou, retornou de maneira que parecia estar latejando dentro de seu cérebro.
“Que porra é essa?!” e afundou a sola de seu sapato no acelerador.
O rosnado tornou-se um grunhido mais e mais feroz, sedento por violência, até se converter em um latido que parecia não ter fim. Como metal em brasa, se fundiu ao âmago de Bruno de modo que ele pensou ser ele mesmo um cão a latir e latir e latir... E , de repente, qualquer sinal de som cessou, dentro e fora de sua mente. Quando abriu os olhos, desnorteado, Bruno ainda estava ali, sentado sobre o couro do banco de seu carro.
“O que está acontecendo comigo?”
Fale com o autor