O Conto do Cão Negro
15 Capítulo 15: Férias de Verão
Depois que Flori descobrira que Sirius podia se transformar num animago e que não havia mais segredo nenhum entre ambos, as coisas finalmente entraram nos eixos e o sexto ano foi o ano escolar mais tranquilo do rapaz. Havia até mesmo retomado a velha amizade com Pedro, dando-lhe, como a namorada havia dito na discussão que ocasionou a volta dos dois, uma segunda chance, mas avisando-o de que não estragasse tudo daquela vez, pois seria a última. Pedro aceitou solicitamente e não tentou mais nada com Flori, permitindo-se somente conversar com ela muito ocasionalmente para a sua própria segurança.
A necessidade por pregar peças parecia haver diminuído tanto entre Sirius quanto entre Tiago que, havendo mudado, Lílian finalmente se dispôs a conversar amistosamente com ele, o que acabou sossegando o seu lado de aluno transgressor. Ela ainda não aceitara sair com ele, é claro, porém, depois da primeira recusa Tiago parara de convidá-la, dizendo a Sirius que não se importava de esperar mais um tempo, agora que enfim a fizera falar com ele. Aparentemente, havia aprendido através das tentativas falhas do melhor amigo que havia o momento certo para tudo.
Às vezes Snape e alguns de seus colegas da Sonserina tentavam azarar os Marotos pelos corredores da escola e mesmo os rapazes preferindo evitar confusões agora, não podiam deixar de se defender nessas ocasiões e, por sorte, não foram descobertos nenhuma vez sempre que isso acontecia, nem pelos professores e nem pelas garotas, o que era um verdadeiro alívio. Sirius não queria mais intrigas com ninguém, mas simplesmente não poderia ficar parado se alguém tentasse enfeitiçar seu amigo, como era sempre o caso de Snape. Com exceção de momentos como aqueles, conseguiu manter-se a salvo de detenções e qualquer perda de pontos naquele ano, o que foi uma verdadeira surpresa para o corpo docente.
Percebendo que Sirius parecia realmente outro homem e que começara, aos poucos, a ceder um pouco de atenção aos estudos – embora não com muito afinco -, a professora Minerva resolveu lhe dar uma nova chance e o reintegrou ao time de quadribol da Grifinória para o próximo ano, já que justamente naquele em que ele não pôde participar devido a sua expulsão, foi o pior ano do time, levando-o quase à lanterna. Os alunos nunca haviam ouvido falar em uma expulsão revogada, contudo, provando estar de fato mudado, ao invés de se gabar pelo feito como teria feito há alguns meses, Sirius aproveitou a nova chance humildemente e dedicou-se em treinar com os companheiros sempre que podia, mesmo não fazendo parte do time ainda.
Com a chegada das férias de verão, Flori anunciou que estava na hora de apresentar Sirius a seus pais, desta vez de maneira correta e não como um cachorro. Descobrir que ele havia passado as últimas férias com ela sem saber e presenciado alguns momentos íntimos, ainda parecia aborrecê-la em alguns momentos, porém, ao contrário do que temia, ela resolvera relevar o fato ao invés de terminar tudo novamente, o que Sirius considerava uma imensa sorte, por isso, procurava não perguntar a razão de a namorada tê-lo perdoado tão fácil. Quando a vida sorri para si, não é de bom tom questionar o motivo; você simplesmente aceita e segue com ela, esse era o lema dele.
Sirius apareceu na casa de Flori no amanhecer do terceiro dia de férias. Teria vindo antes, entretanto, agora que era maior de idade, podia enfim arrumar seu próprio canto e por isso passou os últimos dois dias resolvendo tudo e procurando por uma casa.
Tendo convivido com os Corbyn no último verão, sabia que costumavam acordar cedo, por isso não se preocupou em acordar seus sogros quando apertou a campainha aquela manhã. Quem o recebeu foi o pai de Flori e ao ver um rapaz de cabelos compridos, usando botas de couro de dragão e tatuagens em um dos braços, levou um susto, temendo ser algum daqueles moleques que costumavam vadiar durante a noite na praça da cidade, embora tivesse de reconhecer que o sujeito diante dele possuía uma aparência muito melhor e mais bem cuidada do que os tais punks.
