O Corvo Negro
4 Capítulo 3 - Óculos Escuros
Cristina aproximou-se da porta e, ao ver a cena, simplesmente desmaiou.
A Sra. Ramares ainda estava em estado de choque com o que vira, mas os detetives agiram rápido. Merlim ligou para a polícia e, com sua voz grossa, informou o endereço e o ocorrido. Johnson observou atentamente a sala, tomando conhecimento dos detalhes da cena.
Socorrida por colegas, Cristina já estava acordada e tomava um copo de água e chorava, chorava tanto quanto Cláudia. Merlim, após desligar o telefone, perguntou-a:
- Havia câmeras na sala?
Entre soluços e goles d’água ela respondeu, ainda muito abalada:
- Não... Iam ser instaladas este mês.
O detetive mais velho estalou a língua, em um sinal de raiva e se virou para o mais jovem.
- Está morto faz pouco tempo. O suspeito aparentemente fugiu pela janela, por mais que isso seja loucura pular do terceiro andar. – ele completou a fala olhando para a janela quebrada, sem acreditar muito no que via
- Entendo – observou Merlim – Quem acha que foi garoto?
Johnson viu nos olhos de Merlim um fogo, um fogo antigo, que há muito havia se apagado e agora estava novamente aceso. O fogo pela aventura, a chama que arde quando se está de frente para um caso realmente empolgante. O detetive mais jovem sentiu-se intimidado pelo olhar do parceiro, mas percebeu que no fundo ele também sentia-se daquela forma.
Não demorou muito para que os “policiais de verdade” chegassem. No comando deles vinha um sujeito de uns 30 anos, mas que tinha fortes marcas no rosto derivadas do excesso de trabalho. Ele era alto e sua presença era imponente, sua voz era grave e quando falava inundava o ambiente, fazendo com que todos se calassem. Seu cabelo era escuro, mas já possuía alguns fios brancos bem escondidos pelo excesso de gel para manter o cabelo em pé. Por trás dos óculos escuros escondia-se um olhar atento e castanho, delineado por fortes olheiras de noites acordado analisando arquivos.
- Todos se afastem – pediu sem muita gentileza e com pressa.
Johnson teve o impulso de sair do caminho o mais rápido possível. Merlim tentou parecer submisso, mas até o grande detetive teve de abaixar a cabeça para o recém chegado, tal era sua presença. Ele entrou no quarto e observou a cena toda com a mão no queixo. Seu rosto estava impassível até ele notar a escura pena que boiava no sangue. Por um segundo, um milésimo de segundo, sua expressão confiante foi tomada pela dúvida, mas logo ele se recompôs tão rápido que Johnson jamais concluiu se aquilo realmente havia acontecido.
Depois de analisar bem a cena, deu algumas ordens aos policias que se apressaram em recolher evidências e tirar fotos, enquanto isso o detetive veio ao encontro dos demais.
- Olá. Sou o Det. Hernesto, da Central de Investigações de Chicago. Poderiam me contar o que sabem?
Os presentes se entreolharam e Merlim tomou a frente. Contou ao detetive todo o caso do adultério de Beto, sobre ele e Johnson serem investigadores particulares, sobre como haviam seguido ele e Cristina e terminou mostrando as fotos tiradas recentemente.
O detetive que havia ouvido tudo em silêncio e fazendo anotações em seu bloco de notas concluiu no final: — Realmente vocês parecem dizer a verdade, além de parecerem assustados demais para terem feito aquilo – a última palavra saiu quase que com nojo.
Era verdade que Johnson estava assustado, mas não em todo com a cena horrenda, mas sim com o imponente Det. Hernesto, mas aos poucos ia se acostumando com sua presença e começava a sentir uma leve raiva crescendo pelo fato do detetive chamá-lo de “garoto” sendo que não era realmente muito mais velho que ele.
- Bem, se já estão satisfeitos, acho que deveriam voltar para suas casas, não é uma cena bonita de se ver – disse Hernesto, guardando o bloco no bolso do paletô que usava
- Como assim? Ficaremos aqui ajudando na investigação, somos detetives também. Até que nosso caso em questão esteja encerrado é nossa obrigação ficar –impôs-se Merlim
- Veja bem, meu senhor... – era possível ver que Hernesto escolhia as palavras com cuidado – Não é que eu duvide da capacidade de vocês, mas... Não acham que deviam deixar para nós? Temos mais recursos para a investigação e...
