O Corvo Negro
19 Capítulo 18 - O Palácio dos Corvos Pt. 2
Notas iniciais
Neste mundo, é olho por olho...
Merlim estava sob a sombra da grande fábrica. Os portões estavam apenas encostados, um leve empurrão e eles se abriram. O interior estava escuro e com cheiro de mofo e sangue. Os olhos do detetive demoraram a se acostumar com a pouca claridade do lugar e aos poucos ele foi percebendo os detalhes.
Não demorou muito para ele ver os primeiros corpos.
Eles estavam parcialmente queimados, estirados sobre a escada e pelo cheiro que vinha dos corredores, na situação só poderia ser pior. Um enorme letreiro marcava o número 63 em letras alaranjadas, frias e estáticas. Aquilo fez sua espinha gelar, mesmo sem saber o porquê. Ele respirou fundo e adentrou a escuridão.
...
Hernesto deslizou pela parede, olhando o corredor à sua frente.
Já havia perdido grande parte de sua equipe e a restante estava fragmentada e assustada. A notícia de que Glalcon estava morto o havia deixado perturbado. Ele se perguntava se aquilo realmente teria um fim. “Esse verme está brincando conosco” cuspiu em pensamento.
Ainda restavam 70 agentes, pelo que Paul pudera contar, mas havia pelo menos 15 feridos. Hernesto ainda estava inteiro, com exceção de um corte leve no rosto causado por uma rajada de lâminas que voou sobre ele e seus colegas quando uma das portas foi aberta.
David estava ao seu lado, calmo e paciente, sem demonstrar qualquer sinal de pânico ou alteração de humor. Mas Hernesto sabia que ele estava aterrorizado por dentro. Todos estavam.
O corredor à frente deles estava limpo. Não havia corpos ou sangue recente, ou qualquer outro tipo de sinal de luta. Isso era bom. Estavam tão perdidos lá dentro que mais de uma vez se viram obrigados a avançar por sobre os corpos dos colegas falecidos para ter algum senso de direção.
Sob as ordens de Hernesto, a Equipe Azul se posicionou nas portas. Ele e David ficaram com uma das portas do lado esquerdo. Respirando fundo, Hernesto deu a ordem para que as portas fossem abertas. Eles haviam melhorado muito desde o começo, agora eles chutavam a porta e saíam do caminho sem nem mesmo ver o que estava lá dentro. Isso funcionava, às vezes.
Desta vez foram abertas 6 portas. Três agentes caíram de imediato, lentos demais. Outros dois caíram enquanto inspecionavam o interior das salas e outros três ficaram feridos. Hernesto chutou uma das portas e se jogou contra a parede, logo em seguida. Após algum tempo de que nada aconteceu, ele decidiu olhar lá dentro.
David o seguiu. A sala era pequena e escura, com paredes cinzentas de pedra, sem qualquer pintura. Não havia janelas ou qualquer tipo de iluminação, com exceção da luz vinda de fora. Com as lanternas eles vasculharam cara canto da sala sem nada encontrar, além de dois canos de metal, um na parede esquerda e outra na direita.
– Vamos, não há nada aqui – disse Hernesto se virando para ir embora
David deu uma última olhada nos canos e se dirigiu para a saída. Enquanto andava, ele tropeçou em uma pequena elevação repentina no chão. Alguns segundos depois, ele começou à ouvir o som de um maquinário funcionando e olhou para onde tinha tropeçado. Nauseado, ele percebeu que aquilo era uma espécie de botão. Aterrorizado, logo percebeu o que eram aqueles canos de metal.
– David!
Hernesto voltou tão rápido quanto uma bala. Ele se jogou sobre David, fazendo-o cair no chão. Mas não foi o suficiente para se salvar. Após jogar David no chão, Hernesto acabou ficando no local, bem a tempo do clarão de armas sendo disparadas inundar o pequeno quarto.
