O Cordeiro e o Tigre

2 Capitulo 1 - Protetor das Sombras?


Notas iniciais
Boa leitura!

— Vamos lá Vic, é uma festa de formatura, você tem que ir!

Uma sonolenta Victoria, se senta à mesa para tomar o café da manhã, ainda vestindo seu pijama e com seu cabelo encaracolado todo desgrenhado. Ela não fala nada, mas lança um olhar para sua prima que assustaria qualquer um.

— Café primeiro, Lídia – Victoria diz após um suspiro, colocando café em sua xícara amarela – depois falamos sobre isso.

Lídia então, espera batucando na mesa, sinal claro de sua impaciência. Assim que Victoria toma seu primeiro gole Lídia diz:

—Então, a formatura...

— Eu já me formei Lídia – Victória interrompe.

— Sim, mas é a minha formatura e você trabalha lá! Achei que todos os professores deveriam comparecer na formatura de seus alunos!

— Eu sou professora de música, Lídia, minha presença não é necessária, porque dou aula a um grupo pequeno de alunos. Você sabe que odeio festas, ainda mais quando envolvem adolescentes entrando em fase adulta.

—Você já foi uma, e não faz muito tempo! – Lídia a lembra.

— Tenho vinte e cinco anos, então já tem algum tempo – Victória toma um gole de café e continua seu raciocínio – O que eu faria lá?

— Me surpreende que tenha virado professora – Lídia murmura baixinho.

— O que disse?

— Você seria minha companhia! Por favor Vic! Sou sua prima preferida, isso deve valer de algo.

— Você é a única prima que tenho. – Victoria toma outro longo gole de café e se levanta.

Victoria caminha em direção as escadas que levam ao andar de cima onde fica seu quarto, o quarto de visitas e um banheiro, Lídia a segue.

— Por favor Vic. – Lídia diz fazendo a expressão mais triste que conseguiu.

—Tudo bem, tudo bem – Victoria diz parando na porta de seu quarto ela se vira para encarar Lídia e diz:

— Que fique claro que um dia vou precisar de alguma coisa e você vai me ajudar, querendo ou não, está claro? – Victoria diz colocando as mãos na cintura.

— Eu te amo! – Lídia diz abraçando Victória que sorri e retribui o carinho.

Victoria então se desvencilha do abraço e entra em seu quarto, fechando a porta rapidamente. Ela suspira e começa a se arrumar trabalhar.

Sem os pais ela foi criada pela avó, e após a morte dela, passou a morar com o tio materno, o pai de Lídia, mas logo que teve idade suficiente, decidiu que deveria morar sozinha.

Seus pais haviam deixado uma boa poupança para ela, então assim que fez dezoito anos não precisou se preocupar com a faculdade e nem com a moradia em uma república já que junto com a poupança, havia o dinheiro da venda da casa de seus pais (ou o que havia sobrado dela).

Victória conseguiu se formar em música na melhor faculdade da região, foi uma das primeiras de sua turma, uma grande promessa para o mundo da música clássica (diziam os professores), mas não tendo sobrado dinheiro suficiente para se virar enquanto estabelecia sua carreira musical, tudo que ela pôde fazer foi começar a lecionar, e assim que conseguiu seus primeiros alunos particulares, alugou uma casa e fora morar sozinha.

Ela pensou que teria tempo suficiente para se aperfeiçoar e participar de concertos e competições, mas a verdade é que ela mal tinha tempo para dormir, tendo que dar aulas particulares e aulas em uma renomada escola para se manter. Viver em uma grande metrópole é muito caro.

Victoria pega o celular e vai em sua agenda verificar os alunos, ela percebe o lembrete de formatura de Lídia, seria em um mês, um dia antes de fazer dezoito anos.

"Preciso comprar um presente para ela" pensa Victoria.

Ela se apronta, primeiro colocando uma blusa rosa clara de mangas curtas e um macacão jeans, por último põe o tênis, ela dá uma breve olhada no espelho e percebe que o cabelo está uma completa bagunça.

Rapidamente ela sai do quarto em direção ao banheiro para tentar domar seus cachos, no meio do caminho ela grita para Lídia se apressar para a aula.

Lídia é a única filha de seu tio, os cabelos pretos e o formato dos olhos castanhos eram quase idênticos ao pai, mas o cabelo liso e sorriso vieram de sua mãe, Victória sabia que ela odiaria ser comparada a mãe em qualquer aspecto, seja ele físico ou não.

Lídia ama o pai, mas não suporta conviver com a mãe, por um tempo Victoria pensou que poderia muito bem ser uma rebeldia juvenil, mas com o passar do tempo tem ficado cada vez mais claro que Lídia prefere passar a semana em sua casa e não na dos pais, apenas para não ter que esbarrar na mãe de vez em quando.

Após conseguir se arrumar, Victória pega sua bolsa e chaves do carro, grita por Lídia mais uma vez, que desce correndo as escadas vestindo agora um uniforme azul marinho e de cabelos presos. As duas vão para o carro e se dirigem em direção a escola.

Victória conseguiu uma vaga na escola de Lídia graças a indicação que seu professor da faculdade deu. Ela lembra dele dizer com certa tristeza enquanto encarava o teclado do piano da sala de música da faculdade: "Já que vai nos privar de sua genialidade em concertos, pelo menos vá dar aula em uma escola de renome."

