O Conto da Holy Serenity
27 Memórias de Zero Zephyrum
Notas iniciais

Memórias do Zero Zephyrum
Sim... Agora eu me lembro.
Eu me lembro do rosto dela.
Astaroth estava na linha de frente junto com Cazeaje enquanto lutavam contra Berkas, assim como eu estava, no entanto distante deles. Naquela época, ainda tínhamos esperanças de que voltaríamos a ver o som no entardecer daquele mesmo dia... Mas, a medida que nossos aliados caiam sob as lâminas das lanças inimigas, nossas esperanças morriam junto com eles...
Eu estava afastado do grupo principal, lutando contra três lanceiros naquela terra árida de Áton no meio da guerra. Quebrei suas lanças com o peso da minha arma, e não demorei a conseguir nocauteá-los. Mas, antes mesmo que pudesse respirar, mais dois lanceiros vieram na minha direção.
– Cuidado, Zero! – Gritou Grandark, ainda na espada. – Pela direita e frente!
– Certo!
Girei para conseguir atingi-los ao mesmo tempo, mas... Não estava mais aguentando... Apoiei a Grandark no chão e me ajoelhei. Montanhas de corpos se erguiam ao meu redor enquanto eu ainda tinha que lutar para conseguir sobreviver, honrar aqueles que morreram. Como..? Como Ryan conseguia aguentar? Ou Mari, depois que Sieghart enlouqueceu na sua frente? Até mesmo os asmodianos estavam recuando...
Não existia esperança. Nunca veríamos o sol poente mais uma vez, ou o céu azulado. Estaríamos para sempre naquela escuridão sem fim... Apertei o cabo da minha espada e soquei a areia com minha mão livre, tentando dispersar aquela ira dentro de mim.
– Chega... Não dá mais...
– Não desista!
A voz que chamou minha atenção era de uma garota, e quando levantei meu olhar, vi uma guerreira com uma espada de duas mãos. Seu corpo estava completamente coberto pela armadura e a capa azulada com uma cruz logo atrás esvoaçava pelo vento, assim como seus cabelos esverdeados. Seus olhos azuis me olhavam com um brilho forte, mesmo naquele cenário... Ela se aproximou de mim e sorriu gentilmente, estendendo a mão.
– Não desista... Veremos outro dia amanhecer, mas para isso precisamos acreditar na nossa força. Por isso, não desista, por nós todos.
Quantos anos ela tinha? Com certeza era mais nova do que eu... Á medida que vou pensando sobre quem era ela, começava a me lembrar de sua origem. Ela veio da ilha perto de Vermécia, que afundou durante a chuva de meteoros. Por algum milagre ela conseguiu sobreviver nos restos do que um dia fora uma barraca de frutas, vagando pelo oceano até chegar ao continente, onde foi resgatada pela Resistência. Graças a esse evento, ela perdeu tudo o que tinha, até mesmo sua arma. Como ela mostrou forças e desejo de lutar, a Resistência lhe deu uma armadura e uma espada, que como não era tão pesada quanto à arma que estava habituada, se evidenciou uma excelente espadachim em termos de velocidade.
– Por que ainda luta? – Perguntei.
A garota ficou claramente surpresa, parecendo ficar pensativa por um momento e então deu um sorriso melancólico.
– Eu quero trazer justiça para o mundo... As coisas não são assim, e nunca deveriam ter sido... – Senti que pelo seu olhar, ela parecia estar prestes a chorar de sequer pensar sobre a resposta. – Quando a escuridão se aproxima, é quando mais precisamos ter fé em nós mesmos... Em nossos companheiros. Por isso, acredito que o mundo pode voltar ao que era.
Sem perceber, acabei sorrindo e estendi a mão para ela. A garota pareceu surpresa a principio, mas sorriu logo em seguida, me ajudando a levantar. Continuei segurando sua mão, mas dessa vez a apertei de leve.
– Me chamo Zero...
A garota deu um risinho.
– Eu sou Holy! Holy Serenity!
Senti realmente que podia acreditar nas palavras dela... Por quê? Talvez por que, como ela disse, são nos momentos de maior escuridão que precisamos ter fé. Gostaria de tê-la conhecido em mundo onde não houvesse essa guerra... Onde pudéssemos ser amigos e o céu azul reinasse supremo.
– Cuidado, seus tolos!
O grito de Grandark me despertou do transe e quando olhei para o lado, vi um monstro gigante vindo em nossa direção, numa corrida frenética. Antes mesmo que pudesse fazer algo, senti ser empurrado para o lado e cai desajeitado. Pouco antes do monstro chegar aonde estava, vi ela sorrindo, de um modo triste, segurando a espada mesmo sabendo que não teria como atingi-lo.
– Não!
Aquela criatura literalmente a atropelou. A garota pareceu simplesmente tão frágil que pareceu quebrar quando o impacto aconteceu. Mas, mal a criatura deu dois passos quando ele tombou para o lado. Uma lâmina prateada apareceu cravada no peito da criatura, brilhando na luz avermelhada enquanto soltava seu último suspiro. Holy estava caída no chão, com a mão no peito. Me levantei e corri na sua direção.
O metal da armadura que ela trajava havia sido retorcido a afundado no seu peito de um modo doloroso de se olhar, o elmo que usava também havia sido destruído, apesar de ter deixado um corte profundo no seu rosto. Ela chorava, claramente sentindo muita dor. Me ajoelhei ao seu lado, sem saber o que fazer.
Ela abriu os olhos e me olhou, dando um sorriso dolorido.
– De-Desculpe... Mas... Você é meu companheiro... Não podia... Perder mais ninguém...
