O Coração da Fênix
1 Capítulo um - Coisas estranhas
O velho caçador olhou por sobre o monte escuro e sombrio, procurando a origem do rastro ouro avermelhado que ainda pairava no ar. O céu estava coberto por nuvens negras e ele não podia ter muito certeza de que via qualquer coisa.
Era um homem estranho. Realmente parecia velho, mas havia alguma coisa diferente no brilho de seus olhos: como se a alma ali dentro não correspondesse ao que o corpo parecia por fora. Suas roupas estavam surradas em vários graus e seu cabelo castanho, que escorria em um rabo-de-cavalo até o meio das costas, imundo. Uma curiosa cinta de couro rodeava seu corpo, descendo do ombro e retornando a partir da cintura. Havia uma espada presa ali.
"Esse é um lugar estranho", pensou o caçador ao erguer-se, cansado, no cume do monte. Uma grande cadeia de montanhas se erguia do meio de uma floresta, completamente negra àquela hora da noite. As nuvens obscureciam a luz das estrelas e da lua, e mesmo se fosse um dia de sol o homem não tinha muita certeza se conseguiria ver mais do que seus olhos sabiam que existia ali. As nuvens da destruição ainda estavam no ar. O vento rugia furiosamente, fazendo seus cabelos açoitarem seu pescoço e as milhares de árvores lá embaixo rangerem numa música que definiria a história do mundo. Entretanto, era tudo muito sinistro. Aquele, o velho caçador tinha razão, era realmente um lugar estranho. Principalmente para o que ele tinha certeza que estava para acontecer.
O vento chiava em seus ouvidos, trazendo consigo um som diferente. Era como se alguém estivesse gritando para ele de um monte distante e a voz chegasse num eco perdido. Mas se era real ou não, o caçador balançou a cabeça num gesto de afirmação. Depois de ficar algum tempo olhando para as nuvens tão próximas a espera de finalmente ter tão perto de si a origem do rastro que procurava, ele caminhou à beira do penhasco. Escorado com uma das mãos numa árvore baixa que crescera ali, quando um relâmpago riscou as nuvens, ele pôde vislumbrar por um instante a imensidão do vale que o aguardava. Que aguardava sua busca de anos e anos. Ele tinha que estar por ali – essa era uma das únicas formas de se livrar dessa tormenta que caíra sobre seus ombros.
Novamente, as nuvens brilharam e ele notou que não era aquele brilho semelhante ao aço da lâmina de sua espada. Era amarelo. Era avermelhado. E o coração do caçador disparou num misto de emoção e alívio. Ergueu a cabeça para o céu e ficou procurando aquele brilho diferente... ora era prata, ora quase ouro, quase sangue. E embora ele mantivesse os olhos abertos, quase sem piscar para não perdê-lo de vista, o relâmpago dourado aparecia a todo momento em um lugar diferente, cada vez mais forte. Como se a origem dele estivesse pronta para cruzar as nuvens e se mostrar.
Lentamente, o caçador foi tirando a espada de sua proteção às costas, flexionando os joelhos como se fosse saltar. Agora, com o coração disparado, ele percebeu o brilho dourado seguir um caminho constante e parecer se aproximar do monte em que estava. Então, seus ouvidos se deliciaram e seu coração sofreu um aperto tão terrível quando um canto baixo e melodioso, quase um lamento comovido de dor, desceu das nuvens embora parecesse vir de todas as direções.
O caçador sabia a razão da dor que sentia no peito, porque não era justo fazer o que ele tinha intenção de fazer. Era ali que residia a esperança do mundo. De um mundo melhor, de um mundo sem seu grande mal. Era o que as pessoas acreditavam, era o que ele próprio acreditava. Lágrimas escorriam de seus olhos como um rio e seu peito doía cada vez mais enquanto a música preenchia cada ínfima parte de seu ser. Ele sentia que ia explodir se não fizesse aquilo logo. Mas como ele poderia acreditar que isso daria certo?
