O Corvo Negro

13 Capítulo 12 - A Mensagem do Corvo


Notas iniciais
Demorou, mas chegou ^^

– Então Heitor, me conte, como é ser o cara mais doido de todo o mundo?

Heitor levantou a cabeça devagar, para encarar os enormes olhos verdes que o encaravam com tanta vivacidade. A cena era no mínimo engraçada. A garotinha, que era pelo menos um palmo mais baixa que Heitor, estava abaixada, para falar com o garoto encolhido. Enquanto ela estava alegre e cheia de energia, ele parecia um espírito atormentado se arrastando pela Terra, impedido de ter o seu descanso. Parecia a personificação da Vida e da Morte.

– E-eu sou assim Clarisse... E eu não sou doido!

– Ora, ora, claro que você é! Doidinho de pedra! Vive falando sozinho, encolhido no canto, não fala com quase ninguém, parece que cada dia tá mais morto! – a voz da garota era energética, rápida e feliz

Ela ainda rabiscava o caderno, mas havia desistido de escrever e desenhava um ursinho.

– Essa vai ser a matéria da capa do jornal da escola! Tragam uma câmera! Tragam uma câmera! Precisamos de uma foto do nosso astro! Você vai ser famoso Heitor, todos do mundo vão conhecer sua história! Algum médico vai querer te ajudar, vai sim! E então você vai poder me agradecer! Dizer como eu fui importante na sua recuperação! Vão fazer um filme sobre isso! Minha personagem vai ser interpretada pela...

– Clarisse? Clarisse! CLARISSE! – Heitor teve de berrar para que a garota deixasse seu mundo de fantasias particulares – A escola nem tem jornal...

A garotinha bufou e bateu de leve com o bloco na cabeça do garoto.

– Não seja chato! Quando tiver, eu vou ser a repórter, pode anotar!

...

“Atenção! Atenção! Todas as unidades. Um corpo foi encontrado em armário de vassouras, na Marquessi Inc. Um ferimento na garganta foi a provável causa da morte. O assassino deixou uma mensagem na parede.”

Hernesto usou seu rádio da policia para responder o chamado. Após alguns detalhes acertados, ele teve permissão para conferir o caso.

– Foi encontrada uma pena negra no colo da vítima. É dos nossos, quem vai comigo?

Todos se entreolharam, preocupados. Johnson foi o primeiro a levantar a mão. Estava mais determinado do que nunca em acabar com esse caso, agora já se tornara pessoal. Além disso, a ligação do Corvo na noite anterior o deixou muito preocupado.

– Eu também vou.

Todos se viraram para encarar Nelson. Ele já estava em pé, trancando a sala, sem nem ao menos esperar a resposta.

– Tem certeza que vai querer ir, senhor Mandregas? Pode ser um pouco arriscado para alguém... bem, da sua idade. – tentou Hernesto, um tanto sem graça

O velho detetive se virou com um olhar indignado e brincalhão. Ele deu uma pequena risada e disse:

– Ora essa. Não é porque sou velho que tenho problemas de saúde, garoto. Minha saúde deve ser melhor do que a sua! Não se engane pelos cabelos brancos, ainda sou um poço de juventude.

Todos deram ao menos uma risada leve. Nelson realmente ainda mantinha a boa forma e não tinha nenhum problema de saúde grave.

Ao menos, até agora.

Ele pediu a atenção de todos com um movimento de braços. Quando todos estavam devidamente virados e devidamente quietos, ele começou.

– Muito tempo atrás, eu aprendi que a primeira coisa que se deve fazer antes de começar um caso é relaxar. Eu sei que este caso é antigo, mas é a primeira nova vítima em um bom tempo. Todos precisam relaxar um pouco para que o pensamento corra melhor. Então quero que todos tirem algum tempo para relaxar. Tirem esse período de folga, quero que todos saiam daqui e esqueçam esse caso. Voltem às duas da tarde e recomeçaremos.

Alguns múrmuros de satisfação se alastraram pelo pequeno estabelecimento. Em poucos minutos, todos os profissionais já estavam do lado de fora e o pequeno escritório estava abandonado, não de uma forma assustadora e medonha, mas de uma forma casual e aconchegante.

Nelson, Hernesto e Johnson se dirigiram ao local do crime.

...

Quando chegaram lá, encontraram algumas viaturas paradas e uma grande multidão do lado de fora. As atividades haviam sido suspensas por tempo indeterminado. O local era basicamente o setor administrativo de uma companhia de produção de caixas de papelão. Era um prédio pequeno, com apenas três andares, feito de tijolos, pintado em um tom desbotado de vermelho.

