O Curioso Relacionamento Entre A Fada e o Dragão

11 Acertando As Contas Depois do Banquete


Notas iniciais
Boa leitura!

Ainda tinham muitos detalhes a serem discutidos e pontas soltas a serem amarradas dentro dos planos das fadas — e do dragão. Depois de muito conversarem entre si, chegaram em um acordo: depois que os dois pegassem a varinha com ajuda externa, buscariam mais experiência de combate para se protegerem até que a família real fizessem um novo acordo com os dragões.

Anllye queria levar mais alguém, mas Crolse deixou claro que a magia dele seria mais eficiente escondendo duas pessoas do que três. A magia de camuflagem do príncipe funcionava melhor em objetos inanimados ou lugares. Pessoas se mexendo o tempo todo exigia muito mais poder.

— Isso é tão conveniente, parece até que somos personagens de uma história e o autor quis que nós viajássemos sozinhos... – Resmungou Zac, arrumando uma mochila mágica. Anllye franziu o cenho.

— Não sei do que você está falando. – Anllye calçou as botas. Faziam dois dias desde que Zac fora solto das correntes mágicas, e as discordâncias da princesa fada e do humano-dragão estavam deixando todos no palácio loucos. Foi um alívio quando o rei determinou que era perigoso eles continuarem lá por mais tempo. – Você está pronto? Já é quase hora do almoço.

— Ainda não, An, tem uma coisa que preciso fazer.

— Certo, não demore muito. – Anllye arrumou seu cabelo cacheado pela quinta vez.

— Vem comigo. – Zac puxou a mão da fadinha e a levou para fora do quarto.

***

O príncipe Crolse cochilava de boca aberta em sua poltrona confortável, quando Zac bateu com força em sua mesa fazendo-o pular de susto.

— Acorda, idiota! – Berrou Zac. O príncipe herdeiro coçou os olhos com a palma das mãos e apoiou o cotovelo na mesa.

— O que vocês querem? Eu estou trabalhando. – Indagou Crolse, sentindo falta de quando era só Anllye o incomodando.

— Eu ainda não acabei, estou esperando há dois dias. – Zac encarou com determinação os olhos esmeraldas do príncipe.

— Esperando o quê? Do que está falando?

— Você me deu as explicações que eu pedi, mas não o acerto de contas! – Rosnou o menino dragão, irritado. – Eu te desafio para um duelo! Só vou me sentir melhor quando acabar com você!

Crolse e Anllye olham surpresos para o garoto.

— Zac! Não faça isso, é uma péssima ideia...

— Você tem certeza, Zac? – Crolse interrompeu a irmã, com um misto de afeto e curiosidade na expressão. – Eu não sou tão fácil assim de derrotar.

— Eu nunca tive tanta certeza de algo, desde que eu disse que sopa de ervilha é horrível.

— Sopa de ervilha é uma delícia. – Exclamou Anllye, incrédula. Zac a olhou enojado.

— Certo. Vai ser bom para eu te testar, já que você diz que pode proteger minha irmã. – Disse o príncipe, levantando. Sua expressão era um pouco assustadora. – Eu aceito seu desafio, príncipe dos dragões. Te encontrarei em meia hora no pátio.

***

No pátio do palácio, estavam a família real e alguns soldados reunidos para assistir o espetáculo. Havia até mesmo alguns criados enrolando em seu trabalho para assistir o duelo.

Zartaxes parecia um gato raivoso, suas unhas grandes como garras estavam preparadas para arrancar pedaços. Já o príncipe Crolse se alongava calmamente. Era alguns centímetros mais alto que Zac, além de ser mais forte e mais experiente — Crolse era o melhor guerreiro do Reino das Fadas, depois de seu próprio pai.

— Está pronto, garotinho? – Crolse brincou, sorrindo para Zac, que rosnou e se preparou para atacar. O príncipe herdeiro ficou imóvel, observando Zac. Nenhum dos dois possuíam armas, armaduras ou qualquer outra proteção.

— Ah, eu não quero ver isso! – Anllye tapou os olhos com as mãos.

— Eu quero! – Nini e Ghye responderam em uníssono, vidrados, atacando um balde de pipoca.

O rei Daemint se posicionou no meio do pátio, como um juiz.

— A luta termina quando um dos lutadores sair da área marcada, desistir, ou ficar impossibilitado de continuar. – Anunciou o grande homem ruivo. – Que o duelo comesse!

Zac correu rapidamente em direção a Crolse, desferindo golpes aleatoriamente. O príncipe das fadas desviou de todos os seus golpes com facilidade, deu um peteleco em sua testa, e uma rajada de vento mágica fez com que Zac fosse soprado para trás, quase saindo da área.

— Você é péssimo, Zac. – Crolse meneou a cabeça.

— Você é o pior lutador que eu já vi, dragãozinho! – Gritou Jaennia, Ghye riu, deixando Zac ainda mais irritado. Anllye assistia a batalha entre os dedos.

