Floresce a ameixeira

E canta o rouxinol

Mas estou só.

Issa

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Era uma manhã pálida e fria de inverno. Duas pessoas caminhavam por uma estrada precária, tendo por única companhia as árvores desfolhadas e um corvo a crocitar ao longe. Eram uma mulher e uma criança.

A criança levantou o rosto para ver sua mãe. Estava muito magra e pálida. Olheiras profundas marcavam seus serenos olhos. Caminhava devagar, com dificuldade, e o simples ato de segurar a mão de seu filho parecia um esforço sobre humano para ela.

Mais a frente, estava um grupo de pessoas. A maior parte era de mulheres e crianças. Ao ver os dois, um homem corpulento fez um sinal, acenando com a mão, pedindo que se apressassem.

Ao se aproximarem do grupo, a mulher abaixou-se a fim de poder olhar para seu filho. O encarou por alguns instantes e por fim lhe falou:

- Ichigo, aconteça o que acontecer, nunca perca a pureza de seu coração... Jamais se deixe corromper!

Ele só a olhava confusamente, com seus grandes e brilhantes olhos castanhos. Viu quando ela mordeu o lábio inferior e tirou algo embrulhado em um tecido de dentro de seu quimono escuro e puído.

- Leve com você... Usei isso no dia do meu casamento. Foi um dos dias mais felizes de minha vida... — O menino abriu o tecido, e viu um bonito enfeite de cabelo dourado.

-Por que está chorando mamãe?

- Porque te amo muito, Ichigo... Espero que possa me perdoar um dia, ou pelo menos entender porque fiz isso.

Ela o abraçou com a pouca força que ainda lhe restava. Impaciente, o homem então tirou a criança dos braços da mulher, que ainda soluçou baixinho.

-Já se despediu o suficiente! Vamos!- Ele então atirou um saquinho em direção a ela, que desatou num choro convulso.

-Mamãe? V-você não vai vir também?

- Não posso meu filho...

Ichigo foi puxado com mais força pelo braço, para junto do grupo. Não entendia porque estava acontecendo aquilo. Via sua mãe num choro conformado e não entendia porque ela não impedia que aquele homem o levasse embora. Começou a gritar e a chorar pela mãe,desesperado. Levou um safanão do homem que lhe disse:

- Você acabou de ser vendido, garoto... Os tempos estão muito difíceis... E a julgar pela aparência de sua mãe, ela não dura mais que uma semana. Então, trate logo de engolir esse choro e se conformar!

Horrorizado, o menino viu a mão do homem se desvanecer em uma fumaça negra, que se espalhou, escurecendo tudo ao redor. A escuridão passou então a envolvê-lo, sufocá-lo, até que não visse mais nada além do vazio...

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Ichigo acordou sobressaltado. Algumas gotas de suor se formaram em sua testa. Viu os primeiros raios da manhã passarem pelas frestas da janela. A triste lembrança da separação de sua mãe se misturava aos sonhos ruins que quase sempre o assombravam a noite.

- Outra vez esse pesadelo...

O ruivo gemeu ao sentir a dor ocasionada pelas pancadas do castigo que levou. Pegou uma compressa disposta ao lado do seu futon e pôs em cima de onde estava doendo. Izuru providenciou compressas com gengibre assim que soube que Ichigo havia sido liberado do castigo.

Aquele dia seria difícil de suportar. Mas agora tinha a esperança de ver novamente o samurai de olhos azuis.

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- Argh! Que dor de cabeça filha de uma puta...

Grimmjow acordou resmungando em seu aposento. Nem ele mesmo acreditava que havia conseguido achar o caminho de volta. Prometeu a si mesmo que não entraria mais em jogos ou apostas com bebida pelo meio. Claro que aquilo seria uma promessa malograda, como foram muitas outras. Teria que ir atrás de algum chá dessas ervas desgostosas se quisesse se ver livre daquele incômodo.

Sorte dele que seu senhor estava viajando.