Metralhadoras, sem dúvida. Havia algum tipo de sistema automático por entre as paredes, talvez até mesmo algo simples como cordas amarradas aos gatilhos. O fato é que uma rajada de tiros quase infinita voou sobre o corpo do agente. Ele se remexeu inquieto, de um lado para o outro, à medida que as balas atingiam seu colete, seu capacete, penetravam sua carne, rasgavam seus órgãos e faziam seu sangue jorrar. O colete a prova de balas acabou não sendo muito útil, os tiros eram próximos demais, fortes demais. Alguns segundos depois, algo que pareceram horas, o barulho cessou. A escuridão invadiu novamente o quarto.
Hernesto ainda esta em pé. Seu corpo estava rasgado e desfigurado, sangue escorria-lhe de cada buraco de bala que sofrera. Um último sopro de vida o deu forças para se virar para David e dizer, com uma voz surpreendentemente confiante:
– Termine isso
Ele caiu no chão, como um saco vazio. David olhou para aquilo tudo com os olhos arregalados, sem acreditar no que via. Uma mistura de tristeza, ódio, medo e desespero se apoderaram dele e não conseguiu fazer mais do que chorar. Não chorou por muito tempo, porem. Hernesto havia confiado nele e era seu dever terminar aquele serviço.
...
Johnson corria pelos corredores.
Estava perdido, à procura do corpo de Glalcon para dar-lhe um último adeus. A notícia de que Hernesto também estava morto o fez correr ainda mais pelos corredores, sem saber direito para onde ir. Sua cabeça estava pesada e confusa. Ele não sabia onde estava, não sabia para onde ia ou o que fazer. Ignorava os chamados do comunicador e se encontrava longe de sua equipe. À medida que ficava mais e mais perdido, seu passo ia desacelerando. Estava em um corredor pelo qual alguém já passara, pois havia alguns corpos e sangue. Mas o que chamou a atenção de Johnson foi que havia uma porta fechada.
A porta era idêntica às outras, escura e com algumas manchas de sujeira e sangue. Havia outras portas ainda fechadas, mas aquela em especial chamou muito a sua atenção. Ela ficava no meio do corredor, do lado direito. Havia corpos jogados dos dois lados, com suas respectivas portas escancaradas, mas aquela estava inexplicavelmente fechada.
Uma força quase sobrenatural levou sua mão até a maçaneta. Relutante, ele a girou e abriu de leve a porta. De imediato, ele percebeu que havia uma forte luz vinda de dentro. Abriu mais um pouco a porta e visualizou o chão em ladrilhos xadrez, pretos e brancos. As paredes pareciam igualmente decoradas. Havia muita luz no local, o que fazia os ladrilhos brilhar.
Na parede direita do pequeno aposento, havia outra porta, fechada. Ela era prateada e bem trabalhada, apesar de ser difícil ver de onde estava. Ainda tremendo um pouco, Johnson abriu totalmente a porta.
– Parabéns! – uma voz sarcástica ecoou de dentro da sala
Aquilo pegou Johnson tão de surpresa quanto uma bala. Ele recuou para trás. Não queria acreditar naquilo, era impossível. Por que ele? Por que agora? Ele levou a mão ao comunicador, mas vacilou. Não sabia onde estava nem o que diria aos demais. “Paul, por favor, cuide disso” pensou Johnson.
Parado, encostado na parede, estava a figura odiosa de Heitor. Ele estava vestido de sua forma habitual, totalmente de preto, com sua jaqueta de couro incrustada de penas negras de corvos. Seu olho vermelho brilhava como uma lanterna, mas o seu até então olho azul estava praticamente branco. Ele não parecia muito melhor. Tinha um ar doente e cansado, uma respiração ofegante e parecia estar sentindo dor. Mas isso, definitivamente, não o tornava menos ameaçador.
– Eu sabia que seria você o primeiro a me encontrar – ele sorriu, sarcástico – Eu ouvi uma grande correria do lado de fora, mas ninguém entrou aqui, uma pena não?
