O Coração do Espada
8 Morte como Despedida
Notas iniciais
Um longo caminho sem fim, escuro e frio. Orihime sentia que estava nos corredores da morte.
Ela queria parar de andar, porém, não conseguia. Seu corpo estava a ser comandado por uma força superior. Ela estava com medo. Temia encontrar um túnel ligeiramente brilhante e que sua vida alcançasse o fim. Era inevitável, todo o ser humano temia a morte.
Seu receio tinha fundamento. Após horas que pareciam infinitas, ela sentiu uma ligeira corrente de ar cortando sua pele. Um frio tão arrepiante que queimava. Ela cegou-se com uma luz alva que cobriu todo o lugar, Orihime deixou-se ir, esperando sentir por fim o alívio daquela tormenta.
A brisa evaporou, e com ela a temperatura negativa esmagadora. Esperava deixar de sentir seu corpo e perder a consciências, no entanto prosseguia a sensação de uma ligeira dormência em seus joelhos, perdendo o equilíbrio, desabando no piso escorregadio, efeito da humanidade do local.
Ligeiros pingos quentes salpicaram sob seu rosto. Só nesse momento compreendeu que havia fechado os olhos, como uma criança que receia o desconhecido. Temerosa, os reabriu, encontrando talvez o pior de seus pesadelos personificado.
– Ulquiorra… kun…
– Não me trate como um lixo, mulher. É irritante ter-me que repetir.
Pela primeira vez, ela escutou ele gaguejar roucamente pela dor. Suas lágrimas deslizavam pela face alva, com os olhos opacos e arregalados pelo horror da cena que presenciava.
Ulquiorra estava posicionado com o seu corpo à sua frente, protegendo-a de algum ataque que ela nem pressentira sua vinda. Suas vestes puras, manchadas com o sangue negrume hollow, atribui ao arrancar uma beleza mórbida.
A ruiva perseguia imóvel, não crendo, o que seus olhos viram. Somente quando ela assistiu o quarto espada perder as forças para embater contra o solo, agiu instintivamente, abafando a sua queda com seu colo macio.
Ele ainda estava desperto.
Contudo, isso não inibiu Inoue em seu gesto posterior. Pressionando Ulquiorra entre seus seios, numa medida irracional para lhe transmitir seu calor, como se isso afastasse o frio da morte do corpo de mármore.
– Mulher, isso é ridículo. Não há nada que possa ser feito.
– Por favor, não desistas Ulquiorra-kun, você ficará bem… Eu prometo.
– Você é uma humana peculiar, mulher.
O pavor perfurou em cada célula do corpo da ruiva quando sentiu o corpo sob si deslizar, perdendo toda a força restante. Ela desviou o olhar para as íris esmeraldas, que se encontravam cerradas. Começou a tremer pelo desespero, sacudindo ligeiramente o espada.
– Ulquiorra!
Orihime gritou por seu nome, mas sua voz era engolida como se estivesse debaixo de água. Inesperadamente a luz branca a atacou novamente, a humana sentindo-se flutuar, não entendo o que ocorria. Fora bruscamente afastada do corpo do espada, porém, ela nunca soltou a mão deste.
– Ora, ora… A princesinha acordou. Teve bons sonhos?
Pânico. Seu corpo gritava que aquilo tinha sido mais que um mero pesadelo, havia contida alguma realidade nele, demasiado próxima. Por meros momentos esqueceu que seu maior problema no momento, era o facto do quinto espada encontrar-se nos seus aposentos, com um sorriso sádico, a observando.
Só se deu conta desse pormenor quando viu seu pescoço ser acorrentado entre cinco dedos longos e delgados, quebrando a ligação entre o ar e seus pulmões.
– Não tolero ser ignorado, princesa. Deveria ter mais respeito pelos seus superiores.
Nnoitra lambeu seus lábios finos, revelando e demonstrando orgulhosamente o número cinco que repousava nesse órgão. Orihime abriu com dificuldade os olhos, mantendo o contacto visual, sentindo pela segunda vez a morte próxima de si, muito semelhante à primeira.
A recordação do sonho, principalmente do contacto com um Ulquiorra sem vida a fez esquecer momentaneamente, a dor e o medo do servo de Aizen. Silenciosamente, chorava. Não por sua vida correr risco, mas preocupação com aquele que ainda não a viera servir sua refeição. Atrasos não eram comuns no quarto, será que acontecera algo?
