O Corvo Negro
8 Capítulo 7 - Duas causas de Morte
Notas iniciais
Um garoto foi jogado no chão.
– Por favor, parem – choramingou o garoto, sem levantar do chão
Os agressores sorriam mais ainda, aquilo era tudo que queriam ouvir. Um deles, loiro, um pouco mais forte que os demais, agarrou o garoto pelo colarinho do uniforme escolar e o levantou.
– Você é muito esquisito, Heitor. Não gostamos de você.
Dito isso, ele cuspiu nos olhos azuis do pobre garotinho e o jogou no chão novamente. Tinham por volta de 5 anos de idade e toda aquela maldade era realmente surpreendente. Ao todo eram três contra um, e não era a primeira vez que aquilo acontecia. Heitor já estava acostumado com aquilo e também já estava acostumado a não poder recorrer a ninguém, nem mesmo ao pai, que não se importava muito com o filho.
Até que, uma figura pulou sobre o garoto maior, desferindo socos e pontapés.
Pegos de surpresa, os garotos ficaram desnorteados. A figura continuava a socar e chutar o líder, que logo se recompôs e deu o troco. Os outros dois, vendo a reação do líder, também revidaram e logo o autor de tal afronta estava dominado. Foi jogado no chão ao lado do garoto Heitor e seus agressores teriam continuado, se o sinal da pequena escola no interior de Chicago não tivesse soado, marcando o fim do recreio. Os três garotos se retiraram para sua sala, deixando os dois garotos estirados e doloridos no chão.
O garoto que saltara sobre os outros era alto para a idade. Tinha longos cabelos castanhos despenteados e a pele bronzeada. Os olhos eram castanhos, com um brilho selvagem contido. Heitor o olhou com uma mistura de medo e admiração. Quando o garoto começou a levantar, Heitor perguntou, entre os soluços:
– Por quê?
O garoto o olhou, já em pé, com os olhos semicerrados. O jovem Heitor era uma figura completamente vulnerável. Tinha olhos azuis e um cabelo liso e negro muito bem penteado, além de ser franzino e extremamente pálido. Depois de alguns segundos, o garoto perguntou, com a voz levemente irritada:
– Por que o que?
– Por que me salvou?
O garoto sorriu e estendeu o braço para ajudar o novo amigo. Heitor levantou-se meio hesitante ainda desconfiado da figura a sua frente. Quando o garoto de olhos azuis já estava firme sobre os próprios pés, o garoto falou:
– Porque eu quis, oras. Não gosto de ver pessoas apanhando. – após uma pausa, acrescentou – Aliás, me chamo Dimitry Dompson, mas me chame de Dimmy. Sou novo aqui.
Heitor olhou para a mão estendida de Dimmy sem entender direito o que estava acontecendo. Era a primeira vez que alguém, além de sua própria mãe, era amistoso com Heitor. Após pensar um pouco, decidiu que deveria apertar a mão do garoto, selando assim uma nova amizade.
A única da vida de Heitor.
...
Johnson, Hernesto e Merlim estavam em um apartamento de luxo no centro de Chicago.
Uma denúncia anônima os havia levado até aquele local. Um dos vizinhos havia sentido um forte cheiro vindo de algum dos apartamentos. Foi feita uma investigação no local pela própria segurança interna do hotel e, quando o proprietário do apartamento 429 ignorou todos os avisos e se recusou a abrir a porta, os seguranças foram forçados a arrombá-la. Ao entrar, o cheiro se intensificou de tal forma que chegava a ser embriagante. Com uma busca mais profunda, encontraram o corpo do morador no banheiro com a marca de uma bala no estômago. Seu nome era Dimitry Dompson, de 23 anos.
Como já haviam se passado quase três semanas desde o último caso do Corvo Negro, Hernesto estava voltando a pegar alguns casos dentro da policia e, eventualmente, levava Johnson e Merlim, para que eles se habituassem à política de trabalho. Johnson se sentia bem usando seu novo distintivo, mas Merlim parecia um pouco incomodado, pois aquela coisa pendurada em seu pescoço o atrapalhava de vez em quando.