Olhou então para suas espadas dispostas ao lado do futon e junto delas percebeu um crisântemo amarelo que começava a escurecer algumas de suas pétalas. Imediatamente lhe veio a mente a figura de um certo kagema ruivo, que teve a ousadia de lhe bater bem na boca do estomago. Que belo atrevido...

Mais uma vez se esforçou para lembrar de onde tinha visto aquele rosto, aquele cabelo tão peculiar. Que perfume tinham ... Ainda estava com aquele cheiro delicioso impregnado no nariz. Lembrou-se que ele estava para celebrar a mizuage. Nenhuma palavra lhe parecia tão doce como aquela no momento...

Grimmjow sempre foi um obstinado. Quando queria uma coisa, não descansava enquanto não alcançasse seu objetivo, por mais difícil que fosse. A vida o havia moldado assim. Se para alguns isso não passava de simples teimosia, para ele, era questão de honra provar a si mesmo e aos outros que podia superar qualquer obstáculo e conquistar sua meta . Com aquele garoto não seria diferente.

- Vou gastar até o que não tenho pra você ser meu, ruivinho... – falava sozinho com um largo sorriso, a olhar a flor amarela entre seus dedos.

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-Não, não e não!!! Esse não é o movimento correto dessa sequência Ichigo! Preste atenção na coreografia.

Hirako Shinji balançava o leque no ar dramaticamente enquanto repreendia Ichigo. Acordar cheio de dores e ainda aturar os ataques do professor de dança era o fim da picada! Aquilo só pode ter sido pirraça de Youruichi, que não ficou satisfeita só com o castigo físico.

- O seu desempenho do hoje está péssimo, Ichigo... E nem venha defendê-lo, Kira!- Shinji virou-se para Izuru que estava sentado com o shamisen (*) em mãos, com o dedo indicador em riste.

- Mas eu não disse nada, Hirako san...

- Mas pensou em dizer! Ora! Até parece que não te conheço...

- Estou sentindo muitas dores, Hirako sensei! Será que não podia me dispensar da aula de hoje?

- Problema seu se apanhou, Ichigo. Não tenho nada a ver com isso. – Hirako abriu o leque e passou a se abanar, com ar de pouco caso.

- Talvez você poderia nos mostrar a sequência, Hirako sensei! Depois o Ichigo pode repetir! – sugeriu Izuru com docilidade. O mestre então meneou a cabeça afetadamente, jogando para o lado os longos e magníficos cabelos dourados.

- Hunf! Tem hora que vocês cansam minha beleza...- pousou a mão esquerda sobre o rosto, num modo elegante, evidenciando o longo e curvado enfeite dourado à moda chinesa, semelhante a uma garra de águia, que lhe cobria o dedo mindinho — Está bem! Farei a dança, mas somente essa vez, por isso, prestem bem atenção!

Hirako ordenou que Kira iniciasse a música, e então começou a mover-se lentamente, com graça e fluidez, evidenciados pelo seu corpo esguio e os belos cabelos soltos, esvoaçantes, que iam além da cintura, como um imponente salgueiro. Shinji sempre fora dado ao drama e ao rebuscamento, e a expressividade de sua dança era sua marca registrada. Pouquíssimos conseguiam exprimir tão bem quanto ele sentimentos como amor, tristeza ou raiva, tudo isso com uma graciosidade peculiar.

Sua habilidade como bailarino se aperfeiçoou ao longo de seus anos como kagema. Hirako já foi um dos mais populares do bairro de Yoshi-cho, e muitos dos hábitos de seu passado não se apagaram, como os trejeitos femininos e um tanto afetados e a recusa em usar quimonos masculinos, pois segundo ele, a vestimenta feminina se amoldava muito melhor a seu corpo, além de se apresentar mais vistosa aos olhos dos outros.

Com o leque em mãos, abriu-o com perícia e o pôs em frente ao rosto, e agiu como se estivesse mirando-se em um espelho. Alisava o rosto com a mão esquerda, embelezando-se para algum amante imaginário. Shinji parecia divagar, com seus olhos castanhos perdidos enquanto dançava, coisa que seus alunos perceberam enquanto o observavam.

