O Corvo Negro

6 Capítulo 5 – Antes do Começo


Notas iniciais
O Nyah voltou, e eu também! Logo sai outro, espero

Hernesto já havia vasculhado a cena dezenas de vezes, mas nada diferente do habitual. O corpo havia sido removido, as manchas de sangue começavam a secar, o ambiente começava a ter aquele cheiro fúnebre característico de assassinatos. Os estilhaços da janela não tinham nenhum sangue, nenhuma pena nem pelo, eram apenas vidro. Aquela mesma cena se repetia pela quarta vez.

A primeira foi em uma residência. Demorou três dias para que alguém notasse pelo falecido. Era um escritor, acostumado a passar longo tempo sozinho. Solteiro, pais falecidos, apenas quando não compareceu a estréia do próprio livro é que notaram algo errado. O próprio Hernesto havia investigado o caso. A cena era quase idêntica. Sangue para todos os lados, um corpo ferido de forma sádica, uma pena negra e nenhuma pista. Naquela ocasião estava com Peter e Fred e os três foram os primeiros a ouvir a fita que o corvo carregava. Foi um verdadeiro assombro ver uma declaração declarada de um serial killer, tentaram de todas as formas identificar a fonte, mas sem sucesso.

O segundo, novamente, foi similar. A vítima estava na academia, era um sujeito forte, capaz de se defender em uma lutar corpo a corpo. No entanto, foi encontrado morto, fuzilado, no pequeno banheiro da academia. Ninguém ouviu barulho de tiros e as câmeras de segurança estavam falhando no dia. O corpo fora descoberto, pois um filete de sangue passava por de baixo da porta. Novamente, a pena dançante estava lá, rindo da cara dos investigadores. No começo, Hernesto não queria ligar os crimes, queria acreditar que era apenas uma coincidência infeliz. Mas logo a fita chegou, transformando em realidade os piores temores do detetive.

Depois de receber a segunda fita, Hernesto ligou para seu antigo mentor, Raul. O velho detetive, apesar de aposentado, atendeu ao chamado de seu querido aluno. Juntos, investigaram a cena do crime, repassaram a fita, analisaram o sangue várias e várias vezes, mas novamente, nenhum resultado.

Raul fez algumas ligações, chamando Glalcon, um amigo de longa data, e Paul, seu mais novo aluno. Hernesto, por sua vez, escalou David, o mais competente no seu batalhão, além de Fred e Peter, que já estavam no caso. Juntos, com apoio da central, criaram uma frente de investigação no caso. A confiança do grupo estava alta e Glalcon chegara a afirmar uma vez que o caso logo seria resolvido.

Um grande erro...

Em uma amarga manhã, foi a terceira vítima. Um vigia noturno de uma fábrica havia sido deixado pendurado no alto de um guindaste, pingando de sangue. Na poça que se formava no chão, uma pena de corvo dançava.

A fita veio novamente, sem pistas. O grupo, desolado, buscou pela fábrica. Era uma fábrica consideravelmente pequena, e as câmeras cobriam apenas as entradas. A vítima estava em sua ronda noturna, fora visto entrando no pavilhão onde ficava o guindaste por volta das 23h. Quando os trabalhadores chegaram pela manhã, o sangue ainda pingava, mas parecia já seco, o corpo estava atravessado no metal, completamente sem vida, a lanterna ainda estava no chão, acesa, apontando para a poça de sangue. Aquele foi um dia de folga na fábrica.

O quarto caso, o de Beto, não fora mais animador para a equipe. A chegada dos dois novos detetives, Johnson e Merlim, também parecia apenas uma esperança vaga.

Hernesto encostou a testa na parede e fechou os olhos atrás das lentes escuras. Lentamente, retirou os óculos e revelou seus olhos castanhos e preocupados. Tinha grandes olheiras e um rosto cansado, apesar de não ser tão velho. Já estava pensando em pedir aposentadoria e viver de pequenos bicos, ou tocando violão em pequenos bares, mas o caso do Corvo Negro havia atrapalhado completamente sua vida. Era separado, a mulher havia alegado que ele se dedicava mais ao trabalho do que a ela, o que era verdade, e não tinha filhos. Também não tinha vontade de se casar novamente, pois achava que era uma grande perda de tempo.

