O Coração De Eçabará
1 Primeira parte
Numa tribo antiga, um amor incorrespondido apertava o coração do índio Eçabará. Sua amada, Cunhaporã, ao ouvir a súplica do jovem, respondeu com seriedade:
— Desculpa, meu amigo. Mas meu amor por você é uma pedrinha na beira do rio, enquanto seu amor é uma montanha inteira. Não posso, desculpa.
Lastimoso, Eçabará entendeu que Cunhaporã não o amava, e por mais que tentasse viver naturalmente, como ela, um peso remoía seu peito de maneira cada vez mais intensa. O orgulho e o amor de Eçabará estavam feridos.
Numa madrugada, enquanto todos dormiam, Eçabará foi até a margem do rio mais próximo. Lá, depois de muito chorar e refletir, resolveu por fim à sua mágoa. Com uma pedrinha, dessas de beira-rio, esmurrou o próprio peito até tirar seu coração e o jogar na correnteza. Voltou para aldeia se sentindo mais leve, disposto como nunca esteve.
Quando amanheceu, porém, Eçabará não mais se lembrava de Cunhaporã ou de qualquer amigo. Não falava e nem sorria. Cumpria seus afazeres em silêncio, depois retornava à choupana. Preocupados, os amigos de Eçabará, incluindo Cunhaporã, foram pedir ajuda ao Pajé; este, sereno como de costume, explicou:
— O amor de Eçabará por Cunhaporã era uma jóia pesada demais para caber em seu peito, por isso, ele jogou seu coração no rio. Se quiserem Eçabará de volta, deveram pedir ajuda a deusa Yara, só ela saberá o que fazer.
Sem pensar duas vezes, todos partiram em direção ao rio onde Yara se banhava durante a noite. Ao chegarem, lá ela estava, dando alimento aos peixes e cantarolando. Assim que viu o grupo de índios, se adiantou:
— Estão à procura do coração do índio apaixonado, certo?
— Precisamos dele, deusa Yara! Por favor! Ele está frio e não se lembra de nós, seus amigos! — Suplicou Cunhaporã.
— Agora você quer o coração dele? — Yara perguntou aos risos – As notícias correm por aqui, saiba disso.
Yara tirou das águas um lindo colar, cuja jóia brilhava feito a lua, e tinha o estranho formato de um coração.
— Aqui está o coração do índio apaixonado – Disse a deusa – Não tenho problema em dá-los à vocês, mas existe um porém.
— Qual? — Perguntou Cunhaporã, aflita.
— Só pode pegar no coração do índio aquele que amá-lo de verdade; caso contrário, o coração dele se transformará em pó antes que cheguem à aldeia. Pois então, quem pegará?
Um silêncio caiu sobre os índios. Todos queriam devolver o coração de Eçabará, porém ninguém sabia afirmar se o amava de verdade, nem mesmo Cunhaporã. Sendo assim, Yara voltou ao fundo do rio, levando consigo o colar.
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