O Curioso Relacionamento Entre A Fada e o Dragão
7 O Curioso Relacionamento Entre Crolse e Zartaxes
Notas iniciais
— Você não devia estar solto! Quem... Como? – Gritou Crolse, assustando a todos, exceto Zac. O príncipe herdeiro era tão calmo, toda aquela situação era estranha demais. Crolse encarou, confuso, Zartaxes, arregalou os olhos e olhou para Anllye.
— Anllye, você o soltou? – Gritou o príncipe mais velho. A menina se encolheu, desviando o olhar. – Não posso acreditar! Você sabe o tamanho da besteira que fez?
— E-eu... Eu não quis... S-sinto muito. – Gaguejou Anllye, seus olhos enchendo-se de lágrimas.
— Crolse, meu filho, se acalme. – Disse o rei, num tom de voz firme. – Explique-nos o que está acontecendo.
Crolse olhou para o próprio pai e para Jaennia, como se só agora os notasse ali. E então ficou vermelho de vergonha.
— E-eu... Argh, certo, eu não posso mais esconder isso. – Crolse enxugou o suor da testa, estava nervoso e cansado. – Ahem, eu... Fiz um acordo com o rei e a rainha dos dragões há muito tempo atrás.
— Você fez o quê? – Berrou o rei, dessa vez, ele é quem estava vermelho, parecia um só com a sua barba e seu cabelo ruivo. – Está louco, Crolse? E pelas minhas costas? As costas de seu próprio pai?
— E-eu precisei, papai, o senhor nunca aceitaria... – O príncipe herdeiro encolheu os ombros, encabulado.
— É claro que não! Os dragões são criaturas sagazes e desprezíveis! Odeiam tudo o que não é dragão! Como pôde fazer isso? – O rei continuou gritando. Zac rosnou para Daemint, que o ignorou.
— Papai, foi uma necessidade. Acredite, eu nunca teria recorrido a eles se tivesse outra forma. – Crolse respirou fundo e retomou sua postura, porém não conseguia olhar nos olhos de seu decepcionado pai. – E também o acordo não parecia tão absurdo. Eles fizeram o que eu pedi, e em troca eu só tinha que permitir que a caverna em que ele estava preso fosse transportada para a Floresta das Fadas.
Crolse apontou para Zac com o queixo. Nini franziu o cenho, confusa.
— O que quer dizer com transportar? – Perguntou a segunda princesa.
— A caverna ficava no Reino dos Dragões, mas era de fácil acesso, qualquer um podia entrar e quebrar as correntes mágicas. A última coisa que seus pais queriam era você solto por aí causando destruição, pois você é um grande e terrível mal. Por isso me pediram permissão para trazer sua caverna para um lugar restrito no Reino das Fadas. – Crolse explicou, sem tirar os olhos de Zac. – Eu permiti, com a garantia deles de que você não causaria problemas para nós, contanto que não fosse solto. Eu mesmo fortaleci as correntes, selei e escondi a caverna com a minha magia, não sei como a Anllye conseguiu te achar, mas não devia ter acontecido.
Se voltarmos algumas horas no tempo, veremos o porquê de a princesa Anllye ter achado a caverna: Dez minutos depois de enviar a jovem fadinha para um passeio, o príncipe Crolse voltou ao trabalho, porém não durou nem cinco minutos e adormeceu, roncando, sobre a mesa do escritório numa poça de sua própria saliva. Sua exaustão fez seu poder oscilar e enfraqueceu tanto o selo — que só poderia ser quebrado por membros da família real — quanto a magia para esconder a caverna, levando todos a atual situação.
— Isso foi tão irresponsável de sua parte, Crolse! – Disse Jaennia, meneando a cabeça. O rei suspirou, tentando se acalmar.
— Então esse garoto é o príncipe dos dragões? – Daemint franziu o cenho, olhando para Zac. – Mas por que ele é humano?
— Primeiramente, eu não sou um príncipe, ok? Fui deserdado quando era um bebê. E também, eu fui amaldiçoado por uma bruxa humana que odeia meus pais, por isso me transformo em humano. – O menino dragão tomou a palavra, irritado. – Segundo: Crolse, você não sabe de nada, além de ser um completo otário!
— Zac! – Anllye berrou.
— Você acredita em qualquer coisa que dizem a você, contanto que tenha uma alta posição! – Zac continuou, ignorando a princesa. – Eu já te falei o motivo de terem me prendido! É justamente por causa da maldição! O rei das fadas falou algo que eu tenho que concordar, os dragões odeiam tudo o que não é dragão, ainda que seja o próprio filho.
— Eles disseram que você é um mal ancestral que destruiria o mundo inteiro!
— Nem você acredita nisso, Crolse! Você só está procurando um motivo para se justificar por ter me deixado lá! – Rugiu Zartaxes, furioso. Crolse virou o rosto, sua expressão era de pura culpa. Um silêncio pesado recaiu no quarto.