Trabalhando apenas meio expediente na escola de Lídia, Victória precisa pegar algumas aulas particulares para completar a renda.

Hoje era dia de dar uma dessas aulas particulares antes de ir para seu emprego de meio período, ela deixa Lídia na porta da escola e começa a sair da vaga em que estava estacionada.

E então ela percebe, um Honda Civic preto atrás dela, e tem a sensação de estar sendo seguida, mas logo tenta tirar essa ideia da cabeça. Quando mais nova ela sempre acreditou ter uma sombra perto dela, chegou a chama-la de protetor das sombras em alguns momentos, e em fantasma em outros.

Ela chega na sala meia hora mais cedo e enquanto aguarda seu aluno, começa a fazer algumas escalas e exercícios para aquecer, ela se sente alegre e antes mesmo de perceber começou uma melodia animada.

Victória fecha os olhos e se deixa levar pela música, apenas sentindo as teclas, não tocando nada específico, apenas deixando-se levar pela leveza do som.

Ela então ouve o que parecia um suspiro em seu ouvido esquerdo, ela então para subitamente, envergonhada por ter se deixado levar, ela olha ao redor, mas não encontra ninguém, nem mesmo na janela da porta.

Ela se levanta do piano e vai em direção a porta, mas encontra o corredor vazio com as portas das salas ao lado fechadas, ela solta a respiração que não sabia que estava prendendo e volta para dentro da sala.

Ela olha ao redor, sua sala fica no segundo andar, logo abaixo funciona um estúdio musical, várias salas ao redor dela são equipadas com diferentes tipos de instrumentos, desde o mais delicado piano até a mais estrondosa bateria.

Não é preciso dizer que todas as salas têm isolamento acústico, todas elas têm quase a mesma estrutura, mudando em algumas apenas o instrumento, a sala de Victoria é uma das mais simples (e baratas) contendo um piano vertical preto, uma mesa e uma cadeira e uma lousa branca.

Uma grande janela toma quase toda a parede, de lá Victória tem a visão completa do estacionamento e da avenida que leva ao centro da cidade, ela olha para o relógio em seu punho e percebe que seu aluno está dez minutos atrasado, esse aluno em particular quase nunca se atrasa, e quando acontece, ele sempre a avisa.

Começando a ficar preocupada ela pega seu celular na bolsa, e procura o número do aluno em sua lista de contatos quando percebe uma movimentação vinda do estacionamento em sua visão periférica.

Ela foca seu olhar na movimentação e percebe que um carro parou ao lado do seu, ela estranha, nunca havia notado aquele carro em particular, mas existiam nove salas naquele local, poderia muito bem ser um novo locador.

Um homem sai do automóvel, muito bem vestido, ele sai segurando algo em sua mão direita, ela não consegue identificar o que é a princípio, seu celular toca e ela muda o foco para a tela do aparelho, é seu aluno.

— Marcos, está tudo bem? -Victória pergunta preocupada.

— Sim senhorita Bernard, o pneu do carro acabou furando e surgiu um imprevisto, terei que cancelar a aula hoje, sinto muito.

Victória percebe que o homem agora está parado de frente para seu carro, tentando ver além do vidro, ela estranha, talvez o homem seja um ladrão afinal.

—Tudo bem. Remarcamos para semana que vem, você pode continuar as escalas que te passei semana passada. -Victória diz lentamente, tentando pensar sobre o cara parado na frente de seu carro enquanto fala.

Ela não ouve seu aluno se despedindo, ela apenas percebe que o homem agora olha fixamente para a janela onde ela está.

Lentamente ela abaixa o celular e lentamente o homem caminha em direção a entrada das salas, que leva para uma recepção separada da recepção do estúdio. Antes de perde-lo de vista, ela percebe que o que ele segura em sua mão direita é uma arma.

Seu coração acelera, e ela sente a necessidade de sair correndo dali, mas o local é um grande corredor sem curvas, para chegar na saída de emergência que leva aos fundos, ela ficaria sem proteção.

Victoria então, pega sua bolsa e vai em direção a porta, era melhor tentar sair antes desse homem começar a subir a escada.

Mas então ela ouve um barulho, um som abafado seguido de um baque e o que parece ser alguma coisa quebrando, ela então ouve passos passando pelo que quer que seja que tenha quebrado.

Ela se desespera, seus dedos agora trêmulos discam para a polícia, enquanto ela olha atentamente para o corredor, ela precisa correr, mas suas pernas não respondem.

Subitamente ela sente uma presença em suas costas e se vira assustada, mais tarde ela sentiria muito orgulho em não ter gritado, mas agora ela só consegue olhar para uma forma humana, incrivelmente alta que veste roupas pretas, uma máscara descartável e um boné igualmente pretos.

Se não estivesse claro o suficiente para ela ver que ele é uma forma sólida, ela acreditaria fortemente que era apenas uma sombra.

Ela então ouve a voz mais linda que já ouvira na vida dizendo em um sussurro:

— Eu sinto muito, Victoria.

E então tudo ficou escuro.

Notas finais
Se sintam livres para comentar o que acharam sobre o capítulo! Até a próxima!!