O Curioso Relacionamento Entre A Fada e o Dragão
2 Daemint Quer Férias, Crolse É Quem Manda e o Lugar Mais Chato do Reino
Notas iniciais
O parrudo rei das fadas, Daemint, estava aproveitando seu tempo organizado a papelada do reino, na mais perfeita paz, quando escutou alguém bater na porta furiosamente. Daemint já sabia o que estava por vir, não era a primeira vez.
— Entre, Anllye. – Ordenou, sem tirar os olhos dos relatórios em suas mãos. Sua filha caçula entrou como um furacão no escritório do rei.
— Papai! Estou entediada e ninguém quer brincar comigo! – Chorou Anllye dramaticamente, jogando-se no colo de seu pai e amassando os papéis importantes. – Logo hoje que eu estava disposta a sair do palácio com eles! Eu sabia! Sabia que devia ter continuado na cama, meu soninho estava ótimo!
— Se acalme, minha florzinha! Por que não volta a dormir então? – Sugeriu o rei, como sempre. Em sua visão, para Anllye, dormir era o melhor remédio. Ele tentou desamassar os papéis, mesmo com sua filha em seu colo, atrapalhando-o.
— Agora eu não estou mais disposta! Já pensou? Ter que subir as escadas até meu quarto, me preparar, arrumar os cobertores... É tão trabalhoso! E por que meu quarto é tão longe? Só torna tudo ainda pior! – Reclamou a princesa — para variar — levantando-se do colo de seu pai, amassando as folhas novamente. O rei calmamente voltou a arrumar as folhas de papel, já acostumado com tudo aquilo. Com um suspiro, ele ajeitou os óculos de leitura que entortaram com toda aquela agitação.
— Eu tive uma ideia, filha. – Por favor, que dê certo! Pediu o rei em pensamento. – Por que você não sai em uma aventura pelo reino das fadas? Você nunca sai do palácio sozinha, seria ótimo para você!
— Não! Papai, você está louco? Sair do palácio sozinha? Aventura? Me dá arrepios só de pensar! – A princesa abraçou a si mesma, tendo calafrios.
— Não sabia que você tinha medo de sair, florzinha, você sai com seus irmãos às vezes.
— Eu não tenho medo! Só estou pensando na canseira que vai me dar! – Anllye ficou tão eriçada que levantou suas asas transparentes e começou a flutuar sem perceber. Suas asas batiam rápido como as de uma abelha. – Argh, andar por aí, dormir em lugares desconfortáveis... Interagir! Que horror, papai!
— Anllye, se acalme! – O rei levantou, empurrando a mesa levemente com sua pança. Seus cabelos ruivos, da mesma cor que sua grande barba, eram um emaranhado de cachos longos, quase agarraram no óculos quando ele o tirou do rosto. – Você diz que está entediada todos os dias, mas não quer fazer nada, nada é do seu gosto. Nunca tenta algo novo, só fica reclamando. Essa é sua chance de mudar de atitude! Estou te dando permissão para sair, vá dar uma volta na Floresta das Fadas, talvez encontre algo que te entretenha!
— Eu não...
— Anllye! Eu estou falando sério. Agora vou te dar duas opções: ou você sai e distrai a sua mente em outro lugar, ou você arruma outra pessoa para incomodar, porque eu estou cansado e sem paciência para ouvir mais reclamações.
Anllye ficou vermelha, completamente indignada. Como seu pai podia sugerir algo assim para ela? Era um completo absurdo. Ainda flutuando, Anllye bateu o pé no ar três vezes e cruzou os braços.
— Eu prefiro incomodar outra pessoa! – Gritou. – Vou dizer ao Crolse pra te agradecer por isso!
Anllye saiu enfurecida do cômodo. O rei Daemint suspirou, cansado e estressado, desejando mais do que tudo uma xícara de chá e uma passagem só de ida para o reino paradisíaco mais próximo.
***
Ao voltar para o escritório de Crolse, o príncipe a recebeu com um olhar cansado.
— Você está aqui novamente. – Comentara o óbvio. O príncipe suspirou e se levantou da cadeira. – O que houve, ninguém quis brincar com você?
— O papai é terrível! – Choramingou Anllye, novamente fazendo drama.
— Você foi incomodar o papai? – Questionou Crolse, franzindo o cenho.
— Ele teve a audácia de mandar eu voltar a dormir! – Continuou a princesa fada sem dar atenção ao irmão.
— Anllye, você...
— E ainda teve a ousadia de mandar eu sair numa aventura sozinha! Acredita?
— Anllye! Eu já falei pra você parar de incomodar o papai quando ele está trabalhando! – Crolse exclamou, fazendo Anllye se calar. Esfregou os olhos com a base dos polegares. — O que veio fazer aqui? Eu já te falei que estou ocupado.
— O papai disse que era pra eu escolher entre sair numa aventura e incomodar outra pessoa... Agradeça a ele depois. – Murmurou Anllye de cabeça baixa, ao ver que estava claramente chateando seu amado irmão.
— Ele te deu permissão para sair? – Crolse indagou, franzindo o cenho novamente, com as mãos nos quadris. Anllye revirou os olhos e afirmou, cruzando os braços.