Zac levantou rugindo e mudou de estratégia. Soprou uma poderosa rajada de fogo em direção a Crolse. Jaennia e Ghye exclamaram um "Uau!" e aplaudiram impressionados. Entretanto, Crolse desviou do fogo facilmente. Zartaxes seguia seus movimentos, mas era impossível acertar o príncipe herdeiro com o fogo.

— Ok, agora já chega. – Disse Crolse, dando duas cambalhotas para desviar e, chegando atrás de Zac, levantou-se do chão e tocou a cabeça do menino dragão usando sua magia de selamento. Zac ficou paralisado. O príncipe Crolse deu a volta e parou em sua frente meneando a cabeça.

— Como você protegerá a Anllye assim? – Perguntou Crolse franzindo o cenho. Deu dois socos muito rápidos na boca do estômago de Zac ainda paralisado e estalou os dedos, desfazendo o selo. Zac caiu no chão imediatamente e vomitou toda a ovelha que comera no café da manhã. O garoto não conseguia ficar de pé.

— Príncipe Crolse venceu! – O rei levantou a mão.

— Você ainda é fraco, Zac, te falta treino. – Disse o príncipe, caminhando em direção a Nini, que oferecia uma garrafa de água ao irmão. – Mas não se preocupe, podemos dar um jeito nisso.

Zac sentou no chão com dificuldade, desolado e ofegante. Anllye sentiu uma pontada no coração ao ver o garoto tão chateado.

— Vem. – Ofereceu a mão para ele, que recusou e, com esforço, levantou-se sozinho, irritado. Zac voltou para o palácio com passos duros e de cabeça baixa. Anllye e Crolse se entreolharam.

— É melhor deixá-lo sozinho por enquanto, An. – Disse o príncipe mais velho. – Vou mandar o doutor Horiluc cuidar dele depois.

***

Finalmente era a hora de partir. Decidiram ir depois do almoço para Anllye ter uma última refeição em família antes da viagem. Zac estava quieto e carrancudo desde o duelo pela manhã.

A família Gerurk ria e brincavam enquanto comiam um grande banquete, ao qual, em silêncio, Zac devorou sem pensar duas vezes. Entre piadas e risadas, eles terminaram e voltaram as preparações. Quando chegou a hora, todos estavam no portão do palácio.

— Vocês pegaram tudo? Não esqueceram de nada? – Perguntou Nini. Ghye riu da ironia.

— Logo você está perguntando isso?

— Calado, emo! – Jaennia passou o braço em torno do pescoço do irmão mais novo e o puxou, esfregando o punho no topo da sua cabeça, fazendo-o protestar aos gritos.

— Não esqueçam do que lhe dissemos. – Advertiu o rei. – Vocês devem ir pelas aldeias, olhem sempre o mapa, para não se perderem...

Zartaxes e Anllye se entreolharam.

— E tomem cuidado acima de tudo. É sério. Vou estar monitorando vocês com magia, e vou sempre entrar em contato, por isso, não percam a esfera de ametista, e... – Príncipe Crolse atropelou as palavras.

— Irmão, já entendemos! – Riu Anllye. – Nos vamos ficar bem, não é Zac?

O jovem humano-dragão deu de ombros e grunhiu algo, olhando para a paisagem. Anllye suspirou e Crolse franziu o cenho.

— Zac, eu posso conversar com você por um instante? – Pediu o príncipe. Zartaxes bufou, cruzou os braços e deu de ombros. Crolse fez sinal para Zac o seguir e Anllye foi se despedir do restante da família.

O príncipe das fadas e o menino dragão andaram até uma parte afastada dos jardins da frente, não muito longe do portão, porém fora da vista de todos.

— Zartaxes, eu... – Crolse suspirou e pensou antes de falar. – Eu sinto muito.

— Não me peça desculpas pelo duelo, é ainda mais vergonhoso que perder. – Resmungou Zac.

— Não é pelo duelo, nossa luta foi justa. – Crolse olhou o garoto com uma expressão séria.

Zac olhou o príncipe de soslaio e resmungou algo ininteligível.

— Então pelo o que está se desculpando exatamente? Por ter me deixado sozinho por quarenta e sete anos? – Reclamou Zac. – Por ter me feito acreditar que eu era importante pra você e depois desaparecer? Você nem se despediu, Crolse! Mentiu pra mim quando disse que eu era seu irmão!

— Eu não menti sobre isso! – Defendeu-se o príncipe. – Eu errei, Zac. Errei com você, errei com o meu pai, errei com a Anllye também... Eu sou um covarde.

— Você me venceu no duelo...

— Não é sobre lutas físicas, Zac... Olha, eu sei que talvez você nunca me perdoe, mas eu quero tentar me redimir. Vamos nos separar por um tempo outra vez, mas vou resolver esse problema, e você vai ser totalmente livre, livre de verdade. Eu devia ter te libertado há muito tempo...

— Tanto faz, Crolse. Isso não é tão fácil de consertar, ok? Eu simplesmente não consigo parar de sentir raiva de você, e de lembrar que você não voltou mais. – Zac cruzou os braços, com os olhos semicerrados – É só... Difícil.

