O Corvo Negro
2 Capítulo 1 - Mudança de Ares
Notas iniciais
Johnson entrou na sala pouco a vontade. A sala cheirava a cigarros baratos e os integrantes faziam jus ao cheiro. A pequena sala da agência de investigação independente de Chicago era, no melhor dos casos, pequena e fedida. Trabalhando paralelamente aos investigadores oficiais da prefeitura, o grupo atuava em pequenos casos, basicamente, um grande amontoado de detetives particulares mal sucedidos.
O jovem recém chegado teve de encarar os olhares tortos dos veteranos, que não escondiam seu desprezo pelo novato. O silêncio mortal se prolongou por mais alguns segundos, até que um senhor gordo e de cabelos calvos e grisalhos tomou a frente e apresentou o rapaz:
- Este é Johnson Smith, nosso novo contratado. Ele veio de Nova Iorque para cá para tentar a carreira policial. Ele já foi detetive na corporação de NY e esperamos que seja uma adesão significativa para nosso grupo.
Os olhares de desprezo foram apenas renovados, mas agora um pouco mais disfarçados. O velho relógio sujo no alto da sala marcava 8:30 e já estava na hora de começar. Os homens e as poucas mulheres ali presentes se ajeitaram nas cadeiras e ligaram alguns velhos computadores que possuíam. Alguns se dirigiram à sala dos fundos, a sala de cópias, um local mal iluminado onde uma grande impressora trabalhava mais do que todos eles juntos.
Numa sala à esquerda da principal, havia uma pequena cozinha e um banheiro, nada além de uma cafeteira e uma geladeira quase vazia. No canto direito, ficava a sala do chefe, que servia como depósito também, poucos entravam ali, pois não havia uma real necessidade.
A sala principal era basicamente um amontoado de mesas bagunçadas com alguns computadores que fariam qualquer aficionado por tecnologia furar os próprios olhos de irritação, cerca de uma dúzia de detetives mal-humorados trabalhavam ali, além de um secretária geral e um faxineiro. O minúsculo “quartel-general” ficava no 5º andar de um edifício no subúrbio da cidade, difícil de se achar para olhos despreparados.
Johnson se perguntava como havia ido parar ali. De uma promissora carreira em Nova Iorque para um escritório decadente como aquele. Uma série de 3 casos mal resolvidos havia resultado naquele final e ele se sentia realmente muito mal.
O jovem rapaz, de provavelmente 29 anos, alto e com o corpo em forma, diferia da maioria dos seus novos companheiros de trabalho. Treinado pelo exército americano e com hábitos de saúde impecáveis, Johnson não se encaixava no “perfil” da empresa, marcado pelo despreparo físico, peso extra e cheiro de salgadinho de queijo. Seu cabelo curto, penteado para o lado, castanho levemente louro era admirado pelas 3 ou 4 mulheres ali presentes, e invejado pelos calvos, que constituíam a maioria dos veteranos dali.
Com um suspiro profundo, o novato perguntou ao chefe, o homem de cabelos brancos, que ainda estava parado ao seu lado:
- Senhor, onde eu irei trabalhar?
- Ah sim, quase me esqueci – o velho se virou para um outro detetive gordo, com a cabeça lisa na parte de cima e tufos negros nas laterais. Um bigode igualmente negro lhe enfeitava a cara e ele parecia mal-humorado – Merlim, venha até aqui
- Este é Richard Allow Merlim, ou simplesmente Merlim, e ele será seu supervisor até se adequar. Conheço sua experiencia, senhor Smith, mas normas são normas.
Johnson era um rapaz alto, mas o detetive de meia-idade era mais, não só isso, ele parecia um urso seminu, com roupas, por mais estranho que isso pareça. Ele emanava uma presença animalesca, além de um fedor de colônia barata, com cheiro de água podre. Ele soltou um grunhido que fez saliva voar sobre o rosto do novato, completando assim sua calorosa iniciação.