Sirius, já imaginando qual seria a reação do homem, não se deixou abater e abriu o melhor e mais educado sorriso de que dispunha, apresentando-se. Flori, talvez acordada pelo barulho da campainha e adivinhando que poderia ser ele, desceu as escadas correndo e parecia tão aflita com a resposta que seu pai poderia dar, que não parecia ter notado que estava só de pijama. Ela o apresentou aos pais – a mãe havia se juntado segundos depois ao ver a corrida da filha até a porta de entrada – e após a surpresa inicial ter passado o Sr. Corbyn o convidou para entrar e juntar-se a eles no café da manhã, depois de pedir à filha que vestisse algo apresentável.
À mesa, Flori, que parecia apreensiva em como seus pais se portariam com o namorado, não conseguia esconder seu espanto ao ver que Sirius conseguira cativá-los nos primeiros minutos com seu jeito encantador e seu sorriso gentil. Era quase como se ela acreditasse que o rapaz os havia enfeitiçado, no entanto, Sirius sabia como conquistar os adultos quando realmente se dedicava. Além do mais, seus sogros pareciam verdadeiramente entusiasmados em conversar com alguém que havia convivido com a magia desde sempre. Segundo o que pudera perceber, eles não pareciam ter muito contato com essa parte da vida de sua filha, somente com o que Flori lhes contava, por isso o metralharam de perguntas e apesar do evidente constrangimento da garota conforme as perguntas iam surgindo, Sirius não se importou em respondê-las, apreciando o fato de os pais dela quererem conhecer o mundo do qual sua única filha fazia parte.
Ao final daquele dia, ele e o Sr. Corbyn, ou Jack, como o homem insistira que o chamasse, haviam se tornado bons amigos e quando ele lhe apresentou a garagem durante a visita guiada pela casa, ao ver a motocicleta novamente, Sirius não pôde conter sua excitação e revelou a Jack que seu maior desejo era fazer uma daquelas voar. O homem pareceu ainda mais empolgado que o rapaz e disse-lhe que se o ajudasse a consertar aquela moto que parara de funcionar havia muitos anos, antes mesmo de Flori nascer, ele a daria de presente. O rapaz ficou tão perplexo que não soube o que responder na hora. Quando finalmente recuperou a fala, afirmou que não poderia aceitar tal oferta, mas antes mesmo que pudesse terminar, Jack já estava balançando a cabeça e dizendo que fazia questão que aceitasse. Alegou que era uma pena uma máquina como aquela estar escondida por tanto tempo, acumulando poeira ao invés de circulando por aí. Disse também, que infelizmente para ele, o tempo de desfilar em uma moto já havia passado e que, se sua filha gostasse daquilo, teria passado a ela de bom grado, mas como não era o caso de Flori, não sentia remorso em dá-la a alguém que a apreciaria totalmente.
Emocionado, Sirius ficou sem palavras mais uma vez. Alguém que havia acabado de conhecer e com quem conversara há apenas algumas horas, resolvera lhe brindar com um gesto único e sem igual, tratando-o melhor do que seu próprio pai em toda a sua vida. Considerava o Sr. e a Sra. Potter como seus pais adotivos desde que havia fugido de casa, mas por algum motivo, sentiu uma ligação com aquele homem de rosto forte e sorriso bondoso. Prometendo que daria seu melhor, Sirius aceitou seu presente e pôs-se a trabalhar na motocicleta com o sogro naquela mesma noite.
Os dois estavam tão concentrados naquela tarefa que não haviam se dado conta de que passaram a noite em claro, só foram perceber quando suas respectivas companheiras, a Sra. Corbyn e Flori, apareceram ao pé da escada em seus robes, cada uma trazendo uma xícara de chá a eles.
