O Crisântemo Proibido

5 Crisântemos para o Daimyo


A cada sopro do vento
muda de lugar
a borboleta no salgueiro

(Bashô)

XXXXXX

Os kagemas se perfilavam sentados numa das salas que tinham vista para o jardim central. O clima estava esfriando rápido, talvez antevendo um rigoroso inverno que estava por vir. Alguns permaneciam quietos, aguardando a chegada dos proprietários, já outros davam-se a cochichar conversas paralelas.

- Os donos estão se demorando muito. Ah! Odeio ficar esperando. – Yumichikka mexia em uma mecha de seus cabelos enquanto resmungava a meia voz.

- Será que não adivinha? Eles sempre fazem isso quando algum cliente importante esta para visitar a casa de chá, Yumichika nii-san. – sussurrou Luppi com parte do rosto velado pela manga do quimono.

- Acredito que seja o mais importante desta casa. O patrono do nosso querido Ulquiorra san... – complementou Szayel maliciosamente, enquanto meneava a cabeça em direção ao pálido kagema que estava sentado sobriamente em um local a parte, aparentemente alheio ao que se passava em sua volta.

- Isso explica o porquê dele estar aqui também! Ele se acha tão superior para estar junto dos outros... – Ayasegawa falou isso enquanto ajeitava o cabelo muito sedoso num jeito coquete.

- Já considera Ulquiorra san como seu rival, Ayasegawa san ?- disse Szayel entre gracejos- Soube que irá fazer uma apresentação de dança para o daimyo e seus convidados. Que honra...

- Ah sim! É verdade. Claro que eles iriam me escolher porque eu sou um dos mais belos e talentosos kagemas de Yoshi-cho . Aguentar os faniquitos do Hirako jiji é por uma boa causa. A minha causa. O daimyo vai ficar impressionado com minha desenvoltura e beleza.

Luppi deu uma risadinha, deixando entrever seus dentes muito brancos e respondeu:

- Em compensação, não será você que estará ao lado dele o tempo todo... E nem será você que vai se enroscar entre os lençóis com ele...

Ao ouvir aquilo, Yumichikka fez questão de expressar seu desagrado, soltando um muxoxo.

-Hn! Sinceramente, não sei o que o daimyo viu nele. Tão branquelo, parece até que está doente. Fora essa cara de baiacu de fim de feira que ele tem...

- Além do mais, a idade está chegando pra ele. Já deve estar mentindo a idade, diminuindo alguns aninhos, acredito eu... – Szayel deu uma piscadela marota, complementando Yumichikka.

Os três então riram baixinho, cúmplices em sua maledicência. Luppi então se achegou mais e falou:

- Viram quem está aqui também? Ichigo...

- Não acredito... Ele nem deveria estar aqui, é só um iniciante ainda!- falou Yumichikka.

O kagema de cabelos rosados fez um leve gesto com uma das mãos, pedindo atenção para o que ia confidenciar:

- Dizem que todo aquele dinheiro pago na mizuage dele não valeu tanto a pena... Ichigo não agradou na sua estréia. Porque você acha que o patrono dele nunca mais apareceu por aqui? É óbvio que ele não gostou dos serviços do ruivinho... Isso é péssimo para o prestígio da kagemajaya...- Szayel falava baixinho para seus interlocutores, com sua voz suave dispersando o veneno intrínseco em cada palavra que proferia.

- Acho que a casa perdeu um cliente. Que pena, ele me pareceu tão interessante. Queria eu que ele fosse meu cliente. Iria mostrar o que um kagema de verdade pode fazer... – falou Luppi sorrindo maliciosamente, enquanto brincava com uma mecha de seu cabelo muito negro.

- E agora que Szayel san mencionou, também não vi uma grande procura pelo Ichigo. E os poucos que apareceram, ele os escorraçou, acreditam? – falou Yumichikka para sua pequena platéia, com a mão em palma no rosto.

- Se continuar assim, ele não vai conseguir pagar nem a comida que come. Que lástima ... Os donos não estão nada satisfeitos. – lamentava falsamente Szayel balançando a cabeça em sinal de reprovação.

