O Curioso Relacionamento Entre A Fada e o Dragão
5 Quem Precisa De Um Banho, Poderes Curativos e A Princesa Preguiçosa
Notas iniciais
Do lado de fora, os adolescentes analisavam sua situação. Anllye estava uma bagunça, suas roupas um pouco chamuscadas, mas nada muito grave. Porém Zartaxes parecia que fora à uma festa de ogros: estava totalmente imundo, suas unhas estavam grandes e sujas como se fossem garras, suas roupas estavam um trapo, e seu cabelo liso e negro como a noite chegavam até metade de suas coxas, como se nunca os tivesse cortado. Anllye o examinou da cabeça aos pés e cruzou os braços.
— Você precisa urgentemente de um banho. Quando foi a última vez que tomou um?
— Ahn, deixa eu pensar, talvez nunca? Você viu algum banheiro na caverna? Ou lago? Um lencinho umedecido? – Debochou Zac, revirando os olhos.
— Certo, que seja. A primeira coisa que você fará quando chegarmos ao castelo será tomar um banho. Um banho longo, de preferência.
— Você não manda em mim, sua nanica! Eu vou tomar banho porque eu quero, não porque você está falando.
— Não me importo com o motivo, só tome um banho e já está bom. – Anllye massageia mais uma vez o próprio pescoço enquanto ignora a dor no rosto. Mais alguns minutos e poderia usar sua magia de cura livremente.
A verdade é que se Anllye usasse seu tempo para estudar e aprimorar sua magia em vez de dormir e reclamar o tempo todo, ela saberia que não precisava usar seus poderes daquela forma, pois fadas tem um fator de cura excelente. Se soubesse como usá-lo, teria evitado a seguinte situação:
— Você está com muita dor? – Perguntou Zac, olhando-a de soslaio enquanto caminhavam.
— O que você acha? Ugh! – Anllye tentou girar o pescoço, mas acabou estralando de forma dolorosa.
— Deixa que eu ajudo você. – Zartaxes Renéet parou na frente da princesa das fadas, inclinou-se para ela e lambeu a queimadura em seu rosto. A dor passou instantaneamente, como um passe de mágica. Mas Anllye não estava nada feliz.
— O que você acabou de fazer? – Gritou Anllye, afastando-se dele e fazendo alguns pássaros voarem das árvores. Sua expressão era de puro horror e nojo. Zac estava ofendido.
— Eu acabei de te retribuir? Você curou minha alergia, eu curei a sua dor, minha saliva é curativa! – Retrucou, como se fosse óbvio. – Não precisa fazer essa cara, sua mal agradecida!
— Você sabe o que é uma escova de dentes? Ah! Que nojo, que nojo! Seu dragão estúpido! Eu podia ter me curado sozinha! ARGH! – Anllye bateu o pé no chão como costumava fazer, e logo sentiu ânsia. — Só vamos logo, agora eu preciso de um banho tanto quanto você.
— Anllye Gerurk, você é a fada mais odiosa e ingrata que eu já tive o desprazer de conhecer! – Berrou o garoto, vermelho de raiva. Zac foi na frente com passos firmes, afastando-se rapidamente de Anllye que, por sua baixa estatura, teve que correr para tentar alcançá-lo, pedindo-o para esperar. Quando a princesa das fadas se deu conta, já havia se perdido do jovem humano-dragão, e então, começou a entrar em pânico.
— Zac! Zac, onde você está? Zac! – Gritou, com o coração acelerado. Anllye, no geral, era muito corajosa, mas estava apavorada com a ideia de passar a noite completamente sozinha naquela floresta. Chamou pelo garoto mais algumas vezes, quando de repente ouviu um som alto e um forte clarão apareceu mais à frente. Anllye correu até lá.
— ATCHIM! – Zac espirrou, queimando um conjunto de flores gigantes indefesas. Haviam outras flores que já estavam em chamas. Anllye chegou a tempo de usar sua magia rapidamente para apagar o fogo que se espalhava.
— Zac, o que está fazendo? – Gritou para o menino dragão que não parava de coçar o nariz.
— Não é culpa minha se sua magia inútil não me curou direito! – Zac revirou os olhos e ameaçou espirrar novamente, mas Anllye conjurou heras do chão e as enrolou em Zac, tapando seu nariz e boca antes que espirrasse. Ele espirrou mesmo assim, mas queimou apenas as heras.
— Idiota! Eu avisei para não chegar perto de outras flores, por que você não me escuta?
— Como eu ia adivinhar que tinha um monte de flores no meio da floresta?
— Você é um dragão! Não consegue farejar de longe? Como você pretendia nos guiar para o palácio?
— É claro que eu consigo farejar, sua fadinha estúpida! É só que meu faro não é tão eficiente nesse corpo de humano e essa floresta tem muitos cheiros diferentes que me deixam confuso... ATCHIM! – Explicou Zac, mordendo o canto inferior da boca. Quando espirrou, virou a tempo para queimar o restante das heras no chão. – Mas eu definitivamente consigo chegar fácil ao palácio das fadas!
Na verdade, Zac estava tão perdido quanto Anllye.