Demorou alguns dias para que conseguissem consertar a motocicleta e durante esse tempo, Sirius acompanhava Jack até o centro da cidade sempre que precisavam de alguma peça, e desse modo ele acabou conhecendo muito mais coisas e curiosidades acerca do mundo dos trouxas. Andou pela primeira vez em um carro também, e achou-os interessantes, mas muito menos emocionantes do que as motos, isto é, até Jack tentar ensiná-lo a dirigir em um terreno enorme e abandonado que havia perto de sua casa. Flori também ia junto nessas ocasiões, pois, de acordo com as leis dos trouxas, dentro de um ano ela poderia tirar sua habilitação e por isso seu pai estava disposto a ensiná-la desde já. A garota se saiu muito melhor do que ele com o carro; achava-o extremamente complicado, mas quando enfim conseguiu, Sirius sentiu-se exultante, para logo em seguida deixar o carro morrer e arrancar risadas da namorada.
Quando a noite chegava, Sirius não esperava pelo convite; já aprendera que seu sogro era muito gentil e evitava magoar as pessoas ao seu redor, por outro lado, como todo pai-coruja, não se sentia confortável com a ideia de o namorado de sua filha dormir sob o mesmo teto, ainda que eles tivessem quartos de hóspedes e um sofá, por isso o rapaz preferia poupá-lo daquilo e despedia-se de Flori e seus pais, desejando-os uma boa noite e prometendo que voltaria na manhã seguinte.
O que Jack não sabia, porém, é que seu genro não era totalmente honesto com ele; Sirius achava que alguns hábitos ruins eram difíceis de largar e por isso, quando saía da casa dos Corbyn, ia até o bosque próximo e, transformado no grande cão negro, voltava para lá como se nada tivesse acontecido e, como os dois adultos não estranhavam sua presença, ele se esgueirava até o quarto de Flori e assim passava a noite com ela. Pela manhã, fazia o procedimento inverso.
Sirius sentia-se culpado, é claro; Jack e Helene o haviam acolhido com tão boa vontade e pareciam achar que, agora que Flori estava de volta, o cachorro deveria ter sentido sua presença e voltado e por isso não ligaram seu súbito retorno à vinda do rapaz, mas no momento em que pulava para a cama da namorada, já de volta ao seu estado natural, esquecia-se de todo o resto e, convenientemente, colocava seu remorso de lado.
Levou quase uma semana para que terminassem sua missão e Sirius mal pôde acreditar quando ouviu o ronco do motor, indicando que de fato haviam conseguido consertar a moto. Como recompensa, Jack a levou para o lado de fora e deixou que o rapaz a experimentasse. Como já havia pesquisado muito sobre motocicletas e, inclusive, analisado o funcionamento daquela no último ano, conseguiu dominá-la muito mais rápido e fácil do que com o carro e minutos depois já andava com ela, indo da praça até a casa de Flori e vice-versa várias vezes.
Quando Jack teve certeza de que ele já havia pegado completamente o jeito da moto, permitiu que a filha subisse na garupa com ele e dessem uma volta pela cidade, porém, recomendando que tivessem cuidado e que não demorassem muito. Munidos de capacetes, os dois jovens assentiram e logo já sumiam das vistas do homem.
Sirius os levou até a divisa da cidade e então voltou, inebriado com a velocidade e a potência dela. Quando retornaram, Jack indagou como havia sido e o que havia achado e a resposta sincera dele teria sido que achava aquilo tão bom e incrível quanto sexo, mas, por razões óbvias, preferiu dar uma resposta diferente para o seu sogro.
Naquela noite, Jack lhe passou oficialmente as chaves da moto para que o rapaz pudesse voltar para casa com ela ao invés dos “métodos bruxos”. Antes de se despedir da namorada, puxou-a em um canto enquanto seus pais admiravam distraídos a moto, e pediu que o encontrasse no bosque à meia-noite, pois ele estaria esperando por ela e de lá a levaria até sua casa.
Ainda que parecesse assustada com a proposta ousada, no horário combinado Flori apareceu na entrada do bosque e partiu com ele até sua casa em Londres. Uma vez longe dos olhos e ouvidos de outras pessoas o jovem casal deixou o comedimento e a discrição de lado e aproveitou o momento como sempre desejaram: com muito ruído e energia.
