O Conto dos Dois Irmãos
13 Capítulo 12 - No Frio do Norte
Notas iniciais

– Prazer, meu nome é Arabela — Disse a moça, quinze metros depois da entrada, onde a caverna se abria em um amplo espaço que seria de doca coberta para um pequeno bote. — Aquela crença horrível deles, cada coisa que acontece no mundo eles matam uma mulher praquele deus estúpido deles... Ah, vocês devem estar com frio — Adivinhou ela, estalando os dedos. De repente, os dois estavam secos.
– Humm, acho que isso é, huh... Obrigado. — Edgard falou, meio abobalhado. Edward fechou a cara.
– Ed! — Chamou ele, sacudindo freneticamente a mão na frente do rosto do irmão. — Temos coisas mais importantes agora. Aldeia do Norte. Árvore da Vida, o papai...
O mais velho sacudiu a cabeça.
– Verdade Ed, desculpe — Ele enrubesceu um pouco. Por um momento Arabela o havia distraído de verdade... Ela deu um sorriso para o pequeno, que jurou ter visto o rosto da moça se contorcer em um semblante de puro desprezo por um momento. "Ok, isso deu medo." Pensou ele.
– Bem, vocês ainda não se apresentaram — Disse Arabela, parecendo ofendida — Quero saber os nomes dos meus heróis– Ela disse a última palavra analisando Edgard de cima abaixo. O mais velho pigarreou.
– Huh, meu nome é Edgard...
– E eu sou Edward, mas pode nos chamar Eddies. — Completou o mais novo. Arabela o olhou como se estivesse arquitetando uma maneira de livrar-se dele. O mais velho não reparou. O pequeno estava passando a realmente odiar aquela mulher. Ciúmes? Sim, talvez um pouquinho. Edgard sempre fora muito atencioso com o irmão mais novo, e bastou Arabela chegar para que ele se distanciasse bastante. Mas não era só isso. Edgard já havia gostado de outras garotas antes, mas nunca havia se distanciado do mais novo por causa de uma. Por isso e por outros motivos, Edward estava desconfiando cada vez mais da jovem moça. Além disso...
– Como você conseguiu secar a gente estalando os dedos? — Perguntou o menor. Arabela hesitou um pouco para responder
– Magia. Olhe, por favor, não se deixe levar pelo que aqueles malucos estavam dizendo. Não devoro criancinhas, apenas tenho meus truques. Claro, nada me impede que eu morda você, Edward! Você é um fofo! — Disse ela, apertando as bochechas do pequeno. — Agora vamos, aposto que consigo levar vocês à Árvore da Vida até esta madrugada.
"Pois é, ela não é tão ruim... Epa!" pensou o mais novo "Será que ela não está influenciando meus pensamentos? Acabou de dizer que sabe fazer magia e eu nem achei estranho... Ok, teoricamente só a Árvore existir já é uma grande prova de que magia existe, mas... Acho que estou ficando paranoico..."
– Ed, o que está esperando? — Chamou o mais velho.
– Huh, estava pensando... Deixa pra lá. — Respondeu o menor, correndo escada abaixo até o bote na saída da caverna.
Ao sair da caverna, começaram a seguir o curso da água com o bote. Um pouco à frente, o rio sujo de sangue despejava água ali... Vendo o vermelho do sangue se diluir na água, o maior notou uma coisa... Ele pôs os dedos na água e provou um pouco. Era salgada. Aquilo já era um pedaço de mar que adentrava nos terrenos acidentados das montanhas... Já estavam nos mares do norte. Mais à frente, um bicho enorme pulou da água. Era o maior peixe que os irmãos já tinham isto, completamente liso, sem escamas ou brânquias... Era preto e branco, e de suas costas saiu um pequeno gêiser.
– Ah, os animais que vivem por aqui são um tanto territoriais, então cuidado para onde levam o barco. — Disse Arabela, como se lembrasse de um detalhe sem importância.
