O Conto do Cão Negro

12 Capítulo 12 - A Namorada de Pedro


Sirius estava largado sobre uma cadeira a um canto da Sala Comunal, quando Tiago e Remo apareceram e se juntaram a ele. Era tão incomum vê-lo dedicando tempo a uma lição que os dois amigos trocaram um olhar divertido entre si. Tiago aproximou sua cadeira para perto do amigo e deu uma espiada na borda do pergaminho onde ele escrevia.

— Esse é o dever de Transfiguração? – Perguntou.

— Parabéns, Pontas! Seus óculos continuam funcionando! – Caçoou.

Tiago preferiu ignorá-lo e continuou:

— Pode me emprestar depois? Eu não estou nem na metade do ensaio que a Mcgonagall pediu. – Resmungou.

— Nem morto. Estou fazendo o meu a partir do de Flori. – Ele indicou um pergaminho de um metro e meio desenrolado sobre a mesa ao qual virava a cabeça para consultar constantemente. – Ela não queria emprestar nem a mim, se descobrir que passei a você, me dará de sobremesa à Lula gigante.

— E como você a convenceu então? – Perguntou Remo.

— Usando o meu velho charme. – Respondeu Sirius, com um sorriso malicioso.

Na verdade, tivera de implorar longamente à garota e lhe prometer vários doces da Dedos de Mel até conseguir que ela o ajudasse, mas é claro que não diria nada aos outros.

— Então esse lance de amizade entre você e ela está funcionando? – Tiago quis saber.

— Bem, não é o ideal, mas não é tão ruim. – Respondeu. – Tudo o que eu sei é que esse é o único jeito para reconquistá-la.

— Mas... funciona? – Insistiu Tiago.

Sirius ergueu os olhos e encarou o amigo com desconfiança.

— Por que tanto interesse, Pontas?

— Ora, por nada. – Ele deu de ombros.

— Algo me diz que ele espera testar esta estratégia com uma certa garota ruiva. – Provocou Remo.

Os dois riram diante do constrangimento do rapaz.

— Certo, talvez seja isso mesmo. Você acha que funcionaria? Quero dizer, eu e Evans sermos amigos? Você a conhece um pouco, não?

— Não muito. – Admitiu Sirius. – Acredite em mim, ela me detesta tanto quanto a você, talvez até mais e nunca fez questão de conversar comigo quando estava com Flori.

— Mas ela é uma boa garota. É gentil, espirituosa e bastante inteligente, você já a viu nas aulas de Poções, sabe do que estou falando. – Acrescentou Remo, que a conhecia um pouco por ambos serem monitores de sua turma.

— Eu sei de tudo isso. – Afirmou Tiago. – Só gostaria que ela me visse de outra forma. – Lamentou.

— Se tem algo que aprendi de minha última discussão com Flori é que você tem que estar disposto a melhorar se quiser continuar saindo com alguém ou, no seu caso, começar. Mostre a Evans que você é mais do que um jogadorzinho de quadribol arrogante.

— Obrigado, Almofadinhas. – Retrucou de maneira azeda.

— Disponha.

Enquanto Tiago parecia pensar no que os amigos haviam dito, Pedro escolheu aquele momento para aparecer e se juntar aos três. Havia uma expressão de extrema felicidade em seu rosto magro. Sirius notou sua excitação.

— Por que essa cara, Rabicho? Apanhou Pirraça aprontando com alguém ou viu outro aluno tropeçar na escada? – Perguntou, sabendo que o amigo parecia se divertir muito com a desgraça alheia.

— Nenhum dos dois. – Negou Pedro, mal conseguindo disfarçar sua felicidade. – Eu finalmente tomei coragem e chamei uma garota para sair! – Anunciou. – Vamos nos encontrar nesse sábado às dez horas, durante o passeio a Hogsmeade!

— Quem é a maluca destrambelhada que aceitou sair com você? – Zombou Sirius. – Ela é cega por acaso? Ou tem algum tipo de atraso mental?

— O que está insinuando? – Rebateu Pedro, zangado.

— Aposto que é a Dorcas. – Adivinhou Tiago com um olhar astuto. – Ela parece ter uma quedinha por você.

— É claro que não é ela, Pontas. Dorcas é sensata. – Rebateu Sirius, rindo.

— Almofadinhas, pare de atormentá-lo! – Remo o repreendeu. – E então, Rabicho, quem é a garota?

Pedro se levantou furioso da cadeira.

— Querem saber? Eu não direi uma palavra a vocês!

E ao dizer isso ele se virou para a entrada do dormitório dos garotos e subiu a escadaria com força.

