O Conto dos Dois Irmãos

10 Capítulo 9 - O Inventor


Notas iniciais
Gente, sei que estou de férias mas estou muito ocupado do mesmo jeito, então atrasou um dia. Mentira. Estou viciado em Watch Dogs, por isso o atraso. Não, a copa do mundo não tem nada a ver com o atraso, nem gosto de futebol pra falar a verdade ~espanto~. Enfim, indo ao que interessa, espero que gostem deste capítulo :D

Edgard simplesmente não conseguia acreditar que alguém pudesse morar em um lugar como aquele... Além de completamente isolado, era insanamente perigoso; a casa em si era muito bem projetada, as vigas de madeira que a prendiam à montanha pareciam sólidas e firmes. O real problema era que a própria montanha não parecia sólida nem tampouco firme naquele ponto... Parecia que um vento um pouco mais forte já seria capaz de lavar alguns pedaços dela abaixo. Ele resolveu não se preocupar com aquilo e continuar andando, mas ao virar-se pra a trilha que deveria subir a montanha, viu que ela estava destruída.

– Não sei por que, mas não me surpreende que tenhamos outra barreira intransponível à nossa frente... — Disse ele, ironicamente.

O menor não estava prestando atenção, apenas olhava quase deslumbrado para um lugar abaixo do um declive. Ali havia alguns bodes monteses, presos por um cercado com uma pequena placa pendurada. Uma ideia maluca começou a se formar em sua cabeça.

– Ed... Será que?...

O mais velho não estava entendendo, então resolveu descer e ler a placa...

– "Cuidado — propriedade do inventor"... Ok Ed, mas o que... — Subitamente o mais velho compreendeu a ideia do irmão. Não sabia se ria ou ficava nervoso com aquilo. Na dúvida, resolveu rir — Você está sugerindo que montemos nos bodes?

Quase com se respondesse, o bode mais próximo baliu e abaixou o pescoço. Imediatamente Edward abriu o portão e montou o bode. Ele achou bem confortável, e sentiu-se bastante seguro, já que bastava segurar nos grandes chifres curvos do animal, que pareceu não se incomodar.

Edgard olhava boquiaberto para o irmão...

– Por que você acha que eles vão nos levar para o lugar certo?

– Não faço ideia... Mas o meu ainda não saiu saltitando por aí sem eu pedir, então deve ser um bom sinal. — Ele olhou bem para os chifres do bode. "Será que..." O pequeno forçou a cabeça do bicho para a direita, fazendo-o virar para o lado e balir indignado, como se dissesse "É serio que não confia em mim, garotinho?". — Pode confiar Ed, são bem treinados pelo jeito.

Edgard deu de ombros. Que mal faria se eles montassem os bodes? Além de que aquele era o único jeito que via de saírem dali fora voltar atrás e pegar o caminho um ou dois dias mais longo, o que não era uma opção.

Ele escolheu um bode um pouco maior que o de Edward para montar, segurou em seus chifres e... Não sabia mais o que fazer.

– Ed... Acha que devemos, sei lá, chutar o bicho?

– Hummm... Seria um pouco rude — Respondeu o menor — Vou tentar falar com eles — Ele aproximou o rosto à nuca do animal e disse — Vamos amiguinho, que tal nos levar à casa do seu mestre?

Edgard o olhou desconfortável.

– Edward, huh... Ele não vai te entender.

De repente, o bode virou a cabeça e o menor quase perdeu o equilíbrio; o mais velho podia jurar que o animal olhou feio para ele, como se dissesse: "Rá! Vamos ver quem não está entendendo quem aqui, humano!" antes de ter uma conversa de bode com o que Edgard montava e sair trotando colina acima. A montaria do maior o seguiu.

– Ei! Espera um pouco! Ah! — Gritou ele enquanto disparavam montanha acima, pulando por vãos muito grandes para que um ser humano sozinho atravessasse e saltando com destreza em pedras e apoios tão finos quanto os cascos dos animais.

No fim, acabou sendo bem divertido; extremamente perigoso, mas divertido. No segundo desfiladeiro pelo qual os animais pularam o mais velho deixou de sentir medo... Ser jogado por um troll montanha acima era bem mais radical que aquilo.

Os bodes pulavam com tranquilidade em pedras que nem mesmo os alpinistas mais experientes teriam coragem ou habilidade para subir e, ao que parecia, levar uma pessoa nas costas segurando fortemente em seus chifres não atrapalhava muito.

Em questão de minutos os irmãos chegaram até a casa enroscada à beira do penhasco. Eles desceram dos bodes e despediram-se dos bichos, que simplesmente desceram o penhasco pelo lado mais inclinado até o cercado. Edgard assoviou

– Pois é, parece que atrapalhamos bastante a subida deles...

Edward não prestou atenção nele; olhava para o velho baixinho que se encontrava em uma plataforma levadiça de madeira. Ele tinha cabelos grisalhos arrepiados, como se tivesse sido atingido por um relâmpago, e usava um sobretudo branco que parecia fino demais para proteger do frio. Estava tão compenetrado analisando o complexo mecanismo que (Edward supôs) levantava a plataforma que não os viu chegar. O pequeno pigarreou.

