O Cordeiro e o Tigre
5 Capítulo 4 - Arash, Sayeh e Farid
Notas iniciais
Já havia se passado vinte minutos desde que o homem pediu licença e saiu pela porta, alegando que precisava lidar com um pequeno imprevisto. Victoria não compreendeu completamente a situação, mas também não se preocupou em fazer perguntas.
Ela aproveitou esse intervalo para explorar a casa em que se encontrava e procurar qualquer coisa que pudesse ser usada como arma ou um telefone para pedir ajuda. Dois cômodos próximos ao quarto onde acordou estavam trancados, deixando apenas a sala, a cozinha e o próprio quarto(o que ela havia acordado) para sua investigação.
O quarto e a cozinha eram relativamente comuns, mas a sala estava repleta de informações, independentemente de serem úteis ou não, Victoria estava determinada a descobrir.
Seu foco inicial foi o álbum que o homem segurava. Nas primeiras páginas, ela encontrou recortes de jornais escritos em uma língua desconhecida para ela, possivelmente árabe, devido ao formato incomum da escrita.
Victoria direcionou sua atenção para as fotografias, passando pela que o homem já havia mostrado anteriormente. Ela encontrou mais imagens dele, um pouco mais velho, ainda usando a máscara de estopa e ainda notavelmente magro. Apesar da qualidade ruim da foto, ela percebeu que ele estava em algum tipo de campo de treinamento, com alvos ao fundo. O jovem mascarado segurava uma pequena lâmina, e ao seu redor estavam outros jovens e adultos, todos com lâminas semelhantes.
Virando mais uma página, Victoria encontrou outra foto, desta vez mostrando o mascarado em seus quinze ou dezesseis anos. Ele usava uma máscara mais sofisticada, que cobria completamente o rosto, deixando apenas os olhos visíveis. Seu cabelo estava oculto sob um tipo de chapéu de pano, e suas roupas consistiam em um manto preto com uma corda vermelha amarrada na cintura, além de uma calça preta do mesmo tecido. Seus pés estavam descalços, a única parte de sua pele visível.
Na foto, o jovem misterioso estava ao lado de um homem mais velho, que colocava o braço ao redor dos ombros do garoto e sorria para a câmera. O homem tinha traços típicos do Oriente Médio, com pele morena e cabelos negros, sendo fisicamente robusto, o que contrastava com a magreza do jovem ao seu lado.
Quando Victoria virou a página seguinte, a foto se soltou e caiu no chão. Ela apanhou a imagem e notou algo escrito no verso: "Irã — 2009", acompanhado por uma escrita que ela não reconheceu, mas que identificou como persa, a mesma escrita dos recortes de jornais. "Ele veio do Irã então, mas como ele pode ter algo a ver com minha família?" Victoria se perguntou.
Pensando que poderia haver informações semelhantes na foto em que seu pai estava, Victoria com cuidado retirou a foto e virou-a. Lá estava escrito: "Para meu querido Farashteh Sayeh. Que sua inteligência ilumine o mundo tanto quanto sua voz. De Seu médico e amigo, Gabriel Bernard. Janeiro de 1997."
Então, esse era o nome de seu captor, seu pai havia estado com ele no ano em que Victoria nasceu.
Nesse momento, Victoria escutou murmúrios distantes e passos apressados se aproximando. Rapidamente, ela colocou a foto de volta no álbum e o devolveu ao lugar onde o encontrou.
Ela ouviu uma voz mais grave e alta do que a do homem que a havia capturado, seguida pela mesma risada que havia ouvido antes. Decidiu se sentar na poltrona em que estava, fingindo não ter se movido durante a ausência do homem.
A porta se abriu e Victoria ouviu o som de sapatos molhados no corredor, acompanhados de uma conversa em uma língua estrangeira para ela. Ela se levantou e se voltou na direção do som. Sua sombra protetora estava ao lado de um homem visivelmente mais velho, de constituição robusta, cabelos incrivelmente negros e um bigode cheio. Victoria notou muitas semelhanças entre esse homem e o que abraçava seu captor na foto do álbum.
— Acalme-se, Arash, vou buscar uma toalha e roupas secas – disse o homem mascarado.
O homem mais velho, agora conhecido como "Arash" encarou Victoria com uma expressão de surpresa.
Victoria estava incerta sobre o que dizer, pois um simples "oi" não parecia suficiente. Ela abriu a boca para falar, mas o homem a interrompeu.