Num volteio, Hirako envolve seu corpo com os braços, deixando que as mangas de seu quimono escondessem suas mãos e o leque que segurava. Meneava a cabeça de um lado para o outro, lentamente, com a expressão misteriosamente sonhadora.

Tal encanto só foi quebrado por uma voz melodiosa que se fazia anunciar pela sala. A face de Shinji mudou instantaneamente da doçura para a irritação profunda. Ele simplesmente detestava ser interrompido. A mudança foi tão visível que Izuru parou de tocar no mesmo instante. Ver o mestre zangado não era coisa nada boa de se ver.

- Bom dia, Hirako san... – cumprimentou melindrosamente um bonito e elegante rapaz de cabelos escuros, vestindo um quimono florido e de cores vivas.

- Boa tarde, quer dizer! Que audácia é essa que você tem de chegar entrando e interrompendo a minha aula, Yumichikka?- se aproximou do rapaz e bateu o leque na mão dele com força, como reprimenda. Ichigo prendeu o riso com os lábios. Izuru deu um leve tapinha na mão do ruivo, mas também tinha um sorriso mal disfarçado nos lábios.

-Ai!- gemeu o Yumichikka, cheio de drama. – Eu juro que tentei acordar cedo, mas não pude, Hirako san! Fiquei exausto pela noite anterior. Tenho tantos clientes apaixonados por mim... E uma beleza rara como a minha requer muito descanso, sabe...

- Hirako sensei!- Ergueu a mão esquerda com a ponteira dourada e ameaçadora, interrompendo Yumichikka – E nem mais uma palavra! Não estou com paciência de ouvir sua conversa idiota. Só vou aturar uma boneca afetada e frívola como você em respeito ao pedido de Youruichi san!

Yumichikka fez um beicinho e revirou os graciosos olhos, chateado com a bronca que levou. Realmente , Yumichikka Ayasegawa era um mimo. As feições de seu rosto eram tão delicadas que muitos o confundiam com uma mulher. Yumichikka tinha plena consciência de sua beleza e a exaltava sempre que podia; se julgava o kagema mais belo da Ohana no Kikku, e talvez do Japão inteiro.

- Viu só?! Finalmente Youruichi san reconheceu minhas qualidades! Me apresentar para alguém tão importante quanto um lorde feudal, e patrono de Ulquiorra san, ainda por cima... Aguarde Izuru, porque a minha apresentação será a mais perfeita que essa casa de chá teve noticia!

- Acredito que será uma bonita apresentação, Ayasegawa san... Ainda mais tendo Hirako sensei a lhe treinar; — respondeu Kira educadamente, mais por conveniência, do que por aprovação sincera. Sempre houve um clima de competição por parte de Yumichikka, apesar de do louro não dar a mínima a essas coisas. Quanto a Ichigo, simplesmente foi ignorado pelo ego inflado de Ayasegawa, que continuava a matraquear sobre seus inúmeros dotes.

Shinji pôs as mãos nos quadris, e estampando um sorriso irônico com sua boca cheia de dentes perfeitamente alinhados, falou para Yumichikka:

- Se fosse na minha época, até um kagema tão cheio de qualidades como você teria um castigo merecido por interromper uma aula, Ayasegawa. Mas mesmo assim, vou contar a Youruichi san sobre sua indisciplina.

- Ah,pra que ficar desencavando estórias velhas? O que é passado fica no passado, Hirako jiji (*)...

Yumichikka pôs a mão aos lábios depois de proferir a última palavra. Hirako apertou os olhos e moveu os lábios num esgar de ódio,rangendo os dentes, extremamente ofendido. Izuru e Ichigo se encolheram diante daquela reação aterradora. A raiva parecia ser muito mais terrível em alguém intenso e extravagante como Shinji. Parecia que o mestre ia destroçar o rapaz a qualquer instante.

O louro se aproximou e levemente pegou a mão de Yumichikka, que estava gelada de nervosismo. A garra de ouro perfurava levemente a pele da mão do rapaz. Se Shinji a empurrasse com mais força, o ferimento seria certo, e com certeza deixaria uma cicatriz. Aquilo não seria nada belo de se ver. Ayasegawa ainda tentou ensaiar alguma desculpa, mas a voz sussurrante e arrastada de Shinji o demoveu da idéia:

- Fale essa palavra mais uma vez e eu arranco sua língua fora...