– Então... O senhor que é o Inventor?

– Ah, sim, claro que sou! Graças à Grande Batata, alguém veio! Como chegaram aqui? — Disse o Inventor, com sua voz áspera e rouca. Ele não parava de se mexer, como se fosse ter um colapso nervoso a qualquer momento.

– Grande o quê?! Quer saber, deixe pra lá. — Disse o maior. — Huh... Seus bodes nos trouxeram aqui, se não se importa.

– Ah, os bodes! Deram sorte de pegar um que conseguiu aprender o caminho para cá... Da última vez que tentei ensinar a um, fui parar naquela outra montanha. — Ele apontou para uma fenda do outro lado do desfiladeiro. — Agora... Estou com um grande problema e ficaria imensamente grato se pudessem me ajudar. — Ele pegou uma engrenagem do tamanho de sua cabeça em uma caixa ao lado — Uma peça idêntica a esta aqui quebrou no mecanismo ali em cima... Foi uma sorte esta plataforma não ter despencado lá baixo! Bom, o que eu quero que vocês façam é simples: Levem esta engrenagem nova para lá, troquem e ergam essa plataforma, por favor. Se vocês não tivessem chegado, acho que teria de fazer uma escada com as tábuas do chão... Grande desperdício. — Ele jogou a engrenagem para baixo. — As pontes para subir foram danificadas com as últimas tempestades há alguns dias atrás, mas creio que não haverá problema para subirem. Vocês são os garotinhos de Edmund e Lilibeth, não? Nossa, como cresceram!

O Inventor falou tudo tão rápido que os irmãos mal conseguiram absorver tudo. Então ele realmente conhecia seus pais...

– O que estão esperando? Vamos logo, preciso verificar os meus experimentos!

Eles só notaram que ainda olhavam boquiabertos para o velho hiperativo quando ele apressou-os.

– Huh, ok... — Edgard pegou a engrenagem no chão e foi até uma ponte que até alguns dias antes devia estar inteira. Não era bem uma ponte, apenas uma passagem para uma pedra próxima de onde subiam escadas para uma parte mais alta que ia até a casa do Inventor; mas chamavam de ponte pois como quase tudo ali naquele terreno acidentado à beira do penhasco, saltava sobre o vazio.

– Ed, segure. — O mais velho passou a pesada peça de metal para o menor e pulou para o outro lado, onde pegou novamente a engrenagem quando Edward a jogou.

Eles seguiram então pelas rampas de madeira até a manivela que provavelmente controlava a plataforma. Edgard pôs a peça no lugar.

– Pronto! Vamos puxá-lo para cima — Gritou Edward; ele não queria ser responsável por amputar os dedos do Inventor, que mexia nas engrenagens ao lado da plataforma.

– Ah, sim! Perdão... Por favor, não liguem se estiver um pouco pesado, ainda não tive oportunidade de calibrar o mecanismo. — Gritou o Inventor.

Eles assentiram e foram para a manivela. Edgard soltou um xingamento

– Qual será a noção de "um pouco" deste homem? — Perguntou ele enquanto girava a manivela com toda a sua força. Edward tentava ajudar, mesmo sabendo que não seria muito útil. No fim, o número de vezes que tiveram de girar a manivela compensou a força que tiveram de usar para subir a plataforma. Devia ser parte da calibração do mecanismo, supôs Edward. Quanto mais voltas fossem necessárias para subir a plataforma, mais leve ficaria.

– Muito obrigado meninos, muito obrigado. Mas o que estão fazendo em um lugar como este? Seus pais não estão junto com vocês? Bom, se estiverem sozinhos mandem lembranças à sua mãe!

Se o Inventor tivesse dado uma bofetada na cara de Edward o efeito teria sido o mesmo. Ele sabia que não havia sido de propósito, então tentou não ficar magoado com o velho homem. Ele respirou fundo.

– A mamãe está... M-morta. — Ele conteve o choro. Pela primeira vez conseguiu contar o que houve sem desabar em lágrimas. — O bote virou, ela não sabia nadar e... Não consegui salvá-la.

Edgard não disse nada, apenas apertou um abraço no pequeno...

– A culpa certamente não foi sua, criança... — O Inventor disse como se lesse os pensamentos do mais velho. — Mas... E Edmund? Conteceu alguma coisa com ele também?

– Ele está muito doente... O curandeiro nos mandou em busca da Água da Vida, por que é a única esperança que nos resta...

Parte do brilho louco nos olhos do inventor pareceu se dissipar.

– E o que este velho excêntrico pode fazer por vocês?

– Bem... O senhor chegou a fazer aquela máquina de voar? O caminho que temos que pegar é a trilha do outro lado daquele castelo... — Perguntou o maior, mostrando-lhe a rota entre as montanhas no pergaminho.