- O que era aquela pena negra, Det. Hernesto? – interrompeu Johnson, com uma coragem invejável.
Pela primeira vez todos viram o espanto no rosto de Hernesto, até o ponto que seus óculos escuros desceram de seus olhos até seu nariz, mostrando a todos seus dois olhos castanhos arregalados. A pergunta do jovem o havia pego completamente desprevenido e ele não sabia o que responder. Por fim disse baixinho, quase para si mesmo:
- Você viu...
Ele engoliu em seco e ajeitou os óculos. Olhava para baixo, como se tentasse escapar da situação, mas não conseguisse. Por fim, vencido por aquela luta mental, passou a mão nos cabelos e disse em um tom sério, diferente do anterior:
- Sigam-me. – Sem esperar responta ele saiu como um raio pelo corredor.
O chamado era claramente para Merlim e Johnson, enquanto os demais envolvidos permaneceram, sem entender muita coisa. Quando chegaram em um ponto mais afastado, perto da escada, o detetive falou:
- O que mais sabe sobre isso, Sr. Smith?
O tom do policial o assustava, mas continuou, confiante:
- Nada mais, apenas que com certeza há uma ligação com o crime. É bizarro demais para ser aleatório.
Hernesto passou a mão no queixo por alguns segundos, analisando a situação. Depois, pediu licença e foi até o corredor onde ficava a escada, que era separada por uma porta. Lá, pegou o celular e discou um número apressado, falou pouco e rápido, usando muitos códigos e codinomes. Por fim, voltou para onde os dois detetives estavam esperando e disse, mais calmo e aparentemente sobre controle novamente:
- Poderiam me acompanhar até a Central?
Merlim e Johnson se entreolharam, mas não viram motivos para recusar. A ideia de que Hernesto estaria querendo se livrar deles só atingiu a mente de Johnson no meio do caminho, tornando a viagem um tanto desconfortável.
Deixando a investigação a cargo de seu parceiro, Hernesto partiu em uma vã preta com um grande adesivo de uma águia dourada na porta. Dirigiu rápido e grosseiramente, sempre seguido pelo velho carro de Merlim. Depois de quase meia hora de viagem, chegaram até a base de investigações.
A base do “Investigações Mandregas” parecia ainda menor comparado àquela estrutura. Era um prédio de pelo menos 10 andares revestido inteiramente de espelhos, que refletiam tudo que estivesse em seu alcance. Ainda havia dois estacionamentos no subsolo e algumas salas secretas ainda mais embaixo. Por dentro, tudo era de alta tecnologia, principalmente os laboratórios florenses. Aquilo mal se podia chamar de “agência”, aquilo era realmente uma Central de Inteligência.
Boquiabertos, os dois detetives adentraram pelo saguão principal, que era muito espaçoso e aberto. Não havia salas muito importantes nesse andar, nele constavam apenas uma sala de espera, um atendimento e a banheiros. Uma enorme coluna, erguida no centro do edifício dava espaço para o elevador. Suas portas eram de metal polido e havia espelhos do lado de dentro, nada muito diferente, afinal.
Eles subiram até o Sétimo Andar, que era um conjunto complexo de corredores. Seguindo Hernesto, que se movimentava sem problemas por aquele labirinto de portas e paredes, encontraram, quase no fim de um dos últimos corredores, a sala de número 728, onde se lia em pequena placa:
“Caso Corvo Negro – Sala Fechada”
Com um cartão especial retirado do bolso de Hernesto, eles entraram na sala. Neste ponto, o detetive havia alertado aos seus dois acompanhantes para que ficassem quietos até que fosse-lhes perguntado algo.
Uma luz azulada invadiu os olhos de Johnson.
Pouco a pouco seus olhos foram se acostumando com aquela claridade e ele pode distinguir inúmeros monitores de computadores espalhados em um canto da sala, além de uma enorme mesa que projetava a mesma luz para todos os lados. A sala em si era grande, mas estava tão cheia de coisas que parecia pequena. Em toda a parede esquerda encontravam-se computadores ligados, com fichas, mapas, dados entre outras coisas. No centro da sala, a mesa destacava-se, sendo quadrada e espaçosa. Sobre ela, dezenas de papéis estavam jogados, além de canetas e algumas canecas.
