O Corvo Negro
10 Capítulo 9 - A história de Johnson
Notas iniciais
– Tudo começou alguns meses atrás. Eu estava trabalhando como policial em NY já há algum tempo quando fui designado para minha primeira grande apreensão de drogas. Um depósito abandonado era suspeito de ser a nova fábrica de produção de narcóticos ilegais. Montamos uma operação, selecionamos os agentes e em uma noite fria, invadimos o depósito.
‘Eu entrei pela porta traseira e rendi alguns guardas junto com meus companheiros. Nossas ordens eram claras: Atire em quem se recusar a se entregar. Não podíamos deixar ninguém fugir. Tudo começou muito bem, a maioria deles se entregou facilmente, mas quando entramos no pátio central, fomos surpreendidos por atiradores no andar de cima. Dois agentes caíram e eu quase levei um tiro na perna, sendo salvo por um movimento rápido.
'Rapidamente, nós os rendemos e subimos as escadas. Lá haviam várias salas e em uma delas eu cometi o meu primeiro erro...
– Espera, o primeiro? São quantos? – perguntou Merlim, que estava entretido na conversa
– Três... – respondeu Johnson, ainda com a cabeça para baixo – Continuando... Junto com os outros, entrei nas salas e rendi os traficantes que encontrava. Mas, quando estávamos quase acabando, eu me separei do grupo para investigar uma sala no fim do corredor, pois não lembrava se tínhamos mesmo olhado aquela direito.
‘Quando eu cheguei lá, eu encontrei um garoto, ele devia ter uns 10 ou 11 anos, esquelético, usando pouco mais que farrapos. Tinha os olhos vidrados de um viciado. Eu simplesmente fiquei olhando ele, sem acreditar. Ele estava parado no batente da janela, quase pulando para escapar. Ficou paralisado de medo quando me viu. Eu devia ter agido rápido, pulado sobre ele e o rendido, essa eram minhas ordens. Mas eu não consegui. Eu fiquei olhando, sem acreditar naquilo. Então ele pulou pela janela e fugiu. Eu decidi ocultar aquilo no relatório que eu fiz, achei que iria ficar tudo bem.
Johnson parou para respirar. Ele falava rápido, tomado pela emoção, tinha a cabeça baixa e o olhar vidrado. Depois de alguns segundos, continuou.
– Algumas semanas depois, eu estava trabalhando na patrulha, coisa de rotina. Enquanto eu estava patrulhando, eu vi aquele mesmo garoto roubando a bolsa de uma mulher. Imediatamente comecei a correr atrás dele. Não sei se ele me reconheceu ou não, mas ele começou a correr assim que me viu. Eu o persegui por uns bons minutos, até que ele pulou sobre um muro de um terreno abandonado, mas deixou a bolsa cair. Eu podia tê-lo seguido, eu devia tê-lo seguido. Mas eu não segui. Aquela mesma sensação de culpa me tomou novamente. Eu pensei que agora, quase pego pela segunda vez, o assustaria o suficiente para abandonar o mundo do crime. A verdade é que eu não queria prender um garoto tão jovem. Parecia errado. No fim eu acabei devolvendo a bolsa para a dona e prometendo que procuraríamos pelo ladrão. Mais uma vez, eu ocultei o fato em meus relatórios, e esse foi o meu segundo erro.
Merlim se mexeu desconfortável na cadeira. Por algum motivo, tinha medo do que viria a seguir. Johnson por sua vez ficou ainda mais inquieto, seus olhos se encheram de lágrimas, ele começou a balançar a perna nervosamente. Tomou um belo fôlego e continuou.
– O meu terceiro e pior erro ocorreu apenas alguns dias após o primeiro. Naquela época eu trabalhava muito, chegava tarde em casa. Eu estava noivo naquela época, de uma garota chamada Suzanne Martin, logo seria Suzanne Smith – ele sorriu falando aquilo, um sorriso triste e nostálgico – bem, estávamos apenas a alguns meses do casamento, mas já morávamos juntos em uma casa, pequena, mas bem confortável. Ela não gostava que eu voltasse tão tarde do trabalho, mas eu precisava do dinheiro sabe, para o casamento.
‘Tudo aconteceu muito rápido. Eu cheguei em casa tarde como de costume, era uma terça, ainda de uniforme, com a arma e tudo. Encontrei as luzes acesas, um cheiro estranho no ar. Foi tudo tão rápido, mas aquela cena continua tão viva na minha mente... A primeira coisa que eu notei foi o garoto. O mesmo garoto das drogas, o mesmo garoto da bolsa. Ele vestia um moletom cinza, sujo de sangue. Na pequena mão direita estava uma faca também suja de sangue. Na esquerda ele tinha jóias e nos bolsos do moletom tinha dinheiro. Aquelas jóias me pareceram familiares, mas eu só notei o porquê quando eu olhei para baixo. Foi horrível Merlim...
Johnson começou a chorar, tentando esconder o rosto com as mãos, de forma ineficiente. Merlim esperou pacientemente para que ele se recuperasse. Por fim, ele continuou, entre os soluços.