Ele estava tão perto. Johnson soava frio. Sentiu as pernas tremerem de leve. Aquele era o assassino que perseguia a tanto tempo, que matara tantas pessoas, que ele odiava tanto. Agora ele estava ali, parado, tão perto. Insano de ira ele avançou contra Heitor.
Ele desferiu dois socos rápidos, um em cada direção. Heitor se limitou a sorrir e desviar deles, comas as mãos no bolso. Johnson continuou a golpeá-lo mais e mais, cada vez com mais força e raiva, mas ele era rápido demais e ágil demais, o que tornava a coisa toda muito parecida com uma dança.
Eles já haviam dado uma volta completa na sala de forma que Johnson se viu de frente para a porta pela qual entrara. Irritado, ele tirou a arma e a apontou para Heitor:
– Você quase matou Merlim. Assassinou tantas pessoas. Os filhos de Mandregas... Seu maldito desgraçado!
Ele atirou três vezes, mirando na cabeça. O Corvo limitou-se a sorrir e o encarar com desdém. Assim como na entrada. Seu corpo simplesmente se desmaterializou em forma de penas quando as balas rasgaram o ar onde se encontrava. As penas voaram sobre Johnson à medida que se condensavam em sombras.
As sombras agarraram a arma do detetive e a arrancaram de suas mãos. Lentamente a forma do Corvo se tornou mais visível, apenas a tempo de Johnson ver seu rosto sendo atingido por um punho parcialmente encoberto em sombras.
Ele caiu no chão.
Seu nariz sangrava onde recebera o soco. Ele se viu impotente sob a sombra do assassino. Heitor, calmamente, abria o tambor da arma e retirava todas as balas restantes, deixando apenas uma. Ele colocou as balas sobressalentes em um bolso na jaqueta e sorriu:
– Sabe, eu não gosto de andar por aí com mais balas do que vou usar, pode ser arriscado – ele apontou a arma para a testa de Johnson, fechando um dos olhos, olhando-o apenas com o olho vermelho
Johnson fechou ambos os olhos e virou o rosto. Pensou em toda a sua vida e no que deixaria para trás. Pensou em todas as coisas que deveria ter feito. Pensou em Clarisse e na sua falecida noiva. Seria um fim triste.
Ouviu-se um bac
Johnson esperava pela morte. Mas quando ela não veio, ele lentamente olhou para cima. Não viu o Corvo, como esperava, mas sim a figura ofegante de Merlim. Em choque, ele olhou em volta. Heitor estava estirado no chão perto da porta prateada, com a boca sangrando onde levara o soco e a arma estava no outro canto da sala.
– Mas o que... – Johnson gaguejou se levantando e limpando o sangue do nariz
– Finalmente eu te achei, garoto. Não achou que eu ia ficar esperando em uma cama de hospital enquanto você apanhava desse miserável, achou?
Johnson estava simplesmente sem palavras. Queria dar uma bronca em Merlim por ter fugido do hospital, mas também queria abraçá-lo e agradecê-lo por tudo. Mas não fez nenhuma das duas coisas, pois Heitor começou a se levantar.
– Então você ainda está vivo, velhote – ele finalmente se pôs em pé, limpando o sangue – Devia tê-lo matado naquele dia.
– Realmente devia – Merlim já tinha a arma em punhos e apontava para Heitor
O Corvo sorriu desafiador. Johnson tentou alertar Merlim de que seria inútil, mas ele disparou mesmo assim. Aquela era a última bala que lhes restava e o Corvo provavelmente ainda devia ter alguma coisa na manga. “Estamos perdidos” pensou Johnson.
O urro de dor de Heitor libertou Johnson de seus pensamentos.
Heitor cambaleou pelas paredes, manchando-as com o próprio sangue. Ele tinha a mão direita sobre o ombro esquerdo, empapado de sangue. Ele olhava horrorizado para o ferimento de bala, com um misto de ódio, dor e surpresa. Parecia não querer acreditar que aquilo era real, mas a dor o mostrava o contrário. Johnson estava sem palavras.