— Eu entendo. Mas saiba que nem por um segundo eu deixei de considerar você como meu irmãozinho. Eu me senti péssimo, Zac... Eu dizia para mim mesmo que você ficaria bem, que não precisava de mim...

— Eu não precisava mesmo. – Zac suspirou, coçando a nuca, frustrado. – Mas eu queria que estivesse lá.

— Eu não posso reparar o passado, mas estou aqui agora. – Crolse coloca as mãos nos bolsos.

— Isso não muda nada, eu estou indo embora, lembra?

Crolse tira uma mão do bolso e a estende para Zac, que o olha confuso. Crolse suspira, impaciente, pega a mão do garoto e coloca uma pequena esfera lilás em sua mão.

— O que é isso? – Zac examina a bolinha e ameaça morde-la para testar sua consistência, mas Crolse o impede.

— Não! Não, Zac, não é pra morder. Essa é uma esfera de ametista especial, eu mesmo a criei. – Explicou o príncipe. – Era pra eu ter te dado isso há muito tempo atrás. Você pode me ver nela como um holograma, vê?

Crolse aciona a esfera e uma miniatura de si mesmo aparece acima dela, repetindo suas falas e movimentos. Zac estava impressionado.

— Eu a criei especialmente para falar com você, mesmo sem estar na caverna. Devia ter ido te entregar, mas deixei o medo falar mais alto. – Ele tirou uma esfera idêntica do outro bolso e ativou a mesma. Uma miniatura de Zac apareceu. – Eu não estava lá, mas sempre estive te observando, todos os dias. Por favor, não diga que não é importante para mim. Você é meu irmão e sempre vai ser.

Zac não sabia explicar, mas seu peito parecia doer. De repente, haviam lágrimas escorrendo em seu rosto, que não paravam, mesmo quando ele as enxugava. O garoto dragão sentiu algo em sua cabeça. Crolse acariciava seu cabelo como havia feito tantas outras vezes, assim como fazia também com seus preciosos irmãos.

Em um impulso, Zac abraçou o príncipe, chorando ao ponto de soluçar.

— Eu te odeio, Crolse Gerurk, você é um otário e um idiota! – Sua voz saiu abafada por estar abraçando o príncipe. Crolse, que também chorava e sorria tristemente, abraçou o garoto de volta.

— Eu também te amo, irmãozinho.

***

Crolse e Zartaxes voltaram depois de um tempo. O príncipe herdeiro pediu ao adolescente para que não contasse a Anllye sobre a esfera de ametista especial, pois ela ficaria com ciúmes.

Não foi necessário contar nada para isso ocorrer.

— Onde vocês estavam? – Gritou enfurecida, batendo o pé no chão.

— Estávamos tendo uma conversa de garotos, An. Nada que você ache interessante. – Crolse sorri.

— Sim, nanica, cuide de sua vida. Vamos embora logo. – Zac revirou os olhos.

— Ah, pensei que esse dragão estúpido estava procurando briga de novo. – Anllye colocou as mãos nos quadris. Crolse sacudiu a cabeça negativamente.

— Falando nisso, eu quero te desafiar para outro duelo Crolse. – Falou Zac, muito sério.

— Não temos tempo para isso! – Anllye se intrometeu. – Além do mais, você só vai apanhar de novo.

— Tsc, você não para de falar um segundo? – Zac olha para Anllye indignado, também colocando as mãos nos quadris. – Se eu soubesse que você era assim, tinha pedido um papagaio de recompensa...

Anllye ficou vermelha de raiva.

— Escuta aqui seu... Humpf! – A princesa começou a gritar, mas Ghye tapou sua boca.

— Já chega de gritaria, An, meus ouvidos estão pedindo socorro! – Exclamou o garoto.

— Valeu, Ghye! – Disse Zac. Ghye acenou, enquanto segurava a irmã que se contorcia para se soltar. – Crolse, eu te desafio para outro duelo.

— Zac, você precisa treinar mais. Eu acho que posso te ensinar com... Você sabe. – Crolse inclinou a cabeça, referindo-se a esfera ametista.

— Eu sei disso. Por isso estou te desafiando, mas não é para lutarmos agora. É para quando estiver tudo resolvido e eu voltar muito mais forte!

— Ah, certo! – Crolse abriu um sorriso brilhante. – Se é assim eu aceito seu desafio.

Anllye se libertou e pisou no pé de Ghye, que gritou. Voou até Crolse e o abraçou, beijando seu rosto.

— Eu volto logo, então fique bem! – Pediu a princesa. Crolse a abraçou também e assentiu, sorrindo.

— Certo, minha florzinha, eu vou cuidar das coisas aqui para você voltar o mais rápido possível! – Prometeu Crolse. Anllye sorriu e voltou para o chão. O príncipe herdeiro estendeu as mãos sobre Zartaxes e Anllye e os marcou com sua magia de camuflagem e um feitiço de proteção. Todos se despediram e a improvável dupla partiu em uma aventura.

Esse é o começo da lendária história da princesa fada e do dragão amaldiçoado.

Notas finais
Comentários são bem vindos! Nos vemos no livro 2!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!