Num gesto suave soltou a mão de Yumichikka e lhe deu as costas. Virou a cabeça em direção ao rapaz de cabelos escuros que ainda o olhava assustado e falou com a voz num tom displicente:

- Talvez os donos de hoje sejam menos severos que os de antigamente, mas garanto que o castigo não seria leve se Youruichi san descobrisse que você deixa de ver clientes importantes para ir ter com seus namoricos, Yumichikka...

-E-eu? Não sei do que está falando, Hirako sensei... – Ayasegawa ainda tentou desconversar, mas o nervosismo o traia a todo instante, tentando desviar seus olhos de Hirako.

- Você ainda anda se encontrando com aquele careca arruaceiro não é? Sinceramente, seu gosto é baixo por demais... E ainda por cima os encontros são no depósito das lanternas? Pfff... que coisa mais sem estilo.

Ichigo e Izuru ouviam a tudo constrangidos, o ruivo ainda mais que o louro. Dessa vez, Yumichikka ficou completamente desarmado com que ouviu de Shinji. Ver sua intimidade ser descortinada de um jeito tão escancarado pelo professor de dança fez com que fosse tomado pela raiva e pelo nervosismo. Com os olhos quase marejando rebateu as ironias de Hirako:

- Você já esta sendo cruel e amargo! Nunca amou alguém na vida?!

-Hunf! Amor... Amor!!! Esse é que o grande problema por aqui! – gritou Shinji como resposta. Passou a mão na testa bagunçando a franja dourada que a cobria. -Quer saber se eu amei, Ayasegawa? Sim, eu já amei... E isso foi a maior desgraça que pode acontecer na minha vida. Se eu me tornei uma pessoa amargurada, cruel, como você diz, culpe o amor por isso. Foi somente por amar demais que eu fiquei assim...

Um silêncio desconfortante assolou a sala. Hirako por fim, inspirou profundamente e falou de uma maneira quase solene aos mais jovens:

- Ouça meu conselho, Ayasegawa, que aliás, serve pra vocês dois também: Se querem ter um pouco de felicidade em suas vidas, nunca, jamais se apaixonem...

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Ichigo olhava para o céu da tarde no pátio que dava para o jardim central, meditativo. Lentamente, o azul começava a dar lugar a leves tonalidades violáceas e amareladas. As palavras de Hirako ainda ecoavam em sua mente. Não entregar-se ao sentimento, por quem quer que fosse. Tal afirmação lhe parecia muito conveniente para aquele lugar. E muito conveniente para ele também.

Convicto dessa afirmação, Ichigo foi em direção ao jardim. Queria só alguns momentos de tranqüilidade antes que a rotina frenética dos preparativos para a noite começasse.

Mais adiante, viu duas pessoas por entre os arbustos, que de inicio, não identificou quem seriam. Não querendo ser descoberto, Ichigo ficou por trás de um ácer,que pela época do outono, já despontava suas folhas num avermelhado vivo.

Olhando com mais atenção, o ruivo reconheceu as pessoas que estavam no jardim. Uma delas era Izuru. Seu acompanhante era um sujeito mais alto, esguio, de cabelos prateados e olhos miúdos. Estava sempre sorridente. Um sorriso perturbador, no entanto. A maneira como ele esboçava os dentes sardonicamente lembrava a boca de uma serpente prestes a dar o bote.

Por aquela expressão fixa e desconcertante, Ichigo reconheceu a identidade dele: o samurai Ichimaru Gin, cliente regular de Kira. Tinha o visto umas duas vezes, muito rapidamente, e antes de se ligar a Kira como irmão mais novo, mas o suficiente para que a imagem do samurai se fixasse em sua mente. Gin Ichimaru tinha algo de que Ichigo não gostava, ou pelo menos o incomodava. O ruivo lembrou-se também que Kira podia estar com quem fosse, bastava saber que o samurai se encontrava a sua espera, arrumava um jeito de se desfazer do compromisso ou dos afazeres e ia ter com ele.

