O Curioso Relacionamento Entre A Fada e o Dragão
3 O Menino Dragão Idiota Tem Alergia A Pólen
Notas iniciais
— A-almoço? Do que você está falando? Quem é você, seu esquisito? – Anllye estava confusa, aquele garoto era tão estranho que parecia fazer o cérebro dela não funcionar direito.
— Quem você está chamando de esquisito, sua fedelha? Isso é jeito de falar com um majestoso dragão? ATCHIM! – O garoto humano ergueu o queixo e empinou o nariz de forma esnobe, e logo em seguida, espirrou, soltando uma bola de fogo. Anllye olhou ao redor, mas não viu mais ninguém.
— Dragão? Onde?
— Eu, sua idiota! Eu sou um dragão incrível! ATCHIM! Sério, acho que agora entendi o porquê de te mandarem aqui para ser devorada, você é tão burra que...
— Ei, ei, ei! – Interrompeu Anllye, imitando-o. – Quem é a burra aqui? Eu sou extremamente inteligente, ok? Sou uma das fadas mais inteligentes de todo o reino!
— Nossa, jura? Se você está acima da média do seu reino, quem estiver na média deve achar que canjica é dente cozido... – O menino revirou os olhos bicolores: o esquerdo amarelo e o direito vermelho, ambos com a pupila em formato de fenda, como as de um réptil. Anllye ficou vermelha de raiva.
— Quem você pensa que é para falar assim comigo? Você sabe quem eu sou? – A princesa bateu o pé no chão.
— Você é uma garotinha chata, e eu já disse que sou um dragão magnífico. ATCHIM! Me chamo Zartaxes Renéet, Zac, para os mais próximos. – Zac ofereceu a mão acorrentada para a princesa apertar, ainda que ela estivesse afastada dele, mas ela apenas cruzou os braços e o encarou como se ele fosse um despertador: com muito ódio. Foi a vez de Anllye virar o rosto e empinar o nariz arrebitado.
— Tanto faz se não quiser se apresentar, eu não estou nem aí. Só quero que você seja uma boa fadinha boba e me solte. ATCHIM! Essas correntes incomodam muito quando eu me transformo. – Zac sacudiu os punhos, como se estivesse mostrando para Anllye o que fazer. Espirrou novamente e, como todas as outras vezes, fogo saiu de sua boca. A princesa franziu o cenho e o olhou curiosa.
— Se transforma?
— Quantas vezes vou ter que te explicar que sou um dragão, cabecinha oca? – O adolescente humano revirou os olhos mais uma vez, frustrado. – Eu volto a ser um dragão durante uma semana no mês porque fui amaldiçoado.
— Que horror, que maldição horrível! – Exclamou Anllye, horrorizada. – Que tipo de pessoa pode ser tão cruel a ponto de amaldiçoar alguém para se transformar num dragão ridículo?
— Idiota! – Berrou Zac, soltando fumaça pelas narinas, indignado e ofendido. – Eu fui amaldiçoado para virar um humano! Um hu-ma-no! Argh, que perda de tempo...
— Tanto faz, você é um mané, eu é que estou perdendo meu tempo aqui. Boa sorte com suas correntes, e tenha uma ótima vida na caverna, menino dragão fanho. – Anllye virou-se para ir embora.
— Eu não sou fanho! Tenho alergia a pólen, e você fede a pólen puro, dá pra sentir à quilômetros! – Reclamou o menino dragão. Anllye o ignorou e continuou andando. – Ei, volte aqui e me solte! ATCHIM!
Anllye desviou da bola de fogo que vinha em sua direção e usou seus poderes para pará-la antes que atingisse uma árvore próxima.
Menino dragão idiota! Pensou, caminhando na floresta a passos firmes. Argh, que raiva! Esse dia horrível não acaba nunca!
A princesa das fadas continuou andando e reclamando por alguns minutos, até perceber que não sabia aonde estava, e o único lugar ao qual poderia voltar era a caverna. Ótimo...
***
O jovem humano-dragão dá o sorriso mais arrogante que Anllye já vira ao ver que a fada voltou para a caverna.
— Deixa eu adivinhar... ATCHIM! Você precisa da minha ajuda pra algo e quer negociar?
— Tem muitos adivinhos ao meu redor ultimamente... – Anllye revira os olhos, emburrada.
— É que você é totalmente previsível. ATCHIM! – Zac espirra novamente e a princesa das fadas desvia de outra rajada de fogo.
— Dá pra parar com isso? Você quer me matar?
— Não parece uma ideia ruim... ATCHIM! Mas a verdade é que quando eu espirro não consigo me controlar.
— Há! Como você disse que se chamava mesmo? Zartaxes Rinite? – Caçoou Anllye. Zac fez uma careta.