— Droga! – Zac chutou uma cômoda pesada perto da janela, fazendo-a deslizar com força até a parede do outro lado do quarto.
— Ei, minha cômoda! – Anllye ameaçou se levantar, mas Crolse a segurou. Zac estava ofegante, mas parecia estar se acalmando.
— Teria sido bem melhor se você tivesse apenas me deixado lá desde o início, Crolse. – O garoto dragão concluiu, de costas para o príncipe herdeiro e sua irmã. Sua voz agora era baixa e fria.
— E-eu... Eu sinto muito, Zac. – Crolse parecia sentir dor. Zac o olhou de soslaio, furioso novamente.
— Não ouse me chamar de Zac, você não tem mais esse direito! – Vociferou o garoto.
— Esperem, do que vocês estão faltando? Eu não consigo entender... – O rei Daemint expressou o pensamento de todos os que ouviam a conversa, inclusive os soldados lá fora e alguns criados fofoqueiros. Crolse suspirou pesadamente, cansado.
— Ah, bem... No começo, eu fiquei curioso sobre Zartaxes... E não achei que seria certo deixá-lo sozinho naquela caverna sem nenhum recurso. Então eu... Eu meio que ia visitá-lo com certa frequência.
— Com que frequência, irmão? – Perguntou Nini, franzindo o cenho e comendo a pipoca que pediu para os criados trazerem. Todo aquele drama ficou bem mais interessante com pipoca.
— ...Todos os dias? Por uns setenta anos. – Crolse explicou, com outro suspiro.
— Crolse, você enlouqueceu? – Berrou o rei Daemint.
— Ele ficava dizendo que eu lembrava o irmão caçula dele, que tem a minha idade. Então viramos amigos, ele me levava comida e me ensinava muitas coisas sobre o mundo. – Zac revirou os olhos, cruzou os braços e empinou o nariz com sua expressão esnobe de sempre. – Eu sou um dragão magnífico, mas não sou onisciente ainda, então deixei ele me ensinar.
— Ah, por incrível que pareça, Zac era um bom garoto, apesar de ser arrogante e orgulhoso. Nós nos demos muito bem. – Crolse disse, com um sorrisinho enquanto coçava a nuca.
— Eu já falei pra não me chamar assim! – O jovem dragão olhou com ódio para o príncipe. – Já chega de enrolação, eu quero minha recompensa agora!
— Recompensa? – Crolse franziu o cenho, encarando Zac.
— Sim, recompensa por ter salvado sua irmã estúpida, seu idiota! – Berrou Zac. – Responda as minhas perguntas! Por que você me abandonou?
Crolse olhou para o rei, que deu de ombros e fez sinal para ele fazer o que o garoto queria. O príncipe herdeiro suspirou mais uma vez.
— Seus pais ficaram sabendo que eu estava cuidando de você, e que me apeguei a você como um irmão. Eles ameaçaram revogar o acordo, e isso não podia acontecer de forma alguma. Eu sinto muito, Zac, carregarei essa culpa enquanto eu viver...
— É bom que carregue mesmo! – Bufou Zac, insatisfeito. – Tanto faz, imaginei que meus pais tivessem uma garra nisso, só queria confirmar. Mas ainda tenho ódio de você.
— É, é justo. – O príncipe herdeiro deu um sorriso triste. – Qual a próxima pergunta?
— Cala a boca! Eu é que decido quando vou perguntar! Certo, eles te disseram algo mais sobre minha maldição?
— Nada que você já não saiba, Zac. Exceto que, vez ou outra, eles citavam uma bruxa chamada Wenzy, eles diziam que amaldiçoavam o dia em que ela nasceu. Imagino que deva ser a mulher que fez isso com você.
— Ah, claro, devo agradecer a ela, então... – Zac massageou as têmporas. – Ok, e agora a última pergunta, Crolse. Que raio de motivo tão importante é esse que fez você fazer um acordo com meus pais, mentir pra sua família e o pior: me abandonar?
— Eu não quero responder essa. – O príncipe sacudiu a cabeça, cruzou os braços e fez um biquinho, mordendo o canto da boca.
— Você não tem querer, idiota! Desembucha!
— Acho que você deve essa resposta a todos nós, filho. – O rei apoiou as mãos nos quadris, assentindo.
— U-hu, uhum! – Completou Nini, com a boca cheia de pipoca. Crolse olhou para todos com tristeza e, finalmente, olhou para Anllye ao seu lado, que assistia tudo em silêncio.
— Ah, ok, eu realmente não posso mais esconder isso, porque agora sua vida está em jogo também. – O príncipe herdeiro acariciou os cabelos cacheados de sua irmã, que franziu o cenho.
— Irmão, o que isso quer dizer?
Crolse respirou fundo e tomou coragem para finalmente dizer:
— O acordo era o seguinte: eu mantinha o príncipe dragão escondido no Reino das Fadas e os dragões traziam a mais nova princesa das fadas de volta a vida.
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