Acordaram antes do sol nascer, pois precisava levar Flori de volta antes que seus pais sentissem sua falta e Sirius mal reconheceu seu quarto tamanha a bagunça que haviam feito durante a noite, concluiu que teria o maior trabalho para deixá-lo em ordem novamente, porém, apesar de tudo, sorriu, sentindo-se feliz como nunca.
***
Com a metade das férias aproximou-se também o aniversário de Flori. Desde que haviam reatado o namoro na escola e desde que Lily e Tiago haviam desenvolvido uma relação civilizada, era muito comum que os Marotos andassem com ela e suas amigas, formando um grupo de oito pessoas, sendo Flori a mais nova desse grupo. Todos os seus amigos faziam aniversário durante o ano letivo, somente ela fazia durante as férias e em razão disso e também por ser o aniversário que marcaria sua maioridade, a garota resolvera dar uma pequena festa e convidar a todos eles.
Sirius foi o primeiro a apoiá-la e imediatamente surgiu com o lugar ideal para a festa. Agora que seus pais o conheciam e gostavam dele, não se importavam que os dois saíssem para caminhar sozinhos, é claro que tudo isso mudaria de figura se descobrissem que, na verdade o grande cachorrão preto que dormia em seu quarto toda noite, Snuffles, era Sirius, porém, a menos que seus pais fossem adivinhos de alguma forma, estavam relativamente seguros. E graças a esse tempo sozinhos, ambos gostavam muito de dar voltas pelas redondezas, e foi a partir destes passeios descobriram que o bosque no qual costumavam passar suas tardes possuía uma cachoeira de difícil acesso que, somente graças a possibilidade de Sirius realizar magia é que conseguiram encontrá-la, e quando ele a sugeriu como o local de sua festa, a garota adorou a ideia. Então, depois de gastarem umas duas horas em planos para fazer a nova moto de Sirius voar, Flori endereçou convites a todos os amigos, chamando-os para a festa.
Ele mesmo havia pedido se poderia ajudar com a sua empreitada, afirmando que, por ser tão irritantemente estudiosa, era provável que conhecesse mais feitiços ou métodos para fazê-la voar do que ele. De fato, tinha algumas ideias, porém, infelizmente só poderiam pô-las em prática quando Flori fizesse dezessete anos, por causa do Rastreador. Enquanto isso não acontecia, eles ficavam na parte teórica da coisa e matavam a vontade andando normalmente com a motocicleta pela vizinhança.
Os convites foram rapidamente respondidos e os seis convidados confirmaram sua presença. Flori teve receio de convidar Pedro a princípio, mas depois julgou tal comportamento ridículo, afinal, os dois eram amigos havia muitos anos e ele e Sirius pareciam ter resolvido as coisas entre si.
No dia marcado, apareceram todos quase que ao mesmo tempo e a casa de Flori virou uma zona. Seus pais, acostumados à calmaria que três pessoas e (às vezes) um cachorro proporcionava, viram-se tontos com a tagarelice de oito adolescentes, porém, logo passaram a apreciar a algazarra e ficaram encantados especialmente com Tiago que parecia uma versão mais agitada e viva de Sirius. Lílian era a única que já conheciam. Por ter nascido trouxa como a própria Flori, seus pais e os dela encontraram-se algumas vezes no decorrer dos anos e criaram um laço.
Os garotos foram na frente, enquanto as garotas se arrumavam. Como iam nadar, precisaram providenciar trajes de banho e enquanto experimentavam vários, aproveitavam para contar como iam suas férias entre um biquíni e outro. Lily parecia um pouco desconfortável ao vestir seu traje e Flori se apiedou dela, concluindo que, se fosse alguns anos atrás ela também se sentiria apreensiva, mas graças ao namorado, vinha aprendendo a ter menos constrangimento em determinadas situações de sua vida, por isso sentia-se segura o bastante em sua roupa e tentou tranquilizar a amiga, ao contrário de Marlene, que teimava em provocá-la.