— Você não consegue segurar a sua língua, não é? – Remo se virou para o outro, aborrecido.

— Ora, quem teve um ataque foi ele! – Defendeu-se. – E digo mais, aposto que Rabicho está apenas inventado isso. Alguém deve ter lançado um feitiço da confusão nele e agora o infeliz está imaginando coisas.

— Acha mesmo? – Assombrou-se Tiago.

— Acho. Pedrinho não é dos mais brilhantes e tampouco teria confiança para chegar numa garota. Ou ele está enfeitiçado ou inventando.

— Só tem um jeito de descobrir: vamos segui-lo no sábado. – Declarou Tiago, com um sorriso ansioso.

***

O passeio de sábado a Hogsmeade amanheceu nublado e gelado, lembrando a Sirius de uma outra ocasião em que ele e Flori haviam passeado pela aldeia juntos e parado no Cabeça de Javali, contudo, estava menos frio naquela manhã, de modo que os estudantes não precisaram se sobrecarregar de suéteres como da outra vez.

Pensava na garota quando desceu pela estrada com os amigos até a vila, desejando passar algumas horinhas com ela antes de iniciarem sua missão, mas como não a via desde a outra noite, imaginou que estivesse com as amigas ou então tivesse optado por permanecer no Castelo, o que ele duvidava seriamente, já que ela nunca deixara de vir aos passeios.

Pedro não estava com eles; continuava magoado com os rapazes, Sirius em especial, por terem tirado sarro dele e de sua habilidade com garotas, por isso não falava com os outros Marotos havia dois dias e saíra sem eles naquela manhã. Como tinham algumas horas antes de procurarem por Rabicho, decidiram matar o tempo no Três Vassouras, onde Sirius costumava flertar com Madame Rosmerta, quando se encontrava solteiro, para conseguir bebidas de graça. Não funcionava, porém a fazia rir e ela acabava dando um desconto para os garotos.

Quando o ponteiro no relógio de Sirius chegou ao dez, os três se despediram da dona do bar e saíram.

— Para onde agora? – Perguntou Tiago, olhando a rua em volta, à procura de algum sinal da cabeleira loira de Pedro.

— Bem, supondo que Rabicho tenha falado a verdade, deve estar na Madame Puddifoot. As garotas insistem em sempre se encontrar lá, só Merlin sabe por quê. – Suspirou Sirius.

— Então rumo à casa de Chás. – Anunciou Tiago.

Os rapazes tomaram o caminho que os levaria ao local sugerido por Sirius e chegaram lá em poucos minutos. Tiago e Remo iam à frente e por isso foram os primeiros a enxergar o que acontecia lá dentro. Os dois pararam abruptamente e olharam para Sirius com uma expressão de hesitação.

— Que é? – Indagou Desconfiado.

— Sabe, eu acho que não deveríamos estar fazendo isso. – Disse Remo, colocando a mão sobre o braço de Sirius, tentando afastá-lo. – Se fosse comigo, gostaria que respeitassem a minha privacidade.

— Apoiado, apoiado! – Concordou Tiago, ajudando a empurrá-lo.

— O que está acontecendo? – Indagou Sirius.

Ele se desvencilhou dos companheiros com facilidade e abriu caminho entre eles. Um frio desagradável desceu para o seu estômago e seu coração parou por um momento; lá, entre as mesinhas cheias de babados, encontravam-se Pedro e Flori, bebendo chá e conversando amigavelmente em meio a casais que se beijavam apaixonadamente.

Sirius sentiu o grande cão negro despertando dentro de si e o ímpeto de atacar aquele que considerara seu amigo até então foi impossível de se ignorar. Ele avançou pela rua e só não conseguiu prosseguir, porque seus amigos o seguraram pelos braços com força.

— Desgraçado! Eu vou matar esse rato nojento! – Berrou Sirius, ensandecido. – Me soltem agora! Eu preciso esganá-lo com minhas próprias mãos!

— Por favor, Sirius, controle-se! – Implorou Remo, enquanto Sirius se agitava entre seus braços como um peixe escorregadio.

— Me controlar?! – Urrou ele. – Esse cretino tá saindo com a minha namorada!

— Ela... não é... mais.... sua namorada... cara! – Exclamou Tiago, enquanto tentava contê-lo.

— Não importa! Como ele pôde me trair desse jeito?! Todos sabem que Flori é minha! Me soltem, porra!