No canto direito, uma grande TV e algumas cadeiras de metal estavam amontoados, junto com um DVD e um velho leitor de fitas K-7. Um pouco mais para dentro, no único local iluminado por uma lâmpada, estava um sofá marrom surrado, duas plantas artificiais e uma porta que levava a um banheiro em um estado não muito melhor.
Apesar da alta claridade, a sala era escura. Bastou Hernesto fechar a porta que Merlim pode sentir os velhos olhos arderem. No entanto, não estavam sozinhos. Mais meia dúzia de detetives estava reunida ali, em torno da mesa brilhante, observando os recém chegados. O mais velho e aparentemente o líder, olhava-os com olhos severos e um charuto na boca.
- São esses dois? – Perguntou sem tirar o charuto da boca.
Hernesto apenas confirmou com a cabeça. Johnson entendeu que aqueles 6 detetives deviam ser respeitados, pois nenhum deles trazia qualquer identificação, mas era claro que todos naquele prédio os reconheceriam em qualquer lugar.
O líder era calvo e tinha cabelos grisalhos. Ralos cabelos brancos deitavam em volta de uma enorme careca. A falta de cabelo era compensada por uma volumosa, mas bem cuidada, barba branca, que enfeitava seu queixo. Ele tinha um terno cor de terra eu usava uma gravata vermelha por baixo de um suéter também marrom. Ele olhava para os dois recém chegados com autoridade, mas em seus olhos profundos podia-se enxergar uma profunda sabedoria de anos de experiência. Sua voz era fria, mas grave e firme. Tinha quase 60 anos, mas não aparentava mais de 50. Seu nome era Raul Sierfroud.
Os demais amontoavam-se em sua volta, um deles, o mais alto, logo chamou a atenção de Merlim, pois tinha cabelos alaranjados um tanto chamativos, muito bem penteados e usava uns óculos miúdos. Sua voz era aguda e a todo momento ele soltava risadinhas sem motivo. Sua pele era quase brilhante e ele se vestia como um perfeito cavalheiro do século XX, com direito a uma bengala. Aquele era Sir Glalcon, como gostava de ser chamado.
- Não parecem grande coisa – disse um terceiro – Por que mesmo estão aqui?
Este tinha a pele escura, mas um rosto grave assim como a voz. Tinha o cabelo raspado e se vestia como Hernesto e aparentemente eram colegas de trabalho. Seu nome era David Moore e, apesar de jovem, seu rosto trasbordava de experiência.
- Eles sabem demais, David. Ou nos juntamos a eles, ou matamos. E já temos mortes demais por aqui.
Com um suspiro, David acatou a ordem de Hernesto, pois o respeitava muito, como descobririam mais para frente. Uma outra voz, irritada, brandou:
- Não sei não... De velhote já temos o Raul e de garoto já temos o Paul. – um homem riu. Seu nome era Peter Dawn. Sua voz era irritada, mas seu rosto era sorridente e seus olhos se escondiam atrás de óculos escuros. Em geral, era parecido com Hernesto, com exceção de que era bem mais baixo.
- Calado Peter – riu um homem ao seu lado. Fred Duncan. Era bem mais alto que Peter, mas era menos imponente, podia até se dizer que era retraído. Pelo seu tom, eram amigos de longa data.
- Calados todos, deixem o chefe falar – uma voz aguda, mas excessivamente fria e controlada, veio do meio das sombras da sala. Lentamente um jovem, de aparentemente 18 anos saiu das sombras. Vestia uma blusa branca e um colet preto, além de calças jeans pretas. Seus cabelos negros e lisos caiam até seus ombros e seus olhos, também negros, eram distantes e enfeitados por enormes olheiras roxas. Sua pele era doentiamente pálida, ao ponto que Johnson sentiu pena apenas de ver a aparência do garoto.