Eles continuaram, cautelosos. Os grandes peixes pulavam próximos ao barco, como se quisessem assustá-los para ir embora. Não chegaram a atacar, mas se um deles virasse o bote... Edgard tinha experiência suficiente com água para saber que desmaiariam imediatamente se caíssem ali.
Apesar disso, chegaram à margem que a jovem os havia indicado sem maiores problemas.
– Rápido! — Disse ela, pulando em pedaços de gelo que boiavam sobre o mar congelado sem escorregar uma só vez. Edgard suspirou.
– Olha Ed, não acha um pouco estranho você se aproximar dela assim, tão rápido? — Perguntou o pequeno.
– Não Ed... Ela é incrível... — O mais velho olhou sonhador para o menor, que estranhou o jeito do irmão falar...
Mesmo assim Edward resolveu não discutir. Por enquanto, precisavam da ajuda de Arabela.
Eles pularam nas plataformas de gelo, seguindo a mulher. Na terceira o menor escorregou e quase caiu, mas Edgard naturalmente o segurou. E sentiu algo estranho ao fazer isso... Um frio na espinha, como se algo quisesse impedi-lo de segurar o irmão. Resolveu deixar para lá.
Eles continuaram seguindo Arabela; escorregando por colinas nevadas, se rastejando e escalando com dificuldade pela paisagem congelada. Talvez por ser nativa da região, a moça não errava um passo. Quando puderam enxergar as muralhas da Vila do Norte, Edward supôs que já estivesse perto do entardecer. Era difícil saber por causa do céu; a neve tinha havia parado de cair, mas o céu ainda estava bastante encoberto.
A expectativa de um lugar quentinho para descansar era muito boa... Edgard não sabia se o pouco dinheiro que trazia era o suficiente para uma noite em uma estalagem, mas resolveu não se preocupar. Estava certo de que o povo dali seria tão hospitaleiro quanto o de sua vila natal.
– Que bonecos de neve realistas... — Comentou o menor. Aqueles não eram bonecos de neve quaisquer, realmente eram idênticos a pessoas, perfeitamente esculpidos. E eram vários, como se fizessem parte de alguma cena preparada. Ao lado havia uma catapulta estranhamente direcionada para a vila. Arabela parou à frente deles.
– Borealis... — Sussurrou. — Meninos, estamos em perigo.
– Como assim?
– É que eles não são bem bonecos– Explicou a mulher. — Conhecem as lendas sobre os Gigantes do Norte, os Borealis?
Edward sentiu como se ela tivesse lhe dado um soco na barriga. Ele se lembrava. Edgard não chegou a entender.
– Lembro das histórias que a mamãe contava... Borealis eram os cruéis gigantes invisíveis do Norte, canibais que conseguiam transformar seres vivos em gelo apenas assoprando. — explicou o menor. Antes que o mais velho conseguisse processar o que tinha ouvido, Arabela já montava um plano.
– Esses gigantes são muito poderosos, mas não são inteligentes e sua visão é limitada. Basta nos escondermos bem caso ele ainda esteja no vilarejo. — Ela olhou para Edgard — Lance a mim e Edward lá dentro com a catapulta. De lá, abaixaremos os portões para você. Não tem mais ninguém vivo lá.
– Sim. — O mais velho concordou imediatamente. O pequeno se sentiu impelido a também concordar sem pensar, mas este fato o causou estranheza. Por um momento, pensou se o jeito de ela falar os forçava a concordar com o que ela dissesse.
O maior armou a catapulta e o pequeno quase subiu nela, como se algo o estivesse obrigando, de certo modo. Ele parou.
– Primeiro as damas. — Disse, tentando não parecer grosseiro. Mesmo assim, Arabela o lançou um olhar homicida enquanto Edgard a laçava para dentro dos muros que limitavam a vila.
O maior virou um pouco a catapulta. Geralmente havia uma manivela de cada lado da ponte. O pequeno olhou receoso para o irmão.
– Olha Ed, sei que concordei rápido demais com o plano de Arabela, mas se pensar bem era o único jeito mesmo... Temos que atravessar esta vila que de um lado tem um mar com uma camada fina e instável de gelo boiando sobre um mar mais frio que a neve e de outro, pedras congeladas pontiagudas e lisas demais para escalar. — Explicou o maior. Edward não teve como discordar.