Apertei meus punhos, sem acreditar que ela estava falando aquele tipo de coisa naquele estado.
– Por quê?!...
Holy deu um risinho, virando o rosto para cima, parecendo ter ainda mais dificuldade para respirar.
– Acredite... Esperança... Mesmo nas horas mais escuras...
Antes que pudesse terminar de dizer, ela parou, com o olhar para o céu e uma lágrima escorreu pelo seu rosto ainda corado. Apertei meu punho enquanto minha mão direita passava pela máscara, apertando-a. Por que meu coração doí tanto? Aquilo não era para ter acontecido... Não! Engoli seco.
– Chega... Disso... – Me levantei e caminhei de volta para Grandark, sacando-a.
– Zero... O que você vai fazer? – Ele me indagou, notei que parecia preocupado.
Olhei para o exercito inimigo que se aproximava mais uma vez. O rosto daquela garota ainda povoava minha mente. As coisas não precisavam ser assim...
– Eu vou acabar com isso.
– Grandark! Acorde!
Sentia meu corpo dolorido, mas aos poucos comecei a ver as copas das árvores roxas e um rosto conhecido... Cabelos rosados e uma pele suavemente roxa, meio azulada. Quando comecei a conseguir enxergar melhor, vi que era Edna e me surpreendi. Ela estava viva?! Fui me sentando, passando a mão na cabeça. Essas memórias... Me fizeram lembrar do por que eu realmente resgatei a Holy. Ela foi o motivo que Zero enlouqueceu naquele dia... Ele estar lembrando... Significa que está se recuperando? Não, não posso ter tantas esperanças por agora.
Oh meu Deus, Holy! Me sentei imediatamente, olhando ao redor, procurando pela criança.
– Onde está a Holy, Edna?!
– Grandiel a levou para dentro da torre, ele disse que vai cuidar dela.
Cerrei os dentes e me levantei, sentindo meu corpo doer, mas, sinceramente? Que se foda isso, eu tenho que cuidar daquela peste antes que o Zero volte ao estado vegetativo que ele estava antes! Senti o corpo perder o equilíbrio por um momento e imediatamente senti Edna me segurar. Passei o braço pelo seu ombro, bufando.
– Vamos... Até ela.
– Grandark, vai devagar!
– Devagar o cacete mulher, eu quero falar com o Grandiel!
Edna bufou, e apesar de relutante, me ajudou a entrar na torre.
–x-
Logo na entrada, vimos Grandiel na frente da Holy, que parecia estar dormindo, deitada num sofá luxuoso no centro da sala circular simples. Tentei me soltar da Edna para poder me aproximar mais rapidamente da garota, mas senti novamente perder o equilíbrio ao tentar fazer qualquer coisa, forçando a asmodiana a me segurar mais firmemente. Pude sentir seu olhar queimando em mim, mas realmente ignorei.
– O que houve com ela?! – Gritei.
Grandiel suspirou e ajeitou os óculos antes de se levantar e voltar-se para mim. Seu rosto estava sério, o que imediatamente me fez pensar que coisa boa não era.
– A escuridão do Pesadelo está tomando conta dela...
– O que você quer dizer?
– Ela... Está sozinha para enfrentar seus problemas.
Como eu queria dar um soco na cara daquele nerd imbecil. Apertei meu punho e olhei para Holy, que parecia estar simplesmente dormindo. Pressionei os lábios. Devia ter um jeito de conseguir falar com ela, ajuda-la... Sei que ela não vai escutar a qualquer coisa que eu diga aqui, pois está presa dentro da própria mente. Talvez...
– Grandiel... Você consegue abrir portais, certo?
O elfo soergueu as sobrancelhas, surpreso com a pergunta.
– Claro que consigo, mesmo sendo uma cópia do livro original, eu tenho poder o suficiente para criar um portal... Mas, não acho que seja seguro para um corpo passar por ele.
– Não vai ser um corpo que vai passar...
Edna me olhou assim como Grandiel me olhava de modo confuso. Suspirei e relaxei um pouco.
– Eu... Vou falar com o Zero da dimensão dela para que nos ajude e ajude-a.
– O que?! – O elfo exclamou, arregalando os olhos. – Você sabe que o que pede é simplesmente absurdo, não sabe?!
– Tem alguma chance de funcionar? – Perguntei.
Grandiel ficou quieto por alguns instantes me olhando pensativo e então suspirou, ajeitando os óculos enquanto abaixava a cabeça.
– Tem. Zero provavelmente deve ter a capacidade de conseguir se manifestar no subconsciente da Holy graças a mudança de corpo que realiza com sua própria arma, pressupondo que seja uma dimensão parecida com essa, claro. E creio que esteja querendo se comunicar com ele também para que ele possa dominar seu corpo aqui nessa dimensão...
Não pude evitar o sorriso. O filho da puta não possuía a cópia do livro da criação por nada mesmo... Bem, era de se esperar. Edna nos olhava meio confusa e simplesmente suspirei.
– Se eu continuar usando o corpo dele durante uma luta, eu posso matá-lo por causa do meu poder. O corpo mortal simplesmente não aguenta minha potência. – Sorri para Edna, soerguendo minha sobrancelha.
A asmodiana me encarou e me soltou logo em seguida. Fui com força no chão e senti meu corpo inteiro doer com o impacto. Mas que vadia!
– Você não presta. – Edna disse, cruzando os braços enquanto me encarava.
– Argh... – Fui me sentando lentamente e voltei a encarar Grandiel, tentando ignorar a asmodiana. – Então, o que me diz?
Grandiel parecia pensativo, mas, por fim suspirou e acenou com a cabeça.
– É possível.
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