— Dá pra acreditar? Até parece que eu vou... Ei, irmão! Pare com isso! – Anllye foi erguida facilmente por Crolse, que a jogou por sobre o ombro e segurou suas pernas. Ele levou sua irmã para fora sob muitos protestos da mesma. As outras fadas no palácio assistiam aquela estranha cena entre os irmãos sem entender o que estava acontecendo.
Crolse levou Anllye no ombro até os portões do castelo para, finalmente, a colocar no chão. A princesa, completamente envergonhada, olhara para seu irmão sem entender qual era o ponto de tudo aquilo.
— Vai. – Crolse apontou para o outro lado do portão. Anllye abriu a boca em completa incredulidade. Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Crolse continuou: – É uma ordem, An. Como seu príncipe herdeiro e seu irmão mais velho, eu estou ordenando que você saia. Nós amamos você, An, amamos muito. Você é a nossa florzinha! Mas você está tirando todos do sério ultimamente, e até eu que tento levar tudo com muita calma e paciência, simplesmente cheguei no meu limite. Então faça um favor a todos nós e divirta-se lá fora! Você é muito forte, vai ficar bem.
Anllye ficou em silêncio, observando seu irmão. Finalmente a jovem princesa notou o quanto ele estava cansado, parecia mais magro e seus olhos estavam profundos e com olheiras horríveis. Provavelmente estava sem dormir há dias por causa de seus afazeres, e mesmo assim tirava um tempo para ouvi-la e brincar com ela. Anllye sentiu seu coração apertar no peito, e uma grande tristeza e culpa inundou a jovem fadinha preguiçosa.
— Certo, tudo bem. – Anllye abaixou a cabeça, segurou o pulso atrás das costas e passou o pé pela grama. – Eu volto logo...
— Não volte antes do pôr do sol. – Crolse interrompeu. Anllye fez uma careta e suspirou, revirando os olhos, acenando com a cabeça.
— Ok, não voltarei antes do por do sol. Mas saiba que só vou porque você ordenou, se fosse o Ghye, eu chutaria o traseiro dele e o mandaria ir ele mesmo. – Anllye fez um biquinho e Crolse sorriu sinceramente, acariciando novamente o cabelo da irmã caçula.
Em seu quarto escuro, chorando na cama, Ghye espirrou e teve uma esquisita sensação de que estavam falando dele, mas decidiu ignorar. Estava, finalmente, quase batendo o próprio recorde.
***
Crolse pediu para algumas criadas prepararem comida e alguns itens essenciais e imprescindíveis para Anllye levar em seu passeio, como um travesseiro e cobertor, mas Anllye recusou, dizendo que não precisava. Deu um abraço em seu irmão, que era bem mais alto que ela, por isso teve que flutuar um pouco.
Crolse insistiu que ela levasse ao menos um casaco e colocasse uma tiara magica real, para que ele pudesse saber onde ela estava. Anllye concordou e, finalmente, saiu numa aventura.
Depois de algumas horas de caminhada pela floresta, o tédio de Anllye estava multiplicado por dez. Ela resmungava e revirava os olhos para o nada. Que lugar chato! Eu devia ter ficado em casa dormindo... Pensou.
Na verdade, se Anllye gastasse seu tempo estudando ao invés de reclamando, saberia que cada uma daquelas árvores da floresta estava atrelada à vida de uma fada, inclusive a dela própria. Ali ela poderia descobrir se alguém estava doente, ou se era muito velho, ou mais novo do que dizia ser. Além de ser o lar de incontáveis flores belíssimas e criaturas da natureza das mais variadas espécies. Aquele era um dos lugares mais mágicos e interessantes do reino das fadas, mas Anllye estava ocupada demais reclamando para notar.
Caminhando mais afundo na floresta, Anllye viu uma caverna estranha, parecia que não devia estar ali. Aproximando-se, ouviu um som alto, gutural e assustador, que fizera gelar seus ossos.
Há! É claro que eu não vou entrar aí. Pensou, dando alguns passos em frente e desviando os olhos da caverna. Entretanto, o barulho continuou. De novo. De novo. A princesa das fadas era tão curiosa, não poderia resistir.
Deu meia volta e entrou, cautelosa, na caverna escura e úmida. Com sua magia, fez crescer uma flor azul luminosa que funcionou como um luzeiro no meio da escuridão. Está pior que o quarto do Ghye... Mas o cheiro é igualmente ruim.
No castelo, Ghye espirrou novamente, continuava com a sensação incômoda de que alguém falava dele.
Anllye continuou andando devagar, alerta para qualquer som estranho, — Além daquele que a fez entrar ali, que estava cada vez mais bizarro, mais alto e mais perto — até que a jovem fadinha chegou ao fundo da caverna, à fonte da sua curiosidade.
— Ei, ei, ei! ATCHIM! O que temos aqui? – Uma rajada de fogo atingiu a parede da caverna atrás de Anllye, que se encolheu, assustada. Anllye procurou de onde veio a voz um pouco fanha e o fogo. Ajoelhado no meio da caverna estava um garoto esquisito, todo sujo e com roupas rasgadas e velhas. Seus pulsos estavam presos com aguilhões mágicos que brilhavam num tom rosa. Haviam flores iguais a de Anllye iluminando fracamente o lugar e o menino estranho parecia estar se divertindo com a presença da jovem fada. Ele
sorriu maliciosamente.
— Parece que finalmente lembraram de mandar meu almoço! ATCHIM!
Fale com o autor