O Conto dos Dois Irmãos
18 Capítulo 17 - Irmão
Notas iniciais

Naia — Brothers: A Tale of Two Sons
Winged Hope — Brothers: A Tale of Two Sons
Aquele atalho ajudou bastante o propósito de Edward descer mais rápido. Apesar da descida nem um pouco suave, ele cegou ao chão em questão de segundos.
– Ed! — Começou ele, sorridente e exibindo o cantil cheio daquela poderosa substância mágica. Mas algo estava terrivelmente errado. Edgard estava desacordado em posição fetal com as mãos sobre o ferimento, e sua camiseta encharcada de sangue; muito mais que quando Edward saíra dali. — Ed... — Ele correu para o irmão... Ao chegar mais perto, notou que o maior estava pálido e com veias aparentes, enegrecidas por conta do veneno.
– Acorda Ed, eu trouxe a Água... — Ele sacudiu o irmão, que tombou de barriga para cima. O pequeno sentiu um Frio na espinha. — Edgard... — Disse trêmulo, enquanto abria o cantil e despejava um pouco da Água da Vida na boca do irmão. — Acorda. Edgard! — Ele desamarrou as ataduras improvisadas e derramou um pouco da Água no ferimento do mais velho.
– Edgard, você prometeu... — De repente, as palavras do Curandeiro o atingiram como uma adaga perfurando dolorosamente seu coração... "A Água da Vida cura qualquer doença, fecha toda a ferida... Mas nem mesmo ela pode reverter a morte..." Era isso... Só podia ser, mas ele não queria aceitar. — Ed... Edgard! — Lágrimas irromperam de seus olhos. Naquele momento, nada mais importava... O mundo se havia reduzido a ele e... Só. Edgard não havia resistido. Estava morto e nada o traria de volta. A segunda pessoa de sua família que não conseguira salvar. -Edgard! — Berrou, com uma mistura de raiva, frustração, dor, tristeza e solidão. Ele soluçava desesperado, sentindo a culpa o corroer por dentro... Agora, não sabia o que seria dele. Sem o irmão, jamais conseguiria voltar para casa, e seu pai também morreria. Tudo por que não fora suficientemente rápido quando mais precisava...
Mas ele decidiu não pensar. A única coisa que Edward fez foi chorar, abraçado ao corpo inanimado do irmão.
Edward não saberia dizer se chorou por minutos ou horas, mas acabou cansando... Ele apenas ficou lá, abraçado ao corpo do irmão, se recusando a acreditar que ele não acordaria mais, mesmo sendo assombrado pelo silencio ao colocar a orelha próxima ao coração do mais velho, à procura de algum sinal de vida.
Não pode deixar de pensar o quanto sua vida seria diferente agora, se por algum milagre conseguisse voltar para casa e salvar o pai. Ninguém mais o ajudaria a inventar os desafios malucos de escalada na Aldeia — pelo menos não com tanta empatia. Nem acamparia fora de casa com ele nas noites em que o pai saísse para pescar com ou vender o que havia pescado. Nada mais daquelas brincadeiras como "Hey Ed, cadê o Ed?" que Dmitrei sempre fazia. Envolto nesses pensamentos, Edward adormeceu. Só percebeu que havia dormido quando uma chuva quente de verão começou a molhar sua pele.
Ele não olhava mais para o corpo do irmão. Mesmo no sonho era doloroso demais. Ficou ajoelhado no chão, olhando as gotas de chuva cair, sentindo a água escorrendo em sua nuca. De certo modo, era uma sensação reconfortante.
– Ah Ed... — Suspirou ele, com tristeza. E então, algo chamou sua atenção... Algo como uma luz dourada e cálida... — Ed... — Engasgou-se ele, quando viu o mais velho ajoelhado à sua frente. Sabia que era apenas um sonho, mas algo lhe dizia que aquele era realmente Edgard... Não havia ferimento ou sangue, sua pele não estava pálida. Aquele era Edgard como quando vivo e feliz numa tarde de verão da aldeia. A única coisa diferente nele eram os olhos, marejados como Edward raramente via.
O maior estendeu a mão e enxugou uma lágrima do rosto do menor
– Edgard... — O mais novo não se conteve e abraçou o irmão, sentindo a pele quente dele tocando a sua e valorizando aquilo como jamais valorizara. — Me desculpe... Não cheguei a tempo... — O pequeno falava entre as lágrimas e os soluços que não conseguia impedir que saíssem.
Mesmo com os olhos cheios d'água, o maior se limitou a sorrir com tristeza.
– Não peça desculpas. Eu nos meti nessa quando me deixei levar pela bruxa. E fui eu que não cumpri a promessa. — Disse, com a voz embargada. — Espero que me perdoe...
– Mas é claro Ed... Eu só... Não quero. Não vou conseguir. Não sozinho.
Os dois se soltaram do abraço, mas Edgard ainda segurava os ombros do menor.
– Não te deixarei sozinho Ed. Quem amamos nunca nos deixade verdade. Não esqueça: sempre que precisar, estarei aqui — Ele pousou a mão sobre o coração do pequeno.
– Eu sei... — Gemeu ele. — Mas... Como voltarei para casa?
– Quanto a isso, não se preocupe, a ajuda virá. — Disse ele, alargando um pouco mais o sorriso melancólico.
– Como consegue sorrir? — Perguntou o menor, sentindo uma lágrima escorrer em seu rosto.
– Por que conseguimos Ed... Chegamos mais longe que qualquer um de nossa vila... Conseguimos a Água da Vida.
"A que custo?" O menor pensou em responder, mas não o fez, pois sabia que aquilo era o que reconfortava o irmão. Ainda assim, outra dúvida o incomodava.
– Isso tudo... É real ou é só um sonho?
– Não sei. — Respondeu o mais velho, dando de ombros. — Mas, mesmo que isso tudo seja apenas fruto da sua imaginação... O que o tornaria menos real?¹ — Ele piscou para o menor. Pela primeira vez, seu sorriso não era melancólico, mas divertido.
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