O apartamento era amplo e bem mobilhado. Móveis modernos e caros espalhavam-se pelos cômodos, criando um visual esteticamente belo. Alguns quadros de pintores locais também tinham vez nas paredes, disputando espaço com os quadros pendurados. Uma das paredes da sala era ocupada inteiramente por janelas que davam uma belíssima vista da cidade à noite. Grandes e pesadas cortinas estavam semi-fechadas, atrapalhando parte da visão. Além da grande sala, havia mais dois quartos, um aparentemente de casal e o outro de alguma criança, e um banheiro. Um corredor largo dava acesso aos quartos e ao banheiro.
Hernesto buscava pelos quartos por alguma pista, enquanto Johnson procurava pela sala. Merlim estava agachado próximo ao corpo, com seu distintivo balançando de uma forma que ele achava particularmente irritante.
O banheiro era recoberto de ladrilhos azuis e brancos, formando desenhos quadrados. Era espaçoso e contava com um Box, chuveiro, uma pia com torneira e várias prateleiras com produtos de higiene.
O corpo estava sentado ao lado da pia, encostado na parede, perto da porta. Ele tinha a pele bronzeada e a barba por fazer, de forma desleixada. Os cabelos castanhos longos estavam sujos, como se não fossem lavados a dias. Suas roupas estavam surradas e sujas de sangue seco. Ele usava calças jeans rasgadas, uma camisa social de um roxo desbotado e um blazer marrom, além de óculos escuros. O tiro havia perfurado seu estômago, causando um grande estrago. As evidências mostravam que havia sido à queima roupa e que Dimitry já estava sentado quando recebeu o tiro.
Além do corpo, havia seringas, possivelmente com drogas, espalhadas pelo banheiro. Ainda não haviam feito a análise completa do corpo, mas ninguém ficaria surpreso se fossem encontrados furos pelos braços e os exames de toxinas dessem positivos. Mas, sem dúvida, o mais perturbador naquele caso era o estranho sorriso da vítima. Era um sorriso de alívio, de libertação, como se tivesse ficado feliz em ter uma bala atravessando seu corpo.
Johnson não havia encontrado nada na sala e se dirigiu ao banheiro, para dar uma olhada no corpo. Enquanto observava, Hernesto surgiu do quarto de casal e correu até o banheiro, com um papel em mãos.
– Vejam só o que encontrei – disse, sorrindo
Os dois detetives se viraram para observar Hernesto, que se ajeitou para ler o que estava no papel.
“Meu tempo acabou. Não encontro mais razões para viver. Desde que minha mulher me deixou e levou nosso único filho embora, eu não tenho encontrado forças para continuar. Enquanto escrevo essa carta, eu já estou morto. Morto por dentro, apenas uma carcaça sem alma vagando pela Terra. Eu me entreguei às drogas, ao jogo e à bebida, foram as únicas coisas que consegui me agarrar nesses tempos difíceis. Não sei quem vai ler essa carta, mas espero que tenha uma vida melhor do que a minha.
Dimitry Dompson.”
– Suicídio? – perguntou Hernesto, depois de algum tempo em silêncio
– Não, o angulo da bala não bate...
Merlim soltou um sorriso e disse: — Duas causas de morte... Esse sujeito já estava morto bem antes de tomar o tiro.
Os três ficaram em silêncio por algum tempo. A ideia de perder tudo o que mais amam ao ponto de “estar morto” antes de morrer era assustadora.
– Bem, agora precisamos achar o... – começou Hernesto, mas sua voz entalou na garganta e seu cérebro se recusou a continuar formando palavras diante da cena que estava presenciando.
Merlim, com cuidado, desdobrava a mão direita do cadáver, que estava presa fortemente. Quando descobriu o que o morto apertara com tanta força minutos antes de morrer, quase caiu para trás.
Ali, amassada, estava uma pena negra de corvo.