Merlim o levou até sua mesa, encostada na parede esquerda. Havia duas cadeiras, uma levemente confortável, giratória, mas em mal estado por anos de peso excessivo sobre ela. Claro, era a cadeira de Merlim. A de Johnson era um banquinho improvisado, de plástico branco, sem sequer um apoio para as costas. Sem poder argumentar, ele sentou-se na cadeira, amaldiçoando mentalmente seu novo companheiro urso por feder tanto.
- Então, qual é o caso? No que estamos trabalhando?
O gordo detetive deu uma risada irônica, abafada pelo charuto em sua boca. Depois falou, com a voz grossa e irritada:
- Que caso? Não temos nada de verdade há quase um ano. Nada além de encontrar animais de estimação, chaves de carros ou perseguir namorados. Bem-vindo à piada da indústria criminal de Chicago, baby – acrescentou a última palavra com um sarcasmo especial na voz, para enfatizar que ele era o superior ali.
Johnson se retraiu e soube que deveria ficar quieto. Em seu antigo trabalho, ao contrário do atual, eles tinham mais casos do que poderiam aguentar. Aparentemente ninguém ali se importava o porquê de ele ter saído de uma grande agência de investigação para ir parar em uma espelunca como aquela.
Ninguém ali se importava com nada, para falar a verdade.
Já haviam se passado mais de meia hora desde que o dia de trabalho havia começado e Johnson sequer havia saído do lugar. Merlim jogava paciência enquanto outros não faziam nada muito diferente ou produtivo. Aquela situação o incomodava e ele se perguntou se todos os dias seriam daquela forma.
- Sim – respondeu Merlim, interpretando a linguagem corporal de Johnson. Apesar de estar naquela agência, Merlim era um excelente detetive, como Johnson descobriu depois de algum tempo – Não temos nada mais relevante do que perseguir puladores de cerca a muito tempo garoto. Já falei isso, preste atenção. Vá falar com o diretor, se quiser algum entretenimento.
Obedecendo o dedo indicador de Merlim, Johnson foi até a sala à direita do escritório. Bateu de leve na porta, que se abriu dando para uma pequena sala, abarrotada de caixas transbordando de papel. Encolhido no canto direito, estava uma mesa de madeira simples com um computador, canetas, papéis e uma placa de metal onde se lia: Det. Nelson Mandregas. O detetive chefe estava sentado numa cadeira giratória, atrás da grande mesa, escrevendo alguma coisa em seu celular. Um armário de metal que ficava no canto esquerdo chamou a atenção de Johnson, pois nele estavam pendurados diversos desenhos infantis.
- Senhor, espero não estar interrompendo...
Com uma leve surpresa, mas um sorriso no rosto, Nelson desviou o olhar do celular para encontrar o de Johnson, por apenas um segundo, antes de voltar ao aparelho.
- Não está não, Sr. Smith. Estou apenas mandando uma mensagem para meus filhos... Os desenhos são deles também, os do armário – continuou Nelson, apontando com a cabeça para o armário – Eles cresceram tão rápido... Ainda me lembro que eles eram apenas garotinhos quando me pediam todos os dias para vir para cá... Hoje mal vejo eles por causa de suas festas e seus amigos.
Johnson assentiu de leve com a cabeça, pouco a vontade, ele não gostava muito de criança, menos ainda de adolescentes, e odiava ser confundido como alguém mais novo do que era. Ele sentou-se numa cadeira de madeira que estava na frente da mesa do Sr. Mandregas e o observou acabar sua tarefa.
- O que o trás aqui, já brigou com Merlim? – perguntou finalmente o velho, guardando o celular no bolso.
- Um pouco... Mas não é isso. Bem... – Johnson tentou encontrar palavras, mas elas não chegavam à sua boca.
- Você quer saber o porquê de aqui ser tão parado não é?
- Bem... Sim.
