O Corvo Negro

12 Capítulo 11 - A Flor


Notas iniciais
Consegui postar antes do ano novo ^^ Ou quase, pelo menos

– Aqui, é para você.

– Oh, é linda. Muito obrigada.

– Ora Nataly! Venha logo!

A garota loira saiu correndo atrás de sua amiga, carregando uma bela flor em suas mãos. Heitor ainda sorria, sentado no banco do parque, balançando as pernas no ar.

Uma pequena figura negra voou pelo céu, pousando alguns metros na frente de Heitor, para mastigar algumas migalhas jogadas no chão. O garoto reconheceu a ave como a sua favorita, um belo corvo, apesar de ser pequenino e com aparência abatida.

Ele se aproximou e acariciou o animal, que surpreendentemente não fugiu ao toque do garoto. Animado, o garoto o pegou nas mãos.

– Ei, amiguinho. Como vai você?

O corvo, obviamente, não respondeu.

– Você viu aquela garota? Eu gosto dela, ela é legal comigo. Acha que ela mentiu sobre ter gostado da flor?

Dessa vez o corvo grasnou, inquieto, e se remexeu nas pequenas mãos do garoto. Ele pareceu surpreso, mas logo abriu um sorriso e soltou uma risada dócil.

– Eu também acho que ela estava mentindo... Mas o que posso fazer, afinal?

...

Bip

Johnson passou a mão pelos cabelos, nervoso.

Bip

A equipe médica circulava pelo quarto, atendendo os demais pacientes.

Bip

O celular de Johnson indicava 3 novas mensagens. Ele o segurava com raiva.

– Ao menos você ainda está vivo, velhote.

– Não graças a você, garoto.

Johnson sorriu. Era bom ver o velho amigo consciente novamente.

– O que aconteceu, exatamente, Merlim?

– Aquele desgraçado me deu um tiro, não é obvio?

– Não, como você sobreviveu... Ele não teria te dado um tiro e fugido, se estamos falando da mesma pessoa.

– Ah, quanto a isso... Bem, eu estava estirado no chão naquela hora, com sangue escorrendo de um buraco no meu estômago, não prestei muita atenção no que aconteceu. Mas acredito que vi uma mulher passar por perto, dar um grito e bem, ele desapareceu.

– Isso é ilógico... Por que ele se assustaria assim? Ele poderia ter simplesmente matado os dois!

– Ora garoto, cale a boca! Fique feliz por essa mulher ter aparecido e ter me levado ao hospital!

Antes que Johnson pudesse retrucar o amigo, um senhor de uns 50 anos tocou-lhe o ombro, pedindo para que se retirasse para que Merlim pudesse descansar.

...

– Ele está bem.

O clima na pequena ‘Central de Investigações Mandregas’ se tornou mais leve. Desde que Merlim levara um tiro alguns dias atrás, todos estavam muito tensos e mal conseguiam se concentrar no trabalho.

Com a adesão do grupo de investigações do caso “Corvo Negro” na equipe, o trabalho na Central havia aumentado consideravelmente. Glalcon se responsabilizara por melhorar a cozinha, além de “tornar o ambiente mais agradável”, em suas próprias palavras. Hernesto e David mantinham contado com amigos na polícia para o caso de alguma nova pista surgir, além de assim ainda terem acesso, mesmo que restrito, ao laboratório Florence. Paul trouxera alguns computadores e equipamentos de sua coleção pessoal para o local, pois se recusava a usar os já presentes no escritório.

O antigo clima de tédio e apatia havia que quase completamente sumido, dando lugar a uma verdadeira mobilização para o caso do Corvo.

Apesar de tudo, não haviam feito progresso.

– Sr. Smith, posso falar com você?

Nelson estava com a cabeça do lado de fora da sala, sorrindo, pedindo para que Johnson viesse. Sem entender muito bem o que estava acontecendo, o detetive se dirigiu até a sala do seu chefe um tanto quanto nervoso. Quando chegou lá, Nelson estava sentado na cadeira, olhando alguns papéis.

Ele não havia mudado muita coisa no escritório, além de agora ter uma grande foto de seus filhos na mesa. Johnson sentou-se e esperou o pronunciamento do Sr.Mandregas.

– Garoto, você sabe o que aconteceu com o Merlim, não é?

– Bem...Sim, ele tomou um tiro e...

– Não, não. A mulher dele me ligou e contou sobre a sua visita e sobre a conversa que você e Merlim tiveram. Eu não sei os detalhes, mas acho que a chave para descobrirmos quem tentou matar Merlim está com você.

