O Coração do Espada
14 Branco
Notas iniciais
No mundo existem diversas paisagens ocasionadas pelas transformações das estações. Uma das mais apreciadas pertence ao Inverno, um espaço totalmente coberto de neve, todo pintado de branco. Paz. Era isso que transmitia um lugar assim? Então, por que, naquele momento, Ulquiorra só conseguia sentir o vazio em seu oco?
Os seus passos não eram marcados no solo, como seria previsível se fosse neve debaixo deles, apenas escutava o ruído de seus membros se mexendo. Tudo branco, parecia um sonho. Seu peito apertava gradualmente com o tom incolor, nada mudava, era sempre branco. Desespero, agonia… loucura. Não conseguia sentir qualquer paz como os humanos descreviam associada àquela cor.
Acelerou os passos, com a respiração frenética, começando a correr. Sem direcção, só queria fugir daquela cor. Pela primeira vez sentiu saudade das cores, ou da simples dualidade preto-branco. Mas por quê? Por que o vazio transfigurou-se em dor, sendo que era apenas uma cor, ou melhor, a falta dela? Por que as cores eram tão importantes para seus olhos naquele momento? Ele não era um humano, não era um lixo nem alguém fraco para ser afectado por algo pequeno assim.
Nem a perversa escuridão, esconderijo dos segredos e das solidões das almas, o conduzia para aquele estado de delírio. Era como se a luz própria da tonalidade alva o cegasse.
Afinal, o que representava o branco? Ulquiorra agachou-se apertando o peito, faltava-lhe ar. Apesar de manter uma compostura aparentemente calma e indiferente, estava angustiado. Como se sentisse um borbulhar diversificado de emoções naquele instante. Parecia que estava louco, preso num quarto, e que não conseguia sair dali.
Por um breve momento lembrou-se daquela mulher. A onna sentia-se sempre assim? Como ela conseguia suportar aquela dor constantemente, sendo que ele quase era engolido por ela em alguns minutos?
Orihime Inoue era mais forte do que ele previa. Tinha um poder surreal escondido dentro de si, incapacitado de revelar-se em grandeza, por conta da timidez e ausência de confiança da portadora… Contudo, não era apenas isso. Viu isso quando ela, sem hesitação, firme e determinada, o esbofeteou. Não chorou, não teve medo.
A determinação era o fenómeno mais estranho naqueles olhos nublados. Não existia incerteza quando eram sentimentos, justamente aquela que para ele, deveria ser a maior fonte das dúvidas do raciocínio.
Ulquiorra ergueu o olhar, tocando no rosto, recordando o quanto sua pele era pálida como aquele lugar. Branco… Queria recordar-se da ruiva, aquela que tinha uma cor tão exótica, tão quente… Desejava que sua cor o salvasse. No entanto, ele não estava conseguindo lembrar-se de mais nada, apenas enxergava o branco que o circulava.
Aquela cor, escondendo de forma egoísta tudo dentro de si. Aonde tudo é improvável, porém ainda assim, toda a narrativa do destino mantém-se em aberto. Tudo era ainda possível, o desfecho sentimental ainda está longe do espada sem cores.
Abruptamente, foi trazido à realidade abandonando o mundo do sonho imprevistamente. Sentou-se com brusquidão na cama, transpirando. Os cabelos negros colados na sua testa, algumas gotas de suor escorriam pelo seu rosto. Seu olhar estava arregalado e a respiração acelerada, ainda tonto não discernindo a dimensão que dividia a realidade da ficção.
Suspirou, por fim, recompondo-se e acalmando. A coerência entrando com o oxigénio em sua mente, concluindo que foi apenas um sonho idiota sem qualquer implicação real. Ou será que tinha? Sua atenção foi roubada ao escutar pequenos murmúrios indecifráveis ao seu lado. Orihime estava dormindo fazendo caretas, enquanto parecia dialogar com alguém. Quase sorriu com a inocência em sua expressão adormecida, mas rapidamente repreendeu-se só por imaginar algo assim. Estava a ficar atraído demais por um humano.
Nunca devia ter permitido ficarem na mesma divisão, no entanto ela praticamente implorara. Percebeu que a ruiva não queria ficar sozinha num quarto naquela casa, talvez receando pesadelos ou antigas memórias amargas. Suspirou novamente, isso nem o devia incomodar, ele apenas tinha de a manter viva, não assegurar o seu bem psicologicamente. Essas nem eram suas ordens, e sim o oposto. No fundo ele estava a protegendo dos planos de Aizen, quase como uma traição.