— ...e veja pelo lado bom ,Lily, se ele vai vê-la nesse maiô, lembre-se que você também vai vê-lo de calção. Aposto que Potter fica muito bem assim. – Completou com um sorriso malicioso.
— Eu não poderia ligar menos. – Retrucou Lily, da maneira mais digna que pôde.
— Não liga? Mas até você deve reconhecer que ele é bonito. – Insistiu.
— Grande coisa. Do que adianta Potter ser bonito se só se tornou suportável agora?
— Não ligue para ela. Lene só está tentando te chatear. – Concluiu Flori.
Marlene lhe lançou um olhar ferino.
— Sabe quem também deve ficar ótimo em trajes de banho? – Indagou a garota a ninguém em especial. – Sirius. Caramba, esse sim é um pedaço de...
Flori pigarreou, interrompendo-a.
— Cuidado com o que vai dizer, Lene, porque agora estou legalmente livre para transformá-la numa lesma se continuar a me aborrecer. – Caçoou ela, embora o tom de ameaça fosse inconfundível.
— Sabe alguém que também vai estar só de calção, Lene? Remo. – Lembrou Dorcas, com um sorriso divertido.
A expressão da outra não mudou, porém, havia um leve rubor em suas faces.
— E eu com isso?
— Eu acho que você e ele fazem um bom par, Dorcas. O que me diz? – Indagou Flori.
— Nunca pensei sobre isso, mas vou levar em consideração a sua ideia. – Murmurou pensativa.
Marlene boquiabriu-se, olhando de uma para a outra estupefata.
— Só por cima...! – Ela se interrompeu.
— Só por cima do seu cadáver, Lene? – Ajudou Lílian, satisfeita pela reviravolta.
— Eu... por que continuamos perdendo tempo? Vamos logo, antes que eles comecem a festa sem nós! – Bradou a garota, mudando de assunto.
As outras três riram, enquanto terminavam de se vestir e a seguiam para fora do quarto.
***
A festa foi melhor do que o esperado. Havia comida e bebida o suficiente para uma comemoração digna de final de campeonato de quadribol. Não imaginava de onde Sirius trouxera todo aquele estoque de cervejas amanteigadas e uísque de fogo, contudo, não deu muita importância ao fato. Pela mata soava música alta e agitada, que poderia ser ouvida fora dali. Sirius havia aprendido muito sobre a música trouxa no último mês graças a Flori e seu pai e gostara tanto dela que escolhera vários artistas não-bruxos como trilha sonora. Seus amigos estranharam de início, mas logo já estavam totalmente imersos pela música.
Passaram a maior parte do tempo dentro da água. Tiago enfeitiçara uma bola para persegui-los e daquela forma o grupo tinha de fugir dela para não ser atingido, como se fosse uma brincadeira de queimada com um balaço de borracha. Apesar de tudo, Flori tinha de dar o braço a torcer e reconhecer que Marlene estava certa: Sirius ficava muito bem de calção, e enquanto o admirava sem pudor algum, foi atingida na nuca e eliminada da brincadeira.
Com o cair da noite eles foram se separando em pequenos grupinhos, até que Flori e Sirius procuraram um canto mais afastado entre as sombras das árvores para ficarem a sós. Talvez fosse influência do uísque de fogo, mas alguns de seus amigos tiveram a mesma ideia e Flori sorriu de maneira triunfante ao ver Marlene pegando Remo pelas mãos e o conduzindo até outro recanto.
Flori estava completamente absorta nos braços do namorado, quase desejando que estivessem totalmente sozinhos, quando ouviu Marlene chamando sua atenção com um sussurro discreto a algumas árvores de distância. Ficou irritada a princípio, e considerou seriamente transformá-la em uma lesma pela interrupção descabida, no entanto, Sirius também chamou sua atenção.
— Olha só!