– Ah, claro que terminei! É uma de minhas invenções mais divertidas! De fato, ainda moro aqui por que gosto de às vezes descer o vale com uma! Ainda não inventei um jeito de fazê-las subir, e nem fui maluco de ir ao castelo do gigante, mas acho que com esse protótipo ali na pista de lançamento consegue.

– Gigante? — Perguntou Edward.

– Ah, sim, um gigante! Um homem da ciência, como eu, mas enorme, como o nome já diz. O castelo da à impressão de abandonado por que a entrada antiga foi abandonada há séculos. Dá pra ver a ponte em ruínas daqui. Mas há outra entrada, a daquela ponte lá atrás que leva ao caminho que vocês querem, só olhar nesse mapa de vocês para ver; e aquela está bem utilizável, pelo que vi. Ah, não precisa ficar com essa cara de assustado, Edgard. Bem, na verdade, é bom que fique; eu mesmo fiquei assim quando vi o gigante pela primeira vez. Bem, aonde quero chegar é que o gigante saiu ontem à noite, depois disso escutei alguns estrondos atrás da montanha e depois ele não voltou; chuto que deve ter tido alguma guerra entre os gigantes.

O Inventor disse tudo sem dar uma pausa maior que dois segundos. Ele tinha um problema sério de hiperatividade.

Desta vez, Edward saiu de seu estupor antes que o Inventor os chamasse de volta à realidade.

– Huh, ok... E onde está a máquina de voar?

– Achei que nunca fosse perguntar! Por aqui, por favor. — Ele os conduziu ao outro lado da casa.

A construção toda era em madeira, e bastante sólida, parecia realmente a obra de um mestre. O espaço externo era amplo, e havia uma tenda fixa que deveria servir de bancada de criações do Inventor, pois havia muitos pergaminhos, penas e tinta.

Mais acima também estava uma máquina de metal que parecia funcionar com a força dos ventos, mas que os irmãos não conseguiram descobrir o que fazia. Eles tiveram uma rápida conversa silenciosa, onde decidiram por unanimidade que não queriam uma explicação longa e detalhada sobre a tal máquina.

E finalmente chegaram a uma rampa inclinada para baixo sem proteções no final. Sobre ela havia uma estrutura de pano e madeira que parecia um morcego gigante e muito magro. Cada asa tinha cerca de quatro metros, e na frente havia uma haste de metal ligando as duas asas. Atrás duas pequenas asas triangulares formavam a cauda. Não era exatamente uma máquina, mas certamente servia para voar.

– Planar, na verdade. — Explicou o Inventor. — Ainda vou fazer um desses voar de verdade, mas para isso ainda preciso desenvolver um motor semelhante ao usado nas minas dos trolls em escala reduzida.

– Motor? O que é isso? — Perguntou Edward.

– Humm... Não vou lhe dar explicações técnicas, criança, é o que faz as coisas se moverem sozinhas nas minas dos trolls, mas acho que nunca foram em uma.

– Na verdade, fomos sim. Longa história. — Disse Edgard — Mas, sem querer ser rude, estamos com pressa. Pretendemos chegar ainda esta noite à Árvore da Vida.

– Mas é claro que entendo. Bem, o funcionamento do... Nah, ainda não dei nome à esta invenção. O que importa é que é bem simples: Com isto vocês irão planar para frente com um suave deslocamento para baixo. Para virar, terão simplesmente de mudar o peso de lado. Sugiro que cada um fique de um lado e, para virar, se aproximem do canto para o qual querem... Não sei dizer com palavras, mas vocês entenderam.

– Huh... Pra virar para a direita nós dois vamos para a direita, pra virar para a esquerda nós dois vamos para a esquerda e para nivelar os dois ficam no meio ou cada um vai pra um lado... — Simplificou o pequeno.

– Isso mesmo! Bom, pra nivelar é melhor ficarem nos cantos, vai diminuir a velocidade de queda por aumentar a envergadura das asas. — Ele apertou a mão dos garotos. — Foi bom rever vocês, mesmo com... As circunstâncias. Hoje está um bom dia para voar: céu limpo e correntes ascendentes, pela direção da minha biruta. Até mais, tenham uma boa viagem.

Os dois se posicionaram no objeto voador. Eles se despediram do Inventor e agradeceram pela ajuda e pela invenção. Os irmãos seguraram firme na barra de ferro, e Edgard deu o primeiro empurrão. "As invenções dele raramente falham, mas se essa falhar..." Ele resolveu não pensar naquilo.

O planador, como Edward resolveu chamá-lo, deslizou rampa abaixo, laçou-se sobre o vazio e voou.

Notas finais
Espero que tenham gostado, até semana que vem no próximo capítulo o/ Torcendo pra terminar de escrever nas férias. Sim, continuarei postando um por semana, mas se terminar nas férias aí é certeza q vai um por semana independente de provas, trabalhos e etcéteras (a não ser que meu pc exploda.) Até mais, se estvier lendo isso saiba que fez meu dia mais feliz :D