Novamente, o vento lhe trouxe aquela voz perdida. E o caçador simplesmente gritou em resposta:
– Não há outro jeito! Se houvesse, eu o buscaria! Desça! Desça!
E isso ele gritou para o céu até sua voz sumir da garganta. E gritou várias vezes "Desça, desça!", enquanto o brilho vinha se aproximando devagar. Tantas vezes em tão pouco tempo que acabou perdendo a voz e ainda assim, na consciência de realizar seu desejo mais profundo, ele continuou abrindo a boca, mesmo que nenhum som saísse mais dali.
As árvores reverberavam a melodia e o vale parecia inundado de tristeza e esperança. E ele sentiu, como se cada parte de si soubesse, que estava chegando a hora. E ele já estava girando a espada com o braço quando a melodia soou tão alto que o monte todo tremeu.
Foi então que aconteceu tão rápido que ele nem percebeu. Uma grande chama ardente, semelhante a uma grande ave, rasgou as nuvens negras e seu brilho dourado era magnífico de se ver. Por um momento, ela planou com as asas abertas no céu, formando a figura daquilo que o caçador tanto procurava. E foi quando ele lançou a espada que a ave em chamas voou na sua direção; e seu canto também era um grito de fúria. A espada rasgou as chamas e o caçador nada mais pôde ver, porque seu coração rompeu-se tamanha a dor e fúria que sentia e presenciava.
A espada continuou subindo até começar a cair vertiginosamente em direção ao vale lá embaixo. A ave rompeu-se em chamas e brilhou como um sol sobre o monte escuro. E se o caçador tivesse sobrevivido tempo suficiente, ele veria um estranho rasgo se abrir no céu e o vento soprar as cinzas da ave em direção a ele.
A culpa era do aquecimento global. Era o que os especialistas diziam, embora ninguém conseguisse entender muito bem o que eles queriam dizer com isso. Por que entre os vinte e sete estados brasileiros somente o Espírito Santo estava passando por aqueles estranhos fenômenos climáticos?
Nenhum capixaba tinha dúvidas: o mundo estava virando de cabeça para baixo. Nuvens negras de chuva cobriam o céu por onde quer que as pessoas andassem e isso certamente não poderia ser algo normal, pois simplesmente não chovia. No entanto, fortes tempestades caíam na praia, as ondas gigantescas arrebentando quase na rua. Mas como a chuva caía ali se não havia tantas nuvens no céu sobre a praia? A terra tremera tanto na semana passada que se alguém visitasse o vizinho acharia a coisa mais normal ver os móveis todos amarrados pela casa. Os terremotos causaram razoáveis estragos se comparados aos que aconteceram quando dois ciclones ou furacões – ninguém soube explicar o que realmente foram aquilo – arrasaram o centro da capital. Se todos conhecessem Vitória como os capixabas conhecem, teriam uma ideia da desordem que ficara ali, pois as ruas do centro eram estreitas, os prédios altos e velhos e o porto ficava muito perto disso tudo.
Ninguém podia dizer que o estado estava mergulhado em tédio. O Espírito Santo estava muito mais interessante nesse estranho momento. Especialistas de diversos estados brasileiros estavam em terras capixabas pesquisando os estranhos fenômenos. Redes internacionais de notícias também apareceram, mas o lançamento do último livro de uma famosa série de uma famosa autora inglesa fez com que elas logo fossem embora.
Mas não era só o clima que parecia estranho. Misco achava que a vida podia ser mais empolgante por aqui. Achava que não seria nada ruim se algo de extraordinário acontecesse, não que as coisas que aconteceram não tivessem surpreendido o garoto. Afinal de contas, Misco era apenas um garoto de onze anos comum demais para o gosto dele. Era magro e baixo, tinha os cabelos e os olhos castanhos, sem nenhum traço que o diferenciasse dos outros e era tímido e bastante inseguro.
