O Conto dos Dois Irmãos
2 Capítulo 1 - O Vilarejo
Notas iniciais

Edgard e Edward estavam indo em direção as escadas que levavam da casa do Curandeiro a ponte que existia logo na entrada do vilarejo quando repararam em um adolescente que parecia ter a mesma idade do mais velho. Ele era magro e possuía um ar despreocupado, e eles nem o teriam notado se ele não tivesse levantado e se posicionado de modo a bloquear o caminho.
– Daqui vocês não passam! — disse ele — A não ser, é claro, que estejam dispostos a pagar o pedágio... — Completou, contorcendo o rosto num sorriso forçado.
Os irmãos se entreolharam. Quem diabos era aquele?
– Não temos dinheiro — Respondeu Edgard — Nosso pai está doente e só poderá ser salvo pela Água da Vida — Explicou, mostrando-lhe o pergaminho. — Deixe-nos passar, por favor...
– Sem dinheiro, sem passagem. — Ele contorceu o rosto ainda mais, agora ele quase chegava a parecer cruel.
– Deixe-nos passar, seu canalha! Você não é dono da ponte, e muito menos do vilarejo! — Edward falou irritado, quase perdendo as estribeiras. Edgard segurou o ombro do irmão menor.
– Vamos, Ed. Não vale a pena. — disse ele, com certo desprezo no voz.
Edward não entendeu bem para onde exatamente o irmão queria que eles fossem, afinal os dois precisavam atravessar a aldeia... Só compreendeu quando o viu descer por um pequeno barranco, para a margem do riacho que a ponte transpunha.
– Não... Não vou entrar aí — disse Edward com a voz trêmula, a beira do córrego.
– O rio não é tão fundo, e é um caminho bem curto, podemos atravessar a nado. Eu sei que você consegue. — Edgard encorajou-o
– Não, não consigo... Vo-você sabe que eu não sei nadar — Edward abaixou ainda mais a voz — E-eu ainda tenho medo... — ele parecia a beira das lágrimas.
– Escuta, Ed — falou Edgard, segurando os ombros do irmão menor — Eu vou entrar antes, e você segura nas minhas costas enquanto eu nado. Não vou deixar você afundar, pode confiar em mim... Sabe disso, não?
– Promete que não vai me soltar? — Edward já sabia que Edgard nunca faria aquilo, nem mesmo de brincadeira, mas ainda sentia certo receio de entrar na água.
– Prometo. Vamos? — Edgard perguntou educadamente ao irmão, que respondeu acenando a cabeça.
O mais velho entrou no rio e esperou pelo mais novo. Edward parou quando a água estava na altura de sua cintura e respirou fundo. "Só mais alguns centímetros e essa pedra acaba..." pensou ele, receoso. Então, num impulso de coragem, pulou, esperando alcançar o pescoço de Edgard, mas ele estava mais distante que Edward havia pensado. Num segundo de desespero seus pés não tocaram o fundo, ele sentiu seu peso puxando-o para baixo e a água fria envolvendo seu corpo.
– Ed! — gritou ele, entrando em desespero, mas assim que viu o irmão pulando alguns centímetros mais longe que deveria, Edgard segurou-o pelo braço. Edward agarrou-se no irmão como se sua vida dependesse disso.
– Ed, bata os pés também — Edgard sugeriu ao irmão mais novo. Ele já estava acostumado a nadar com roupa, mas levar o irmão mais novo nas costas dificultava bastante, sua cabeça mal se sustentava fora da água — Isso, assim é mais fácil.
Os dois passaram por debaixo da ponte para chegar até a outra margem, pois o que havia logo do outro lado do rio não passava de um paredão de pedra.
Edward respirava fundo, tentando disfarçar o pavor que aquela situação provocava nele. Depois de ver a mãe morrer afogada ele desenvolveu quase uma fobia; não suportava sentir a ausência de chão sob os seus pés quando entrava na água.
Os irmãos chegaram à outra margem, onde escalaram a parede de pedras para chegar ao nível da rua com a ajuda da raiz de uma árvore que devia ter sido cortada a algum tempo.
Assim que chegaram ao nível da estrada, viram que o mesmo homem que estava bloqueando a ponte agora havia adentrado aos grandes portões de madeira do vilarejo e trancado-o por dentro.
– Ei! Abra esse portão agora mesmo!! — Gritou Edgard, batendo nas grandes portas de madeira. Aquele garoto estava rindo dos dois, estava debochando deles. Ele não queria dinheiro, queria vê-los na pior, apenas para se divertir...
– Você podia ter jogado aquele magrelo no rio, teria sido mais fácil... — Comentou Edward, chutando o portão de leve.
– Não vale a pena nos rebaixarmos. Se eu o jogasse, perderia a razão. — Edgard explicou — Alem de que nosso pai não gostaria que eu tivesse feito isso...
Edward sabia que o irmão tinha razão, o pai deles era, acima de tudo, justo, e por isso mesmo os dois — principalmente Edgard — o admiravam tanto.