- Mas o que se podia esperar de um kagema cujo nii san é o Izuru?- alfinetou Ayasegawa, muito cheio de si .- É uma mosquinha morta mesmo... Imaginem se ele teria competência suficiente pra ensinar os truques do ofício pro ruivo. Mas antes ele do que eu!

Os três riram novamente. Continuavam com a conversa carregada de malicia, sendo alvo do olhar desconfiado de Ichigo.

Risadas vindas de qualquer um daquele trio não era por motivo inocente. Porém, Ichigo não teve tempo para amadurecer suas suposições , pois Urahara entrou seguido de Youruichi na sala. Ambos se posicionaram de frente para os garotos. O dono da casa de chá se ajeitou, pigarreou e por fim falou:

- Eu reuni vocês aqui para falar da grande recepção que faremos amanhã à noite. Receberemos a honrosa visita do daimyo Sousuke Aizen, que deve estar ansioso para rever nossos adoráveis garotos.

- Acho melhor se referir no singular, Kisuke sama, ou alguém pode ficar ciumento...

- Ciúmes são para aqueles que se sentem inseguros de sua posição, Szayel san.- respondeu Ulquiorra tranquilamente.

O rapaz de cabelos rosados sorriu para o rival, como sempre fazia, e em seguida respondeu com o tom mais doce que conseguia:

- Por que acha que estou com indiretas para você, Ulquiorra san? Muitos aqui morrem de amores pelo daimyo, que é um nobre tão galante...

O moreno apenas olhou o outro de soslaio. Youruichi então tomou a palavra, a fim de diminuir logo os ânimos:

- Podem deixar meu marido continuar?

Quando todos haviam se calado, o proprietário deu continuidade ao assunto:

- Recebi uma mensagem de um de seus servos, solicitando-nos uma recepção para ele e alguns convidados. Como todos já perceberam, não será uma visita rotineira. Por isso quero que todos vocês dêem o seu melhor!

Observando as diversas reações vindas dos outros garotos, Ichigo ponderou consigo mesmo como o nome do Lorde Feudal fomentava as pessoas daquela casa, especialmente os kagemas. Aizen Sousuke provinha de umas das mais tradicionais e poderosas famílias de Edo, tendo ligações próximas até mesmo com os Tokugawa, que se mantinham no controle da nação havia gerações. O ruivo se lembrou de o ter visto uma vez, em companhia de Ulquiorra, muito de relance, quando ainda era menino. Lembrou-se também quando o próprio Ulquiorra encerrou a porta de correr na cara dele, impedindo que olhasse o que se passava no interior. Não era o costume daquela kagemajaya que crianças recém chegadas ou aprendizes muito jovens ficassem no caminho de alguém tão importante. Somente os primeiros na hierarquia eram considerados adequados.

- Para acompanhar os convidados, só os mais populares e experientes. Os outros terão que cumprir a rotina normal, afinal, temos outros clientes a atender.- complementou Youruichi.

Houve um burburinho geral entre os garotos. Todos ali sabiam ao certo quem seria escolhido para a recepção. Izuru olhou para Ichigo, que estava a olhar para as mãos apoiadas no colo. O louro sabia que o mais jovem não seria nem ao menos cogitado para aquela recepção e sentiu que era seu dever fazer algo por ele.

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- Eu sinto que alguém esta com a cabecinha no mundo da lua hoje...

- Ah? P-perdão danna sama.

Izuru estava em seus aposentos, juntamente com Ichimaru, seu patrono. O kagema preparava o chá, de maneira um tanto distraída, mexendo e remexendo as ervas na água quente a esmo na delicada tigela de porcelana. Ao perceber o desleixo, ele tentou imediatamente refazer o trabalho como sempre fazia, na mais perfeita ordem. Gin então riu-se.

- Iare, iare, Izuru chan. Não se desculpe. Pra falar a verdade, eu até gosto de ver você assim. Fica tão lindo esse seu ar sonhador...

O louro ficou com as bochechas em chamas. Mesmo com tanto tempo de convivência, Ichimaru Gin ainda conseguia mexer com o kagema. Depois de rir da timidez do kagema, Gin lhe perguntou o que se passava:

- Tem alguma coisa que está te afligindo, eu te conheço bem...

