O Corvo Negro

7 Capítulo 6 - Semente da Discórdia


Notas iniciais
Estou quase no prazo, espero que gostem =w=

– Por favor, não! – berrava uma mulher – Eu imploro!

Ela erguia algum tipo de símbolo religioso inutilmente, o que ela queria assustar não era um demônio, afinal. Mas a semelhança era inevitável.

– Vai ser mais fácil se ficar quieta... – disse uma voz masculina aguda, um tanto aborrecida e entediada

– O que eu te fiz? – a essa altura, a mulher, um tanto acima do peso, já havia se recostado na parede oposta à porta em um cômodo quadrado, pequeno e mofado. As paredes eram de um amarelo desbotado, com mofo recobrindo uma quantidade generosa de sua superfície.

– O que você me fez? – perguntou irônico o homem escondido nas sombras – Ora, nada de que se lembre

A lâmina de uma faca refletiu a pouca luminosidade da sala. Não havia lâmpadas ou janelas, apenas uma vela no canto oposto da sala. A mulher, desesperada, tentou golpear seu agressor com o símbolo, mas este apenas o agarrou com a mão livre e o quebrou com facilidade. Ele desferiu um golpe rápido com a faca e atingiu a barriga avantajada da mulher. Ela olhou para o ferimento e depois para seu agressor e uma súbita luz de compreensão tomou seu rosto. Ela balbuciou, com suas últimas forças:

– Você... Já faz tanto tempo... Achei que estivesse morto. – Lentamente, seu corpo foi escorregando, e ela caiu de joelhos no chão. A parede estava marcada com um enorme rastro de sangue. Em volta do corpo da mulher, uma enorme poça do líquido rubro se formava.

O homem sorriu. O trabalho estava feita afinal, poderia dormir em paz. Lentamente, ele arrancou uma das penas negras que enfeitavam seu casaco de couro negro e a colocou sobre a poça. Com um sorriso irônico, se aproximou da janela e disse, para o corpo:

– Este é o quinto... Com isso, é praticamente a metade.

O estranho sujeito tomou a forma de um corvo e desapareceu.

...

Peter estava com olheiras profundas.

Estava do lado da esposa no hospital desde que ela sofrera um acidente. Suas únicas saídas eram quando os médicos precisavam fazer algum tipo de procedimento complicado, ou quando algum outro parente vinha visitá-la. Fora isso, ele permanecia lá, dia e noite.

Foi informado que o motorista do outro carro havia falecido no acidente, onde ambos os carros se chocaram de frente. Peter não ligou muito para o fato e, no fundo de sua alma, acreditava que havia sido uma morte bem merecida.

Fred vinha visitá-lo de vez em quando, trazendo-lhe roupas e produtos de higiene pessoal. Sentia que o amigo estava se preocupando demais, afinal, os médicos já haviam dito que ela passava bem, mas precisava repousar.

Passou-se quase uma semana até que Mary acordasse novamente. Ficou muito feliz em ver o marido, além de muito emocionada em ver que ele continuava ali, dia após dia. Mas também lhe deu uma bela bronca, por ter deixado de ir ao trabalho, mesmo depois da recomendação dos médicos. Por fim, o detetive cedeu aos pedidos da mulher e voltou ao trabalho.

Bem a tempo de investigar um novo caso.

Johnson, Fred e Hernesto haviam ido investigar uma denúncia sobre um forte odor, semelhante a algo morto, em um prédio residencial. O local ficava em um bairro perigoso da cidade, então todos já esperavam o que encontrar.

Quando os primeiros policiais chegaram ao local, logo se depararam com a terrível cena. Uma mulher caída no chão, embebida em sangue. As paredes estavam sujas de sangue e a janela estava quebrada. Era um local muito pequeno, tendo apenas um colchão surrado no canto e uma vela apagada sobre uma pequena mesa.

Quando a notícia do assassinato finalmente chegou à Sede, Raul logo enviou os 3 para investigarem. Sem muito esforço, eles logo encontraram a pena negra, sob o corpo inverte da mulher um tanto acima do peso. A pena estava presa em um enorme corte em sua barriga, aparentemente o golpe letal, mas não havia mais pistas, como de costume.