– Suzanne estava caída no chão, morta, com um enorme corte no pescoço. Ela tinha uma expressão de horror e de surpresa estampada no rosto. Ainda estava vestida com o vestido vermelho que usava quando ia para as aulas de dança... Eu adorava aquele vestido, ela ficava tão linda com ele – ele limpou um pouco das lágrimas, o que pareceu dar-lhe forças para continuar – A aliança dela estava sob o corpo inerte. Parecia ter caído de um dos bolsos do moletom. Quando o garoto me viu ele levantou os braços, em sinal de rendição. Mas eu ignorei aquilo. Eu estava furioso, de uma forma que nunca fiquei até hoje. Eu peguei a arma na minha cintura, eu vi os olhos do garoto se arregalarem, pude vê-los pedir perdão, misericórdia, mas eu ignorei tudo aquilo, eu continuei, frio, posso dizer que foi quase prazeroso fazer aquilo.
‘ Eu atirei, acertei o primeiro tiro bem na testa. Ele caiu no chão, mas aquilo não era o suficiente para mim. Eu fui até o corpo inerte do garoto e descarreguei toda a minha arma. Minha mira era particularmente boa naquela época, não desperdicei uma única bala. Todas na cabeça. Eu disparei de forma selvagem e fria. Eu não sei quantas balas foram, mas minha arma estava totalmente carregada quando comecei. A pequena sala ficou completamente tomada pelo sangue, mas eu não me importei. O rosto do garoto estava completamente desfigurado, mas eu também não me importei. Eu só me abaixei ao lado do corpo de Suzanne e o abracei, chorei, gritei. Mas nada a trouxe de volta. Ela continuou morta, para sempre. A única coisa que sobrevive até hoje é a aliança, manchada eternamente de sangue.
'Liguei para meu chefe. Ele ficou preocupado, mas conseguiu resolver a situação. Com ajuda de uma equipe de conhecidos, ele retirou o corpo do garoto e o enterrou como vítima de uma guerra de gangues nos arredores. Minha noiva foi enterrada junto com os familiares, a causa da morte foi tida como morte após assalto. No entanto, meu chefe me recomendou deixar a cidade, para garantir que aquele assunto morreria ali. Foi errado, eu deveria ter sido prezo, mas por algum motivo eu simplesmente fiz as malas e vim parar aqui, em Chicago.
Merlim estava de boca aberta. Aquilo era inacreditável, na mais otimista das hipóteses. Quando conheceu Johnson, poderia apostar uma bela grana que ele jamais sequer tinha segurado uma arma, quanto mais disparado de forma tão fria contra alguém.
– Isso foi horrível – conseguiu comentar, após uma longa pausa
– Eu sei – respondeu Johnson, ainda com o olhar no chão
– Digo, como policial, você deveria ter mantido a calma... Sem mencionar o comportamento do seu chefe...
– Eu sei...
– Mas isso ainda não explica seu comportamento ultimamente. Nem estamos perto do Dia dos Namorados, o que está acontecendo?
– Eu não posso...
– Vamos garoto, o que pode ser pior do que o que você me contou?
Johnson hesitou por alguns segundos, depois pegou o celular e mostrou para Merlim. O detetive mais velho o pegou e leu as mensagens. Uma a uma e para cada nova mensagem uma nova expressão de surpresa se formava em seu rosto. Quando ele acabou, perguntou:
– Mais que diabos é isso, garoto?
– O Corvo... Ele simplesmente entrou na minha casa outro dia, desde então ele me manda mensagens aleatórias. Eu simplesmente não entendo. Ele quer que eu deixe a investigação de lado, ou que a atrapalhe...
Merlim tinha os olhos arregalados, ainda sem entender direito como tudo aquilo estava relacionado.
– E tem mais uma coisa... Ele disse que mataria qualquer um que soubesse disso...
Os olhos do velho detetive se abriram ainda mais, mas por fim ele acabou soltando uma risada:
– Ora, que ele venha! Finalmente vou poder enfiar minha mão na cara desse desgraçado.
Johnson sorriu com a brincadeira do amigo. Merlim era do tipo grandalhão, uma imensa e pesada bola de carne. O Corvo era um homem franzino, com aparência doentia. De certo modo, uma briga direta entre os dois parecia ter um resultado óbvio, mas algo no olhar confiante e insano do Corvo parecia garantir a Johnson que aquela não seria uma luta fácil.
– Só tem uma coisa que ainda não entendi... Por que você, afinal?
– Ele mencionou algo sobre sermos iguais...
– O que? Sobre o que você acabou de me contar? Não! Nem de longe. Você teve um bom motivo, embora eu não apoie o que fez. Ele é só mais um doente metido a senhor supremo dos assassinatos. Vamos pegá-lo, não se preocupe. E não se preocupe comigo. Se ele decidir se meter comigo, vai sentir o peso da minha mão bem no meio da fuça dele.
Johnson conseguiu rir do comentário. Ambos acabaram voltando para dentro da casa, para continuar o jantar. Muitos quilômetros longe dali, sentado em um pequeno trono de ferro revestido de veludo, o Corvo acariciava gentilmente um de seus fieis corvos, observando por uma enorme janela a silhueta da distante Chicago.
– Você devia ter ficado quieto, Johnson, parece que vou ter que sair de casa hoje... É uma pena, está bem confortável aqui...
Fale com o autor