Izuru relutou um pouco em falar. Afinal, sempre fora recomendado que não falasse de assuntos internos ou pessoais para os cliente. Mas preferiu ao menos partilhar o que sentia, a fim de se livrar um pouco da angústia que tomava conta de si. Parou de mexer o chá e voltou-se para seu patrono:

- Ichigo...

- Quem?

- O meu irmão mais novo.

- Aah... o de cabelo ruivo. Agora eu me lembro dele... – o samurai de cabelo prateado abriu ainda mais seu largo sorriso. — Mas o que está acontecendo? Causando problemas?

-Não, não. Longe disso... É que a situação dele me preocupa. É muito difícil para um kagema ter estabilidade num lugar onde todos parecem querer te derrubar. Ichigo precisa de um bom patrono, alguém que possa dar segurança para ele...

- Meu Izuru chan além de ser tão lindo e adorável também um coração generoso e compassivo. Será que mereço tanto? – Ichimaru pousou a mão longa e ossuda no delicado rosto do mais jovem, sem nunca tirar o sorriso desconcertante de sua expressão e continuou:

- O meu senhor seria o patrono ideal para seu irmão mais novo, Izuru chan. Acredito que Ichigo faz bem o tipo que ele gosta.

- Oh, o daimyo?- Izuru mal pode acreditar no que ouviu.- Faria isso mesmo por ele, danna san? Fico muito grato...

Kira então de se curvou respeitosamente, com o rosto bem próximo ao chão diante do patrono, que logo o tirou daquela posição.

- Podemos deixar as formalidades para uma outra ocasião, Izuru. Agora eu quero que me conte que tipo de entretenimento será apresentado na recepção de Lorde Aizen e quem se apresentará...

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Yumichikka saracoteava e cantarolava com sua voz maviosa pelos corredores da kagemajaya. Estava realmente empolgado para a noite da véspera. Seria o ápice de sua esplendorosa carreira como kagema. Mal podia esperar para ver o encantamento e a inveja que causaria. O vaidoso jovem amava se exibir, ou como ele próprio gostava de dizer, "dar o privilégio de sua beleza para os olhos dos outros".

Estava ainda sonhando alto quando alguém peculiar cruzou seu caminho. A boca de serpente se alargou sorridente em um cumprimento informal, atípico de alguém de sua posição:

- Ah, mas a minha tarde ficou muito mais agradável com uma visão tão encantadora quanto a sua.

O jovem de cabelos escuros riu-se deliciado com o elogio. Adorava receber elogios, mais ainda quando estes eram vindos do patrono de qualquer outro kagema. Lógico que todos eles admiram sua graça e beleza extraordinárias. Ficou ainda mais embriagado de vaidade ao ver que aquele era o patrono de Kira Izuru. Agradeceu e falou num gracejo:

- Me sinto realmente honrado de ter deixado sua tarde muito mais agradável, meu senhor.

Ichimaru então rodeou o jovem num movimento ao mesmo tempo sorrateiro e deslizante . Direcionou-se então para Yumichika e lhe falou:

- O daimyo vai ficar enfeitiçado com você. Temo até pela administração dos negócios dele... Ele não vai conseguir se concentrar depois de ter tal deleite ao vê-lo.

- Nossa casa é conhecida pela qualidade de suas diversões. Sempre oferecemos o melhor para nossos clientes. Bem, é verdade que uns são melhores que outros, não é?

- Claro, claro. E é por isso que estou aqui para lhe ajudar.

O rapaz fitou o outro com curiosidade. Interrogou sobre o tipo de ajuda. Foi então que o samurai de cabelos prateados sacou de dentro de seu haori um pequeno envelope em papel de arroz.

- Aqui. Dentro deste envelope está uma erva raríssima, encontrada somente na China. É muito especial.

- Pra mim? Oh, muito obrigado, Ichimaru san. Para que serve?- falava o rpaz enquanto olhava pra o envelope que passava entre os dedos.

- Essa erva é usada num chá que aviva a delicadeza da pele. Ela fica macia e aveludada como um pêssego. A própria Imperatriz a usa com freqüência. É o segredo de sua beleza.

Os olhos de Yumichikka se iluminaram ao ouvir aquilo. Tomando aquele chá, iria ficar ainda mais belo e esplendoroso na noite da festa. Segurava o envelope em suas mãos como o objeto mais valioso da face da terra. Viu quando Gin fez um sinal para se aproximar.