— Pelo amor de Alá, você é realmente a filha de seu pai! – disse ele com um sorriso tímido.
— O senhor me conhece? – Victoria perguntou, esperando que pelo menos esse homem pudesse fornecer algumas respostas concretas.
— Não, claro que não. Não pessoalmente. Conheci seu pai muitos anos atrás – respondeu o homem enquanto tentava secar as mãos em sua roupa molhada e estendia a mão para cumprimentar Victoria.
— Arash Rahmani, muito prazer – disse ele.
Victoria deu alguns passos em direção ao homem e apertou sua mão.
— Victoria Bernard.
O mascarado gritou de um cômodo para Arash na mesma língua que entraram falando, Arash respondeu e eles entraram em uma discussão.
— Desculpe interromper a conversa – disse ela um pouco incomodada –mas estou há muito tempo no escuro sobre o que está acontecendo aqui.
— Vá em frente, Arash, não vou impedi-lo de dizer a verdade a ela– consentiu o homem mascarado enquanto entregava uma toalha e uma troca de roupas para o mais velho, que pegou e a depositou em cima do sofá. – Vou preparar chá para todos.
Ele se afastou, deixando Victoria a sós com o homem conhecido como Arash.
— Victoria, não vou rodear a questão – começou Arash, visivelmente desconfortável. – Estão tentando te matar.
Victoria abriu a boca para falar, mas Arash a interrompeu.
— Vou voltar alguns anos, antes de seus pais falecerem. Seu pai, Gabriel, trabalhava para um homem chamado Farid. Antes de você nascer, Gabriel passava muito tempo no Irã, onde nos conhecemos. Talvez você já tenha ouvido algumas histórias dessa época.
Victoria recordou-se de algumas histórias que seu pai costumava contar sobre o país e sua cultura, e assentiu.
— Farid é um homem rico, influente e extremamente paranoico, uma combinação perigosa – continuou Arash – Seu pai cuidava do meu amigo aqui – ele apontou desajeitadamente na direção do homem mascarado que se retirara – e de outros jovens que frequentavam um centro de treinamento para jovens.
As imagens das fotos que havia visto pouco antes de sua chegada voltaram à mente de Victoria. Ela se perguntou que tipo de treinamento essas crianças estavam recebendo.
— Isso não explica por que estou sendo alvo – disse Victoria, colocando os cotovelos sobre as coxas.
— Ainda não temos certeza do que esta acontecendo.
— Vocês não eram parte do mesmo centro de treinamento que ele? Por que deveria acreditar no que diz? Seu amigo me sequestrou, pelo amor de Deus!
— Eu entendo, o método de Sayeh não é muito sutil, mas ele me disse que um homem foi atrás de você na sua sala de música – Victoria acenou em afirmação – Acredito que ele não viu outra escolha diante a situação.
— Não trabalhamos mais para Farid – acrescentou o mascarado da cozinha.
— Por quê? – Perguntou Victoria, alterando entre olhar para a porta da cozinha e para Arash.
Arash olhou para o mascarado assim que ele apareceu carregando uma bandeja com duas xícaras.
O mascarado então explicou:
— Entramos em conflito com algumas missões que Farid nos deu. Decidimos deixar tudo para trás.
— Mas por que agora? Farid poderia ter me matado antes – questionou Victoria.
— Ele não sabia que você estava viva. – Arash falou, indo em direção ao quarto onde ela havia acordado. – Com licença. – Ele diz fechando a porta em seguida.
— Consegui encobrir seus rastros por um tempo. Farid enviou homens para matá-la quando você estava na faculdade – continuou o mascarado, deixando a bandeja em uma mesinha ao lado do sofá. – Mas, obviamente, tive mais sucesso.
— A questão, Victoria – continuou ele – é que Farid inicialmente não queria causar alarde. Ele queria te eliminar discretamente. No entanto, após o nosso último encontro, ele claramente mudou de estratégia, e precisamos fazer o mesmo.
— Então, agora devo interromper minha vida por causa de um homem que busca algo que não sabemos o que é?– questionou Victoria, levantando-se.
— Não, você continuará sua vida. Trouxe-a para minha casa apenas para aguardar até que a poeira abaixe – explicou o mascarado. – Eu vou levá-la de volta à sua vida, Victoria. Eu disse, você não é uma prisioneira aqui.
— Sua abordagem inicial não pareceu muito como alguém que planejava me levar de volta para casa – respondeu Victoria. – Você nem me disse seu nome. Se não fosse por Arash, eu nunca saberia.