Johnson engoliu em seco. Ele sabia que mais cedo ou mais tarde ele teria de falar sobre isso, mas não esperou que tivesse de falar para Mandregas. Ele pensou em mentir e deixar a coisa toda acontecer, mas o olhar fixo do velho detetive não era bem um incentivo. Quase involuntariamente, ele balbuciou:

– O senhor não entende... Ele vai... Vai matar o senhor...

– Ele quem, garoto?

– O Corvo, senhor...

Mandregas se recostou na cadeira. Ele olhava fixamente para Johnson, tentando entender o que estava acontecendo ali. Por fim, ele soltou uma risada e brincou:

– Ora, garoto, veja! Eu já não sou mais tão jovem. Meus filhos ainda não são adultos, mas podem se virar muito bem. O quesito morte é bem relativo aqui. – ele sorriu e olhou para a foto dos filhos – Agora, pense em todas essas pessoas que ele matou, em todas as vidas que ele destruiu. Pense em Merlim. Se você omitir esse tipo de informação, garoto, é como dizer que todas essas mortes foram em vão.

Johnson respirou fundo. As palavras de Mandregas eram verdadeiras, e ele sabia disso. Mas ele não queria que acontecesse com Nelson o mesmo que aconteceu com Merlim, ou até mesmo pior.

– Tudo bem... Vou contar tudo que eu sei... Mas me prometa que vai ter cuidado...

...

– Sabe, foi uma grande surpresa você me convidar, Heitor.

– São tempos difíceis, é bom rever velhos amigos.

Nataly Mcnell andava sorridente. Ela estava vestida casualmente, com pouca ou nenhuma maquiagem, andando despreocupada por uma viela um tanto escura. Ao seu lado, um homem que aparentava ter a sua idade estava vestido completamente de preto, com uma jaqueta enfeitada com penas destacando-se. Ele tinha olhos profundamente azuis, embora um deles parecesse um tanto estranho. Seu cabelo preto estava bagunçado, embora fosse visível o esforço feito para tentar arrumá-lo.

– Onde é mesmo o restaurante que você mencionou?

– É logo aqui, virando à esquerda. É de um amigo meu, ele me prometeu a melhor mesa.

– Certo... É que eu não gosto de becos assim, são assustadores.

Heitor deu uma risada fraca. Eles prosseguiram em um silêncio confortável. Não se viam desde os tempos da escola, quando tinham apenas 5 anos, era uma grande surpresa que se lembrassem um do outro.

Heitor começou a remexer em algo no bolso da sua jaqueta.

Quando eles atingiram o ponto mais escuro do beco, Heitor se aproximou subitamente de Nataly e disse, em seu ouvido:

– Sabe, não é do escuro que você deve ter medo

Como um raio de crueldade, Heitor retirou um pano úmido do bolso e colocou sobre a boca e nariz de Nataly, imobilizando-a com a mão livre. Ela se debateu por alguns instantes, mas logo a substância química a venceu e ela desmaiou.

Com cuidado, Heitor recolocou o pano no bolso e limpou as mãos com um lenço. Depois, retirou a lente azul de seu olho, revelando o perverso olho vermelho-sangue que estava escondido.

– Pobre coitada... Ela acreditava mesmo que eu tinha esquecido.

...

Nataly acordou vagarosamente, ainda com alguns efeitos da substância. Não demorou muito para notar que estava amarrada em uma cadeira de madeira em uma sala pequena, com inúmeras vassouras e produtos de limpeza cercando-a. Atrás de si, havia uma única parede “limpa”, sem armários ou outras tralhas. Os nós que a prendiam eram fortes, com uma corda resistente, mas não a machucavam muito. Ela também notou que não estava vestindo mais suas roupas de antes, mas uma camisola branca.

Pouco tempo após ela acordar, a porta a sua frente se abriu. Por ela, entrou Heitor, sorridente, dando-lhe bom dia.

– Vai pro inferno, seu maldito tarado! – ela rugiu

Ele a encarou assustado, com os olhos revelando uma inocência quase infantil:

– Tarado? Mas o que...