Misco morava com o pai e a mãe no município de Serra, um dos poucos locais do estado que ainda não passara por nada de anormal, a não ser que se levasse em conta todas aquelas nuvens cinzentas no céu há mais de um mês. Moravam numa casa de tijolos bastante humilde na periferia de um bairro, quase numa invasão perto do mato, e ainda assim a casa era alugada.
Misco mal colocara os pés dentro de casa e sua mãe foi logo o repreendendo.
– Olha o estado deste moleque! – gritou ela nervosa. – Está uma imundice só. Essas roupas eu lavei ontem! Como é possível que as suje tão rápido assim? Onde está o respeito por tudo o que eu faço por essa casa?
Então, ela olhou para o interior da casa aborrecida. Misco viu o pai deitado no sofá sem camisa, a gordura espalhando-se livremente por todo o assento, assistindo televisão. O garoto ficou triste. Como é que Misco ia explicar para a mãe que os garotos da escola o perseguiram depois da aula e o jogaram numa poça de barro antes de saírem correndo porque um senhor ameaçou meter-lhes a bengala na cabeça se não o deixassem em paz?
Não eram só os garotos que não gostavam de Misco – ou o garoto do nome esquisito. Nem as garotas iam muito com a cara dele. Era como se Misco fedesse terrivelmente a cocô e as pessoas não conseguissem ficar muito tempo perto dele. Mas ele não fedia a isso, não. Ele tomava banho todos os dias, três vezes ao dia, com as loções aromáticas que sua mãe fazia para vender. Todos os dias ele verificava o cheiro embaixo dos braços; se houvesse alguma suspeita, lá se ia metade de uma loção fraca, porém desodorizante.
Também não era possível que fosse culpa de Misco que ele fosse um garoto tão só. Na escola, ele sempre procurava puxar conversas com os colegas, afinal de contas passavam muito tempo juntos e seria realmente estranho que não se falassem. Mas na maioria das vezes, os colegas faziam amarrar a cara, como se Misco estivesse os ofendendo com seu olá e davam as costas ao garoto. Nas aulas esportivas, Misco buscava participar de todas as atividades, mas os garotos só o aceitavam porque o professor os obrigava.
A mãe de Misco o levou pela orelha ao banheiro e, em meio aos resmungos do garoto de que podia muito bem tomar banho sozinho, ela foi tirando as roupas encardidas dele e continuou reclamando de tudo.
– Eu me mato de trabalhar para manter esta casa e é esse o pagamento que recebo por tudo – acusou ela, abrindo o chuveiro e pegando uma bucha vegetal de um prego espetado na parede. – Seu pai é um estrume de vaca que passa o dia todo deitado naquele sofá, que vai afundar no chão, tão gordo ele é! Se ao menos ele trabalhasse, a gente teria uma vida mais tranquila, sem ter de pagar esse aluguel maldito ao doutor Golias.
Ela esfregava tão fortemente a bucha nas costas de Misco que elas já estavam ficando avermelhadas. Era uma vergonha ficar pelado naquela bacia de alumínio enquanto a mãe, sempre reclamando, parecia disposta a deixar suas costas em carne viva.
– E ainda tem mais, se você quer saber – falou ela, embora Misco tivesse quase certeza de que ela falava mais consigo mesma do que com ele. – O doutor Golias vem aqui em casa hoje e não pode ser para nada de bom. Tô muito preocupada com isso, o aluguel atrasou o mês passado... tenho tanta coisa para fazer! Misco, vista-se bem, use aquela roupa que compramos no bazar da igreja. Temos de mostrar uma boa aparência ao doutor Golias, seja lá o que ele venha fazer aqui.
Misco ficou feliz que ela tivesse parado de esfregar suas costas. Sabia que o aluguel tinha atrasado porque uma das clientes de sua mãe mudara do bairro sem pagar pelas loções que a mãe dele lhe vendera. Enrolou-se numa toalha, tremendo dos pés a cabeça, e quando chegou na sala, encontrou os pais discutindo.