Ele observou a cidade de Chicago se estendendo a perder de vista. Ele havia crescido ali e desde pequeno sonhava em ser policial porque, quando tinha apenas nove anos, um policial salvou ele e a mãe do pai que era alcoólatra e violento. Quando ingressou na academia de policia, Hernesto tivera como mentor Raul e logo se tornaram grandes amigos por terem o mesmo senso de justiça e vontade de proteger os outros.

Respirou fundo. Não era mais uma criança, agora era ele quem protegeria a cidade.

– Maldito seja, Corvo. Mas eu vou pegar você, eu juro – grunhiu e socou a parede.

...

Glalcon e David também não tinham descoberto nada.

Conversaram com a Sra. Ramares, mas não havia nada para retirar dela. Conversaram com Cristina e com outros amigos de Beto e apenas conseguiram depoimentos de como ele era uma pessoa esforçada e de como aquilo havia sido uma fatalidade. Os pais também não tinham muito a dizer, e choraram muito com a morte do filho. Dentro de seu círculo de amigos e parentes, aparentemente ninguém tinha nada contra Beto.

– Espero que Peter e Fred tenham mais sorte – resmungou David atrás de um copo de café que havia acabado de comprar

– Realmente... Mas não acho que vão nada, sabemos como são esses crimes – disse Glalcon, olhando para a rua com o copo de café quente no colo

Eles estavam sentados em um banco na rua, em frente a uma cafeteria. Já era fim de tarde e os raios dourados do sol batiam na lataria dos carros criando um brilho intenso. David se lembrou de sua infância na cidade. Foi em uma tarde como aquela que ele testemunhara o primeiro assassinato.

Ele e alguns amigos brincavam de esconde-esconde em um parque local. David se escondeu atrás de uma árvore e esperou por uma oportunidade. Enquanto esperava, ele começou a ouvir gritos, mas eram abafados, como se algo bloqueasse a boca de quem os gritava.

Levado por uma forte curiosidade, ele começou a se aproximar sorrateiramente da fonte dos gritos e, o que viu, deixaria até mesmo um adulto chocado.

Alguns metros à frente do pequeno David estava um homem, vestido de forma desleixada, quase como um morador de rua. Seus olhos eram vidrados e o sorriso perdido. Ele era a fonte do abafamento. A fonte dos gritos era a mulher que estava sob ele. David não pode compreender ao certo o que estava acontecendo, mas não resolveu ficar olhando. Seu pai era policial e ele sabia que, seja lá o que estivesse acontecendo, não podia ser certo. Afinal, enfiar e retirar uma faca de alguém não parece algo bom, não é?

Reuniu-se com os amigos e suspendeu a brincadeira. Procuraram um policial por perto, que logo atendeu a ocorrência. Infelizmente, o homem já havia fugido, mas deixara o corpo para trás. Levou alguns dias, mas o tal homem fora finalmente preso. Era um viciado em drogas e parecia ser responsável por pelo menos mais 3 assassinatos.

Quando David cresceu e finalmente entendeu o que havia se passado naquela tarde, sentia-se orgulhoso, pois havia agido corretamente, mas também se sentia triste pela vítima. Havia se tornado um policial, seguindo os passos do pai e, agora que trabalhava como investigador do caso “Corvo Negro” não usava mais o velho uniforme azul dos policiais, mas sim um blazer preto com um distintivo pendurado.

A história de Glalcon era mais simples. Ele não era americano, como todos os demais, mas sim Irlandês. Nascera em Dublin, mas cresceu nos Estados Unidos desde os 5 anos de idade. O pai era dono de uma grande empresa farmacêutica e havia deixado uma grande herança para os dois filhos. Seu irmão cuidava atualmente dos negócios da família e ambos tinham uma grande proximidade. O detetive irlandês trabalhava apenas por prazer, mas isso não diminuía sua eficácia.

Depois de quase 15 minutos de puro silêncio, a voz irritante do detetive ruivo começou:

– Acho melhor irmos logo, está ficando tarde, não quero pegar transito.