Ela olhou na direção que o namorado indicava e percebeu a agitação deles; sentados à margem do pequeno lago estavam Tiago e Lílian. Não havia sinal de Pedro e Dorcas, o que indicava que ambos também haviam procurado um lugar isolado, deixando os dois jovens constrangidos e sozinhos. Aparentemente, ambos haviam engatado em uma conversa leve e amena, mas agora era possível ver seus rostos se aproximando gradativamente. Flori trocou um olhar animado com Sirius e prendeu a respiração, como se ela fosse à culpada pela hesitação deles. De repente, Tiago tomou a atitude e a beijou, pegando Lílian desprevenida. Apesar de parecer surpresa, a garota fechou os olhos e então o retribuiu.
O bosque veio abaixo com a cena. Seus amigos saíram do meio das árvores e foram saudar os dois, deixando de lado toda e qualquer noção, parabenizando-os por enfim darem aquele passo. Lily parecia morta de vergonha e disposta abrir um buraco no chão para se esconder, enquanto Tiago era ovacionado pelos rapazes com um sorrisinho constrangido. Os amigos resolveram erguê-lo do chão e brindá-lo com um lançamento na água.
E assim iniciou-se uma guerra em que cada um tentava mergulhar a cabeça do outro debaixo da água e disparava jatos gelados de água com as varinhas, e terminou com todos perdedores, encharcados e exaustos, voltando para casa.
Quando seus amigos foram embora, seus pais já estavam dormindo, mas haviam concedido que Sirius dormisse aquela noite na casa deles. Apesar de tentar bancar o durão, seu pai se afeiçoara muito ao rapaz e preocupava-se em deixá-lo voltar sozinho em cima de uma moto, visto que sabia que haveria bebidas alcoólicas na celebração. Então, enquanto a garota tomava um bom banho, ele se secou com um movimento de varinha e largou-se na cama, esgotado, e acabou pegando no sono. O sol começava a raiar quando Flori entrou no quarto para acordá-lo.
— Você passou a noite inteira em claro, toupeirinha? – Indagou ele, numa voz rouca de sono.
— Venha comigo. Tem algo que quero lhe mostrar. – Chamou num tom urgente.
Sirius esfregou os olhos para espantar a névoa entorpecente e a seguiu até a garagem, ao chegar lá, precisou esfregar os olhos com mais força; a motocicleta estava a uns cinco centímetros do chão, flutuando e vibrando levemente. Seu motor roncava como uma fera aprazida.
— Você conseguiu?! – Ele quase gritou.
— Passei a noite toda trabalhando nisso. – Informou. – Revi suas anotações e ideias várias vezes, até que consegui. Quer dar uma volta? – Ofereceu.
Sirius se aproximou lentamente da moto, como se saboreasse cada segundo. Havia uma excitação inconfundível em seu rosto e uma alegria incontida. Ele acariciou o banco de couro suavemente, como se fizesse carinho em um animal arredio e virou-se para ela.
— O aniversário é seu e sou eu que ganho presente? – Indagou.
— Bem, é que... eu sentia que devia isso a você.
— Como assim? Do que está falando?
— Você sempre foi tão incrível comigo, Sirius. Apesar de nossas brigas e desavenças nunca desistiu de mim, mesmo quando tentei sair com outro cara. Sentia que devia lhe dar algo que jamais iria esquecer, em retribuição por ter estado sempre ao meu lado. Inclusive como cão.
Ele pareceu abalado com sua explicação, como se estivesse engasgado com as palavras. Lentamente seu velho sorriso voltou ao seu rosto e ele a chamou com um gesto de mão. Flori se aproximou e ele a envolveu com os braços, beijando sua testa com ternura.
— Eu amo você. – Sussurrou ele.
Apesar de já saber disso, era a primeira vez que Flori o ouvia dizendo com todas as letras. Ela sentiu um aperto na garganta e o abraçou com mais força. Momentos depois, eles se soltaram e trocaram um último olhar antes de Sirius pular na moto, animado como um garotinho na manhã de natal.
— Que tal um passeio, minha bela dama?
Flori riu de sua gracinha e montou na garupa, segurando-o com força pela cintura. Sirius olhou para a namorada mais uma vez e então deu impulso para fora da garagem, ganhando o céu numa velocidade impressionante, como um cometa ascendente.
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