Ele tomou coragem e subiu na catapulta. Quando o irmão o lançou ele deu um grito, antes de pousar suavemente do outro lado do grande muro, rindo. "No fim, foi como ser lançado por Rudolph montanha acima" Pensou ele.
– Quieto garoto! — Arabela repreendeu-o — Não queremos alertar o gigante de nossa presença.
Edward novamente não teve como discordar. E, talvez por uma birra dele próprio, era extremamente irritante concordar com a mulher.
Eles baixaram a ponte e Edgard a atravessou. Eles caminharam cautelosamente pelo vilarejo. Assim como tantos outros naquela terra montanhosa, o vilarejo tinha vários níveis de solo e, por isso, estavam separados por um vão de seis metros, Edward de um lado e Edgard e Arabela do outro.
O mais velho rastejou-se por uma tábua de madeira que ligava os dois lados. Arabela simplesmente pulou para o outro lado, como se fosse a coisa mais normal do mundo pular a uma distância de mais de cinco metros. E apenas Edward achou isto estranho (e só depois de pensar um pouco). Por conta destes detalhes, ele estava gostando cada vez menos da mulher. Enquanto atravessavam o vilarejo, uma batida forte e ritmada começou. "Passos." Pensaram os irmãos, ao mesmo tempo.
– Escondam-se! — Sussurrou Arabela, enquanto escondia-se atrás de uma pessoa transformada em neve. Os irmãos fizeram o mesmo. De repente, Edgard sentiu-se nauseado. Aquilo era uma pessoa. Quantas crianças do tamanho de Edward teriam sido transformadas em neve? Aquela deveria ser uma forma terrível de morrer.
A mulher começou a andar e os dois continuaram a segui-la. Novamente, os passos do gigante ecoaram pela vila... Eles procuraram uma pessoa congelada, um caixote, uma casa aberta, qualquer coisa, mas daquela vez, não havia onde se esconderem... Pelo menos não até Arabela dar um jeito.
Ela forçou uma porta trancada até conseguir quebrar o caixilho, e os três esconderam-se lá. Nem mesmo Edgard conseguiria arrebentar uma porta tão rápido, mas Edward resolveu que aquele não era um bom momento para desconfiar da moça. Ele apenas ficou abaixado, sentindo o irmão envolver-lhe em um abraço protetor.
Os passos pararam. De repente, o teto foi arrancado com um barulho ensurdecedor... Naquele momento nada mais importava ao mais velho além de salvar o irmão menor.
– Corre! — Gritou ele, segurando com força a mão do pequeno. Eles dispararam na direção da saída da vila, onde uma estrada continuaria até a Árvore. Arabela corria um pouco à frente deles sem ao menos olhar para trás, o que magoou um pouco Edgard. Quando terminaram de atravessaram a ponte que havia depois da aldeia, logo antes de chegar à uma bifurcação no caminho, ouviram um estrondo e um lamento do gigante... Ela havia cedido sob seu peso.
Apesar do frio, os irmãos estavam suados e ofegantes. O estranho era que Arabela parecia perfeitamente bem.
– Ok. — Disse o pequeno, arfando — Agora só precisamos pegar o caminho que continua...
– Meu herói! — Disse Arabela, antes que Edward terminasse. Ao dizer isso, ela se pendurou no pescoço do mais velho e deu-lhe um beijo. Ele sentiu como se um choque atravessasse seu corpo. Não era seu primeiro beijo, mas ainda assim, seu cérebro parou de funcionar da maneira correta.
– Em frente... — Terminou o menor, um tanto chocado. Arabela fez que não com a cabeça.
– Vamos pegar o que sobe a montanha. Vocês vão para a minha casa. — Pareceu mais uma ordem que um pedido.
– Mas...
– Ed, dá uma chance. Vamos. — Ele também não deu chance de resposta. Estava caidinho por Arabela, e tudo que Edward pode fazer foi segui-los arrastando os pés.
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