As pernas de Johnson tremeram. Suor começou a escorrer de sua testa, apesar de estar um dia particularmente frio. Hernesto tirou os óculos escuros e deixou o queixo cair, balbuciando inutilmente palavras sem sentido.
Merlim pegou a pena na mão, como se pra verificar se era mesmo verdadeira. Sem dúvida era real. No entanto, a forma como ela estava posicionada era estranha. Eles já haviam concluído que o assassino deixava as penas negras após matar as vítimas, de forma desleixada, sobre alguma poça de sangue que tenha se formado. Além disso, era quase unânime o fato das vítimas terem um misto de horror e ódio como expressão final. Dimitry estava sorrindo e segurando a pena antes mesmo de morrer.
– Ele conhecia o Corvo Negro – disse Merlim de forma pesada, fazendo os outros dois acordarem do transe em que estavam.
Hernesto pegou o celular no bolso e ligou para Raul. O velho mentor atendeu o telefone preocupado.
– O que houve, Hernesto?
– O sétimo... Nós o encontramos. E ele conhecia o assassino
...
– Não eu não me lembro.
Glalcon limpou o suor da testa enquanto Fred se esforçava para fazer uma cara de mau, sem muito sucesso.
– Sra. Dompson...
– Senhorita Luvierre, por favor – corrigiu a mulher morena, do outro lado da mesa de interrogatório
– Tudo bem, Srta. Luvierre – resmungou Fred, entre os dentes – por favor, tente se lembrar. Com quem o seu marido costumava sair.
A mulher passou a mão pelos volumosos cabelos negros, tirando-os da frente dos olhos. Suspirou e repetiu, pela terceira vez, a mesma resposta.
– Eu já disse! Não me lembro. Dimitry – ela pronunciou o nome do ex-marido com particular desgosto – era um homem caseiro. Trabalhava em casa, saia raramente, com a família ou sozinho. Não me lembro de uma única vez em todos os nossos 4 anos de casados em que Dimitry tenha saído com um amigo.
Fred bateu as mãos com força na mesa e saiu bufando para o outro canto da sala. Glalcon suspirou e tomou a cadeira de frente para a jovem.
– Veja bem, minha querida. O seu ex-marido está morto e temos fortes motivos para acreditar que ele conhecia o assassino e que ficou muito feliz em vê-lo.
– Eu não fiz nada!
Glalcon riu um risinho irritante e balançou a cabeça com seus cachos ruivos: — Não, não. Sabemos que não foi você. Mas precisamos saber com quem Dimitry andava.
A mulher se recostou na cadeira, fazendo um esforço verdadeiro para se lembrar de algo. Por fim continuou.
– Olha, veja bem, Dimitry sempre foi um homem muito reservado – sua voz começou a adquirir um tom triste, levemente nostálgico – No começo, achei aquele ar misterioso dele muito atraente. Nos casamos jovens, tivemos um filho também muito jovens. Chegou um ponto em que todo esse mistério dele se tornou insuportável. Ele saia e ficava dias fora, falava no telefone por horas e nunca me contava com quem estava falando. Quando eu me divorciei dele – neste ponto, ela já estava quase chorando – eu só queria que ele tomasse jeito. Sabe? Para ver se ele entendia que eu precisava de mais atenção. Mas ele começou a beber e a se drogar... Eu não queria que ele morresse!
A Srta. Luvierre caiu sobre a mesa em prantos. Chorava um choro alto e estridente. Feria o coração de Glalcon ver uma mulher chorando daquela forma sem que ele pudesse fazer nada, mas sua conduta de trabalho o impedia de se envolver.
Quando o choro da mulher cessou, Glalcon colocou a mão sobre seu ombro e disse, em um tom amável:
– Vamos encontrar quem fez isso, senhorita, vamos encontrá-lo e vamos prendê-lo.
Os olhos castanhos da mulher se alegraram um pouco, mas ela ainda tinha o rosto inchado do choro.
...
– Sofia Luvierre não tem nada a declarar – disse Fred, caindo sobre o sofá da sala de investigações.
