O Cowboy
16 Pai e filha
Notas iniciais
– Por que está aqui? – Perguntei.
– Porque vi que você não está nada bem. – Disse Carlisle olhando em meus olhos.
– E por que você se importaria?
– Porque sou seu pai e porque eu te amo. Não gosto de te ver desse jeito. Eu sei que você não é essa pessoa dura e fria que quer aparentar ser. Eu lembro daquela menininha sorridente, sempre feliz e com um coração enorme que sorria pra mim toda vez que eu chegava em casa. Não é possível que ela tenha se perdido assim. Eu simplesmente não posso acreditar nisso. Agora deixa eu ser o seu pai e me diz o que aperta tanto esse coraçãozinho.
– O meu namorado. Quer dizer, meu ex namorado. Ele estava me traindo com a minha ex melhor amiga.
– Como você sabe?
– Eu estava conversando com ela pela webcam e ela acabou esquecendo ligada.
– E você os viu no quarto dela.
– Exatamente. O pior foram as coisas horríveis que eles ficaram falando sobre mim enquanto se agarravam.
– Deve ter sido péssimo pra você ver algo assim.
– E foi. Eu definitivamente já tive dias melhores. Mas sabe o que me deixa mais abismada?
– O que?
– É que eu não estou triste nem nada disso, em relação à perda eu me sinto meio que aliviada sabe? É como se eu tivesse tirado um peso das minhas costas. O que está me incomodando e me fazendo chorar dessa forma é saber como eu fui burra. Eles ali, me fazendo de otária debaixo do meu nariz e em certo momento ela disse a ele que eles estão há pouco mais de um ano juntos. Tem noção? Faz mais um ano que eles me traem. Quantas pessoas já não estão sabendo disso? Eu me sinto uma estúpida!
– Hei. – Disse Carlisle colocando a mão em meu queixo e erguendo meu rosto para que eu olhasse em seus olhos. – Não se coloque pra baixo por causa de ninguém, entendeu? Você é uma menina maravilhosa que não precisa de pessoas assim, você tem os melhores amigos do mundo aqui ao seu lado. Que aceitaram fazer aquele serviço todo de graça só pra não te deixar sozinha. É claro que eu vou ter que arrumar algum jeito de recompensá-los, mas ainda sim, eles não quiseram aceitar nem mesmo um mísero centavo, são a essas pessoas que você deve dar valor. Não fique com raiva do que te fizeram, apenas tenha paciência, porque infelizmente nem todos amadurecem tão cedo quanto deviam. Deus tem o tempo certo para tudo e para todos. Isso vai muito além do que o nosso vão conhecimento.
– Eu acho que você tem razão. – Eu disse secando minhas lágrimas. – Eu tenho que simplesmente seguir a minha vida e deixar que eles sigam a deles, ao invés de ficar aqui me importando tanto.
– Exatamente. O Edward me contou que você está andando muito bem no Hércules, é verdade?
– Bom, eu estou andando bastante nele, agora se é bem ou não eu já não sei.
Carlisle sorriu e eu sorri também, eu não queria sorrir para ele, mas foi algo muito natural, porque quando ele sorria daquele jeito, me lembrava da época em que éramos uma família feliz.
– Vamos ver se você está aprendendo mesmo ou é só o Edward puxando o seu saco. – Disse Carlisle pegando um cavalo e o selando.
– Quem é esse? – Perguntei.
– É o Alasão. Meu cavalo.
– É um belo cavalo.
– Obrigado. O Hércules também é incrível.
– Todos vocês tem um cavalo aqui? É isso mesmo?
– Sim. Todos temos os nossos cavalos e os que sobram são da fazenda. O Hércules era da fazenda. Até você vir e escolhê-lo.
– Agora ele é o cavalo da Bella.
– Exatamente. – Disse sorrindo.
Selei meu cavalo também e nós saímos montados a eles, apenas cavalgando sem rumo pela fazenda.
– Esses cavalos são muito bem tratados não é? – Carlisle disse. – Parecem daqueles filmes.
– É, o Edward trata muito bem deles. – Eu disse sorrindo feito uma idiota.
– Você gosta mesmo dele né?
– De quem? – Perguntei me fazendo de desentendida.
– Do Edward.
– É, ele é um cara legal.
– Eu tenho percebido a forma como você olha pra ele. – Disse Carlisle. – Bella, longe de mim querer te dar qualquer tipo de sermão, mas você só tem 17 anos. O Edward já é um homem formado, não é como os seus namoradinhos adolescentes lá da Califórnia. As coisas são diferentes com ele. – Verdade, ele sabia tratar uma mulher com o devido respeito, ao contrário “dos meus namoradinhos adolescentes da Califórnia”.
– Carlisle, não tá rolando nada entre a gente. Pelo amor de Deus.
– Tudo bem então. Só pra depois não dizer que eu não avisei. – Disse sorrindo.
