O Coração do Espada
10 Preto e Branco
Notas iniciais
Não é possível enxergar nada na escuridão, um simples manto negro que cobre todos os sentidos, como se fossemos nada. As mãos só alcançam o vazio. Preto é como estar na morte, não existe nada para além dessa cor. Porventura, isso foi sempre o que Orihime Inoue acreditou. Mas, e se houvesse algo para além do preto para ser conhecido, para ser tocado?
E se Hueco Mundo, o deserto das cores, tivesse efectivamente vida? Certamente esta precisava de ser cultivada, contudo, não era propriamente impossível de preto ser apenas mais uma cor dentro de um arco-íris infinito?
Será que preto simbolizava apenas escuridão? Ou retratava o desconhecido? Preto era aquilo que não se enxergava através dos sentidos…. Mas pode vir a tornar-se luz, ou seja, pode ser conhecido.
O conto de fadas que a princesa de Las Noches escreveu estava arruinado. As letras tão cuidadosamente escritas estavam borradas pela tinta. O estrondo das paredes, o terramoto sob seus pés não cessava, balançando todos os objectos de sua divisão.
As várias reaitsus dos arrancares estavam ao ruge. Uma revolução. Um grupo de arrancares reunira-se, protestando a liderança de Aizen Sousuke. O orgulho hollow não permitia que fossem comandados por um mero shinigami.
Os ceros disparados desajeitadamente destruíam o palácio, inclusive, arrebentaram com a porta que mantinha a ruiva em cativeiro nos seus aposentos. Assim que enxergou a porta destruída, não hesitou e correu.
O vestido dificultava os passos largos e apressados, cansando-a exageradamente para o caminho que percorrera. Algum suor escorria por sua face, enquanto seu peito subia e descia violentamente perante o esforço usado ao respirar.
Algumas lágrimas corriam por sua face ao escutar os gritos de inúmeras arrancares, evitava prestar atenção nesse detalhe e limitava-se a fugir. Contudo, seu intuito não era escapar de Hueco Mundo ou do palácio. Ela estava procurando-o: Ulquiorra.
Desde que os sintomas da guerra civil começaram, ela buscou desesperadamente por sinais do poder espiritual do quarto espada, no entanto, era como se ele nem estivesse presente. Sabia que ele era forte e podia estar só a esconder sua reaitsu com habilidade. Era o previsível, mas mesmo assim estava preocupada.
Seria por causa deste evento que estava alerta há vários dias?
Temia que seu pesadelo concretizasse.
— Ulquiorra-kun! — Seu grito foi apenas mais um, no mar ínfimo de desespero.
Por que ela se preocupava tanto com Ulquiorra? Ele era um deles, porque haveria de ajudá-lo?
Não, ela sabia: ele era diferente. Nunca lhe fizera mal, sempre a protegeu. E acreditava firmemente que ele ainda poderia vir a sentir, tornar-se mais humano. Para além disso, ela tinha a certeza que Ulquiorra desejava isso.
— Orihime Inoue.
Um obstáculo colocou-se entre Orihime, aparentava ser um hollow. Tinha uma máscara de osso, assim como peles em seus ombros, contudo conseguiu distinguir as vestes de shinigami por baixo desse disfarce.
Estava com medo.
Inoue recuou imediatamente alguns passos. Algo nele não lhe inspirava confiança. Ele podia ter vindo salvá-la, era o que a ruiva tentava mentalizar ao encará-lo retirar a máscara; mas nem ela era tão ingénua a ponto de confiar em alguém misterioso a salvando durante uma guerra. Ou talvez aquela suspeita fosse resultado de sua convivência diária com o servo de Aizen.
Provavelmente, ela só estava mais cautelosa. Uma criança não é capaz de sobreviver num mundo somente de adultos. Não podia manter suas fantasias sem ter uma barreira para proteger-se… Essa foi a dura realidade que Ulquiorra lhe desvendou, mas ainda assim, essa era a verdade.
— Como sabe meu nome?
Uma borboleta infernal batia suas asas calmamente, exalando seu pólen durante o trajecto, pousando no ombro do shinigami agora sem a máscara. Um rosto austero, olhos profundamente obscuros e cabelos num castanho arruivado.
Ele a encarou, ignorando sua pergunta.
— Está com medo?
Por um instante, ela ficou surpresa. Ainda assim mantinha-se receosa, efeito perceptível.
— Não tem medo de um espada, mas teme um shinigami?
Orihime piscou os olhos, arregalada. Ele a tem espiado? O medo fora sendo substituído por um incómodo em seu peito, ela estava mais quente… não era comum, mas tinha ficado irritada com essa declaração.
