O Crisântemo Proibido
7 Noite de outono,tempo de mudança.
Vento de outono
No meu coração
quanto de montanhas e de rios?
Kyoshi
Ichigo ergueu o rosto, sua expressão era séria, mas por dentro estava radiante. A julgar pelos aplausos, ele havia ido muito bem. Nunca sentira tanta confiança como agora. Levantou e saiu do centro do salão e caminhou até Izuru, acomodando-se atrás dele. O louro então se dirigiu até o mais novo e o parabenizou pela performance.
"Estou muito feliz por você, Ichigo!"
" Mais feliz ainda ficou Aizen sama com você." – falou Gin maliciosamente o que fez Ichigo corar e Kira franzir a testa com o que ele considerava falta de discrição por parte do samurai.
"Mas é a mais pura verdade!"- continuou ele. – " Olhe só. Está falando com Urahara san nesse instante. Garanto que não estão comentando sobre o clima..."
O ruivo então olhou para o daimyo que falava com o dono da casa e sua esposa. Julgando pela empolgação de Urahara e Youruichi, o cliente de Kira estaria certo. Mordeu o lábio inferior, um pouco apreensivo. Porém sua apreensão aumentou quando seu olhar cruzou com o de Ulquiorra, os olhos verdes com um brilho afiado, em direção a ele. Não era preciso ser muito inteligente para se perceber que aquela situação não o agradava nem um pouco. Ichigo, mesmo sabendo que Ulquiorra não poderia impor sua vontade com relação ao desejo de seu danna, não podia deixar de se sentir preocupado. Ulquiorra podia muito bem agir contra ele indiretamente, e seria muito fácil que conseguisse tirar Ichigo de seu caminho. O ruivo respirou fundo e desviou seu olhar para as mãos. Enquanto estava absorvido em seus próprios pensamentos e preocupações, Ichigo ignorava que Grimmjow continuava a olhar para ele.
"Por que ele não olha pra cá?!" – o samurai resmungou impaciente.
"Talvez ele ache o daimyo mais interessante, danna san. Afinal, ele é poderoso, influente e é tão galante..."
" E por que você não vai atrás dele? Não faço questão nenhuma!"
Grimmjow resmungou baixo novamente e se afastou mais de Luppi. Amaldiçoou novamente a sua sorte por terem colocado alguém tão insuportável para lhe servir de companhia.
"Eu vou até lá!" – falou o samurai, fazendo menção de se levantar e trazer Ichigo para ficar ao seu lado.
Porém sua tentativa morreu antes mesmo de se concretizar, pois Youruichi foi de encontro a Ichigo, levando-o para junto do lorde feudal. Grimmjow somente pode somente olhar para Ichigo curvando-se respeitosamente diante de Aizen, que não deixava de mirar-lhe com grande interesse.
"É uma grande honra em servi-lhe essa noite, Aizen sama." – falou o rapaz para o senhor feudal.
"O que Kurosaki ichigo diz é verdade, Aizen sama. Uma oportunidade como a que ele não é para qualquer um." – falou Ulquiorra indiferente, sem olhar para Ichigo.
Era óbvio que Ulquiorra não perderia a oportunidade de espezinhar o ruivo na frente do lorde. Ichigo baixou a vista um instante e ponderou que também não deveria se deixar diminuir daquele jeito na frente não só de Aizen, como de todos os outros ali presentes. Levantou então o rosto e sorriu.
"Concordo, Ulquiorra san. Se me permite, gostaria também de ter a honra de servir sake para Aizen sama. Isso se o senhor quiser."
Pegou em seguida uma das garrafas de porcelana que repousavam próximas a ele e a apontou para Aizen solicitamente.
" E como poderia recusar algo de alguém tão prestativo?" – o daimyo sorriu, estendendo a taça para que o ruivo o servisse, o que este fez com toda a graciosidade que sabia.
O daimyo então bebeu o sake, enquanto olhava intensamente para aquele interessante rapazinho de cabelo incomum.
"Ehe, He, mas que perigo... Pelo visto o seu irmãozinho sabe das coisas, Izuru chan." – comentou Gin, se divertindo com a expressão de raiva contida de Ulquiorra ao ver a notória atenção que Ichigo ganhava por parte de Aizen.
O movimento da kagemajaya já havia diminuído bastante quando Aizen se retirou do salão, sendo acompanhado por Ulquiorra até seus aposentos particulares.
Como sempre fazia, o rapaz de cabelos negros foi providenciar o chá para seu danna. Aquela rotina já havia se tornado numa espécie de ritual. Aizen sempre tomava chá quando se encontrava a sós com Ulquiorra antes de qualquer outra coisa. O lorde apreciava muito a cerimônia do chá, a qual o kagema fazia primorosamente.
Mas enquanto se ocupava com a preparação, o kagema notou algo de diferente em seu danna. A um primeiro momento, poderia ser que o lorde estivesse simplesmente absorto, acompanhando a feitura do chá, mas Ulquiorra o conhecia bem o suficiente para saber que não era isso. Seu corpo estava ali, mas a mente do daimyo estava em outro lugar. Melhor dizendo, com alguém.
