O Corvo
1 Take my heart, Raven.
Notas iniciais
Espero que goste tanto quanto eu gostei de escrevê-la.
Dentre aquelas árvores frias e suas folhas que caiam suavemente e tocava o chão de terra onde suas raízes se mantinham firmes, ela caminhava. Seguindo-a me mantive distante, observando, seus passos calmos e despreocupados. Sua mente se mantinha longe, isso era evidente. Seus olhos fitavam o horizonte, talvez fosse sua meta.
A estrada longa e reta com apenas uma curva ao longe, aonde chegava o fim de minha visão, onde nessa havia um muro alto.
Ela seguia em frente, sem olhar para trás ou para os lados. Seus cabelos negros e suas vestes acompanhando a cor de seus cabelos. Sua pele branca, pálida. Os lábios quentes com um vermelho sangue, diferente de seus olhos frios, um negro e outro castanho. Um castanho avermelhado, mais do que o comum. O vermelho de seus lábios era assustador e ao mesmo tempo acolhedor. Eu gostaria de poder beija-los. Sua pele aparentemente macia deixava-me louco para toca-la. Seu nariz fino e pequeno se encaixava perfeitamente com o seu rosto, não tão magro e nem muito cheio, mas diferente dos demais. Algo de especial havia em toda sua beleza, poderia eu jamais descobrir o que seria, mas não que eu estivesse interessado em procurar, eu apenas estava satisfeito em ver aquela bela obra e me manter leigo com relação a tal.
Continuava a caminhar, sem parar, sem distrações. Deixando-me para trás. Preso a ela, assim eu estava.
Eu a seguia. A cada dois passos seus, um eu dava. E assim ela se mantinha a minha frente, com sua grande vantagem por eu ter parado alguns instantes e tê-la deixado seguir criando uma média distancia entre nós. Talvez ela tenha me notado, ou não, mas se notou não se preocupou, afinal nem ao menos parou para olhar o que vinha se esgueirando pela mata atrás de si.
A penumbra da noite deixava a estraga em que seguíamos ainda mais escura. Alguns feixes da luz da lua iluminavam a pista, atravessando por alguns buracos entre os galhos e folhas das árvores.
Nós nos aproximamos da curva, ela mais que eu.
Então ela segue a curva, sumindo do meu campo de visão. Paro no meio da estrada, paralisado sem saber se continuo. Olha para o muro, na curva, quase sem luz. Atrás dele pode se ver não tão claramente, mas para quem quer ver, árvores. Galhos secos se quebram ao se chocarem contra o muro, construído ali por motivos que desconheço, mas nunca ninguém comenta sobre ele.
Decido seguir em frente. Mas preciso correr, pois ela continuava a andar e eu poderia perdê-la de vista.
Chego à curva, pronto para entrar naquela parte onde a luz é ainda menor.
Faço a curva e sigo em frente. Com pouca visão estreito meus olhos para ver qualquer coisa que esteja à frente. Muito difícil, mas noto uma silhueta ao longe. Sinto-me vigiado a todo o tempo, como se olhos famintos me vissem por cima e estivessem prontos para me atacar.
A silhueta, que muito provavelmente seria dela, continua a caminhar para longe. Eu a sigo sem pensar duas vezes. Sua vantagem a minha frente é ainda maior do que antes então apresso meus passos para estar a uma distancia menor. Aproximando-me noto que a pessoa que vejo diante dos meus olhos não se parece tanto com a que fizera a curva há uns instantes. A pessoa a minha frente tinha seus cabelos mais curtos, e a cor de seus fios era laranja, um laranja ardente fundido com um caramelo, algo que o deixava parecer loiro e ao mesmo tempo ruivo. Sua pele também era branca e pálida, mas diferente da outra, algo de mais delicado se escondia em si. Suas vestes também negras, um vestido, lindo por sinal. Cobria até seus cotovelos e chegava até seus joelhos. Usava um sapato alto também negro e bem atraente. Unhas pintadas de velho, um vermelho sangue. Bem vivo.