Nnoitra entendeu que a mulher não estava com medo de si, naquele instante. Havia outro receio que roubava a sua atenção de si. E o quinto espada, odiava ter de compartilhar algo…. Principalmente suas presas. Deu uma fortíssima cotovelada no abdómen da ruiva, que a fez gritar com o impacto inesperado. Ia prosseguir com os múltiplos ataques, porém uma mão interveio. Segurou seu pulso fortemente, impedindo o quinto de arrancar os olhos da ruiva. Os dedos finos encontravam-se a poucos milímetros das íris acinzentadas.
– Grimmjow, seu maldito! O que você pensa que está fazendo!?
– Isso deveria eu perguntar, Nnoitra.
– Se preocupando com uma humana?
– Usando uma mulher para se sentir superior? Que ridículo.
A pantera não pretendia usar o diálogo como estratégia para retirar Orihime da atenção de Nnoitra. Porém, independente de suas intenções, fora esse o resultado pretendido. Fulminante, o quinto espada direccionou-se para o sexto arrogantemente.
No entanto, esse gesto não intimidou em nada o azulado. Inclusive, não parecia importar-se com o facto de Nnoitra estar um número sobre o seu. Em vez disso, desviou seu olhar para a “hóspede” de Hueco Mundo, encontrando-a num estado lastimável contra a parede, inconsciente. Tremeu só de pensar a cólera do Ulquiorra quando a encontrasse. Usualmente, ele procurava irritar o servo de maior confiança do shinigami, no entanto havia certos limites que ele preferia não ultrapassar para alcançar seus objectivos.
– Não vai dizer nada, Grimmjow? Onde está a coragem agora?
– Perdeu a razão Nnoitra? Ulquiorra não vai gostar do estado da humana.
A gargalhada sádica do moreno era capaz de dizimar qualquer planta que ainda fosse viva naquele mundo incolor.
– Como se…
A fala de Nnoitra permaneceu na incógnita. Grimmjow só tivera tempo de desviar-se, por pouco, de um cero verde que cortou qualquer raciocínio que o outro ainda iria apresentar. As paredes do local ruíram quando o corpo do quinto espada foi contra elas, com sua pele totalmente queimada e ferida. Apesar dos danos drásticos não deixava de estar vivo, porém sem qualquer ideia de que o estava. Nnoitra, não perdera os sentidos, contudo sua mente parecia encontrar-se acorrentada a outra dimensão.
Atónico, Grimmjow desviou o olhar para o autor daquele golpe, sentindo sua alma gelar quando se deparou não com íris esmeraldas, porém douradas. A pantera inclusive recuou alguns passos pelo denso e absorvente poder espiritual que o Shiffer emanava.
O azulado suspirou de alívio quando pressentiu a raiva do quarto diminuir, voltando ao seu aspecto normal. Em menos de um segundo, o morcego encontrava-se ao lado da ruiva que permanecia inerte em seu longo sono.
Grimmjow odiava admitir mas também estava preocupado com aquela humana.
– Ichigo, nesse estado não irás conseguir salvar Inoue, nem devolver as memórias a Rukia.
– Eu não consegui impedir nada, como vou conseguir soluciona-lo?
O Kurosaki estava ainda em choque após a revelação arrebatadora que a imã de Byakuya não tinha qualquer requisito de lembrança. Nada; era um corpo sem conhecimento ou sentimento. Era tão fria com ele, que fazia jus ao seu poder. Apesar de ela não se lembrar disso também. Nunca se perdoaria por aquilo que Rukia se transformou, por sua culpa, e somente sua.
As vibrações da divisão pareciam inexistentes, possivelmente pelo choque da ex capitã com tal discurso por parte do ruivo. Trincou o lábio com força, deveras irritada. Desferindo um potente soco no topo da cabeça arruivada.
– Kurosaki Ichigo, isto não é hora de ser fraco! Você pensa que está sofrendo? Olhe à sua volta! Rukia está apavorada por não saber de nada de si mesma, tem medo da sua própria sombra! Não seja egoísta! Este não é o herói que salvou a Soul Society! Nós queremos esse Ichigo, e não o fracote que está à minha frente!
Yoruichi sempre delicada…
Ichigo teve vontade de rir com esse pensamento. A mulher gato tinha muitas habilidades ocultas, uma delas era acender sua vontade de guerrear, ela lhe dava esperança. Seus conselhos sempre lhe foram úteis, sem eles possivelmente estaria morto há muito tempo.
Sorriu de lado, ignorando a dor na sua cabeça.
– Iremos trazer Rukia de volta, isso é uma promessa.
Duas promessas, um dueto de histórias distintas porém similares, na qual a morte poderia ser a protagonista em ambas.
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