- Estou fazendo isso porque quero que meu senhor tenha uma noite perfeita. Não vá contar a ninguém que eu te dei isso. Pode me guardar esse segredo?

-Mas é claro! Claro que guardo segredo, Ichimaru sama!

Yumichikka então curvou-se graciosamente, guardou o envelope no kimono e saiu quase correndo, ansioso para provar daquela substância preciosa. Ao ver a partida do rapaz, o samurai riu uma risada matreira por entre os dentes.

Mais adiante, estava Izuru que havia ficado escondido, observando a conversa.

- Perdão por me intrometer, danna sama, mas o que tinha naquele envelope que o senhor entregou para o Yumichikka san?

O samurai de cabelos prateados fez a mesma expressão de uma criança que acaba de fazer uma travessura.

- Por enquanto não posso falar,nem mesmo pra você, Kira chan. Mas garanto que logo, logo, você saberá o que é...

Izuru fitou seu patrono interrogativamente. Gin então fez um sinal para que o acompanhasse, e então o enlaçou pela cintura delgada.

- Fiz minha boa ação do dia. Não acha que mereço uma recompensa?

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Passaram-se as horas e o momento da tão esperada recepção havia chegado. Os trabalhos e os preparativos foram intensos, desde a limpeza até a ornamentação e preparação das vestimentas. Tudo deveria estar impecável, perfeito, digno de um lorde feudal. So donos estavam discutindo os detalhes finais da recepção, quando uma jovem serva adentrou no escritório de Urahara esbaforida. Cumprimentou-os com uma rápida reverencia e seguida falou:

- Urahara sama, Youruichi sama! Yumichikka san não está se sentindo bem... E ... E ele mandou avisar que sente muito, mas não vai poder se apresentar esta noite... – a jovenzinha titubeava em cada palavra.

- Como assim não vai poder se apresentar?- falou Youruichi franzindo uma das sobrancelhas.

- Ele estava tão empolgado com essa apresentação, realmente não entendo... – Urahara coçava a cabeça, visivelmente confuso e preocupado.

- Isso deve ser mais um chilique do Yumichikka. Ele adora fazer esse tipo de coisa. Mas dessa vez, isso não vai adiantar. Vou falar com ele agora mesmo! Me acompanhe Sayako! — falou Youruichi séria para a garota.

Chegando a porta do quarto de Yumichikka, a senhora da casa de chá pode ouvir um gemido de dor. Ainda na porta, chamou pelo rapaz, que se recusou em responder.

- Yumichikka, pode me dizer o porquê de você não se apresentar para o daimyo hoje?

- Por favor, Yourichi sama, não estou muito bem... Sinto muito , mas não posso dar mais detalhes...

A resistência por parte do kagema fez com que Yourichi perdesse a paciência. Abriu a porta de correr e encontrou yumichikka prostrado no futon.

- mas o que esta acontecendo Yumichikka?

- E-eu estou doente... Muito doente!

- Mas me diga o que você tem!- insistia Youruichi com o rapaz.

- Ele esta com dor de barriga, Youruichi-sama... – falou por fim a jovem criada.

- EU DISSE QUE NÃO ERA PRA DAR DETALHES, SUA TONTA!- gritou Yumichikka furioso e constrangido com a pobre serva, que se encolheu por trás de Youruichi que olhava para ambos, incrédula. Em outra situação, ela poderia ter achado tudo muito engraçado, mas infelizmente, aquela indisposição veio na pior hora possível.

- Que vergonhaaaa! Isso nunca deveria acontecer a uma pessoa tão bela quanto eu... –choramingava Yumichikka enquanto se encolhia no futon sentindo dores.

Realmente , dor de barriga não era nada bonita de se ver, e muito menos de se sentir. Yumichikka gemeu de dor novamente, enquanto tentava esconder o rosto por entre as cobertas. Sem outra alternativa, Youruichi teve que dispensar o rapaz.

- Está bem Yumichikka, descanse por hoje. Sayako, providencie alguma medicação pra ele, sim?

Depois de sair dos aposentos de Yumichikka, Yourichi voltou para o escritório onde encontrou seu marido, contando-lhe sobre o que aconteceu.