— Isso aí, ri da dificuldade dos outros mesmo. Queria ver se fosse com vo... ATCHIM! – O garoto espirra, acertando o rosto de Anllye de raspão, deixando uma pequena queimadura. — Há! O carma vem!
— Isso dói, seu dragão estúpido! – Choramingou a princesa, abanando o rosto machucado. — Ai, ai!
— É só um chamuscado de nada, não precisa de todo esse drama. – Zac revirou os olhos.
Anllye enxugou as lágrimas, decidida a não chorar na frente do menino dragão idiota. Começou a se aproximar dele mas, instintivamente, ele recuou.
— O que está fazendo? Não se aproxime! ATCHIM! ATCHIM! – Bolas de fogo voavam para todos os lados.
— Eu vou fazer você parar de espirrar, não vou te machucar, lagartinho medroso. – Anllye revirou os olhos e continuou se aproximando, desviando das labaredas.
— Eu não estou com medo de você, sua tonta! Eu só não quero te machucar de novo, se não vou arrumar problemas com...
— Puf! – A princesa fada chegou na frente do garoto sem que ele notasse e tocou-lhe a ponta do nariz empurrando-o para cima, fazendo Zac ficar com uma cara engraçada.
— O que diabos está fazendo? – Indagou franzindo o cenho, sua voz anasalada.
— Estou colocando minha magia de cura em você. Não vai tirar sua alergia imediatamente, mas com o tempo você vai melhorar. É o suficiente pra podermos ficar no mesmo lugar, por enquanto.
— Você é esquisita. – Zac reclamou, coçando o nariz depois que Anllye se afastou. Já não estava mais fanho.
— E você agora me deve uma. Você está a salvo do cheiro de pólen da minha magia, mas não recomendo que chegue muito perto das outras flores.
— Ei, que história é essa? Eu não te devo nada! Não te pedi pra me curar, eu te pedi pra me soltar, coisa que até agora você não fez!
Anllye ficou vermelha de raiva. E daí que ele estava com alergia a ela, e que se ela tivesse passado direto pela caverna, ele teria parado de espirrar e seguido com a vida chata por ali? Ele devia estar grato por ter sido curado! Que sujeitinho intragável! Pensou.
— Pois saiba que eu ia negociar com você, mas porque você é um babaca ingrato, eu não vou te soltar coisa nenhuma! – Berrou Anllye, batendo o pé no chão.
— Ótimo! Eu não queria sair mesmo! Estou ótimo aqui sozinho na minha caverna, não preciso de você pra nada. Agora sai! Mete o pé, vai embora! – Zac berrou de volta. Anllye franziu o cenho. Ainda estava perdida, se saísse da caverna poderia não encontrar outro lugar para dormir, e aquele era seu pior pesadelo.
— Eu não vou sair! Quero ver você me obrigar! – Anllye colocou as mãos nos quadris, desafiando o garoto dragão. Zac rosnou de uma forma assustadora que ecoou por toda a caverna, olhou para cima e soprou uma rajada de fogo no teto, tão grande e poderosa que fez Anllye se encolher. O lugar estava tão quente que a fadinha estava prestes a desmaiar, mas não queria dar esse gosto ao adolescente acorrentado.
Anllye resistiu bravamente, cruzou os braços e o encarou, afrontando o rapaz ofegante ajoelhado no chão frio.
— Ufa, essa foi boa... – Murmurou ele, recuperando o fôlego com um leve sorriso orgulhoso. Então, lembrou que a fada estava parada ali, o encarando com um olhar desafiador, e mudou sua expressão para uma carranca. — Viu, princesa fadinha? Não entenda errado, eu não conseguia controlar com os espirros, mas meu fogo faz parte de mim. É melhor ir agora, antes que eu te transforme em churrasquinho de inseto.
— Até parece... Ei! Como sabe que eu sou uma princesa?
— Não é difícil de adivinhar, você tem o brasão da família Gerurk nas suas roupas e tem uma tiara da realeza pendurada nessa sua cabeça oca enorme. — Sorriu Zac, debochando.
Anllye não respondeu, apenas franziu o cenho, pois algo parecia estranho.
— Agora vai embora, vou contar até três, e quando terminar, espero que esteja bem longe daqui. Um...
— Oh, tenha dó! – Ironizou Anllye. A jovem princesa tirou o casaco confortável e forrou no chão, para se deitar.
— Dois... Ei, o que está fazendo?
— Você fala demais. Já passou da hora da minha soneca, eu vou dormir.
— Você só pode estar de brincadeira! – Zac sacudiu a cabeça, incrédulo.
Anllye não estava brincando. Assim que deitou sobre o casaco, dormiu, imaginando que devia ter escutado seu irmão e trazido um travesseiro.
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