O palavrão foi tão inesperado que os garotos afrouxaram o aperto, espantados. Foi apenas por um momento, porém, o suficiente, para que Sirius se livrasse e corresse na direção da casa de chás. Tiago se recuperou primeiro e lançou um feitiço estuporante no amigo, antes que ele chegasse ao seu destino. Ele e Remo dispararam até o rapaz, que xingava como nunca e o ajudaram a se levantar. Tiago viu o punho do amigo se encrespar e desviou no momento exato, evitando o soco.

— O que pensa que está fazendo, Tiago?! – Gritou Sirius. – Se continuar a se meter no meu caminho, não pensarei duas vezes em azará-lo! – Ameaçou.

— Você não está pensando direito agora! – Retrucou Tiago.

— Ele está certo! – Ajuntou Remo. – O que Flori pensaria se o visse surgir de repente na Madame Puddifoot e enchesse o par dela de pancadas? Você mesmo disse que precisava estar disposto a mudar, lembra?

— Tem razão. – Concordou Sirius, baixando os braços e aprumando-se. – Eu não preciso acabar com ele usando somente as mãos; tenho minha varinha pra isso.

Antes que ambos pudessem registrar suas palavras, ele acenou a varinha e fez o líquido nas xícaras borbulharem e espirrarem em Pedro. Depois disso, ordenou que todos os bolinhos e tortinhas se juntassem e começassem a atacá-lo, sujando-o de comida, enquanto as pessoas em volta davam gargalhadas da cena. Flori observava a tudo horrorizada.

O garoto tentou se proteger com os braços, mas as louças se juntaram à causa e começaram a lhe dar pancadas na cabeça e em todos os lugares que conseguiam alcançar. A cadeira ganhou vida e o jogou para o chão, enquanto os bules de chás, guardados em um armário da cozinha, surgiram de repente e passaram a atacá-lo como passarinhos. Ele guinchou de dor e se escondeu embaixo da mesa, mas os bules, colheres e docinhos continuaram a persegui-lo impiedosamente. A cadeira em que estivera sentado passou a cutucá-lo dolorosamente nas canelas. Flori tentou ajudar, porém, os pratos e pires formaram uma espécie de barreira, impedindo-a de chegar perto. Pedro se arrastou de debaixo da mesa e correu para fora, sob uma chuva de risadas e a revoada dos estranhos pássaros que continuou a segui-lo por toda a estrada.

Expelliarmus! – Gritou Remo, arrematando a varinha da mão de Sirius. – Como pôde fazer uma coisa dessas?! Pedro é seu amigo!

— Ele é um canalha desprezível, isso sim! – Sirius agarrou sua varinha que voara até a mão de Remo e a pegou de volta. – Ele sabia que eu estava tentando voltar com Flori e mesmo assim a convidou para sair! É um traíra nojento! – Ele cuspiu no chão.

— E você é um idiota! – Acusou Tiago. – Como nunca percebeu que Rabicho gostava dela?

— O quê? – Titubeou ele.

— Pedro sempre gostou dela, Sirius. – Afirmou Remo, aproveitando-se da perplexidade do outro.

— Vocês sabiam?!

— Todos nós sabíamos, incluindo sua ex-namorada. – Tiago reiterou.

— E por que nunca me disseram nada?

— Porque já imaginávamos qual seria a sua reação. – Respondeu Remo.

Sirius baixou os braços e deixou-os cair ao seu lado, vacilantes. Se o que diziam era verdade, então como não percebera isso antes? Recordando-se agora, já havia notado diversas vezes que parecia haver uma boa relação de amizade entre Flori e Rabicho e incomodara-se com isso algumas vezes, mas jamais expressara o seu aborrecimento, porque nunca considerara Pedro como seu rival. Em sua cabeça simplesmente não entrava que ele teria qualquer chance com a garota ou ainda que conseguiria algo.

Mas ele sempre estivera por perto, mandando cartas durante as férias, conversando com ela enquanto ele e Tiago estavam no treino de quadribol, ou acompanhando-a durante as aulas, quando Sirius era detido. Sempre atrás dela, como uma sombra. Houve um estalo em sua mente de repente e ele se lembrou de algo: “Será que você pode me explicar por que peguei duas garotas da Corvinal falando sobre nós dois em um dos banheiros?”. Fora Pedro, ele tinha certeza disso. Havia sido Pedro quem espalhara para o resto da escola que ele e Flori estavam namorando no primeiro ano. Sentiu a raiva borbulhando em seu peito novamente. Foi um sentimento tão poderoso, que sua varinha disparou faíscas vermelhas inconscientemente.

Remo e Tiago pularam para o lado, evitando os disparos.

— Tá tudo bem, cara? – Indagou Tiago, observando sua expressão com preocupação.

— Tudo ótimo. Está na hora de eu ter uma conversa com o Pedrinho. – Rosnou.