Os vizinhos diziam que ela era uma mulher louca, que vivia gritando sozinha, além de amaldiçoar a todos que encontrava. Havia sido jogada ali pela família, como última tentativa de se livrar dela. Quando, alguns dias atrás, a mulher começara a gritar, pedindo socorro, ninguém deu muita atenção, pois isso já era bem comum. Seu nome era Gabby Fuentes.

Johnson e Hernesto se entreolharam enquanto Fred examinava a vítima. Não havia dúvidas de que aquele era mais um caso do Corvo Negro, o quinto.

– Esse já é o quinto, e nada. – resmungou Hernesto

Johnson observou a cena por mais algum tempo. Em seu trabalho como policial ele já havia visto viciados em drogas, maridos ciumentos, ladrões, traficantes, além de algumas coisas bem engraçadas, mas algo como aquilo era a primeira vez. A violência daqueles crimes chegava a ser intimidadora, quase cruel. Johnson já havia pensado que um dia iria encarar o Corvo Negro e, vendo o que ele era capaz de fazer, suas mãos suavam e seus joelhos fraquejavam, era um medo quase irracional.

Procuraram inutilmente por novas pistas. Elas pareciam desaparecer como mágica das cenas do crime, o que não mentira. Após um pouco mais de investigação, localizaram a família da vítima, que não parecia muito abalada.

– Imaginamos que isso aconteceria um dia – dizia a irmã de Gabby, Fabiana Fuentes – Ela era um tanto briguenta, arrumava encrenca com todos... Era uma questão de tempo.

Sem novas pistas, os três retornaram à Sede, para esperar pela fita do Corvo. Os minutos pareceram horas que se arrastavam como uma faca sobre a carne. Finalmente, o envelope amassado carregando uma fita negra chegou. Eles o abriram e inseriram a fita no leitor e, após alguns minutos, o ruído começou.

“Bom dia, meus caros companheiros, estão tendo uma boa semana? Espero que não se importem muito com a morte de Gabby, ela era alguém muito irritante, podem perguntar para qualquer um. Pode-se dizer que eu fiz um favor para todos”

O narrador parou para dar uma de suas risadas estridentes. Johnson cerrou os punhos, nervoso. Aquele tipo de atitude o deixava louco de raiva. Merlim estava mais calmo, mas igualmente desconcertado com a frieza do Corvo em relação à morte de uma pessoa.

“Mas eu não quero falar disso. Quero falar com você, Peter Dawn.”

Peter cambaleou para trás, como se tivesse sido atingido por um soco no estômago. O chamado deixou todos atônitos e quem quer que tivesse gravado o vídeo imaginou que aquilo aconteceria, pois fez uma pausa para que todos se recuperassem.

“Sua esposa sofreu um trágico acidente recentemente não é mesmo? Receio que não tenha sido um acidente. Veja bem, meu caro amigo, eu posso ter algo com o pequeno desvio que acarretou na batida dos carros...”

Peter saltou sobre a TV e, se não tivesse sido segurado por Merlim e Fred, provavelmente teria caído sobre ela e a destruído. Enquanto os colegas pediam para que ele se acalmasse o Corvo gargalhava histericamente. Quando a bagunça parou, a voz distorcida continuou.

“Mas lembre-se de que eu tenho um espião entre vocês. E digo mais, ele foi diretamente responsável pelo acidente de sua esposa, foi uma espécie de prova para garantir que ele estava do meu lado. E ele já está pronto para se revelar. Na próxima fita, eu ligarei para o meu informante, para que todos saibam quem é. Ele diz também que não tem medo de sua vingança, Peter.”

Após mais alguns segundos de risadas a luz azul inundou a sala, com seu brilho tecnológico morto. Após o silêncio, Raul começou:

– Ora, mas quanta bestei...

– Calado velhote! – berrou Peter, fumegando em raiva – Você não sabe o que é isso... Esse maldito! Como pode nos trair dessa forma? Mary... – ele pegou sua arma na cintura e olhou para ela com um olhar frio atrás dos óculos escuros – Quando o telefone tocar... Será uma bala direto na testa.

Depois, saiu pisando duro, sem ligar para os olhares perplexos de seus colegas.