Todos assentiram de leve, afinal aquilo já era esperado. Paul não encontrou nada nos registros de e-mail nem nos contatos de celular de Dimitry que pudesse indicar a identidade do Corvo.
– As ligações que você disse que a Sofia mencionou, não passavam de contatos com traficantes e donos de cassinos, parece que esses vícios já eram antigos, mas ele escondia muito bem.
O silêncio que se instalou na sala logo após o comentário de Paul só foi quebrado pela batida na porta. Um policial com um envelope estava parado diante da porta e quando entregou o pacote, mencionou que viera voando em um corvo.
– Parece que chegou – disse Hernesto, fechando a porta atrás de si com o pacote na mão.
Quase que instintivamente, todos olharam para Peter, que mexia no celular, tentando parecer despreocupados. A lembrança da vingança de Peter parecia um passado distante algumas horas atrás, mas agora se tornava nítida novamente.
Quando Hernesto desembrulhou completamente a fita, Peter guardou o celular no bolso da calça, deixando a mostra seu revolver. O detetive mais velho parou por alguns segundos e, com uma voz severa, pediu:
– Peter, a sua arma, por favor.
– Por que eu deveria lhe dar a minha arma? – perguntou Peter, irritado
– Você tem apresentado sinais de transtornos emocionais ultimamente, me agradeça por não tê-lo afastado até agora.
– Ora, isso não é desculpa! O que foi, Hernesto, está com medo? Por acaso é você o desgraçado que está ajudando o Corvo?
– Eu sou o seu superior e exijo respeito!
– Parem vocês dois! – berrou Raul, silenciando os dois detetives corpulentos que estavam prestes a começar uma briga
– Essa história toda é uma bobagem! Tenho total confiança em cada membro da nossa equipe e me envergonha que vocês também não tenham. Vejam isso! Dois homens comprometidos com a lei amedrontados por um sujeito que nem tem coragem de mostrar a cara. Esse maldito Corvo Negro não tem como saber quando vamos ver a fita. Se é tão bom quanto diz, deve imaginar que vamos ouvi-la assim que recebermos, então vai tramar seus truques sujos parar rir da nossa cara. Vamos vê-la amanhã, e isso é uma ordem, como chefe desta investigação.
Todos ficaram no mais puro silêncio após o discurso de Raul. O dia passou de forma lenta. David interrogou mais alguns parentes próximos de Dimitry e Fred foi atrás dos traficantes e donos de cassino, sem muito sucesso. Quando eram oito horas da noite, todos começaram a deixar o local e irem para suas casas, menos Paul que ficou na central realizando um trabalho que não quis revelar.
...
Com o novo salário, Johnson comprara um carro novo.
Era algo até que necessário, pois sua casa não era mais tão perto da Central. Ele continuava morando no mesmo apartamento pequeno de antes, mas estava trocando a mobília aos poucos. Estava refazendo seu lar, afinal.
“Não... Ele nunca será completo... Não mais” pensou triste, estacionando o carro na garagem do edifício. Subiu as escadas até o segundo andar – o lugar tinha elevadores, mas ele preferia usar as escadas – e entrou em seu apartamento. A luz pálida da lua entrava pela janela aberta, juntamente com o vento, que refrescava o lugar. Ele foi direto para o quarto e se sentou na cama, fitando o espelho a sua frente. Era um espelho grande, preso na parede ao lado do guarda roupas no quarto estreito. Se Johnson ficasse de pé, seria possível ver todo o seu corpo no espelho. Ele desviou o olhar para a janela do quarto e observou o céu da cidade. Não era possível ver as estrelas, mas a Lua brilhava pálida no alto.
– Deve estar uma noite bonita, em algum lugar – pensou em voz alta, com a cabeça para o lado de fora.
– Realmente está. – disse uma voz masculina aguda vinda de detrás de Johnson.