O armário ficava no segundo andar. Era pequeno e estreito, mesmo sem as vassouras. Uma cadeira de madeira ensanguentada com uma mulher amarrada tornavam o espaço geral ainda menor. Para a surpresa de Johnson, ele logo reconheceu o rosto, era Nathaly Mcnell.

Ela estava bem. Se fosse desconsiderado o enorme buraco em sua garganta, ela estava bem para uma vítima do Corvo. A pena negra havia sido colocada com cuidado em seu colo, de uma forma mortalmente triste. Ela vestia uma camisola que já fora branca, mas agora estava quase totalmente tingida de vermelho. Seu rosto expressava dor, tristeza, angustia e mágoa. Parecia que ela conhecia o assassino e não estava nem um pouco contente com o que ele havia feito.

Ainda era possível ver o caminho que as lágrimas haviam feito antes de se perderem no mar vermelho. As cordas que a prendiam ainda estavam firmes, mas não havia marcas visíveis delas no corpo da jovem.

– Oh meu Deus! O que é isso?

Johnson levantou os olhos do cadáver e contemplou a parede logo atrás. Imediatamente, ele sentiu náuseas e tontura. Nada, em todos os seus anos de experiência, poderia ter preparado-o para aquilo. Aquilo era desumano, era cruel até mesmo para o Corvo. Na parede, em letras parcialmente legíveis, escritas com sangue, estavam as seguintes palavras:

“Eu avisei você!”

Mesmo Hernesto, que costumava manter a postura nas situações mais difíceis, teve de desviar o olhar da escritura macabra e se encostar-se ao batente da porta. Johnson recuou para fora da pequena sala para tomar um pouco de ar fresco, ou o mais perto disto que se pode obter em uma cidade. Nelson se limitou a praguejar algo inaudível, fechar os olhos com força e desviar o olhar.

O primeiro a se recuperar, Hernesto perguntou ao policial que examinava o corpo de Nataly:

– Vocês já... Pegaram uma amostra do sangue na parede?

– Já... – o policial fez uma pausa para examinar o buraco na garganta da vítima e depois acrescentou, em um tom sombrio – Mas acho que já sei de onde esse sangue veio.

Todos concordaram em silêncio. Com uma rápida troca de olhares, todos concordaram que não havia mais nada a ser feito ali. Estavam atrasados novamente. Enquanto saíam do prédio, Hernesto pegou o telefone e contatou David sobre as novas, como este havia pedido. Algo no fato da vitima ser Nataly Mcnell o fez ficar particularmente agitado, apesar de ele não querer dizer o que era.

– Sabe, em todos os meus anos como policial, eu nunca vi nada pior do que aquilo... – lamentou Nelson, pouco antes de entrarem no carro.

Uma boa correção para o que Nelson dissera seria: “nada pior até agora

...

“Não pode ser uma coincidência”

David pisava fundo no acelerador.

“Fred, Peter... E agora Nataly. Não há qualquer ligação entre tudo isso... Apenas uma”

Sua mente estava dando voltas como uma montanha russa enquanto ele tomava a estrada. Parte de sua mente gritava “Está tudo ligado!” enquanto a outra gritava “A morte de Peter e Fred foi acidental!” e nenhum dos dois lados parecia ter a vantagem.

Quanto mais pensava sobre isso, mais confuso ficava. A principio acreditava que a morte de seus colegas fora um infeliz acaso. Talvez houvesse alguns dedos do Corvo na história toda, mas ele tinha uma teoria muito sólida de que tudo aquilo havia sido feito para desestruturar o grupo. Mas agora, ele duvidava de sua teoria.

Sabia que Nataly era amiga de infância de Peter e Fred. Sabia também que Nataly tinha uma amiga chamada Gabby, mas que havia perdido o contato com ela. Agora ele suspeitava que a tal “Gabby” das histórias de infância que contavam era ninguém menos que Gabby Fuentes.

Mas então, como Fred e Peter não haviam percebido nada?

Essa era uma das dúvidas que o intrigava. Então ele tentou se lembrar dos seus colegas de escola, mas conseguiu trazer poucos nomes de volta a mente, rostos ainda menos. Isso o motivou a ir ainda mais rápido.

“Acho que não tenho nada a perder com isso, afinal” pensou. Contente com o pensamento, acatou-o como decisão final, e teve alguns momentos de paz mental.