– Não acha que é melhor desarmá-lo, ou impedi-lo de vir até a reunião? – perguntou Hernesto

– Claro que não! Isso é tudo uma grande besteira! Esse maldito está blefando. Não tem porque nos preocuparmos, a fita é uma gravação, não tem como ele saber exatamente quando vamos colocar a fita, se vamos pausá-la ou não. É impossível.

O coração de todos se acalmou com as palavras do líder, mas era claro que era uma calmaria temporária e irreal. Na mente de todos se formava a dúvida “Se ele ligar, para quem será?”. Nem mesmo Johnson escapava dessa dúvida, e um calafrio passou por sua espinha ao imaginar-se de frente para o autor daquelas atrocidades.

Um ar de suspeita estava se instalando na sala, e tudo se encaminhava para um fim trágico.

...

Peter ainda estava fervendo de raiva.

Ele caminhava pelos corredores da sede, com passos duros e cara fechada. Estava decidido a voltar para o hospital, mas não ia comentar nada sobre o ocorrido com a esposa. Ele acreditava que ela o mandaria esquecer tudo e apenas agradecer por estarem bem. Mas Peter não podia esquecer algo como aquilo. As palavras chiadas ainda ecoavam em sua mente, como uma daquelas músicas que grudam e não saem. Com raiva, grunhiu:

– Não importa quem seja, eu vou matá-lo.

Ele suspeitava fortemente dos novos detetives. Johnson principalmente. Ele tinha um olhar meio estranho e vazio em algumas ocasiões, o que o tornava suspeito. Peter também desconfiava de Paul e sua estranha calma diante de todas as situações.

“Johnson, Paul, David... Qualquer um! Até mesmo Raul ou Hernesto ou... Fred... até mesmo Fred” por um momento Peter parou e pensou. Até o momento a ideia de que Fred poderia ser o espião jamais passara pela sua cabeça e, agora que pensara nisso, duvidava se seria capaz de matar o amigo.

No entanto, um telefonema resolveu tudo.

– Quem é? – perguntou mal humorado

– Aqui é do hospital – respondeu a voz rouca do dr. Watson, médico responsável por Mary – Sua esposa... Bem... Ela...

...

O funeral foi às 16h.

Parentes e amigos estavam presentes ao céu aberto, sob uma garoa leve observando o caixão marrom de madeira ser colocado lentamente para dentro do buraco. Peter observava a cena atrás de seus eternos óculos escuros. O cabelo espetado com gel estava encharcado e caído, mas suas feições ainda estavam imponentes.

Mary havia sofrido um mal súbito e falecera no hospital, sozinha. Todos estavam profundamente tristes e intrigados. Alguns minutos antes da morte, ela estava impecavelmente bem e era provável que logo recebesse alta. De uma hora para a outra, ela começara a se contorcer na cama e em poucos minutos seu coração havia parado, resistindo a qualquer tentativa de reanimação. Todos suspeitavam de erro médico quanto à medicação, mas as investigações não apontavam nada de anormal com os remédios, o que tornava tudo um grande mistério.

Menos para Peter.

Peter sabia que o Corvo estava por trás daquilo. Não sabia como e nem porque, mas ele sabia que aquele maldito esguio estava por trás de tudo. E um de seus “colegas” também. Agora não importava mais quem era; não importava se era David, Johnson, Paul ou até mesmo Fred, seja quem fosse, Peter estava disposto a matar para vingar sua mulher, mesmo que fosse preso para o resto de sua vida. Já não se importava mais com o caso do “Corvo Negro”, ou com qualquer outro, sua vida se tornara a vingança e depois que ela fosse feita, não havia mais o que fazer.

Fred, sua esposa e sua filha também estavam lá. Todos lamentavam muito a morte de Mary, que era grande amiga da família. Fred ficara muito preocupado com Peter, que ficara calado desde que recebera o telefonema do hospital. Quando o funeral acabou, Fred tentou consolar o amigo, disser algo para animá-lo, mas este o ignorou e entrou no carro, saindo em alta velocidade para algum lugar desconhecido. Antes de ir, Fred pode ouvir o amigo dizer:

– Não importa quem seja...