Nós continuamos cavalgando em silêncio. O clima com ele estava realmente bom e eu me sentia tão feliz com isso que acho que seria um pecado estragar, mas algumas coisas vinham martelando na minha cabeça por anos e talvez essa fosse uma oportunidade única de tentar esclarecer tudo que estava sempre tão embaçado em minha mente.
– Eu posso te fazer uma pergunta?
– Quantas quiser.
– Por que você se separou da minha mãe?
– Bella, ao contrário do que você pensa, eu não conheci Esme e em duas semanas ela acabou com o meu casamento de doze anos com a sua mãe. Reneé e eu estávamos em uma crise conjugal há mais de um ano. Nós não deixávamos isso transparecer a você, porque ainda era muito nova, mas sempre que entrávamos no quarto, era briga na certa, nós já nem sentíamos mais desejo um no outro. Nosso relacionamento era pura fachada e estava de pé, porque não estávamos interessados em ninguém e você não gostaria de uma separação, então não víamos a necessidade do término, só que eu estava querendo expandir os negócios para o Texas e nessa viagem pra cá, eu conheci Esme que trabalhava em um hotel de uma cidade daqui que é bem longe dessa, eu fiquei hospedado nesse hotel. Então em um dia o elevador enguiçou, eu e ela estávamos lá dentro e ficamos cerca de duas horas conversando enquanto estávamos lá. Eu comentei que queria comprar alguma fazenda por aqui porque eu tinha gostado do clima e da vegetação. Ela disse que havia muitas fazendas bonitas no local de onde ela vinha e então nós marcamos de ir até lá e pra eu conhecer. No fim de semana eu não teria nada pra fazer então nós fomos. Foi um fim de semana inteiro sem trabalho, procurando terras ao lado dela e eu vi a mulher maravilhosa que Esme era, nós começamos a nos encontrar, sem nos relacionar, eu juro pelo que você quiser que eu jure, não demos nem um beijo. Eu apenas disse que me separaria da minha esposa antes de ter um encontro decente com ela e foi o que eu fiz. Não foi nada precipitado como você pensa ter sido. Eu apenas acelerei algo que ia acontecer mais cedo ou mais tarde. Sua mãe e eu frequentamos várias terapias de casal, mas não adiantou e nem ia adiantar, porque não nos amávamos mais Bella, não tinha mais volta.
– Entendi. Então era por isso que eu nunca via a minha mãe chorando por você, na verdade ela só parecia triste quando eu estava triste por você ter ido. Esse lance de crise conjugal vocês não me contaram.
– Pra te poupar.
– Eu entendo agora, mas tem outra coisa.
– Pode dizer.
– Por que você não me procurou depois do que aconteceu?
– Porque você foi bem clara quando disse que nunca mais queria me ver. Eu ligava todos os dias durante mais de dois anos. E todos os dias eu ouvia você do outro lado da linha dizendo para sua mãe desligar, porque comigo você não falava nunca mais. No início eu pensava que se eu insistisse com o tempo você cederia, mas não foi o que aconteceu. Eu percebi que se com tanto tempo te ligando você ainda não tinha aceitado, de nada mais ia adiantar eu ficar ligando todos os dias.
– Você devia ter ido até lá ou me obrigado a vir. Qualquer coisa. Eu era uma criança confusa. Não foi justo me deixar assim, por mais que eu dissesse todos os dias que não queria, tudo que eu mais queria nesse mundo era que você entrasse por aquela porta dizendo que tudo ficaria bem. – Eu disse com as lágrimas inundando meus olhos. – Porque eu te amava, eu te amava demais e você costumava ser o meu herói.
Quando olhei para Carlisle percebi que ele também chorava, mas diferente de mim, as lágrimas não estavam apenas contidas em seus olhos, mas também por todo o seu rosto.
– Eu sei que eu errei, eu cometo erros também e eu fui um péssimo pai estando ausente por tantos anos, mas eu realmente não sabia que você pensava assim. Eu achava que você me odiava com todas as suas forças e não passava um dia sequer que eu não me deitasse na cama e não chorasse por pensar isso.
– Eu não te odiava... Eu não te odeio. – Eu disse deixando que as minhas lágrimas caíssem. – E pela primeira vez, eu te entendo.
– Que bom. Porque acredite ou não, você é a pessoa mais importante nesse mundo pra mim. É a minha única filha e o amor que sinto por você é o único que é incondicional nessa minha existência. Eu te amo.
– Eu também te amo Carlisle. – Eu disse finalmente deixando aquelas palavras que há muitos anos eu impedia a mim mesma de sequer imaginar saírem de minha boca tão naturalmente quanto um “Bom dia” ou “Muito obrigada”.
Quando Carlisle e eu voltamos para casa, eu apenas fui para o meu quarto e fiquei pensando em tudo que conversamos. Era estranho, mas essa simples conversa foi capaz de mudar muita coisa na minha base de pensamento durante anos. Eu via Carlisle com outros olhos agora, não como o pai que me deixou abandonada, mas sim como um pai tão inseguro quanto a filha, que tinha apenas o grande medo da rejeição. Esse sim era o Carlisle que estava ali, o Carlisle que todos enxergavam, menos eu.
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