Ela se vira, paraliso diante de seu olhar. Seus olhos fixam em mim, castanho claro meio caramelo, assim era a cor de seus olhos. Atraiam-me fortemente, sugavam minha alma com toda a força e faziam minhas pernas tremerem. Meu coração batia acelerado enquanto me perdia em seus olhos e em seu rosto lindo e delicado, sua boca linda coberta por um batom vermelho também cor de sangue. Em seu rosto havia sardas, bem delicadas quase apagadas, somente ali para realçar sua beleza.
Sua expressão muda, seus olhos se fecham e seu rosto é tomado por um sorriso simpático. Meu coração que havia desacelerado, dispara, bate forte como jamais havia visto. Sinto como se me faltasse ar e meu peito dói. Ponho-me de joelhos e minha mão vai até meu peito, apertando-o. Minha respiração fica fraca e a cada tentativa desesperada em tentar sugar o ar meu coração dói mais. Sinto como se peito fosse explodir.
Ela se vira novamente, olhando para a escuridão total da estrada lá na frente. Uso toda minha força para me erguer e continuar seguindo-a. Caminho atrás dela, mas agora com passos calmos, tentado me recuperar da dor no peito. Enquanto ela segue sem dar nenhuma palavra, seus passos são os mesmos. Agradeço por continuarem assim, pois dessa forma posso acompanha-la.
Imagens de seu rosto se passam em minha mente enquanto caminho. Seu olhar frio, de primeiro, e logo depois o sorriso simpático tomando seu rosto e suavizando todo aquele momento, penetrando nas árvores e se expandindo por toda a estrada.
Sinto-me feliz. E noto que um sorriso bobo se estampa em meu rosto, mas não posso contê-lo conforme eu continuo a olhar para aquela garota que aparentemente tem minha idade e se encontra a minha frente.
Algo me atrai a atenção, o muro que escondia as árvores secas havia acabado e ao seu lado havia uma grande árvore que se destacava das outras pela sua altura e pela quantidade de galhos cobertos por folhas, e do outro lado da pista também havia uma árvore semelhante. Elas se encontravam bem ao meio da pista. Nenhuma luz as atravessava. Depressa nos aproximávamos desta árvore.
Ela para, olha para mim. E então sorri mostrando seus dentes, brancos. Um sorriso encantador que eu jamais havia visto. Eu que era tão atraído por sorrisos e então fui fisgado pelo mais belo deles. Cegou-me e me aprisionou num paraíso de sentimentos. Um Piercing no Smile realçava ainda mais seu sorriso lindo, algo que eu achava tão perfeito. Ela tinha tudo o que eu achava de mais bonito. Sua pele delicada e branca, seu sorriso lindo realçado pelo Piercing, sua delicadeza conjunta com a força de seu olhar, seus olhos tão fascinantes e hipnotizantes e a cor de seus cabelos que tanto me encantavam. Meu coração volta a acelerar e meu peito a doer.
Ela volta a caminhar e então some devido à escuridão causada pelas duas grandes árvores. Corro para alcança-la e entro naquela escuridão. Sinto um frio estranho na espinha e a todo tempo me sinto vigiado. Corro para sair daquela escuridão, já vendo a luz e sonhando com a saída.
Estreito os olhos ao sair daquela escuridão para a claridade. Não a vejo. Abro meus olhos encarando a luz e ferindo minha vista, buscando encontra-la. Mas ela não está em lugar algum.
Será que ela parou na escuridão? – Penso
Viro-me para a escuridão. Forço meus olhos para tentar ver algo lá dentro, mas não consigo ver nada. Decido então entrar novamente naquela escuridão para acha-la. Penso ser incapaz de viver sem ela a partir de agora.
Tento acha-la na pista, primeira mente com o olho, mas vejo que desta forma não conseguirei nada, então grito: – Ei, onde está você? – Paro e olho ao meu redor. – Me diga onde está. Se estiver aqui siga para a saída.
Ninguém responde. A escuridão se mantém em silêncio, um silêncio oculto e cheio de mistério. Lagrimas escorrem de meu rosto, passo a ficar impaciente e desesperado. Não poderia perdê-la, não agora. Preciso dela por toda a vida, sinto como se tivesse encontrado uma joia rara.
Eis que então meio aquela escuridão onde as árvores tampão a luz, surge um fino feixe de luz da lua. Ele atravessa um pequeno espaço entre as folhas da árvore grande, espaço feito pelo vento que acabara de soprar ao Norte. O feixe de luz atinge algo. É ela, meus olhos não mentem. Ela está parada a uns sete metros a minha frente, olhando para mim ainda com o seu sorriso lindo. Então algo surge em suas costas e se abre atrás de seus braços, asas.