– Levante-se desse sofá, seu porco imundo – gritava a mãe, a vassoura na mão. – Eu preciso limpar a sala, preciso limpar essa casa, ou o doutor Golias achará que sou uma péssima dona de casa.
– Por que ele tem que vir? – perguntou o pai de Misco, ajeitando o corpanzil no sofá sem demonstrar que ia sair dali. – Por que não fica na casa dele e nos deixa em paz?
– Ele não vem à toa, seu barril de banha – tornou a gritar a mãe. – Caso você não tenha percebido, o aluguel do mês passado não foi pago.
– E por que você não pagou? – perguntou o pai distraído. – Afinal, você faz essas porcarias todas para vender, não?
Misco viu a mãe pronta para dizer as piores palavras que alguém poderia proferir a uma pessoa que não fazia nada na vida. Mas ela o viu ali e sentiu-se envergonhada com toda aquela situação. Seus olhos brilharam um momento antes de ela desabar em lágrimas pela ingratidão do marido e sair correndo para a cozinha.
Desolado, Misco foi para o quarto sentindo-se extremamente sozinho e esquecido. Ele sempre quis fazer alguma coisa para ajudar, mas a mãe insistia, e muito corretamente, que o melhor que ele podia fazer era continuar estudando para ser alguém na vida. Mas deixava claro que ela morreria se um dia Misco acabasse se tornando tão útil quanto o pai.
Lá pelas seis horas, Misco vestiu a dita calça e colocou a dita camisa de botão sob ela. Passou o cinto gasto pela cintura e o afivelou. Calçou os sapatos e assentou o melhor que pôde seus cabelos. Se não fosse pelo rosto infantil, ele pareceria com um adulto que não cresceu. Misco não gostava dessas roupas, não porque fossem velhas e usadas, mas era o que a mãe considerava vestir-se bem. Ele queria poder se vestir como os outros garotos se vestiam: camisetas com estampas de seus heróis favoritos ou de carros de corrida. Queria usar bermudas e se sujar jogando bola com os garotos da vizinhança e da escola sem se preocupar com o que sua mãe diria depois.
Por volta das sete horas, Misco estava sentado na sala com os pais. O pai vestira sua melhor roupa: uma camisa azul-marinho e uma calça social esbranquiçada. A camisa se esticava tanto na sua pança que os botões ameaçavam se soltar a qualquer momento. Ele estava com os braços cruzados, visivelmente aborrecido que não pudesse esperar pela chegada do doutor Golias assistindo a tevê. Misco estava entre os pais, encolhido e calado, quando alguém bateu à porta da casa.
– Atenda, Misco – pediu a mãe nervosa, se levantando e verificando se havia alguma coisa fora do lugar.
Misco abriu a porta e o doutor Golias não pediu licença quando entrou, passando pelo garoto como se ele fosse indigno de sua atenção – como uma formiga. O doutor Golias devia ter quase dois metros de altura. Era careca e tinha uma carranca naturalmente má, com sobrancelhas grossas. Vestia um terno preto e carregava nas mãos uma maleta. Sua presença era sempre assustadora.
– Boa noite, doutor Golias – saudou a mãe do garoto erguendo a mão para o senhorio.
– Estaria melhor se a senhora, dona Carmem, tivesse pago o aluguel do mês passado – falou ele sem cumprimentá-la com a mão.
– Houve um pequeno problema, doutor Golias, o senhor há de compreender... – começou a falar a mulher.
– Não – respondeu o doutor Golias. – Eu vivo de aluguéis pagos, minha senhora, não de aluguéis atrasados. A senhora compreende isso? Se a senhora não puder pagar, terei de expulsá-la dessa casa.
