Patrícia Barreto nunca esteve em uma situação tão desconfortável quanto aquela. Desde quando começou a flertar com garotos, nunca precisou de aplicativos ou de nenhuma outra artimanha para sair com rapazes.

No entanto, sua vida mudara. Em sua cabeça, nenhum rapaz se interessaria por ela, na condição de deficiente. Quando instalou o aplicativo You’nMe, mostrou suas fotos com prótese de uma maneira explícita e começou a conversar com Inácio, viu que havia pessoas no mundo que não julgava apenas pelas aparências.

Patrícia, infelizmente, julgava por aparências.

— Pare o carro! – exigiu – Você não é o cara da foto!

— Deixe-me explicar, por favor. – pediu o rapaz. Se o Inácio da foto do aplicativo era um homem bronzeado, musculoso, se exibindo no espelho da academia, o Inácio da vida real era um rapaz negro, magro, que parecia mal saber o que estava fazendo.

— Para agora! – Patrícia vociferou, discando com a mão esquerda o número da polícia em seu smartphone.

Inácio, com suas mãos trêmulas, tomou o celular de Patrícia e o jogou contra os bancos de trás do carro. Freou abruptamente o veículo, estacionando junto ao meio fio da calçada de uma rua deserta a dois quarteirões do palacete da família Barreto.

Patrícia, assustada com o ato do rapaz, tentou abrir a porta do carro, mas estava travada.

— Por favor! Eu imploro, me deixa ir embora!

— Eu não vou fazer nada com você, Patrícia. – afirmou Inácio – Eu juro que só quero conversar. Eu me apaixonei por você...

— Eu me apaixonei pelo cara da foto – a garota chorava – Eu sabia que não deveria confiar... você não passa de um...

— De um negro. Pobre, favelado. Você tem razão. Esse carro nem meu é. – Inácio esmurrou o volante do carro – Eu só queria te conquistar, Patrícia. Eu sempre acompanhei sua carreira. Eu sabia que se não colocasse minha foto verdadeira lá, você não se interessaria por mim.

— Somos de mundos diferentes. De classes diferentes – a voz de Patrícia exalava desprezo. – Você achava que teria chances comigo?

— V-você... você não parece aquela com quem eu vinha falando durante esses dias... você parecia uma menina doce, romântica.

Patrícia gargalhou, ficando também aliviada com a fraqueza que aquele garoto exalava de seus poros. Ele não vai me fazer mal.

— Quem é você pra falar de honestidade, Inácio? Seu nome é Inácio mesmo? Destrava logo a porta desse carro!

A moça retirou o cinto de segurança e começou uma luta contra Inácio, que se recusava a destravar a porta do carro. O rapaz sabia que estava errado, e sabia de todas as consequências que poderiam ser tomadas devido aos seus atos, mas estava disposto a conquistar Patrícia.

Patrícia, por sua vez, sempre foi mesquinha. Sempre tratando os empregados de sua casa de maneira errônea, acreditava que as pessoas mais pobres deveriam servir as pessoas mais ricas e que tudo o que ela tinha era apenas por mérito; assim, os mais pobres, segundo o pensamento de Patrícia Barreto, para alcançar prestígio, deveriam lutar.

A garota desistiu de brigar com Inácio e, voltando ao banco do carona, pôs-se a chorar. Lembrou-se que apenas Inácio, com seu perfil fake havia gostado de seu perfil, com fotos mostrando explicitamente que era deficiente física.

— Ei, calma... – disse Inácio. – Eu vou deixar você ir. Não quero te chatear mais.

Inácio destravou a porta do carro. Patrícia parou de chorar, porém não quis sair do veículo. Com os cabelos caindo por cima dos olhos marejados, a maquiagem pesada, borrada, estava se sentindo um nada.

Sabe-se lá quando eu vou poder fazer isso. Qual homem vai querer uma aleijada?

Pôs seu corpo por cima do corpo de Inácio que, por sua vez se assustou. A garota retirou o par de sapatos de salto, a calcinha e a prótese do braço direito, ficando apenas com o vestido preto decotado.

— Era isso que você queria? – Perguntou, em um tom autoritário.

— Juro que não. Juro que não era só isso. Eu te amo, Patrícia. – Respondeu Inácio.

Inácio tentou beijá-la. Patrícia empurrou seu rosto com a mão esquerda.

— Sem beijo. Cala a boca. – Ordenou.

Sentada em seu colo, sentiu o membro do rapaz ficar rígido. Como uma amazona, cavalgava ainda por cima da calça jeans surrada de Inácio. Os movimentos passaram a ficar mais intensos.

— Afasta o banco.

Cheio de desejo, o rapaz obedeceu. Patrícia abriu o zíper da calça do rapaz e a desabotoou, descendo-a junto à cueca até a altura das coxas.

— Eu não tenho preservativo. – Disse o rapaz, quase como um sussurro.

— Já mandei você calar a boca!

Após consumar o ato, Inácio tentou beijar Patrícia mais uma vez, mas ela recusou. Guardou a calcinha e o celular dentro da bolsa, reencaixou a prótese do braço direito e pôs o par de sapatos nos pés.

— Nunca, em hipótese alguma, diga isso a ninguém. Ou eu acabo com a sua raça.

Cambaleando, Patrícia saiu caminhando pelos quarteirões até chegar em sua casa. Ao alcançar o jardim do palacete, caiu de joelhos sobre a grama e pôs se a chorar. Esmurrava o próprio rosto, arranhava o pescoço com as unhas da mão esquerda.

Recompôs-se.

Subiu as escadas lentamente, para que nenhum empregado, nem mesmo seu pai, Horácio, ou seu irmão, Solano, pudessem ouvi-la.

Trancou-se no quarto e, em seguida, entrou no banheiro. Arrancou o vestido preto decotado com toda a ira e todo o asco que possuía e o enfiou na lata de lixo, bem como o seu sutiã de renda da mesma cor; a água do chuveiro caía pelo seu corpo novo e desnudo. Patrícia esfregava a espuma por todo o seu corpo, chorando, soluçando, usando toda a força que tinha.

Ao final do banho, seu corpo estava em carne viva.

Ela queria remover qualquer vestígio de Inácio da sua pele. Um rapaz negro e pobre.

Era tudo o que ela mais repudiava em sua vida.


Notas finais
Vocês imaginavam que a Patrícia fosse assim? Já disse a vocês que essa história é um conto de farsas?