Asas negras se abrem atrás dela. São lindas, não há duvida, mas como um humano teria asas?
Ela passa a caminhar em minha direção, ainda sem pronunciar nenhuma palavra. Meu coração acelera enquanto dou passos curtos para trás sem a perder de vista.
Nas árvores surgem luzes vermelhas, são duas a cada sequencia, perto uma da outra. Lembram-me olhos. E então me lembro da sensação de estar sendo vigiado e que isso faria sentido se aquelas luzes fossem olhos. Mas de quem eram aqueles olhos? Seriam aves ou humanos? Eu já não sei o que pensar. O que está diante de mim é um ser humano? Esta garota tão linda que contém tudo o que eu mais gosto no mundo, todos os padrões de beleza impostos por mim, ela possui todos. Essa perfeição seria uma ilusão? Um monstro? Ou um ser humano... Com asas.
Ela some e logo surge atrás de mim. Meu corpo paralisa sentindo sua presença. Levanto as pressas para encara-la. – O que você é? – Pergunto. – O que você quer?
Ela se mantém em silêncio e se aproxima de mim. Não hesito me mantenho parado. Ela ergue sua mão, penso ser um ataque, mas não me protejo apenas fecho meus olhos e a deixo continuar. Ela toca meu rosto e fica a duas palmas de mim. Sinto sua respiração em meu rosto, abro o olho devagar para olha-la. Seus olhos junto aos meus, sua boca com o batom vermelho e seus lábios carnudos que eu gostaria de beijar. Suas mãos tocam minha pele e posso sentir sua pele macia e delicada. Seu perfume tem um cheiro muito bom, combina com ela. Seus cabelos lindos e lisos e cada fio com uma cor majestosa.
Ela se curva levemente para frente encosta seus lábios nos meus. Meus olhos se fecham e sinto a melhor sensação do mundo. Ela desliza sua mão direita para minha cintura e depois para as minhas costas, mantendo a outra tocando meu rosto. Ela cola seu corpo ao meu, posso sentir seu peito tocar o meu. Passo minhas mãos por trás de suas costas e a abraço fortemente. Sinto suas asas. Suas penas. Apesar de parecer forte elas são delicadas e macias como sua pele. Sua mão esquerda desce até meu peito esquerdo. Sinto uma pontada em meu peito, mas penso serem suas unhas então não tomo atitude alguma. Meu corpo fica anestesiado com seu beijo, minhas pernas ficam tremulas, mas tento me manter de pé. Meu coração bate devagar, quase parando.
Não consigo mais segurar-me de pé e caio no chão, ela cai junto comigo. Olho para ela e vejo que ela esta olhando para mim. Não escondo minha felicidade e meu rosto é tomado por um sorriso bobo mais uma vez, de quem foi ao paraíso, ela retribui sorrindo também. Noto que segura algo em sua mão.
Assusto-me com o que vejo. Ela segura... M-Meu... Coração. O que mais me assusta é que eu não a senti tira-lo de meu peito, apenas aquela pontada que pensei serem suas unhas e mais nada. Não sinto meus braços, não sinto meu corpo. Olho para ela assustado enquanto ela o puxa estourando minhas veias e separando-o de meu corpo definitivamente.
Deito no chão involuntariamente enquanto olho para ela e penso porque ainda estou vivo. De repente surgem muitas iguais a ela, inclusive, a primeira que eu estava seguindo. Elas conversam por um tempo até que param.
Todas olham para mim. São as únicas diferentes, as outras possuem olhos vermelhos que brilham com intensidade, já os seus tem cores próprias e magnificas. – Por favor, diga-me seu nome. – Peço-lhe com a voz rouca.
Ela se abaixa e me pega, colocando-me em seu colo. Segura minha cabeça e diz baixo em meu ouvido.
–........
Após terminar se levanta e me deixa no chão. Se junta as outras e voam como corvos, sumindo entre as árvores, deixando apodrecer naquele chão frio pensando em suas palavras.
Seu nome?
Francine.
Fale com o autor