Todos se calaram com o pronunciamento de Paul. Quebrando o silêncio, Raul pediu para que se apresentassem e contassem suas histórias, as quais ouviu atentamente. Depois de meditar por alguns segundos, disse:
- Certo, certo. Vocês podem ficar, mas não atrapalhem. Vou dar um pequeno resumo do caso. Um estranho serial killer vem atormentando nossas cabeças há algum tempo. Ele já fez ao todo 3 vítimas, 4 com esse novo caso e ao que indica não vai parar. Nenhuma digital, nenhum vestígio, apenas uma pena negra e muito sangue. Já identificamos a pena como sendo de um corvo. Não conseguimos traçar nenhuma ligação nítida ou motivo por trás dos crimes, mas pela violência cometida, pode-se dizer que teve motivos emocionais. Em nenhum dos casos havia câmeras ou testemunhas, parece até mágica.
Ao terminar o discurso, Raul bateu com a pesada mão sobre a mesa, fazendo a mesma tilintar. Todos olharam para baixo e para os lados, envergonhados com o fato. Johnson sentia a tensão no ar e tinha medo de dizer alguma bobagem, pois era óbvio que na sala estavam reunidos os melhores detetives da cidade e, mesmo que sendo um bom policial em sua época, sentia-se deslocado e inferior aos demais.
Merlim, por outro lado, sentia-se mais leve e um sorriso até brotou em sua face. Estava tão animado com o caso que disse:
- Isso sim é que é trabalho. Mas a janela do prédio onde estávamos estava quebrada, será que ninguém viu um sujeito pulando de uma altura de 3 andares? E como ele entrou lá, aliás?
- É bom ver seu entusiasmo, meu caro. – Disse Raul, com um leve brilho nos olhos. Ele e Merlim sentia-se a vontade um com o outro, como se, mesmo acabando de se conhecer, já sentissem que iriam se dar bem – Acho que já trabalhei com você alguma vez em minha vida... Mas isso não importa. Estamos esperando as gravações do prédio da frente. Tem uma boa visão da janela do Sr. Ramares.
Mal acabara de falar e alguém bateu na porta. Hernesto, que estava mais perto da porta, prontificou-se para atender. De lá, um policial com o rosto vermelho por causa da corrida segurava um envelope plástico contendo um pen-drive. Ele entregou o objeto para o detetive e depois saiu.
Hernesto lentamente abriu o envelope e pegou o pen drive. Os outros se entreolharam preocupados. Sem muita cerimônia, o detetive de óculos escuros entregou o objeto para Paul, que o conectou em um dos computadores e começou a mexer em pastas e arquivos. Depois de alguns minutos, ele chamou todos:
- Pronto, venham logo.
Todos se amontoaram em volta do rapaz, olhando quase sem piscar para a pequena tela luminosa. O garoto deu play e um video começou. Com alguns clicks o vídeo foi adiantado para o momento em que supunham ter ocorrido o crime, entre as 13 e as 14 horas do dia. Ficaram esperando cerca de 5 entediantes minutos olhando para a tela até que, de súbito, a janela foi estilhaçada de uma forma estranha, arrebentado para fora. Surpresos, tiveram de voltar o vídeo cerca de 3 ou 4 vezes para enxergar uma minúscula forma negra voando em direção da janela.
Paul aproximou a imagem e diminuiu a velocidade do vídeo. A resolução não era boa, mas inegavelmente todos puderam ver uma forma negra quase que atravessando o vidro e depois este se destruindo de forma tão estranha, sem qualquer ruído audível. A garganta de Johnson secou ao perceber que a estranha figura negra tratava-se de um corvo.
O vídeo prosseguiu sem muito mais. Às vezes os detetives julgavam ver um vulto completamente envolvido em negro, desfocado, quase que como um fantasma, em contrapartida, viam inúmeras vezes o corpo nítido de Beto ser jogado para os lados, cada vez com mais sangue. Acabada a carnificina, que durou cerca de 10 minutos, a forma negra voltou a aparecer, saindo pelo buraco na janela e indo de encontro à rua.
Depois de verem o vídeo algumas vezes, ninguém duvidava do que se tratava. Nem mesmo Paul disse qualquer palavra. No entanto, na mente de todos pairava uma inquietação estranha, um medo que os consumia lentamente. Era quase que como se tivessem chegado a um acordo silencioso de que estavam lidando com coisas muito maiores do que poderiam aguentar.
Nenhum dos presentes sabia, mas um sujeito um tanto estranho ria as custas dos detetives, nem tão longe dali, a distância, quem sabe, de um voo de corvo.
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