– Daremos um jeito, doutor – falou a mãe de Misco à beira das lágrimas. – Venderei minhas coisas e conseguirei o dinheiro necessário para pagar o que devemos.
– Espero que sim. Dentro de três dias voltarei com os carregadores – falou implacavelmente o doutor Golias, consultando as horas no seu caríssimo relógio de pulso. – Se a senhora não tiver o dinheiro para pagar o aluguel, na mesma noite a senhora e sua família não terão mais um teto para dormir. Passar bem.
O pai de Misco levantou-se para cumprimentar o doutor Golias e ao fazer isso metade dos botões da camisa saltaram para cima do homem, revelando a pança estriada e peluda. O doutor Golias olhou aquilo com o mais puro desprezo antes de dar as costas e sair da casa. Mal ele fechara a porta a mãe de Misco mergulhou o rosto nas mãos, chorando barbaramente pelo destino que, ela não tinha dúvidas, aguardava sua família.
Quando ela foi para o quarto continuar chorando, Misco ficou aborrecido que o pai ligasse a televisão como se nada tivesse acontecido. Ele foi atrás da mãe e bateu à porta do quarto dela antes de entrar. Chegou perto dela e a abraçou.
– Eu queria poder te ajudar, mãe – falou ele baixinho, descansando a cabeça sob os peitos dela.
A mãe soluçou um pouco mais enquanto muito mais lágrimas escorriam de seus olhos. Quando ela recobrou um pouco da calma, disse ao filho:
– Não há nada que você possa fazer, Misco, a não ser continuar sendo esse bom garoto. Isso é assunto para nós, adultos. Daremos um jeito, meu filho querido.
Em sua cama fria, coberto com seu único lençol ralo, Misco deixou que um pouco da tristeza que sentia saísse dos olhos e orou para que Deus lhe desse uma luz para que pudesse ajudar a mãe já que o pai nada fazia.
Quando acordou na manhã seguinte, Misco encontrou o pai roncando na sala, um filete de baba escorrendo da boca para as almofadas. Sua mãe saíra mais cedo para ver se conseguia algum dinheiro, mas deixara o café da manhã dele pronto. Misco bebeu o café com leite, mas guardou o pão com mortadela para o lanche da escola e saiu de casa sentindo que deveria ter acordado o pai e feito ele se levantar para procurar um emprego.
O uniforme que Misco usava era surrado em vários graus, pois ele tinha certeza que pertencera a muita gente antes de ser seu. Na verdade, todas as coisas que tinha eram de segunda mão, tão pobre era sua família. Até os cadernos que usava eram de segunda mão. Sua mãe arrancara as folhas escritas e deixara somente as que estavam em branco. E quando a situação apertava, ele usava as sacolas de pão, quando eles podiam se dar ao luxo de comprar, para copiar as matérias do quadro. Seus lápis eram cotocos, sua borracha quase não apagava mais.
Era muito duro ser pobre e depender do bazar da igreja para ter alguma coisa. O único luxo que tinham em casa era a televisão velha, que mal sintonizava. Não que na igreja as pessoas ignorassem a situação de Misco e sua família, mas o garoto sentia uma coisa muito particular quando elas ofereciam ajuda. Explicaram para ele que aquilo se chamava orgulho e que se bem usado não era nada ruim. Orgulhoso ou não, Misco queria ter idade para trabalhar e ajudar a mãe. Mas, é claro, sempre havia os semáforos e ônibus onde garotos como ele podiam mendigar algum trocado e vender doces e frutas. Com esses pensamentos infelizes na cabeça, Misco se dirigiu para o caminho que sempre tomava ao ir para a escola que ficava em outro bairro: uma trilha no meio do capim alto que serpenteava alguns quilômetros até desembocar à beira de um campo de futebol de terra batida.