O detetive arregalou os olhos, ele tinha certeza que estava completamente sozinho no apartamento. Além disso, aquela voz não era conhecida, talvez familiar, uma voz mortalmente familiar. Por algum motivo inexplicável, suas pernas fraquejaram e suas mãos começaram a suar. Lentamente, Johnson se virou para encarar a figura que estava recostada no batente da porta, o olhando com um sorriso cruel nos lábios.
– Q-Quem é...
– Johnson Smith, é um grande prazer conhecê-lo! – disse o homem desencostando da parede – Eu sou o Corvo Negro, muito prazer.
Os olhos de Johnson se arregalaram ainda mais. Suas mãos tatearam a cintura em busca do revólver que ganhara, mas ele havia deixado na sala. O homem esguio a sua frente pareceu notar o movimento e deu uma risada estridente.
– Não se preocupe, não vou matá-lo – mas acrescentou com a voz baixa – pelo menos, não agora. Eu vim aqui apenas para conversar.
Dito isso, ele se sentou na cama e sorriu amigavelmente para Johnson, que continuava agarrado ao batente da janela, como se tivesse medo de que tudo explodisse de uma única vez. O Corvo permaneceu um longo tempo com os olhos fechados, cantarolando de boca fechada, de forma quase infantil. Olhando aquela cena, Johnson duvidou seriamente de que aquele cara, que não parecia ser alguns anos mais velho que ele, fosse realmente um assassino tão cruel.
Mas duas coisas o fizeram mudar de ideia.
A primeira foi a lembrança do fato de que aquele cara invadira sua casa aparentemente sem qualquer explicação e declarara abertamente ser o tão temido Corvo Negro, que ele e os companheiros caçam a muito tempo.
O segundo foi a visão do olho direito do Corvo.
Era vermelho como sangue fresco. Tinha um brilho cruel e desalmado, como se seu portador não se importasse mais com a própria segurança, integridade ou moralidade. Como se a única coisa que importasse fosse a sede de sangue, incessante, implacável e mortal. Ele se vestia completamente de preto, em contraste com sua pele pálida e cabelos negros bagunçados. Seu olho esquerdo era de um azul que deveria ter sido muito bonito, antes de ganhar aquele brilho insano. Sua jaqueta de couro tinha penas no lugar de zíper, além de adornar o contorno da touca e das mangas. Ele usava uma caça jeans preta e sapatos de cano alto. Após uma longa pausa, com uma voz aborrecida, continuou.
– Diga alguma coisa, não seja mal educado. Bem, é claro que meu nome não é “Corvo Negro”, esse é só um nome que vocês me deram. Mas é claro que eu não vou falar meu nome, afinal, essa é a brincadeira.
Ele riu da própria piada por algum tempo. Após constatar que Johnson não estava em condições de falar, decidiu que já era hora de ir direto ao ponto.
– Tudo bem, tudo bem. Está na hora de falar sério. Senhor Johnson Smith, eu vim até aqui hoje porque eu quero a sua ajuda.
Johnson conseguiu soltar um pequeno grunhido que o assassino interpretou como uma pergunta.
– Sabe, essas investigações me chateiam. Elas me atrapalham. Não que estejam perto de me pegar, porque estão bem longe na verdade. Mas ter de gravar uma fita a cada morte me irrita um pouco, apesar de ser bem divertido. Logo os meus negócios com vocês estarão acabados e eu não vou querer acordar de manhã com um peso na consciência de ter abandonado meus queridos amiguinhos, então, quero que você afaste a investigação do rumo. Tanto faz, desistir do caso, declarar que tudo não passou de uma coincidência, culpar um pobre coitado qualquer, não importa. Deve ser fácil, vocês fazem isso toda hora.
Johnson soltou outro grunhido, dessa vez claramente de irritação e desaprovação. O Corvo sorriu e disse, com um tom de provocação na voz.
– Eu sei que você pode me ajudar... Afinal, somos iguais não somos?
Aquilo entalou na garganta de Johnson e ele finalmente disse alguma coisa:
– Não somos iguais!