Ulquiorra apenas podia engolir em seco e continuar com sua expressão impassível. Aprendeu desde muito cedo que não deveria demonstrar suas verdadeiras emoções, escondendo tudo detrás de uma linda e gélida máscara de distanciamento. As explosões de sentimentos eram coisas de gente que ele considerava lixo. Saber controlar suas emoções não eram apenas regra de etiqueta para ele. Era uma arte.
Entregou o recipiente de porcelana com o chá fumegante para Aizen, que como sempre fazia, lhe direcionava um sorriso. Mas aquele sorriso parecia seco e artificial aquela noite. Ulquiorra permanecia em silêncio, como era de seu costume, apenas observando o senhor feudal tomar tranquilamente o seu chá.
E como Ulquiorra esperava, Aizen entregou a taça para ele. Se aproximou altivo e calmo para junto do rapaz. O moreno inspirou profundamente quando uma das mãos de Aizen, grande e longa, tocou seu rosto, e desceu pelo pescoço num movimento lento, mas urgente. A mão seguiu descendo mais, fazendo a aba do quimono de Ulquiorra deslizar, deixando a branca pele à mostra dos olhos do daimyo.
O rapaz fechou os olhos quando sentiu os lábios de Aizen em sua pele, enquanto com a outra mão, ele desatava o obi que prendia o belo quimono que usava. O mais novo abriu os lábios, deixando escapar um gemido suave por eles.
Por mais que tentasse afastar aquela idéia, o toque das mãos do lorde em seu corpo não eram os mesmos de antes. Aizen tocava, beijava, acariciava outro que não era Ulquiorra.
O lorde deitou o kagema no futon revestido de seda. Pos uma das mãos no rosto do rapaz, deslizando os dedos na pele alva, até pousarem em seus lábios. Ulquiorra abriu os olhos e encontrou o olhar de Aizen novamente distante, perdido em pensamentos. Fechou novamente os olhos e virou o rosto para o lado, sentindo o peso do corpo grande e forte do senhor feudal sobre o seu.
Ulquiorra,aquele momento, não pode nada mais fazer do que assentir as vontades de seu danna.
Ichigo gostava daquele silêncio durante a noite, depois que todos se recolhiam. Fazia isso sempre que o sono não vinha. Caminhava silencioso como um gato por entre os corredores da kagemajaya. Alguns quartos permaneciam com a luz de lanterna acesa, de onde ainda podiam se ouvir gemidos abafados de seu interior. O jovem seguiu seu caminho, indo em direção da parte externa, onde ficava o jardim. Mas enquanto caminhava, acabou por se deparar com duas figuras inquietas, que se lançavam contra um dos painéis de madeira . Ichigo se aproximou devagar, mesmo que no seu íntimo não deveria fazer aquilo, até que reconheceu os dois.
Luppi sorriu para Ichigo, triunfante . Estava com o quimono em completo desalinho, que deixava entrever o corpo coberto de marcas avermelhadas. Estava suspenso pela cintura, uma das pernas enlaçada no corpo de Grimmjow, que estava com uma expressão estática, lívida, a olhar para o ruivo.
Ichigo sentiu o rosto em brasa, ao ver aquela cena. Teve vontade de esmurrar Luppi até desfazer aquele sorriso cínico que ele fazia questão de ostentar. A maneira como os dois estavam agarrados momentos antes faziam o sangue do ruivo ferver de raiva. O rapaz passou direto por eles e só não seguiu seu caminho porque Grimmjow o puxou pelo braço, deixando Luppi cair no chão, ignorando os seus protestos.
"Por que está querendo fugir agora? Ficou assim tão indignado por me ver com outro?"
"Você pode ficar com quem quiser, danna. Mesmo se for com o tipinho mais baixo dessa casa."
"É o que me sobra quando os outros preferem um cliente com maior status, não?"
Ichigo franziu a testa com aquela insinuação. A força do samurai em seu braço aumentava, assim como o brilho cortante do azul de seus olhos ferozes.
"Por que diz isso? Por acaso você acha que eu tenho interesse simplesmente por ele ser um nobre? "
"Tsc. E não é assim como vocês fazem? Vão atrás de quem possa dar a melhor oferta. E eu cheguei a pensar que você era diferente, garoto."
"Também achei que você era diferente." falou Ichigo, erguendo bem a cabeça para que Grimmjow olhasse bem em seus olhos. – "Passei anos admirando uma pessoa que não existe! Você é como todos os outros que freqüentam esse lugar. Querem apenas um rapaz bonito pra se divertirem e achar que tem algum direito de posse sobre ele." – Ichigo então viu Luppi de pé, próximo a eles e acompanhando toda a discussão com curiosidade quase mórbida . Voltou –se novamente para o samurai. – "A sua companhia está esperando. Agora me solte!"
"Não!"
Grimmjow apertou o braço de Ichigo com mais força. Nesse instante, mais alguém havia chegado .
" O que está acontecendo aqui? Grimmjow..."
"Aizen sama?"
"Solte-o." – a voz de Aizen era calma, porém cheia de enérgica autoridade.