— Peço desculpas pela minha falta de habilidades sociais – admitiu o mascarado. – Meu nome é John Sayeh. Muito prazer. – Ele estendeu a mão para ela.
Victoria estendeu a mão e apertou a mão enluvada de John. Arash então interveio com um toque de humor:
—Devo dizer que não ensinei a falta de modos ao nosso querido Sayeh aqui. Essa falta de educação é toda dele.
Victoria sorriu e viu que John também sorria, um sorriso envergonhado, mas ainda sim, um sorriso. E era realmente um sorriso muito bonito.
Victoria percebe que não sabe quanto tempo esta "presa" na casa de Sayeh.
— Que horas são? – Ela pergunta soltando a mão de John. – Preciso pegar Lídia na escola. E se algo acontecer com ela?
— Está tudo sob controle. Não passou muito tempo desde que você estava em seu estúdio – tranquilizou-a o mascarado, tirando o celular dela do bolso e entregando-o a ela.
Victoria pegou o celular e o ligou, percebendo que havia passado um pouco do meio dia, e então ela entendeu a insistência do homem e fazê-la se alimentar.
— Um de meus homens está cuidando de sua prima, Victoria. Você não precisa se preocupar – explicou Arash, tomando um gole do chá que John havia servido.
— Como assim, um de seus homens? – perguntou Victoria enquanto digitava uma mensagem para Lídia.
— Fui uma espécie de chefe da polícia no Irã. Quando decidi abandonar tudo e procurar Sayeh. Alguns homens que trabalharam comigo decidiram me seguir. Eles estão cuidando de sua família e interveem quando necessário – explicou Arash.
— Eu não fazia ideia de nada disso – admitiu Victoria, finalmente compreendendo a magnitude da situação.
— Esse era o plano – concordou o mascarado, exibindo um leve sorriso antes de ficar sério. – Precisaremos mudar nossa abordagem, assim como eles fizeram.
— Vocês deveriam envolver a polícia nisso – sugeriu Victoria. – É a opção mais sensata.
— Farid tem contatos dentro da polícia também. Como você acha que eles descobriram que você estava viva? – explicou Arash, enquanto recolhia as xícaras e as levava de volta à cozinha.
— Você não está segura em sua casa. Podemos pegar Lídia e levar vocês duas para morarem temporariamente em outro lugar. Estou trabalhando para localizar Farid – disse John.
— Não. Não vou interromper minha vida assim. Lídia está prestes a se formar, e não posso fazer isso com ela – respondeu Victoria.
— A garota está certa pesar. Talvez seja mais fácil chegar até Farid se continuarmos à vista de todos – concordou Arash, voltando a se sentar no sofá.
O homem mascarado coçou a cabeça e acrescentou:
— Tudo bem, mas precisarei ficar mais próximo desta vez. Não posso me manter à distância quando o perigo pode surgir a qualquer momento.
— Talvez seja melhor para todos se vocês passarem a noite aqui de agora em diante – sugeriu Arash.
— Dormir aqui? – exclamaram John e Victoria simultaneamente.
— Seria imprudente que vocês passassem a noite em uma casa que não oferece nem metade da segurança desta. Além disso, Sayeh poderia pegar Farid mais rapidamente sabendo que vocês estão dormindo em um local seguro. Ninguém além de nós e Gabriel sabe da existência deste lugar – explicou Arash com calma.
— Arash está certo, Victoria – concordou John, depois de considerar as palavras do amigo – Minha casa não fica longe do seu trabalho e da escola de Lídia, e eu posso levá-las com segurança para suas atividades.
— Preciso conversar com Lídia primeiro. Preciso pensar sobre tudo isso. Por favor, me leve para casa – disse Victoria, visivelmente cansada.
— Claro! Eu a levarei de volta para sua residência – afirmou o mascarado indo em direção a saída e parando na porta, abrindo-a.
— Você vem? — Victoria perguntou para o homem mais velho.
— Ah! Vocês podem ir na frente, senti o cheiro da comida de Sayeh e ainda não almocei. — Arash respondeu com um sorriso travesso.
— Nos vemos depois, Victoria! — Arash disse enquanto se dirigia para a cozinha.
— Vamos? — Sayeh disse, gesticulando elegantemente para que ela saísse.
Victoria pensa então que a máscara é a coisa menos estranha neste homem.
Fale com o autor