O velho detetive sorriu. Apoiando-se na mesa com os braços, ele olhou para o jovem a sua frente. Depois de um silêncio, falou com calma:
- Sabe, eu nunca entrei para a polícia por causa do salário. Até ai, nenhuma novidade, eu fiz por gostar da profissão e sobretudo por querer ajudar os outros. Na minha experiencia com a polícia, eu percebi que, mesmo ajudando a população, ainda faltavam alguns para serem ajudados, aqueles que tinham casos que pareciam “pequenos” para os investigadores de complicados homicídios. – o velho começou a sorrir ao lembrar dos velhos tempos.
Johnson via em seu sorriso amarelo um vislumbre do que devia ter sido uma ótima pessoa, um ótimo pai e um ótimo marido, basicamente, alguém que se quer por perto, não importa a situação.
- Bem, para ajudar essas pessoas, eu criei esse lugar. Não dá muito dinheiro, eu garanto, mas a realização pessoal é maior que qualquer nota do governo... Sabe Sr. Smith, chega um momento na vida em que o dinheiro... Ele não vale mais nada... Ele é apenas, o dinheiro. Quanto antes você entender isso, mais feliz vai ser.
O jovem assentiu com a cabeça. Ele concordava com o ancião, nunca fora um homem ganancioso ou louco por dinheiro, mas era incapaz de imaginar o dinheiro “sem importância”. Ficou algum tempo se perguntando se algum dia poderia afirmar o mesmo que o Sr. Mandregas.
- Claro, é um pouco difícil de achar e em geral as pessoas procuram a polícia, mas eu gosto daqui. E você, meu jovem, gostou do novo ambiente?
- Seria melhor se não tivesse um urso fedorento do meu lado – brincou Johnson.
Nelson soltou uma risada abafada, tentando desesperadamente não rir da piada, mas seus olhos concordavam com a afirmação do detetive mais novo. Depois de alguns segundos, controlou melhor o riso e pode perguntar:
- Então... Qual foi o seu caso mais estranho em NY, Sr. Smith?
O jovem pensou um pouco e respondeu, com um sorriso no rosto:
- Certa vez, no meu primeiro ano na polícia, um jovem entrou em uma pequena loja de colchões pelo teto, mas não conseguiu sair depois, e como as portas estavam trancadas, ele acabou ficando preso. Quando os funcionários chegaram pela manhã, ele tinha pegado no sono em uma das camas.
Mandregas soltou um sorriso e disse:
- Esses bandidos... Certa vez, fui investigar um caso, no qual o assaltante tentou assaltar uma loja de bebidas, mas acabou consumindo o “roubo” e desmaiou antes de terminar o furto.
Johnson soltou uma sonora gargalhada. Passaram o restante do dia assim, contando casos e mais casos e debatendo alguns problemas na polícia. No fim do dia, Smith achou que seria reprendido pelos colegas por “ser amiguinho do chefe”, mas aquele fato parecia fazer parte do cotidiano daquele tedioso trabalho.
Atravessando a cidade com pouco trânsito, Johnson chegou em seu apartamento, não muito longe do escritório, onde morava sozinho. Era pequeno, com um quarto, uma sala pequena, cozinha e banheiro, mas era o que podia pagar, no momento. Logo ao chegar, foi direto para a cozinha e pegou uma cerveja na geladeira, depois, afrouxou a gravata enquanto sentava-se no sofá para assistir televisão.
Aquela hora deveria estar passando o jornal, com suas notícias genéricas e quase sem importância, mas o homem só conseguia pensar no seu último caso. No sangue em suas mãos, nos olhos sem vida, nos múltiplos tiros de sua arma e o mais assustador...
No anel de noivado manchado em sangue.
Esfregou os olhos e balançou a cabeça, tentando desesperadamente retirar de sua mente aquelas imagens mortais. Tinha uma vida nova agora, ou, ao menos, era no que queria acreditar. Bebendo mais alguns goles de cerveja, ignorou enquanto o jornal noticiava os recentes casos de um assassino em série e mudou para o canal de esportes.
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