O samurai obedeceu, ainda que relutante, e deixou Ichigo livre.
"Eu o trouxe para esta casa de chá como meu convidado, Grimmjow. Mas isso não te dá o direito a cometer excessos aqui. Fui claro?"
Grimmjow permanecia em silêncio, de cabeça baixa. Inspirava o ar profundamente, na tentativa de arrefecer a raiva diante da repreensão. Fez uma reverência. Em seguida, pegou Luppi pelo braço e se retirou. Ichigo ainda olhava os dois indo embora quando ouviu a voz grave do damyo. O rapaz voltou-se para o lorde imediatamente.
"Ele o machucou?"
"Não... Não senhor."
" Grimmjow tem ótimas qualidades de guerreiro, mas seu temperamento é difícil de se lidar."
" Como um tigre enjaulado pronto para escapar na primeira oportunidade..." – respondeu Ichigo tendo que concordar com o lorde feudal.
Aizen sorriu com aquela observação. Aquele rapazinho se mostrava cada vez mais interessante a seus olhos.
"O senhor está precisando de alguma coisa, Aizen sama?"
"Não, não tem com o que se preocupar. Só sai para apreciar um pouco a noite."
"Posso lhe fazer companhia? Ah.. quero dizer... isso se o senhor me permitir..." – Ichigo corou e gaguejava um pouco ao falar. Que ótimo. Ficou parecendo um idiota na frente do lorde.
"Para mim, seria uma ótima maneira de terminar a noite."
Ichigo permaneceu alguns instantes mudo diante daquela presença forte, quase hipnótica daquele homem. Pigarreou e falou:
"Eu estava indo para o jardim. Respirar um pouco de ar fresco. Se for de seu agrado..."
" Claro que é. Com uma companhia tão agradável quanto a sua, iria até ao feio dos lugares."
Ichigo não pode deixar de sorrir. Era fácil de supor porque tantos eram encantados com aquele homem. Era gentil e cortês com todos. Era mesmo um nobre em todos os seus gestos e em suas palavras. O ruivo acenou com a cabeça, pedindo que o lorde o acompanhasse.
Seguiram por um corredor, até chegarem a uma das portas que davam acesso ao jardim interno. A luz do luar conferia outra atmosfera ao jardim, como se aquele lugar fosse a porta para outro mundo. A única árvore que se destacava dentre as outras plantas era o ácer com suas cores que iam do alaranjado ao vermelho, contrastando com manto prateado do luar que parecia cobrir as outras folhagens.
Passaram o tempo em silêncio, apreciando a visão serena do jardim. Ichigo ainda arriscava olhar para o lorde, esquivando-se ao menor sinal de movimento que ele fizesse.
Uma leve brisa soprou, trazendo consigo algumas folhas avermelhadas que ainda teimavam em permanecer nos galhos do ácer do jardim. Aizen abaixou-se e pegou uma delas, que havia pousado entre eles. Era uma pequenina folha de cinco pontas de um vermelho vivo. Estendeu o braço e a pôs entre os fios acobreados do rapazinho, que não pode fazer muito além de quase não respirar, enquanto observava o daimyo, agora diretamente.
"Você tem a beleza do outono... " falou o lorde, deslizando a mão sobre o rosto de Ichigo, admirando o toque aveludado de sua pele.
"Generosidade sua, Aizen sama... Mas o senhor pensa diferente da maioria .No jardim dessa casa, sou a erva daninha. " Ichigo falou, dando um sorriso irônico.
" Pois eu farei de você o crisântemo."
Ichigo sentiu o rosto arder de excitada surpresa. Não devia ser do feitio de um homem como aquele, um nobre, falar aquilo da boca para fora. O rapaz não soube como responder aquela afirmação, apenas baixou a cabeça, como um sinal de humilde agradecimento.
O daimyo olhou para o céu. A lua era já ia muito distante em sua rota noturna.
"Realmente, já está muito tarde. Devo ir."
" Gostaria que o acompanhasse até o aposento de Ulquiorra san?" Ichigo falou solicitamente, ainda com os olhos no chão.
" Não será necessário. Eu já conheço praticamente toda essa casa." Aizen moveu-se para seguir seu caminho. Mas antes de se retirar, o lorde ergueu o queixo do rapaz para que ele o olhasse em seus olhos — Lembre-se do eu te falei. É uma promessa.
"... Sim..." Ichigo falou em meio a um suspiro. Um calor irradiava de seu peito, e ele, não soube explicar ao certo o que era, se alegria, expectativa, ou medo diante daquela promessa.
Ichigo esperou que Aizen sumisse de sua visão, e só depois saiu, fechando a porta corrediça atrás de si, deixando para trás uma figura furtiva no jardim, que os observava a uma certa distância. A pessoa misteriosa levou o pequeno cachimbo aos lábios, tragando o fumo, soltando-o em seguida, deixando –se entreter pela visão da fumaça se dispersando e desaparecendo pelo ar daquela noite amena.
"Hn. As coisas irão mudar a partir de agora nessa casa. " ponderou consigo mesmo,antes de dar uma ultima visão no jardim, e se retirar.
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