O Conto de Farsas

2 O cursinho pré-vestibular


Notas iniciais
Apenas o prólogo foi em primeira pessoa. O que aconteceu no prólogo se repetirá futuramente. Voltaremos 5 anos na narrativa até chegar onde está o prólogo. Espero que gostem

Cinco anos atrás

Marcelo era só mais um em meio aquela multidão de estudantes do cursinho. Sonhava em ser engenheiro civil, mas sabia que, para tal feito, deveria afundar o rosto nas apostilas. Ele, por vezes, imaginava que se juntasse todos aqueles cinco módulos de apostilas, com certeza o peso ultrapassaria o seu.

De fato, Marcelo estava definhando. Não tinha tempo para comer uma refeição bem elaborada, quiçá não tinha tempo para ficar nas redes sociais, apenas estudar. E era o que ele mais fazia de sua vida. Até seus pais reclamavam do tanto que Marcelo estudava exageradamente.

— Filho, você cobra demais de si mesmo! – Disse sua mãe, certa vez, durante o café da manhã. Ou o que seria dele, uma vez que Marcelo ignorou a refeição, pegando apenas uma maçã e saindo depressa para tomar o ônibus.

Não posso fazer nada. É o meu sonho. E como todo bom virginiano, Marcelo gostava que as coisas fossem do jeito que elas têm que ser. E se ele queria ser um engenheiro civil, ele seria um engenheiro civil.

Caminhando rápido pelo pátio com sua camisa quadriculada cinza, calça jeans básica, seu par de tênis surrado, arrumando seus óculos vencidos que por hora caía pelo seu rosto e carregando aquela bolsa em seu ombro. Estava, certamente, atrasado para a primeira aula da manhã.

O professor de Química Orgânica já havia começado a aula. Marcelo por um momento se arrependeu de ter tomado banho naquele dia, assim poderia ter pego o ônibus mais cedo e chegado na hora. Que absurdo, no que estou pensando?

O garoto sentou-se em uma carteira ao fundo da sala. Tudo estava muito frio devido à temperatura do ar condicionado. Marcelo estava com fome. Frio e fome nunca foi uma combinação muito atraente para o rapaz.

Enquanto o professor falava sobre as moléculas que possuem carbono em sua estrutura, o rapaz apertava os olhos no fundo da sala, tentando enxergar o que estava sendo projetado pelo professor no quadro branco. Retirou o velho par de óculos, limpou-os na camisa quadriculada, recolocou-os no rosto pálido. Estava incomodado. Sua barriga roncava; ele ignorava. Abriu a apostila na parte de química, tentaria acompanhar por si só.

A barriga voltou a roncar. Lembrou-se das aulas de biologia, e que deveria estar acontecendo a gliconeogênese em seu organismo. Enquanto isso, as palavras do professor de química entravam pelos seus ouvidos e se emaranhavam dentro de sua cabeça, em meio àquele turbilhão de informações. Puxou a carteira do bolso: havia apenas uma nota de dois reais e sua carteira de estudante, que lhe proporcionava pagar meia passagem no ônibus. Preciso comer. Imaginou que, caso gastasse aqueles míseros dois reais, não teria como voltar pra casa. E nem sabia como iria ao cursinho no dia seguinte.

Não aguentando mais todo aquele frio e toda aquela fome e, fazendo uso de suas últimas reservas de energia, Marcelo se pôs de pé e, antes mesmo de colocar sua bolsa no ombro, desmaiou no chão gélido daquela sala, interrompendo a aula e chamando a atenção de todos.