– Rhagayr! Rhagayr! Não! Agora não! Estou... Estou tão perto... Por favor – Heitor suplicava para alguma coisa que os detetives não faziam ideia do que pudesse ser. Johnson notou que o olho azul de Heitor já estava totalmente branco e sem vida, sem qualquer sinal do antigo azul que possuía.
Lentamente, as pragas do Corvo se transformaram em um choro doloroso. Lágrimas escorriam por sua face e caiam sobre suas roupas. Seu rosto era feito de pura dor e tristeza. Johnson viu nele, ali, naquele momento, não um assassino frio, mas uma criança assustada.
Ele cambaleou até a porta prateada e a abriu, jogando-se para dentro. A porta se fechou atrás de si e ouviu-se o barulho da tranca.
– Maldito verme arrogante – Merlim girava o tambor da arma, certificando-se de que não havia mais balas – Ele tinha mesmo que tirar todas as balas?
Merlim jogou a arma no chão, irritado. Recostou-se na parede com as mãos em volta da barriga e uma expressão de dor no rosto, aquele esforço todo era demais para ele. Johnson olhou para o amigo e depois para a porta trancada a sua frente. Um dos maiores assassinos que aquela cidade já vira estava reduzido à lágrimas e sangue... era irônico.
Johnson pensou sobre o que sabia sobre Heitor. Pensou nos relatos de Clarisse, sobre como abusavam dele, o chateavam e o maltratavam. Por um segundo, apenas um segundo, conseguiu ter compaixão por ele, afinal, não seria apenas uma criança no fundo? Mas então olhou para Merlim e lembrou de seus ferimentos, lembrou-se de todas as vítimas, lembrou-se das cabeças das pobres crianças... Ele serrou os punhos em ódio “Criança sofredora... Só se for a criança do demônio!” pensou.
Ele avançou contra a porta e chutou-a. Ela era leve e estalou alto quando ele a golpeou pela segunda vez. Um terceiro chute, logo abaixo da maçaneta, foi o suficiente para a porta ceder. O interior da sala era quente e abafado, com paredes de um branco sujo. Havia uma janela fechada, mas era minúscula. Heitor estava estirado no chão, levemente encostado na parede oposta à porta. Sobre todo o seu corpo, corvos brigavam por espaço, bicando e arrancando pequenos pedaços de carne de seu mestre.
Johnson pulou para cima dos corvos e os afastou. Levou algumas bicadas e arranhões, mas os corvos cederam e voaram para fora da sala. Quando olhou para o corpo de Heitor, Johnson sentiu nojo. Estava com buracos e arranhões em diversas partes, sangue escorria de todos os cantos, mas ele ainda era suficientemente sádico para sorrir:
– Por que não deixou que me matassem? – sua voz era arranhada e saia de forma sofrida de sua garganta
– Porque morto você não pode pagar por seus crimes – respondeu, rígido, agarrando os braços do moribundo e os algemando, embora não achasse que fosse necessário
– Crimes? Que crimes? – ele teve coragem de dar uma risada – Eu fiz justiça, apenas isso. A única diferença entre o que eu faço e o que você faz, Smith, é um estúpido pedaço de papel
Johnson estava decidido a ignorar aquilo.
– Mas eu sei que o que eu fiz foi errado. Mas eu não me arrependo de absolutamente nada – ele cuspiu um pouco de sangue e sorriu novamente – Sabe, Johnson, você deve saber... Existem algumas pessoas que precisam morrer.
Seu olhar era tão verdadeiramente sincero que Johnson estremeceu. Desviou o olhar e ligou a comunicação com todos.
– Atenção! É o agente Johnson Smith, líder da Equipe Vermelha. Parem imediatamente as buscas! Suspeito capturado!
...
Johnson fora pessoalmente devolver o corpo.
Heitor não resistira muito tempo após a prisão e agora estavam levando seu corpo para ser sepultado. Paul descobrira que a Sra. Leussen ainda estava viva e morava na antiga casa da família e era para lá que ele e uma equipe de coveiros se dirigiam. Muitos disseram que era bondade demais dar tal tratamento à um assassino como Heitor, mas ele não fazia aquilo por ele, mas pela mãe dele. Nenhuma mãe deveria ser privada do corpo do filho, mesmo um filho como Heitor.