Ele nem podia sonhar em pegar um ônibus das linhas que circulavam pela cidade, muito menos o escolar pois ambos exigiam dele o que Misco não tinha. Um dia, ao passar por um ponto de ônibus Misco vira um senhor errar o bolso e deixar uma nota de cinquenta reais cair no chão. Seu primeiro pensamento fora pegá-la e sair correndo. No entanto, ele a devolvera sem esperar nada em troca. E como se seus pensamentos tivessem sido escutados, fora o que realmente aconteceu e ele começou a se indagar para o que servia a honestidade se as pessoas nem ao menos sabiam agradecê-la.
Havia alguma coisa de diferente no céu daquela manhã. As nuvens continuavam cobrindo tudo até onde a vista alcançava. Mas o cinza estava dando espaço a um tom mais escuro e as nuvens estavam mais densas. Olhando para o céu, Misco nem percebeu que as suas costas foram se aproximando três dos garotos de que ele menos gostava. Foi somente quando o garoto do meio puxou os materiais da mão de Misco que ele notou a presença deles.
– Olha quem está aqui – disse o menino que puxara o material de Misco.
– Me devolve, Roger – falou Misco.
Roger era um garoto forte e extremamente cabeçudo; tinha os cabelos loiros curtíssimos e os olhos azuis. Misco viu um sorriso maldoso se formar no rosto do colega.
– Ouvi dizer que você e sua família de idiotas finalmente vão morar na rua – debochou Roger, jogando os materiais de Misco no meio do mato e estalando os dedos. – É verdade, então?
– Como se você não soubesse – disse Misco entredentes.
Os outros dois sorriram identicamente ao seu líder. A maldade pôde ser sentida muito além de seus olhos brilhantes. Misco imaginou que podia pegá-la nas mãos se quisesse.
– Nós vamos te dar uma lição, não é garotos? – ameaçou Roger, estalando os dedos.
Misco não fazia a menor ideia do por que Roger o perseguia e nunca tentara perguntar, pois na maioria das vezes ou estava sob seus tênis caríssimos ou sendo acariciado por seus punhos de gorila. Diziam que Roger arrumara tanta encrenca nas escolas anteriores que não viram opção senão expulsá-lo. Roger não era pobre como Misco e muito menos o eram os seus dois amiguinhos, mas todos estudavam na mesma escola pública. E o pior de tudo: Roger era filho do doutor Golias.
Ele foi andando de costas, o medo invadindo-o aos poucos. Sabia que ia levar uma surra feia se não se mandasse dali. Os três eram muito mais altos e troncudos que ele.
Misco virou-se abruptamente e começou a correr. Surpresos, os outros garotos foram atrás e o alcançaram cedo demais para o gosto de Misco. Roger segurou-o pela camisa e o jogou ao chão. Misco sentou-se encolhido, os três o rodeando como urubus atrás de carniça.
Foi quando eles começaram a chutá-lo que o vento soprou forte e a escuridão das nuvens, mesmo para Misco com os olhos fechados, aumentou. Um estrondo soou no céu tão alto que Misco pensou ter sentido o chão tremer. Ele ouviu Roger gritando antes mesmo que parasse de chutá-lo e havia uma nota de desespero na voz dele. Será que havia algum velho com uma nova bengala correndo atrás deles?
Mal Misco abrira os olhos e um clarão brilhou no céu. Ele olhou a tempo de ver um raio cruzar a escuridão das nuvens e cair no meio da mata em que ele estava. Misco levou um baita susto, ele não conseguia ver exatamente o local onde o raio caíra, mas o susto foi passando... afinal, como ele bem sabia, um raio não caía duas vezes no mesmo lugar.
Mas ele estava terrivelmente enganado.
Verdade que não fora o mesmo raio. Uma nova linha elétrica riscou o céu e foi cair praticamente no mesmo lugar que a primeira. O vento soprava forte e um estranho rugido vinha junto. Quando Misco olhou para trás ele finalmente viu o que assustara Roger e os outros. Suas pernas tremeram absurdamente, o sangue fugiu-lhe das faces e sua boca se abriu numa careta muito esquisita.