Ichigo viu como ele brincava com os dedos compridos e ossudos, alisando franja longa e loura que cobria parte do rosto de Kira, em movimentos furtivos, leves e sinuosos. Entretanto, Kira desviava o rosto diante da carícia. Isso parecia instigar o samurai a insistir, tomando isso por um divertido jogo: enquanto um recuava, o outro avançava.

Gin impedia que Kira escondesse o rosto na manga do (*)furisode, ou lhe desviasse o olhar. Ao ver que a resistência por parte do kagema não se dissipava, Gin então aproximou o rosto a uma distancia ínfima do outro e enlaçou o braço languidamente por sua cintura, trazendo-o para junto de si. O louro moveu o peito num suspiro contido, pôs uma das mãos no ombro do maior e abaixou o rosto. Então, o samurai foi ao ouvido de Kira, sussurrou alguma coisa e mordiscou-lhe o lóbulo da orelha. A mão estremecida do louro apertou o haori de seu companheiro e afundou ainda mais o rosto em seu ombro.

O samurai pareceu rir, mas era uma risada baixa e sibilante, quase inaudível. Apertou a curva da cintura de Izuru com carinho insistente e com a mão livre, levantou o rosto do louro que teimava em se esconder.

- Por favor, Danna sama... Aqui não... Podem nos ouvir. – falou Kira, com o rosto rosado pela timidez, tornando-o ainda mais adorável aos olhos do samurai, que novamente falava sussurrando no ouvido do louro.

Ichigo se inclinou um pouco mais para ao menos ouvir o que o cliente de Kira dizia em seu ouvido. Se ele estivesse molestando Kira, porque então ele não se ia embora de uma vez?

Foi então que o ruivo viu novamente Gin estender a mão para o rosto de Kira, desenhando a curva de seus rosados lábios com o indicador, antes de pousar a própria boca de encontro a do louro, que dessa vez não recuou. O abraço ficou mais urgente, com os braços do samurai roçando e amarrotando a delicada seda do quimono que Izuru usava; O mais novo por sua vez, envolvera os braços pela curva do pescoço de seu amante, ainda relutante.

Ichigo assistia a tudo, com sua presença ocultada pelo ácer. Sabia que deveria sair dali, mas uma repentina curiosidade em saber o que aconteceria depois fez com que seus pés se colassem ao chão e seus olhos se fixassem no casal a sua frente. Sua face estava em brasa, o coração batia ansioso.

O samurai envolvia o jovem a semelhança de uma serpente que envolve sua vítima para o abraço mortal. A respiração de Izuru foi ficando cada vez mais ofegante, pesada. Talvez adivinhando o quase sufocamento de seu pequeno, Gin cessou o beijo, para então passear com a língua ágil pelos lábios de Kira, agora avermelhados e brilhantes, enquanto suas mãos longas desciam da cintura do louro para se abarcarem em suas nádegas.

O prazer no rosto do kagema era visível; A boca pequena entreaberta deixava escapar um gemidinho baixo. A medida que quebrava a resistência do louro, o homem de cabelos prateados, aumentava a ousadia de seus toques, passando para intimidade do rapaz, ainda por cima do tecido.

Kira então jogou a cabeça para trás, visivelmente excitado, deixando à mostra a branca pele de seu elegante pescoço para que seu amante o marcasse com o passeio de sua língua sinuosa. Lentamente, o samurai procurou pela faixa do obi (*), e o afrouxou.

Ichigo baixou o rosto, vermelho. Era bem verdade que já tinha flagrado cenas muito mais explícitas que aquela antes, mas ele era muito novo para entender o que se passava realmente. E o que ele já tinha visto lhe pareceu tão frio e mecânico em comparação com o que via agora... Kira correspondia, sentia prazer com aquele samurai. Isso era o que mais perturbava e instigava o ruivo a continuar ali.