Os irmãos olharam para os lados, avaliando como poderiam entrar no vilarejo. Atravessar o mais por cima do muro para que ele pudesse abrir o portão estava fora de cogitação, pois o rapaz que os estava atrapalhando jamais teria chance contra Edgard, mas Edward ainda era muito menor que ele.
– Já sei! — Gritou Edward, de repente — Lembra que escalávamos aquele paredão ali? — ele apontou para o paredão de pedras mais próximo do muro da aldeia — Acho que dá pra gente subir por ali e agarrarmos naquele muro do outro lado...
– Ed, você é um gênio! Nem me lembrava que entrávamos na aldeia por lá!
Os dois se puseram a escalar o paredão, o que não foi muito difícil pois havia muitas pedras onde se agarrar e a altura não passava dos cinco metros. Após chegar ao chão acima do paredão, os dois pularam o vão entre as pequenas escarpadas que levavam até o muro, que só era baixo no topo daquela formação rochosa.
Edgard e Edward se penduraram no muro e rastejaram para atravessar o espaço entre as escarpadas que estavam e o telhado da casa de Aristides, um senhor franzino, careca no topo da cabeça e que tinha um engraçado bigode fino, e que no momento tirava um cochilo no banco de pedra, virado para a bela vista do vilarejo.
– Engraçado... Não parece que fazem seis meses que A gente não vem aqui... — Comentou Edgard, lembrando que quando mais novos, os dois sempre apareciam por lá, fosse para explorar, quando eram mais novos, ou para conversar com os netos de Seu Aristides, que sempre os contava uma história diferente quando eram menores. Aquela era uma das melhores vistas da Aldeia...
De lá se via praticamente metade do vilarejo, que tinha uma parte escondida pelo telhado do casarão... Até mesmo a casa dos irmãos podia ser vista... O mar também estava particularmente bonito naquele dia, e empoleirado no telhado do casarão da frente, onde moravam a filha e os netos de Seu Aristides, estava um dos netos de Aristides e grande amigo de infância dos irmãos, Gustav, que apenas observava o movimento na aldeia e não reparou nos irmãos.
– Vamos acordar o Seu Aristides e perguntar se podemos passar pela casa? — perguntou Edward
– Acho melhor deixarmos ele dormir. Nossa mãe sempre dizia que não devemos incomodar as pessoas só por que são legais com a gente...
–É, você tem razão... A casa aqui do lado já tem uma passagem no muro do quintal.
Edgard acenou a cabeça positivamente. Os dois pularam os grandes barris que mais pareciam queijos suíços enormes cobertos por aqueles panos e foram até a pequena porta que levava para a rua, no muro da casa vizinha.
–Trancada... — Edgard confirmou, frustrado.
– Então vamos... — Edward se calou por um instante. — Já sei! Vamos andar por cima dos telhados, até o canil! — Disse ele animado, mostrando ao irmão as escadas de corda de um andaime que levavam aos telhados do casarão de Seu Aristides.
Edgard deu uma leve risada
– Lembra de como a mãe ficava preocupada quando aparecíamos andando por cima dos telhados?
– Lembro... Ela semp... Sempre cuidou da gente — Edward ficou em silêncio "Ela sempre cuidou da gente... E eu não fui capaz de ajudá-la quando ela mais precisou..."
– Ed, você não pôde fazer nada — Edgard confortou o irmão, quase como se lesse seus pensamentos — Vamos — ele desviou do assunto, percebendo a dor do irmão — Quando saímos de casa o sol estava nascendo, já devem ter passado umas duas horas.
Edgard tinha razão, os dois tinham passado quase uma hora e meia na casa do Curandeiro, e precisavam ser rápidos!... A vida do pai dependia disso.
Os dois subiram pelas escadas de corda e atravessaram o andaime que, por sorte, também era ligado ao telhado de um dos muros que separavam as ruas. Naquela aldeia todas as casas eram muito juntas, e por uma paranóia persistente dos moradores, todas as poucas e pequenas ruas que existiam eram entrecortas por grandes muros com portões de ferro para proteger a cidade em caso de invasões.
Eles equilibraram-se para atravessar o muro da rua e escorregaram pelo telhado baixo dos fundos de uma casa, que ficava em frente às grades fechadas do canil. Quando chegaram lá, o mesmo garoto que os estava impedindo de entrar na aldeia trancou-os para dentro. O cachorro de guarda do canil, que não era lá nem tão grande nem tão assustador latia feito louco para o desconhecido
–Se eu tiver que pular esse portão... — Edgard ameaçou-o, por cima do baixo portão de madeira.