— Quem é você? O que quer de mim?
— Meu nome é Ashido Kano, e vim busca-la.
— Como?
O pavor voltou a transparecer-se na humana. Ela não tinha como vencer um shinigami, aparentemente forte, já que nenhum hollow detectou sua presença. Recuou alguns passos de novo, talvez algum subordinado de Aizen percebesse o intruso dessa forma.
Compreendo as suas acções, Kano empunhou sua zanpakutou para incapacitar a ruiva de qualquer gesto inconveniente para si. No entanto, o único que sua lâmina encontrou foi uma katana alva bloqueando seu alvo.
Orihime tinha activado nesse meio tempo, um escudo para tentar travar o golpe do shinigami, mas como previu não fora o suficiente. Soten Kisshun foi quebrado em diversos pedaços e assistia a lâmina ir de encontro a si.
Kano estalou a língua no céu da boca, observando aquele que entrepusera-se entre ele e a ruiva.
— Ulquiorra-kun…
— Afaste-se, mulher.
— Salvando a mulher que sequestrou de ser sequestrada, irónico não acha?
O olhar esmeralda não tremeu com a provocação, analisando esmiuçadamente todos os possíveis gestos do adversário. Sua falta de resposta porém não incomodou o shinigami, fazendo com que este abanasse os ombros.
— Esqueci, você não é de muitas palavras.
Kano recolheu sua espada e virou-se na direcção oposta de Ulquiorra, antes de camuflar-se na confusão proporcionada pela guerra, ele redirecionou-se para a ruiva, sentenciando aquele encontro com uma promessa.
— Voltarei para cumprir minha missão, Orihime Inoue. Me aguarde.
Junto com a borboleta infernal, o shinigami desapareceu entre os destroços. Orihime não entendera a utilidade que poderia ter para aquele shinigami, como ficou confusa com o facto de Ulquiorra não perseguir o intruso. Possivelmente, com o caos do palácio, a prioridade fossem os outros arrancares.
Embainhando a Murcielago, Ulquiorra iniciou sua caminhada monótona pelos corredores longos. Ou, o que sobrava destes. Inoue teve que praticamente correr para acompanhar seu ritmo, em simultâneo, analisava o físico do espada, procurando algum ferimento, no entanto, ele estava intocável. Como ele mantinha esse estado durante um conflito?
— Para onde vamos? – Ela não ousou pronunciar-se até perceber que estavam a sair de Las Noches. Mais o mais surpreendente foi Ulquiorra lhe ter respondido, e não ignorado como fazia na maior parte do tempo que estavam juntos.
— Mudança de ordens. Aizen-sama quer que abandonemos o palácio imediatamente.
— Então para onde iremos? – Tremeu quando ele a encarou sob o ombro, indiferente.
— Mundo Real.
— Nani? – Eles estavam a devolve-la a casa?
— Não se iluda, mulher. Sua situação não mudou, apenas nos ausentaremos por tempo indeterminado deste mundo.
Ela pensou muito seriamente se deveria colocar aquela questão… Muito mesmo. Mas se havia algo que Orihime Inoue não conseguia resistir era à sua curiosidade.
— Vamos morar juntos numa casa?
— Mulher, pare de fazer perguntas desnecessárias. Onde eu estiver, você estará ao meu lado.
Aquela frase fez com que Orihime ruboriza-se. Ulquiorra não lhe dera a conotação romântica possível, mas ainda assim não deixara de sentir algo em seu ventre remexer inquieto, e suas bochechas arderem. Ulquiorra era tão directo…
Completamente alheio aos pensamentos da humana, o espada focava-se no incidente com o invasor. Sentia que estava a ser vigiado, e responsabilizava o shinigami dessa suspeita. Em patrulhas pela Floresta Menos já sentiu sua reaitsu abafada. Ele estava vivendo em Hueco Mundo, por quê? Porque não limitava-se a fugir, em vez de fingir ser um hollow?
E qual era o intuito de Aizen-sama ao pedir para ele disfarçar-se de humano levando a mulher? O que isso poderia colaborar em seu plano? Nunca foi de questionar uma ordem, será que esse era mais um dos efeitos misteriosos da presença da ruiva?
O quarto espada abriu uma fenda sob as areias do deserto nocturno, criando um caminho de partículas espirituais para que ele e a mulher atravessassem a garganta. Esta redireccionara-os para o mesmo local onde Ulquiorra e Orihime encontraram-se pela primeira vez.
Orihime, finalmente, reviu um mundo cheio de cores. Todavia essa momentânea visão, a cegou, sentindo saudades -por um segundo- de quando era só preto e branco.
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