Lentamente, ele olhou para os olhos raivosos da sua aprisionada e para a recém adquirida camisola branca. Seu rosto começou a se tornar quase tão vermelho quanto seu olho e ele começou a falar de forma rápida, com o rosto escondido atrás das mãos:

– Não, não! Eu não fiz isso, não! Eu só... Bem, suas roupas... Eu deixei cair clorofórmio nelas depois que eu te droguei... Foi sem querer, eu juro! Eu não queria que ficasse suja nos seus últimos momentos, por isso troquei! Desculpe, desculpe!

Ele falava rápido e cada vez mais envergonhado. Nataly chegou a duvidar de que aquele era o mesmo homem que, algum tempo atrás, havia a drogado e sequestrado. Antes que a cabeça dele explodisse de tão vermelha, ela berrou:

– Onde é que eu estou?

Ele parou de tentar fazer reverências atrapalhadas e olhou para ela. Seu olhar cruel demonstrou que ele havia gostado da pergunta.

– Em um armário de vassouras, em uma empresa qualquer. Foi a primeira fechada que eu encontrei.

– O que você quer? Eu não fiz nada para você... Eu até quis sair com você... Achei que tinha melhorado...

O rosto de Heitor se tornou duro e frio. Ele se aproximou e falou de forma pausada e baixa:

– Melhorado? Não me faça rir. Se tem algo de errado comigo a culpa é de vocês! Agora, eu só quero a minha vingança... Eu só quero terminar o que eu comecei.

Ela começou a chorar. Ela olhava para o chão, mas a força com que os olhos cruéis de Heitor a atraíam era quase hipnótica. Ela tentou balbuciar, ainda entre os soluços:

– Peter e Fred... E Gabby... e tantos outros...Foi você... não foi?

Como resposta, ela ganhou apenas um sorriso sádico. Ele lentamente passou a mão pelos cabelos dourados dela, sem que ela pudesse fazer qualquer coisa. Sua mente parecia vagar para um lugar bem longe dali enquanto ele fazia aquilo.

– Eu gostava tanto de você quando eu era pequeno... Você me dava tanta atenção... É uma pena que tenha que morrer...

Ela estava assustada, se debatendo para tentar se libertar, mas era inútil. Ela o viu tirar uma faca de algum lugar do cinto e começou a implorar:

– Não! Por favor! Não faça isso!

O rosto de Heitor era triste. Ele se colocou lentamente atrás de Nataly e posicionou a faca em seu pescoço, segurando a cabeça com a outra mão. Ele tentou acalmá-la, de forma quase inútil.

– Não é a primeira vez que eu tenho de matar alguém que eu gosto... Vai ser rápido, Nataly, apenas feche os seus olhos. Vai sentir um corte leve, como se cortar com um papel. E depois, acabou, eu juro. Não torne tudo mais difícil.

Ela começou a soluçar. Ele deu um suspiro de tristeza leve. A faca fez o seu trabalho.

Como prometera, a morte foi rápida. Talvez não indolor, mas rápida. O sangue escorria da garganta da jovem, caindo sobre seu corpo e sobre a até então branca camisola. Heitor se afastou do corpo com um ar triste. Depois de ter certeza que Nataly estava morta, ele mergulhou a mão dentro do pescoço aberto da jovem e usou o sangue para escrever algo na parede.

Quando acabou, limpou novamente a mão em seu lenço.

Pegou o telefone no bolso da calça e ligou para um dos poucos contatos que tinha.

– Alô? Johnson? Como vai, velho amigo? Ahn? Como assim não somos amigos? Ora, não me magoe cara, já estou para baixo agora. Não importa... Peça para os seus amigos policiais ficarem atentos em chamados relacionados a corpos encontrados em armários de vassoura, certo?

Johnson havia desligado na sua cara, para variar.

Com um suspiro, ele voltou a encarar o corpo inerte da garota. Ele a fitou por um longo tempo e depois arrancou uma das penas de sua jaqueta. Com cuidado, ele a colocou carinhosamente sobre o colo da garota, como um enfeite macabro.

Ele abriu a porta, pronto para sair, mas no meio do caminho ele voltou para o corpo. Ele se abaixou e beijou a testa de Nataly, depois, com a voz calma e um tanto melancólica, ele disse baixinho:

– Eu sei que você mentiu sobre a flor.

Notas finais
Bem, a história já está acabando... Talvez uns 5 ou 6 capítulos para o fim. Espero que tenham gostado desse capítulo, pois ele é um dos meu favoritos, particularmente. Espero também que com ele tenham entendido melhor o Corvo e como ele se relaciona com o mundo, sua personalidade conturbada e seus motivos. Talvez ele não seja tão cruel quanto pareça... Ou não.