Ele se dirigia à pequena escola “Raio-de-Sol”. Era uma pequena escola no interior de Chicago que se dedicava à educação pré-escolar. Embora ele acreditasse que uma escola que educa crianças na fase da pré-escola devesse atender pelo nome de “pré-escola”, decidiu que não era motivo para discussão.

Quando finalmente chegou lá, havia algumas crianças brincando no parque, que ficava ao lado da escola. A escola em si era uma construção baixa, de um único andar, toda pintada de azul com alguns desenhos na frente. Ele entrou pela porta principal e procurou pela secretaria. Ao encontrá-la, foi recebido por uma mulher com pelo menos uns 50 anos, mas que parecia cheia de vida. Ela ficou surpresa ao vê-lo, pois nunca o vira antes.

– Seja bem vindo senhor, em que posso ajudá-lo?

– Sou o detetive David Moore, estou investigando... Olha, eu nem sei mais o que estou fazendo, mas preciso de ajuda.

Ao ouvir a palavra detetive, a mulher se ajeitou na cadeira, animada. Ela adorava histórias de detetives e um de seus maiores sonhos era fazer parte de uma e agora estava se realizando.

– O que precisar, detetive.

– Certo... É uma coisa meio estranha, mas eu preciso que você me mostre todas as listas de alunos nos quais Peter Dawn, Fred Duncan e Nataly Mcnell estejam juntos.

...

Já eram 14h.

Todos, menos David, já estavam de volta, parados em volta da porta do escritório. David havia avisado Hernesto de que se atrasaria, mas novamente, não quis informar o motivo. Todos formavam um pequeno semicírculo centrado em Nelson, que fazia um pequeno discurso animador sobre como era importante se concentrar nas coisas que faz.

Ele, de olhos fechados, abriu a tão conhecida fechadura, revelando a escuridão intocável do lugar.

Não era mais tão casual e acolhedor.

A cena parecia se mover em câmera lenta. Enquanto a porta se abria e a luz do ambiente externo penetrava na densa escuridão interna, em uma luta digna das mais famosas arenas. Enquanto os olhos dos motivados trabalhadores ainda se acostumava ao novo ambiente. Enquanto tudo isso acontecia, Nelson, alegre, adentrava na sala e acendia o interruptor, incandescendo as bolas luminosas chamadas lâmpadas. Ninguém reparara nos dois estranhos objetos no meio da sala.

Nelson caiu de joelhos, chorando.

Johnson, que vinha logo atrás, se adiantou para socorrer o amigo, mas ao mesmo tempo seguiu seu olhar na direção dos objetos.

Johnson parou no meio do caminho.

E assim fez Hernesto e Glalcon, assim fizeram todos os outros funcionários. Alguns deixaram os queixos caíram. Outros levaram as mãos ao rosto. Outros fizeram menção em desmaiar, enquanto outros se preocuparam em segurar o vômito.

O cérebro de Johnson simplesmente havia entrado em colapso completo. Nem em seu pior pesadelo ele havia presenciado cena tão horrorosa. Aquele era o tipo de coisa que ele não desejaria nem ao pior dos piores inimigos. E aquilo havia acontecido com seu amigo. Com seu bondoso chefe. E a culpa era dele, ou ele acreditava ser, pelo menos. Aquele aviso, aquela mensagem do Corvo, era para ele.

“Ele me avisou” conseguiu pensar Johnson “Ele me avisou...”

Não havia dúvidas, Johnson reconheceu aqueles dois rostos mesmo sem conhecê-los intimamente. Ele sentiu aquela dor como se fosse física. Aquilo o atingiu mais forte do que qualquer golpe poderia. Atingiu-o de forma mais profunda do que seria racionalmente possível. Aquilo o havia destruído.

No meio da sala principal, presas sobre duas estacas de madeira embebidas em sangue, estavam duas cabeças. Os olhos haviam sido arrancados, a língua removida, a boca estava aberta, assim como as duas cavidades onde ficavam os olhos. O sangue se misturava com a pele e o cabelo, formando uma poça no chão. A expressão era de terror puro, um medo inimaginável, quase impossível de sentir. Aquela cena se quebrava com o ambiente impecável do escritório, tornando-o ainda pior. Aquilo era pior do que a morte.

Presas, naquelas duas estacas, estavam as cabeças do filho e da filha de Nelson Mandregas.

Notas finais
Parece que minha criatividade voltou, vou escrever o máximo possível antes que ela desapareça de novo =w= Mas digam-me, o que acharam? Eu particularmente ainda tenho receio de entrar em locais escuros depois que escrevi isso. Bom, espero que gostem ^^