O Conto de Farsas

8 A paralisia do sono


Quando Marcelo alcançou o barco ancorado no cais, percebeu que o homem que havia caído no mar estava se debatendo na água, mesmo estando de colete salva-vidas.

Marcelo então, sem escolha, jogou a mochila na areia da praia e pousou a carteira, os óculos e o aparelho celular sobre o seu par de chinelos; saltando na água, nadou cerca de três metros e percebeu que o local onde o homem estava não era tão fundo. Ele estava de olhos fechados, parecia dormir, mas se debatia desesperadamente. No entanto, tomou o sonâmbulo em seus braços. Estava tendo um pesadelo.

— Ei! Acorda! — Marcelo, sacudia o rapaz pelos ombros. Percebeu de relance que ele vestia a camisa do Projeto Vida Azul, ONG tão conhecida na cidade. — Acorda!

Alguns segundos depois, o rapaz acordou. Sob a luz da lua cheia, Marcelo pôde ver as esferas azuis de Alex Santiago voltando a realidade. Elas expressavam medo.

A primeira reação de Alex ao despertar e ver o semblante preocupado daquele completo desconhecido foi abraçá-lo. Marcelo espantou-se, amedrontado, uma vez que o rapaz de barba ruiva começou a chorar.

— Calma... tudo vai ficar bem. Chore o quanto precisar. Pode chorar, tudo bem? — acalmou Marcelo. Lembrou-se de quando tinha pesadelos quando criança e de quando seus pais sempre estavam a postos para acalentá-lo, destruindo a ideia de quaisquer monstros que poderiam assustá-lo.

Alex pousou a cabeça no ombro de Marcelo e o abraçou forte, arriscando suas fichas em alguém tão alheio aos seus sentimentos, aos seus medos e suas dúvidas. Ali eles ficaram por alguns minutos. Marcelo ouvia apenas o som da água do mar que dançava sobre a areia da praia e da respiração de Alex Santiago tão próxima ao seu ouvido, que se tornava cada vez mais amena a cada passo em que seu abraço se tornava mais quente.

Se outrora a água do mar batia na altura da cintura dos dois, a maré subia a medida que a lua cheia se encaminhava para o meio do céu e os iluminava.

Tudo iria ficar bem.

⚓

O envelope de papel pardo repousava em cima de sua escrivaninha. Patrícia Barreto estava em uma luta contra si mesma: queria acreditar que, caso não abrisse e visse o resultado daquele exame, nada aconteceria e poderia seguir sua vida normalmente.

Sua vida repleta de arrependimentos.

Estava arrependida por ter ido ao México competir nos jogos Pan Americanos; estava arrependida por ter baixado aquele maldito aplicativo; estava arrependida por ter aceitado sair com um cara desconhecido; estava arrependida por ter seduzido e feito sexo sem proteção com um rapaz tão diferente dela mesma.

Negro. Pobre.

Poderia ser meu empregado.

Suspirou fundo. Rasgou a aba do envelope com os dentes e, apoiando-se na escrivaninha do seu quarto, leu o que havia escrito no papel. Seus olhos buscavam pela informação de maneira curiosa e desesperada.

Patrícia Barreto estava grávida.

Pegou a bolsa e desceu rapidamente as escadas do palacete. Seu pai estava na sala, pensativo, sentado no grande sofá branco; o braço direito esticado, apoiado no encosto estofado do móvel enquanto o esquerdo segurava o seu típico copo de uísque de todas as noites.

— Vai sair? — indagou Horácio, despertando do transe e pousando o copo na mesa de centro.

Patrícia, desconcertada, ainda não sabia ao certo para onde iria. Julgou que tomar um ar fresco antes de qualquer atitude, naquele momento , seria um passo sensato.

— Sim. — respondeu, sem evitar a voz trêmula — Vou encontrar algumas amigas da época da escola. Acho que já estou pronta para rever antigos amigos depois que... — ela olhou para o lado direito do seu próprio corpo mutilado, usando seu estado físico para sustentar tal mentira — ...o senhor sabe.

— Fico muito feliz, minha querida. — O homem sorriu, contente. — Não vá chegar muito tarde.

— Voltarei cedo. — respondeu, beijando o rosto do pai.

Bateu forte a porta da sala.