Pensou quando foi agarrado por Grimmjow na noite passada. O corpo dele era grande, pesado... Ainda podia sentir a força daqueles braços o envolvendo, apertando. A impressão de força e grandeza que aquele samurai lhe incutiu na mente anos atrás aumentou, junto com o desejo de revê-lo. Estremeceu de excitação com esse pensamento.

Quando levantou o rosto novamente para os amantes, Ichigo encontrou os olhos de Ichimaru, abertos como fendas, a olhar diretamente para ele. O ruivo ficou paralisado por ser pego em flagrante. Em contrapartida, o samurai não alardeou a presença do ruivo, pelo contrário; Continuava tranqüilo, sempre a exibir seu sorriso de cobra. Sem desviar um minuto sequer seu olhar de Ichigo, Gin abaixou o quimono de Kira, que ainda não tinha percebido que o garoto ruivo estava ali. A seda desceu lenta, revelando os ombros delicados e a pele sem mácula do louro. Provocativo, o samurai de cabelos prateados lambeu um dos ombros do rapaz, acompanhando sua linha ondeada, deixando um rasto de saliva. Chegando ao pescoço, começou a beijar, morder e chupar, enquanto Kira suspirava e gemia baixinho, se agarrando as costas do samurai.

Então, Ichimaru parou, olhou bem nos olhos de Ichigo e pôs o indicador em direção aos lábios sorridentes, como quem pede silêncio. Aquilo era um aviso. Sem se demorar, Ichigo deu alguns passos para trás, virou-se e saiu do jardim depressa, deixando o casal de namorados para trás.

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A noite caiu em Yoshi-cho. Ichigo permanecia sentado em um canto da escada que dava para o alojamento dos aprendizes. Seus pensamentos estavam todos embaralhados, confusos. As palavras cheias de desilusão de Shinji se contrapunham a imagem sedutora de amor de Kira e seu amante no jardim. Deus! Ele não ia ter coragem nem de olhar para a cara do amigo. Iria se denunciar, com toda certeza. Izuru iria ficar muito constrangido, talvez até ficasse magoado com ele, com tamanha indiscrição de espiá-lo com um cliente.

E aquele Ichimaru .... Maldito seja! Ele sabia que Ichigo estava vendo os dois. O tempo todo ele sabia! Devia estar se divertindo muito agora, rindo dele, com toda certeza. Se pudesse, socava aquela cara e lhe desmanchava o detestável sorriso de serpente.

Sentiu alguém lhe tocar o ombro e ergueu-se com tanta rapidez que assustou um dos criados da casa. Ichigo se desculpou pelo susto, e então o homem o comunicou que Urahara queria falar com ele.

Ichigo chegou ao escritório de Urahara. O ambiente era praticamente espartano, tendo só os móveis essenciais, como a mesa de trabalho de Kisuke, sempre em desordem, alguns armários pequenos e um bonito biombo decorado em laca negra com detalhes de crisântemos dourados. Entrou e fez a saudação costumeira aos donos da kagemajaya. Urahara deu aquele sorriso maroto e pediu que o jovem se sentasse. Aquele sorrisinho não era bom sinal, pensou Ichigo. Olhou então para Youruichi, que mantinha uma expressão semelhante a de seu marido, enquanto acariciava o pelo lustroso da gata negra de estimação. O ruivo sentiu um calafrio na espinha.

- Prefere dar a notícia Youruichi san? – falou Urahara abanando o leque, sempre com sorrindo, como se quisesse irritar Ichigo de propósito.

Youruichi fez um sinal de cabeça, e abrindo a boca num riso amistoso, anunciou, confirmando os temores do rapaz:

- Parabéns Kurosaki Ichigo! A sua mizuage foi fechada por um valor altíssimo. Não é ótimo?

CONTINUA

Notas:

(*)Jiji — Sufixo que significa "velho" de uma forma pejorativa, mas também afetiva

(*) Shamisen — é um instrumento musical japonês, com três cordas, cuja caixa de ressonância tem um tampo de pele de gato ou cobra.

(*) Furisode — quimono de mangas longas, usado por garotas jovens.

(*) Obi — Faixa larga de tecido que envolve o quimono a maneira de um cinto.