A viagem demorou um pouco, mas quando finalmente chegaram, Johnson se perguntou se o endereço estava realmente certo. A casa estava caindo aos pedaços, suja e empoeirada. A tinta na parede já saíra a muito, mas ainda era possível ver leves toques de azul. Enquanto a equipe pegava o caixão, Johnson foi até a porta e tocou a campainha.
Surpreendentemente, houve resposta. Pouco depois, uma senhora idosa, baixa e levemente calva surgiu à porta. Ela usava um vestido longo e avermelhado, com detalhes em preto e dourado, além de um lenço sobre a cabeça, verde. Seus olhos eram vazios e ela encarava o nada, aparentemente cega.
– Em que posso ajudar? — ela perguntou para alguma coisa atrás de Johnson
– Viemos trazer o corpo de Heitor – quando Johnson começou a falar, o rosto da mulher se voltou para a direção da voz
– Certo, certo... Podem deixar ali – ela apontou para um local gramado ao lado da casa, o único local com um pouco de ordem.
A equipe deixou o caixão ali, sobre uma mesa de metal dobrável. Eles olharam para Johnson, esperando as ordens.
– Abram o caixão, por favor. – a velha se dirigia para onde o corpo estava
– Senhora – Johnson foi atrás dela – O corpo... Bem... Não está em bom estado
Ela parou e se virou para Johnson. Ele acreditou ter visto um vislumbre de um sorriso no rosto enrugado da senhora Leussen, mas sumiu tão rápido quanto apareceu
– Meu jovem... Eu sou cega, não vou me importar com isso.
Relutantes, a equipe abriu o caixão. Heitor ainda sorria. Os cortes haviam sido limpos e costurados, mas o aspecto geral do corpo ainda não era lá muito agradável. Johnson fez um sinal com a cabeça e ele e a equipe deixaram mãe e filho a sós.
Ou quase.
Depois de a equipe deixá-los, um corvo enorme se empoleirou no caixão, sobre a cabeça de Heitor. A madeira do caixão estalou sob seu peso e poder, mas não se quebrou.
– É você Rhagayr? – perguntou a Sra. Leussen. Mesmo sem obter resposta, ela sabia que era ele – Nosso garotinho está morto... Mas já sabíamos que isso aconteceria não é? Agradeço por cuidar tanto tempo dele. Ele foi uma pessoa tão ruim... mas eu o amo tanto.
Ela sorriu e chorou, ao mesmo tempo. O Primeiro Corvo permaneceu impassível, sem responder. A mãe passou a mão pelos cabelos do filho e tateou seu rosto e depois foi embora. Os Corvos foram deixados a sós.
“Neste mundo, é olho por olho...”
A voz de Rhagayr soava mentalmente, mas ninguém a ouvia
“Você sabia os riscos. Sabia o preço. Mas fez mesmo assim. Sabia que jamais conseguiria, mas fez mesmo assim. É tão estúpido quanto louco, Heitor, o não vingado. Agora, me dê o que é meu”
O Corvo se baixou e devorou o olho Heitor, que ainda brilhava vermelho. Lentamente, seu próprio olho que estava faltando foi reaparecendo, até se tornar uma massa vermelha maciça. O ar tremeu a sua volta e o caixão se partiu levemente. Sem emitir qualquer som, Rhagayr voou e desapareceu no ar.
Heitor permaneceu ali, estendido, com um dos olhos faltando e o outro sem alma. Não havia mais nada a dizer sobre ele, seu corpo estava ali, mas sua alma estaria para sempre dentro de Rhagayr, sofrendo e se remoendo das coisas que jamais conseguiu fazer, da vida que não viveu, do pedido que fez.
Este foi o último dia de Rhagayr naquela dimensão.
Este foi o fim da história de Heitor Leussen, O Corvo Negro.
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