⚓

O cheiro do café preparado na velha cafeteira elétrica da sede do Projeto Vida Azul perdurava naquele singelo compartimento. Marcelo observava atentamente as últimas gotas da bebida quente caindo na jarra de vidro e a retirou da base assim que percebeu que estava ela estava pronta.

Ao virar de costas, assustou-se quando viu Alex Santiago completamente despido, de costas, se secando com uma toalha. Tinha os ossos dos ombros largos, uma cintura um tanto quanto saliente. Suas pernas eram levemente peludas, os pelos de um tom acobreado como os de sua longa barba. Seus ombros e suas costas possuíam algumas sardas vermelhas.

— Tem umas roupas ali pra você. — Avisou Alex, que virou-se repentinamente e apontou para algumas camisas do projeto. Marcelo por pouco não derramou o café da jarra no chão.

Ficou sem graça diante de um homem completamente nu em sua frente. E Marcelo dos Santos nunca havia visto nem mesmo seu pai desprovido de quaisquer vestimentas. Estar diante de um completo desconhecido nestes modos o desconcertou.

— É... eu acho que vou pra casa assim mesmo. — respondeu após colocar o café em duas xícaras de porcelana.

Alex prendeu a toalha na cintura e pegou uma das xícaras de café. Sorveu a bebida amarga e sorriu para Marcelo, que retribuiu o gesto com um outro sorriso tímido.

— Não vou deixar o cara que salvou minha vida ir embora assim. Ainda correndo o risco de pegar um resfriado? Não mesmo! Vai, cara, pega as roupas e toma o café.

Marcelo pegou uma camisa tamanho G do Projeto Vida Azul e um short tactel branco que estava sobre a mesa da sede. O short tinha cheiro de maresia. O mesmo cheiro que sentira quando Alex o abraçou no mar.

Alex Santiago sentou-se à mesa e tornou a tomar o café. Timidamente, Marcelo dos Santos despiu-se e livrou-se da roupa molhada. Estava de costas, mas sentia que Alex o observava. Enxugou-se com a toalha rapidamente e vestiu a roupa emprestada.

— Me chamo Alex. Sou biólogo marinho, trabalho aqui há bastante tempo.

— Marcelo. — O rapaz estava nervoso. Encaminhou-se para a mesa e aqueceu-se com o café fresco. — Fiquei assustado quando te vi caindo de cima do barco.

— Acabei pegando no sono. — Alex riu.

— E você tem o sono muito pesado. — Marcelo falou em um tom sério. — Você... melhorou?

Marcelo se referia ao fato de Alex ter chorado, pouco antes de os dois rapazes entrarem na sede do Projeto Vida Azul. Alex olhou para um ponto cego daquela pequena sala, esperou que o vapor quente da xícara o aquecesse mais um pouco e respondeu:

— Estou ótimo. Foi só um sonho ruim. Isso é bem comum. Vou evitar tirar sonecas em cima do Crypto.

Alex estava mentindo sobre tudo estar ótimo e Marcelo pôde perceber isso pelo timbre de sua voz, nervosa. Porém, percebeu que não era certo falar sobre aquele assunto, uma vez que poderia ser algo traumático que despertaria novamente aquele pesadelo.

E era.

E somente Alex poderia enterrar todas as lembranças de seu passado em sua mente, sem que elas pudessem voltar à tona na forma de um sonho ruim.

— Já são quase onze da noite! — Exclamou, olhando para a tela do celular.

Marcelo não queria dormir naquele cubículo. Não com ele. Não por ele, mas sim pelo que ele o havia despertado. Por todas aquelas emoções estranhas que aquele rapaz de barba ruiva o fez sentir.

Emoções incompreendidas.

— A gente se vê? — perguntou Alex, tocando amigavelmente o ombro direito daquele que o salvou há poucas horas.

— Claro! Preciso devolver suas roupas. — Marcelo respondeu e sorriu apenas com o canto da boca. Deu de costas e começou a correr pela areia da praia em direção ao ponto do ônibus, que ficava na avenida a alguns metros dali.

— Ei! — Marcelo ouviu a voz de Alex o chamar. Virou-se para ele, que da porta da sede o observava indo embora. Ainda com a toalha amarrada à sua cintura.

— Sim?

— Obrigado. Por tudo.

Marcelo acenou com a mão e continuou a correr. Estava ficando tarde.

E seu coração estava ficando acelerado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.