Ambos se levantaram e seguiram em direção ao carro.

...

O telefone de Peter soou.

Ele e Fred haviam tido um dia cansativo e nem um pouco produtivo. Interrogaram praticamente todos os empregados da transportadora, mas nem mesmo o chefe de Beto tinha uma reclamação. A única pista que conseguiram foi de um tal de Jerry Carrol, que aparentemente era uma espécie de rival de Beto, mas ele estava de férias e tinha álibis sólidos.

Já meio irritado, ele atendeu o telefone.

– Alô? – atendeu, quase que com um grunhido

– Por favor, é o senhor Dawn que fala?

– Sim, sou eu, Peter Dawn, quem é?

A voz do outro lado da linha fez uma pausa. Uma daquelas pausas que são feitas quando é preciso dar uma má noticia para alguém que não quer ouvi-la.

– Aqui é do Hospital, sua mulher sofreu um acidente, está internada em estado grave.

Subitamente, os óculos escuros de Peter caíram até seu nariz, o telefone fraquejou em suas mãos e sua boca abriu, tentando produzir algum som, mas nada saiu. Fred olhou para o amigo espantado. Se conheciam desde a pré escola e ele sabia que, quando Peter ficava assim, não poderia ser boa coisa.

O detetive trocou mais algumas palavras com o médico e depois desligou o telefone. Ficou olhando sem ação para a parede branca da sala de espera da companhia onde Beto trabalhava. Após uma pausa de alguns segundos, Fred começou:

– O que...

– Marry, Fred! Ela sofreu um acidente. Está no hospital. – o detetive corpulento levou as mãos ao rosto e começou a soluçar.

Fred deu alguns tapinhas no seu ombro, sem saber o que fazer. Ele sabia que não havia nada no Universo que Peter amasse mais que a esposa. Eles haviam se conhecido por acaso no Ensino Médio.

Certa vez, ele e Peter haviam sido levados a diretoria por terem colocado fogo na roupa de mascote do colégio. Eles iam muito para a diretoria, em geral por culpa de Peter, mas aquela vez havia sido diferente. Enquanto eles esperavam do lado de fora, num banco de madeira, uma das lideres de torcida passou por eles e, ao vê-los perguntou:

– Foram vocês que colocaram fogo na mascote?

– S-Sim – gaguejou Peter, quase imediatamente

– Isso foi incrível – riu a garota, com os olhos vidrados em Peter – Podem dizer o que quiserem, mas eu achei muito legal

Fred notou que, tanto a garota quanto Peter tinham um sorriso bobo estampado no rosto. Ele deu uma pequena risada, aquela mesma risada que os amigos dão quando seu melhor amigo está perto da pessoa que gosta. Desde então o romance só aumentou. Eles não tinham filhos, mas estavam tentando.

– Vá para o hospital – disse finalmente – Eu cuido de tudo lá na central

Peter o observou por um tempo, depois concordou.

– Muito obrigado. – respondeu apressado

Peter chamou um táxi e partiu em direção do hospital. Fred pegou o carro e seguiu em direção a sede de investigações relatar o que descobriram, ou melhor, o que não descobriram. Ele ia à baixa velocidade, a noite já estava caindo e ele estava preocupado com o amigo. Também tinha uma esposa, além de uma filha pequena, sabia como devia ser duro para o colega.

Do alto de um prédio, observando o carro de Fred passar, estava uma figura vestida de preto. Ele tinha os cabelos desgrenhados e lisos, um rosto pálido e parecia ter a mesma idade de Fred, apesar de ser bem mais franzino. Seu olho esquerdo era de um azul claro quase delirante, enquanto o direito era vermelho vivo, como sangue. Ele sorria observando o carro e, quando o perdeu de vista, disse:

– Parece que nossa mosquinha caiu direto na teia. Vamos ver quem realmente são amigos quando o coração bate pesado – depois riu uma risada estridente e insana, enquanto um corvo pousava em seu ombro, imitando o gesto.

A noite estava pesada naquele dia.

Notas finais
Espero que gostem *--*