O Corvo ergueu uma sobrancelha, fingindo estar surpreso. Seu sorriso não abandonou seu rosto e ele disse:
– Tem certeza? Ora, nós dois fazemos qualquer coisa por vingança... Não se esqueceu de Nova Iorque não é?
Aquilo foi como um soco no estômago para Johnson. Ele sentiu o ar fugir de seus pulmões tão rápido que ele se sentiu sufocado quase que antes de seu cérebro interpretar as palavras. Ele tentou gaguejar alguma coisa, mas sem sucesso. O Corvo começou a gargalhar e foi calmamente em direção a porta. Antes de ir, disse, como se estivesse apenas se despedindo:
– Não se esqueça que não deve contar nossa pequena conversa para ninguém. Se você contar, serei obrigado a matar essa pessoa. Não quer ser a causa de morte de seus amigos não é?
Com um gesto de despedida com a mão, o Corvo desapareceu em uma nuvem negra, tão misterioso quanto apareceu.
Johnson teve uma péssima noite de sono, na melhor das hipóteses.
...
Na manhã seguinte, quando todos estavam reunidos na sala de investigações, Raul retirou da maleta a fita, intocada. Todos estavam tensos, olhares furtivos passavam por entre todos os presentes, principalmente por entre Johnson e Merlim. Peter estava de óculos escuros, com a arma bem visível no quadril. Apesar das insistências de Hernesto, Raul se recusava a fazer qualquer alteração nos procedimentos normais.
Johnson tinha olheiras profundas e um ar sonolento incomum. Seu celular estava mais pesado que o normal em seu bolso. Logo pela manhã, após uma péssima noite de sono, ele recebera uma mensagem do Corvo, o alertando mais uma vez para ficar quieto sobre o assunto.
“Ótimo” pensou “Agora ele também sabe o meu número.” Agora, na sala, ao lado de seus companheiros, ele estava agitado e preocupado, como se o Corvo fosse sair de debaixo da mesa a qualquer momento e gritar “Vejam! Esse é o meu informante!”
– Você está bem, John? – perguntou Merlim, preocupado
– Sim, são só... ahn... problemas de família, nada de especial.
Merlim resolveu engolir aquela mentira descarada apenas pelo fato de também estar muito tenso com os olhares dirigidos a si. Assim como Raul, Merlim não acreditava que houvesse um traidor entre eles, mas, por toda a sua experiência, ele sabia muito bem que um sujeito enraivecido portando uma arma nunca era sinônimo de coisa boa.
Raul colocou a fita no leitor e se sentou no sofá, ao lado de Johnson. Merlim estava em pé atrás do sofá, do lado de David. Paul estava na cadeira do computador, perto de Glalcon. Hernesto estava parado, tenso, ao lado da porta, pronto para pedir reforços caso a situação desandasse. Fred estava recostado na parede ao lado dos computadores, para ter uma visão melhor da televisão. Peter, por sua vez, estava recostado na parede oposta a televisão, no escuro, sozinho, quase tremendo de ansiedade.
Os chiados começaram.
Após alguns segundos, a voz distorcida soou. Johnson ouvira a voz real do Corvo e agora era impossível tira-la da cabeça. Após limpar a garganta com algumas tosses forçadas, começou:
“Meus bons amigos! Sinto-lhes dizer que essa pode ser a nossa última comunicação. Não, eu não pretendo parar, não por enquanto pelo menos. Mas logo o meu objetivo com vocês estará acabado. Claro que um de vocês sabe muito bem disso”
Johnson se remexeu inquieto no sofá, despertando olhares tortos de seus colegas.
“Bom, todos devem estar muito ansiosos para saber quem é o meu queridíssimo ajudante, não é? Pois logo vão saber, deixem-me apenas ligar para ele, um segundo, o número é um pouco complicado...”
Raul bufou, em desprezo. Uma onda de tensão atingiu todos os presentes quando o Corvo disse:
“Está chamando...”
O silêncio só foi cortado pelo estridente toque de um telefone.
O som de um disparo soou mais alto que o telefone.
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