Um poderoso ciclone, ou o que quer que fosse aquilo, descia das nuvens e devastava tudo o que encontrava pelo caminho. Misco viu poeira, pedaços de coisas que ele não fazia a menor ideia do que era, lixo, folhas e madeiras serem sugados pelo cone. A ventania atirava fragmentos de coisas na cara do garoto e esvoaçava seus cabelos. Misco ficou assustado quando o ciclone pareceu vir em sua direção.
Correu para o meio do mato sem saber muito bem para onde ia. Ele só sabia que tinha de sair correndo para o mais longe que pudesse daquela coisa apavorante.
O trovão mais alto explodiu em algum lugar acima de sua cabeça. Uma forte chuva começou a cair, deixando a terra lamacenta sob seus pés. As árvores e o mato sacudiam violentamente. E ele acabou topando com tudo em alguma coisa que vinha correndo na direção oposta, e Misco caiu no chão pela segunda vez naquela manhã.
A coisa era pesada e se projetou sobre o garoto. Quando ela colocou as mãos nos ombros dele foi que Misco pôde ver seu rosto. Parecia uma pessoa, mas Misco não se lembrava de já ter visto alguém tão terrível quanto aquilo que estava ali nem em desenhos animados. Tinha uma cabeça enorme, escura e enrugada, com grandes olhos vermelhos esbugalhados. A boca carnuda e babenta fedia a podridão e quase não havia dentes. Usava uma capa tão encardida que era impossível definir qual era a cor. Os olhos assustadoramente saltados miravam Misco com interesse e ansiedade. Misco estava apavorado.
Então a criatura esboçou um sorriso demente, a baba escorrendo pelo canto da boca. De repente, começou a chorar, chorou barbaramente como uma criança perdida da mãe numa multidão.
– Eu não suporto mais... – falou a criatura com voz rascante, rouca, frágil, as mãos apertando os ombros de Misco. – Tenho visto coisas terríveis demais... O Destruidor, o mal vai despertar muito em breve... terrível como nunca o fora... os dois mundos não estão seguros... se nada for feito será o fim. As três têm de ser encontradas... e... e eu não posso mais continuar vendo essas coisas...
Misco não estava nem remotamente interessado nas coisas que aquela criatura falava. Era evidente que se tratava de um velho louco muito fraco. Um barulho fez o velho olhar para trás e procurar desesperadamente o que quer que fosse. De repente, voltou-se para Misco furiosamente.
– Eu tenho que passar – gritou ele, cuspe voando na cara do garoto. – EU TENHO QUE PASSAR!
E o grito que o velho deu foi mais altissonante do que qualquer som da tempestade. Ele se deslocou mais para cima do garoto e colocou as próprias mãos nas têmporas dele.
Furioso, desesperado, ele começou a falar numa língua estranha, rápida e violenta. Misco mal teve tempo de tentar entender o que ele dizia. Na mesma hora, sentiu uma descarga de energia invadindo seu corpo e berrou de dor.
– Ou zisse malhi bolçie o mindaçie i vecô... ou zisse malhi bolçie o mindaçie i vecô.
Misco sentia a cabeça queimando onde o velho o tocava e continuou gritando de dor.
– Vecô voti e quo voje o ou ji lie votoa mias – continuou o velho enlouquecidamente, enquanto Misco gritava. — I malhi bolçie o mindaçie sotie suisssss...
O velho berrou longa e desesperadamente. Misco sentia que seu corpo ia se despedaçar com toda aquela energia invadindo-o. A dor era insuportável.
A visão de Misco foi escurecendo. Ele viu o ciclone se aproximando e até poderia jurar que sentiu seu corpo se erguer do solo. Sentiu a cabeça rodar e o corpo amolecer completamente antes de desmaiar com a cara mergulhada na lama. Um animal parecia rugir ao longe.
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