- E agora? O daimyo está pra chegar logo! Praticamente atravessando os portões do bairro!Quem poderíamos chamar pra substituir Yumichikka?

- Os melhores garotos já estarão ocupados com os convidados. Seria uma afronta deixar um deles sem companhia.

- Ah, já sei! Ichigo! Ele é jovenzinho e bonito! O daimyo vai gostar! Você sabe que ele adora novidades...

- Ficou doido, Urahara? Ichigo ainda é muito inexperiente! Quer que aconteça um desastre? Só beleza não conquista alguém de gosto refinado como Lorde Aizen.

- Acho que vocês poderiam tentar o Ichigo...

Os dois se voltaram para entrada do escritório. Lá estava Shinji encostado a porta, soltando a fumaça de tabaco do longo cachimbo que trazia em uma das mãos.

- Perdoem-me a intromissão, mas não pude deixar de ouvir a conversa... — falou o loiro, entrando no escritório e sentando-se elegantemente no piso de madeira. – Acho que devemos ter um pouco de riscos e fazer nossas apostas.

- Tem certeza, Hirako –san? – falou Youruichi ainda um tanto insegura quanto a escolha.

- Bem, Ichigo pode ser um cabeça dura, esquentado, atrevido e mal criado,mas talento pra dança ele tem...- falou Shinji abrindo o sorriso matreiro.

- Se você está falando, Hirako san, eu acredito. Vou chamá-lo agora mesmo.

- Isso! Mande-o chamá-lo o quanto antes!-emendou Urahara alegremente- ...Mas e quanto a coreografia?

- Ou ele aprende em pouco tempo, ou não me chamo Hirako Shinji! – falou o loiro confiante, pondo o cachimbo graciosamente entre os lábios finos.

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Ichigo retornava da sala de banho trajando um quimono simples e com os cabelos soltos e ainda úmidos. Estava alheio a toda correria e movimentação dos empregados. Seguiu para o pequeno alojamento. Entre seus pertences, estava o crucifixo prateado, guardado numa pequena caixa, juntamente com o enfeite de cabelo que pertenceu a sua mãe. Pegou a jóia e passou a enroscar a corrente entre os dedos. Por anos aquele objeto desconhecido significou esperança, força, admiração, amor... Mas agora não tinha certeza do que sentia. Vários sentimentos se embolavam em seu peito enquanto segurava aquele objeto de metal frio.

A primeira vez que ele próprio experimentara o corpo do amor carnal ainda deixava sua marca em sua pele, em sua mente. Bastava apenas a mera lembrança daquele momento para fazer seu corpo palpitar acalorado. Em contrapartida, nunca se sentiu tão solitário depois disso, quando acordou sozinho no quarto, tendo somente o crucifixo com seu brilho metálico e indiferente. Prateado, inerte. Dolorosamente inerte.

Escondeu o que sentia até mesmo de Izuru, que se mostrava tão próximo, com o velho discurso de que era apenas um cliente, apenas uma noite. Queria se mostrar o tempo todo seguro de si perante os outros, como uma lei de sobrevivência, mas a partir do momento em que se encontrava fora da vista de todos, se entregava a dúvida, ao receio e a desilusão. Tudo não passou apenas de uma mera atração física. Seu sonho se desmoronou aos poucos na sequência de dias após aquela noite. Seu olhar fixava para fora da grande janela gradeada que dava para a vida do lado de fora da kagemajaya a cada noite, procurando por Grimmjow, sendo que este não mais apareceu. Passou anos admirando um ser que só existia em seu castelo de ilusões infantis.

- Ele só queria te foder mesmo, seu idiota... – falou o ruivo para si mesmo, enquanto jogava o objeto dentro da caixa, encerrando-a. – Se não fosse isso, ele teria voltado.

-ICHIGOOO...

Ichigo voltou-se surpreso para a voz que o chamava. Era de Youruichi. Só levantou-se quando a proprietária novamente chamou por seu nome. Desceu apressado para encontrar-se com Youruichi, que trajava um belo e formal quimono negro, que ela usava somente em ocasiões bastante especiais.

- Pode considerar hoje como sendo seu dia de sorte Ichigo! Houveram algumas mudanças na recepção para Lorde Aizen e você é quem fará a apresentação de dança para ele.