O Conto dos Cem Reis
1 As Dez Torres, as Dez Ruínas
Notas iniciais
Houve uma época na qual soldados de todos os reinos se reuniam nas montanhas gélidas para celebrarem as passagens do ano. Era um dia sem guerra, na qual a paz finalmente assolava o mundo. Algo que muitos sempre desejaram, em meio a um mundo de guerras, um único segundo de paz é o suficiente.
Tal evento havia se transformado em uma tradição.
Certa época um rei tirano tomou conta do Trono do Norte, tomando assim o controle sobre o exército mais desprezível dos Sete Reinos. Anos foram se passando e boatos sobre um Rei Louco e seu método doentio de treinamento tomaram conta da boca de todos os comerciantes.
O brilho azul do céu refletia sobre todos os reinos no dia do Ragnarok, raios de luz cobriam as águas e davam vida a todos as árvores dos Sete Reinos. O que parecia ser um dia de paz se tornou no maior inferno já presenciado, o céu que antes era azul, se transformou em vermelho por conta das chamas que incineravam os corpos. O cenário de árvores foi substituído por uma série de lanças. O cheiro de carniça percorreu o ar. Os corpos dos soldados formavam montes desproporcionais, até mesmo os abutres e os corvos evitavam chegar perto daquela chacina. Cavalos jogados ao chão, alguns suspiravam, enquanto outros, serviam como chamariz para as moscas.
O exército do Rei Louco acabara de demonstrar o seu verdadeiro poder. Soldados recobertos de cicatrizes, alguns sem alguma parte do corpo. Desde pequenos treinados para viverem a morte, terem ela como amiga. Um exército de cheio de homens que nem ao menos podem ser considerados "vivos" destruíram e dominaram todos os Sete Reinos. Afinal, como matar alguém que já está morto?
O Rei Louco viu que toda a população estava revoltada, achavam que ele era um Rei horrível. Portanto, ele fundou Dez Torres, na qual seriam governadas por Dez Reis cada e por fim pois um fim em sua vida, exigiu que cada um de seus soldados enfiasse uma lança em alguma parte de seu corpo. Sua única exigência: Ser deixado no campo de batalha no qual várias vidas foram retiradas por causa dele. Seus soldados decidiram ir logo em seguida, se mataram ao lado do corpo de seu Rei. Se a população queria um Rei Bom, então ela encontraria no meio daqueles Cem Reis.
Todos estavam preocupados com o destino dos reinos agora. Sem exército, sem cidades, sem experiência, cem Reis.
Não havia como criar um Reino para cada Rei, portanto decidiram utilizar as torres como divisa de território, o que resultou em dez grupos parlamentares.
Conseguiram estabelecer ordem por décadas, porém, conflitos entre os parlamentos começaram a ocorrer. Disputas por territórios foram travadas, a morte voltou a tomar conta do local. Por conta da falta de soldados, tiveram de utilizar os civis como guerreiros. Obrigando eles a empunharem espada e escudo.
Civis tiveram de batalhar por suas terras, que na verdade eram propriedades dos Reis. Porém as mortes só foram aumentando, os Reis estavam se perguntando: Como ganhar uma batalha com guerreiros que não sabem lutar?
Até então, só houvera uma pessoa na qual conseguiu transformar guerreiros desprezíveis em carrascos sem coração, O Rei Louco.
Pesquisas foram feitas, todos estavam em busca da resposta. Todos queriam saber o segredo por trás do treinamento secreto e doentio do Rei. Teorias sobre o Rei mutilar os soldados vieram a tona, e logo em seguida todos estavam colocando isso em prática, porém de nada adiantava.
A verdade por trás do treinamento era outra, o Rei Louco só ganhou esse apelido por ser Louco o suficiente por acreditar que seu exército um dia seria lembrado como o mais temível. Ele recrutava homens miseráveis, com alguma doença ou debilitação, que por conta de seu passado ou estado físico não conseguiriam seguir com suas vidas normalmente, pessoas que desde o começo jamais haviam vivido de verdade, apenas passavam os dias se escondendo. Ele deu de tudo para seus homens, casa, abrigo, comida e festas, e em um dia, ele retirou tudo isso deles, mostrando a eles como é o sentimento daqueles que tem suas cidades dominadas pelo exército inimigo. Ele explicou a eles sobre a morte e o medo. Todos estavam dispostos a enfrentar aquilo.
Em meio a batalha não se pode ter medo da morte, se pensar que perderá tudo o que conquistou algum dia, fraquejará. Tem que pensar que tudo o que você tem é o suficiente, dar valor as pequenas coisas. Dessa forma tudo o que você já conseguiu ficará marcado em sua mente como Conquistas. Sabendo que tudo o que você já teve algum dia valeu a pena, você conseguirá encarar o futuro.
O Rei sabia sobre a dificuldade de cada reino, todos os seus oponentes sabiam que perderiam desde o primeiro levantar de escudos.
O Rei Louco então, colocou um fim em todos os exércitos, matou todos os reis e por fim, decidiu morrer sentindo o mesmo que todos os seus adversários um dia haviam enfrentado. Sem exército, sem guerras. Colocou Cem Reis em seu lugar para mostrar ao povo que todos são iguais.
A morte do Rei Louco foi o acontecimento de maior contraste que já aconteceu. No começo todos estavam contentes, mas no final, desejaram suas vidas antigas de volta.
Cem homens caminharam em direção ao local de execução do Rei, cada um pegou uma das lanças que estavam fincadas no corpo do Rei Louco e marcharam em direção as Dez Torres. Uma lança para cada Rei. Sem guardas para protegerem o castelo, aquele foi enfim, o final da Guerra. Todos os Reis mortos, com uma estaca no peito.
As mortes pararam e enfim veio o "segundo de paz" que todos desejavam. Reuniram-se nas Montanhas Gélidas, mas não para celebrar e sim, para se despedir.
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