O garoto desconhecido se encolheu por um momento, mas logo recuperou a falsa compostura e deu um sorriso falso
– Só abro quando me pagarem o pedágio que devem... — Edgard teve que se controlar para não fazê-lo engolir aqueles dentes tortos
– Ed! — chamou Edward, baixinho — acho que consigo passar por essas grades... Posso soltar o Nick — Ele se referia ao cachorro, que parecia estar prestes a ter um ataque
– Boa ideia, Ed... Vá logo antes que eu vire aquele sorriso do avesso — Edward o olhou com certo medo — Aquele garoto está me tirando do sério, agora vá
O irmão menor não teve dificuldades para passar entra as barras de ferro, e assim que entrou no canil correu até a alavanca que suspendia as grades que deixavam Nick, o gordo e patético porém feroz cão de guarda, preso.
Uma vez solto, o cão correu feito louco, avançando ferozmente sobre o desconhecido, que se mostrou um genuíno covarde. Os irmãos, agora sem ninguém para atrapalhar seu caminho, saíram do canil ainda rindo do desconhecido, que estava encolhido miseravelmente sobre um barril, soltando grunhidos de medo por causa do pequeno cachorro que não conseguia pular o cercado no qual ele se escondia
– Cadê a valentia agora?! — Edward estava gargalhando "Faz tanto tempo que não o vejo se divertindo desse jeito! Mesmo ele se distraindo mais fácil do sofrimento, fazem meses que ele não ri assim, de verdade..." pensava Edgard, feliz pelo irmão estar finalmente se libertando da culpa e da depressão que o vinha rodeando desde a morte da mãe. Os dois riram mais um pouco e então subiram as escadas do vilarejo para chegar até a pequena ponte levadiça que determinava os limites da aldeia.
Sentado ao lado das escadarias estava Dmitrei, um dos melhores amigos dos irmãos
– Oi Eddies, faz tempo que vocês não vem aqui! — disse ele enquanto brincava com Morgan, seu gordo gato de estimação.
– Dimi! Como vai o Morgan aqui? — Edward pegou o gato que ronronava enquanto ele acariciava seu pescoço — Quer pegar ele um pouco? — ele ofereceu o gato a Edgard
– Não... — disse ele, com um quê de receio — Ele não gosta de mim — O gato soltou um chiado, como se confirmasse.
– Vocês não vem aqui desde, hã... O acidente... — Dmitrei calou-se por um instante — Sinto muito pela mãe de vocês. Seu Edmund está mesmo doente? — perguntou ele, solidário
Edgard confirmou, e explicou a situação de seu pai
– Agora temos que procurar essa tal árvore... Vamos, Ed?
– Vamos, precisamos ser rápidos. — Edward devolveu Morgan ao dono — Foi bom ter te encontrado aqui, Samuel. Até outro dia.
– Até, boa viagem. Estou torcendo pelo pai de vocês
– Obrigado, Dimi... Nos vemos outro dia — Edgard se despediu, então os dois irmãos viraram-se e foram até a ponte, apenas para descobrir que Gordon, um homem parrudo que deveria baixar e erguer a ponte estava dormindo.
– Eu acho que ele a gente vai ter que acordar de qualquer jeito, Ed... — Edward falou, olhando pra a corredeira veloz que a ponte transpassava quando abaixada.
– Verdade...Acho que ele não vai se importar...- Edgard cutucou o braço do homem e o chamou. ele abriu os olhos — Gordon, pode erguer-
– Nah... — ele sacudiu o braço e voltou a dormir. Não havia acordado de fato.
Edward deu um sorriso maléfico
– Já sei. — Ele pegou então um balde com água que estava ali para que Gordon pudesse lavar o rosto e jogou-lhe água gelada — Acorda dorminhoco!!! — Riu-se ele, enquanto Gordon se levantava de um salto
– Ei! Edward, seu pestinha! — Ele estava um pouco irritado, mas não falou por mal. Tinha um ótimo senso de humor e sempre que podia protegia as crianças da aldeia e acobertava suas traquinagens, mas não apreciava ser acordado com um balde de água fria na cabeça — Brrr, que frio! Podiam ter me acordado com mais jeito, sabiam? — Ele já não estava mais tão irritado quando terminou de falar
– Bom, sabe que nosso pai está doente, não? — Edgard perguntou, e prosseguiu quando Gordon confirmou acenando a cabeça — Precisamos chegar à Árvore da Vida — Ele mostrou o pergaminho — pode abaixar a ponte para nós?
Gordon olhou com preocupação para os dois, mas não fez objeções; levantou-se e puxou a alavanca que descia a ponte.
– Boa viagem. E cuidem-se, vocês são bons meninos...
Os dois agradeceram e acenaram para Dmitrei, que ainda ria de Gordon pelas costas, e então atravessaram a ponte.
– Nunca saímos da aldeia sozinhos antes... — Edward comentou, receoso, já que eles saíram pouquíssimas vezes da aldeia, e sempre apenas para ajudar o pai a carregar os peixes que vendia para fora do vilarejo
– Não se preocupe... Não vai ser tão difícil — Edgard mais uma vez tentava convencer mais a si mesmo que ao irmão — Voltaremos logo, e com a Água da Vida em mãos... — Concluiu ele "Ou assim eu espero..."
Os dois desceram a colina, para além dos domínios de seu vilarejo natal.
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