— Não consegue dormir? —Ulquiorra foi puxado de seu transe pela voz sonolenta da ruiva que o encarava com os olhos ligeiramente abertos por causa do sono. Suspirou, tinha que estar menos distraído, o olhar cinza sempre captava quando estava mais fraco.
— Durma mulher. —Soou autoritário, apesar de não ter sido tão rude quanto deveria.
Orihime piscou os olhos, os coçando, ainda atordoada pelo cansaço. Bocejou ainda observando o quarto espada, observar indiferente o teto sobre si, avoado.
— Está com fome? —Perguntou-lhe inocente. —Se quiser posso preparar algo para você…
— Não inverta nossos papéis. E não se finja que se preocupa comigo, eu a raptei e fiz mal a seus amigos. —Bruscamente a interrompeu com seus argumentos objectivos, porém Inoue apenas o encarava curiosa. — Volte a dormir.
— Eu me preocupo com você, Ulquiorra-kun. Eu sei que tem um coração que o torna diferente.
O arrancar a encarou surpreendido, porém, esta em meio da sua sinceridade adormeceu. Ele suavizou sua expressão, levando o indicador ao oco em seu peito… Será? Sacudiu a cabeça, tentando esquecer os disparates que aquela mulher dizia. Ele tinha que ter cuidado, estava começando a acreditar, a ter aqueles sonhos… Ulquiorra Schiffer não podia estar a tornar-se mais humano.
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Onde o brilho luar não alcançava, a Floresta dos Menos era governada pelas leis mais primitivas. Domínio, perseguição e sobrevivência. Nas suas profundezas só os mais fortes sobreviviam e conheciam o deserto eterno sobre si. No entanto, alguns seres mais fortes escondiam sua existência entre viscosas paredes. Rochas agrupavam-se criando uma gruta temerosa, aqueles que se atrevessem a passa-la, eram eliminados rapidamente, sem hesitação, pelo senhor daquele pequeno espaço. Seu poder espiritual emanava na entrada, como um aviso a futuros invasores.
Ashido Kano aproximou-se cauteloso da única abertura do esconderijo, as madeixas acastanhadas ruivas cobriam seu olhar negro. Aumentou sua pressão espiritual, identificando-se. Sem receio adentrou pela caverna, com fraca iluminação, sentindo o cheiro intenso dos cadáveres de alguns hollows caídos, que foram demasiado ousados não medindo o poder de seu adversário. Previa que fossem sendo comidos pelo mesmo antes de apodrecerem de todo.
Seus olhos captaram o dominador da gruta. Um vasto lord. Corpulento e alto, sua fisionomia era suficientemente possante para intimidação. Longos cabelos castanhos estavam soltos pelos seus ombros. Sua expressão era indecifrável, contudo, uma pequena ruga na testa minimamente franzida o alertou que ele estava chateado. Encurvou-se em respeito, saudando seu líder.
— Ashido, você me desiludiu. —Comentou friamente, o observando atento. — Falhou sua missão.
— Me perdoe, Friegen-sama. Não voltará a acontecer. —Abaixando a cabeça, desculpou-se, recordando-se do motivo de seu fracasso, apertou o punho. — Com certeza, irei trazer-lhe Inoue Orihime.
— Sim. —Disse indiferente, pensando alto.— Mas desta vez, temos de tratar daquele espada que a está vigiando primeiro. O quarto espada, Ulquiorra Schiffer, certo? Não será um problema para você Ashido.
O ruivo acenou em concordância, porém, ficou pensativo. A habilidade e apureza do arrancar era muito mais do que um quarto posto… Será que o número quarto simbolizado em seu peito era real?
O vasto lord ergueu-se de sua poltrona construída de ossos de presas caçadas, sorrateiro, chegou-se até o shinigami que usava uma máscara hollow como disfarce, rindo de canto ironicamente. Seu poder espiritual aumentou em tom de ameaça, as poucas plantas secas degradaram por completo perante a possante reaitsu. O hollow aproximou-se de Kano, murmurando.
— Nunca se esqueça que sua vida me pertence. Se não fosse por mim não estaria vivo, nunca mais ouse falhar uma missão. Quero aquela humana viva aqui, sem falhas da próxima vez.
— Hai. —Tremeu, suando com o calor que provinha de seu superior, alargando o sorriso do oco.
Os poderes temporais semelhantes a um deus eram cobiçados pelos maiores predadores.
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