— Argh, como eu sou idiota por confiar em você! Agora estamos completamente perdidos! Deus, onde eu vou dormir agora? Se eu fizer uma cama de heras vou ficar toda empolada de novo...
— O que você quer dizer? Que eu não sou confiável? – O menino dragão olha para Anllye sem acreditar no que estava ouvindo. Espirrou novamente, mas Anllye, dessa vez mais alerta, parou a bola de fogo com magia antes que Zac pudesse destruir algo mais. – Eu vou fazer você engolir essas palavras e implorar perdão a mim de joelhos na frente de todos no palácio!
— Eu quero é ver! – Desafiou Anllye, reunindo todas as suas forças para consertar a bagunça que Zac fizera. Anllye amava muito as flores, e vê-las queimadas daquele jeito a deixava desolada. Concentrando-se totalmente, a princesa das fadas soltou um forte impulso de magia, espalhando seu poder curativo em larga escala e revitalizando todas as plantas em redor. Que bom que não usei isso em mim mesma...
Zartaxes estava impressionado. Todas as flores que foram queimadas estavam inteiras, até mais bonitas que antes. E além disso, Zac tinha parado de espirrar de novo. Olhou admirado para a princesa Anllye, que parecia sonolenta. Você não é uma garota normal, não é, fadinha? Pensou o jovem dragão. Que bom, eu também não sou um garoto normal...
Anllye cambaleou colocando a mão na cabeça, sentindo-se exausta de repente. Usara poder demais naquele dia, mais do que estava acostumada.
— Zac... Acho que está na hora de outra soneca. — Brincou, e então, sua visão escureceu.
***
A princesa das fadas tinha pequenas lembranças de ser carregada nas costas por alguém, pareciam até sonhos. Anllye abriu os olhos e piscou algumas vezes para acostumar-se com a luz. Sentou-se na cama e esfregou os olhos com os punhos, ainda estava muito sonolenta.
Então foi tudo um sonho... Isso é ótimo, seria um pesadelo lidar com alguém insuportável que nem aquele garoto. Pensou, espreguiçando-se e virando para levantar, entretanto, estava sem forças nas pernas. Anllye, então, viu-se indo em direção ao chão. Fechou os olhos instintivamente, porém não sentiu nenhum baque, alguém a segurou.
— Vai com calma, bela adormecida. – Era a voz de Zac. Ah, ele é real mesmo! Que droga! Pensou, olhando para cima. Ficou espantada com o que viu, parecia outra pessoa. Estava limpo, vestindo roupas da realeza, seu cabelo estava curto e penteado. Anllye até poderia dizer que estava apresentável, se comparado a antes. – O que foi, está admirando minha beleza? Eu nunca tinha visto um espelho, eu sou bonito mesmo, não sou?
Anllye franziu o cenho e fez uma careta. Zac colocou-a sentada na cama novamente. A jovem princesa fada massageou as têmporas, sua cabeça parecia pressionada por algo pesado.
— Você estava roncando muito alto por um bom tempo, meus tímpanos estão estourando. – Disse Zac, jogando-se numa cadeira e coçando o ouvido com a unha enorme do dedo mindinho, agora menos suja que antes, porém do mesmo tamanho. – E aí? Já pode ajoelhar, implorar perdão e me agradecer.
— E por que eu faria isso? – Anllye questiona, cruzando os braços. Sua voz era fraca, mas estava determinada a discutir se necessário.
— Ora, por quê? – Zac aproximou-se de Anllye, que afastou-se um pouco, corada e surpresa. Ele franziu o cenho. – Simples: eu salvei sua vida, coisinha. Você me deve essa!
— Eu não te devo nada! Esqueceu o que você fez na caverna?
— Certo, mas esqueceu que você duvidou de mim quando eu disse que te traria pra casa? Você está aqui, não está?
— Argh! – Anllye revirou os olhos, emburrada. – Eu não vou me ajoelhar e pedir desculpas. Escolhe outra coisa menos humilhante.
— Você é muito orgulhosa pra uma coisinha tão pequena. Ok, vamos fazer o seguinte: Eu quero sair numa aventura. – O menino dragão ajeitou-se na cadeira, cruzando os braços e apoiando o tornozelo direito no joelho esquerdo. Seu olhar era ainda mais esnobe e arrogante do que quando estava na caverna.
— E eu com isso? – Anllye cruzou os braços também e lançou à ele um olhar tão esnobe quanto.
— Eu... Bom, de certa forma, eu percebi que sua magia fedida é bem útil. – Zac virou o rosto corado para o outro lado, empinando o nariz e fazendo bico. Anllye sorriu, sem acreditar no que ouvia, entendo o que ele realmente queria dizer. Zac pigarreou e continuou. – O que eu quero dizer é que... Bem, eu deixo você ir comigo. Eu posso muito bem ir sozinho, não preciso de você, não entenda errado! Só estou reconhecendo o valor dos seus poderes, sinta-se lisonjeada!
— Ou seja: você não quer ir sozinho e está me convidando pra ir junto, é isso? – Riu Anllye. – É muito adorável da sua parte, mas eu não quero, prefiro dormir.
Naquele momento, Zac entendeu seu azar. Estava diante da fada mais preguiçosa de todo o mundo.
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