Notas iniciais
obrigada a todo mundo que favoritou e também que está acompanhando a fanfic. desculpem-me pela demora, espero que tenham uma boa leitura

PARTE 2:

Quando ele vem,

nada o detém

Como havia previsto, Hinata saíra pela manhã e chegara antes do sol se pôr, mesmo fazendo algumas pausas durante o dia para que ela e o cavalo pudessem comer e beber. A jovem acabou se afeiçoando ao animal e pensou em dar um nome a ele, só não conseguia pensar em nenhum no momento; visto que sua família ficara toda para trás.

Tantos anos alimentando uma curiosidade tremenda, tantos anos pensando se aquilo tudo poderia ser real, tantos anos sonhando com o dia em que descobriria a verdade por trás dos contos… E ela estava ali, de cara com os enormes portões de ferro negro, surpreendentemente nem um pouco desgastados pelo tempo, e que se ligavam a gigantescas cercas vivas tão verdes como se não tivessem deixado de regá-las por sequer um dia em todos aqueles anos.

Seu coração estava acelerado em expectativa do que encontraria ao atravessar as grades negras, as quais tinham um emblema da família Uchiha — um leque dividido ao meio em vermelho desbotado por cima e branco amarelado embaixo. A entrada dava para um caminho de terra batida e, ao longe, bem ao longe, era possível enxergar o belíssimo castelo.

Hinata desceu do cavalo, levou-o consigo para perto do portão e vislumbrou um cadeado — tão grande quanto suas duas mãos unidas — fechado em volta de grossas argolas alaranjadas pela ferrugem. Sorte a dela que Neji preparou muito bem sua trouxa de ferramentas.

Antes de quebrar as correntes com um forte alicate, Hinata respirou fundo e reuniu ainda mais coragem.

É uma chama acesa

Sentada no peitoril de uma das mais altas janelas, estava uma gatinha de pelos negros e olhos incrivelmente de mesma tonalidade. Quem quer que visse aquele animalzinho com certeza acabaria se assustando, afinal, gatos de olhos pretos não existem em um mundo normal. Contudo, bem, podia-se dizer que dentro do castelo havia um universo completamente diferente do que podemos imaginar.

— O que é aquilo?! — a vozinha delicada disse com surpresa.

Logo atrás da janela havia uma longa mesa de mogno escuro totalmente entalhada à mão e, sobre ela, debruçava-se um amontoado de pêlos tão escuros quanto a noite sem estrelas.

— Itachi, vem aqui!

E aquele monte de pelos se ergueu, tornando-se duas vezes mais alto do que se mostrava quando debruçado, as pequenas orelhas voltando-se para onde vinha o chamado.

— O que foi, mamãe? — a fera indagou com a voz rouca e arrastada, como se não falasse há muito tempo.

— Ora, venha aqui, meu filho! — a gatinha disse mais uma vez, olhando para o filho de canto de olho. Ele se levantou bruscamente, quase derrubando a cadeira em que se sentava, e caminhou até a mãe — cada passo soando um baque abafado. — Está vendo ali? — Ela tentou indicar pela janela com a cauda felpuda.

— Mas o que… É… — Itachi franziu o cenho e semicerrou os olhos, tentando enxergar melhor os pontinhos que caminhavam pela estrada de terra longínqua.

Se Itachi não fosse uma criatura completamente avulsa naquele mundo, ele diria que o que estava vendo era impossível, e seria uma afirmação engraçada de se dizer já que nada era mais impossível do que o próprio castelo. Os orbes negros enxergavam o que parecia uma silhueta feminina com cabelos longos e escuros, vestindo um sobretudo marrom avermelhado e trazia consigo um enorme cavalo preto.

— Meu deus! — ele sussurrou, espalmando a grande mão peluda no vidro da janela, deixando-o ligeiramente abafado pelo frio que fazia do lado de fora.

— Não é Deus, não, Itachi. É uma garota — a mãe disse, abanando o rabo em movimentos ondulantes. A fera olhou para a felina, tão miúda, mas que conseguia domá-lo como ninguém.

— Mamãe. — Itachi passou as patas no rosto peludo, em um claro gesto de vergonha alheia. — Eu sei que é uma garota, só não entendo o que ela faz aqui… E como conseguiu atravessar os portões.

— Talvez esteja perdida. — A voz fininha soou e um miado dengoso escapou. — Vamos! Não perca tempo, precisamos arrumar tudo para ela! — Ela ficou nas patas traseiras e apoiou as dianteiras no tronco esguio de Itachi. Ele vestia um suéter azul marinho e calças de moletom.

— Você acha uma boa ideia abrigá-la? — quis saber ao pegar a pequena gata no colo, tomando cuidado para não machucá-la. Mikoto subiu pelo peito dele e aninhou-se no ombro largo.

— Mas é claro — disse, por fim. — Você não vê, meu filho? Ela pode ser nossa salvação.

O Uchiha limitou-se a revirar os olhos, de forma escondida da mãe, claro. A ideia de que alguém de fato pudesse se apaixonar por ele naquele estado chegava a ser cômica e profundamente triste. Respirou fundo e saiu de perto da janela, apenas a menção de uma humana fazia seu coração desatar a bater.

— Não me sinto preparado.

— Nós não temos mais tempo… — ela rebateu, lambendo carinhosamente os pelos atrás das orelhas felpudas dele.

Era verdade, faltava menos de um ano — aproximadamente seis meses para ser mais exato — para que as últimas pétalas caíssem e aquela era a primeira vez que alguém adentrava a propriedade. Talvez, só talvez… Balançou a cabeça de um lado o outro, tentando afastar os pensamentos e caminhou devagar para as escadas que davam acesso à entrada principal — existiam lances e mais lances. Passou a vida inteira se perguntando qual era a necessidade de tantos andares para uma família tão pequena.

Que assim fosse, eles preparariam tudo.

Hinata estacou em frente à porta gigantesca de madeira — certamente a entrada principal — que tinha diversas ramificações entalhadas e, em cada aba, o símbolo da família Uchiha. Havia chegado até ali através de uma escada curta e larga, cujos corrimãos foram moldados a fim de se parecerem com patas de leão; assim como as aldravas da porta pendiam da boca de um, desenhado em metal dourado. A arquitetura era tão bonita que parecia sair de um de seus livros preferidos.

Pensou em bater à porta com a mão fechada em punho, mas logo descartou a ideia e utilizou uma das argolas douradas do batedor — repetindo três vezes o gesto. Entretanto, nada aconteceu nos minutos que se seguiram; portanto, bateu de novo e, para sua surpresa, a porta se abriu. Não fora muito, a pequena fresta aberta lhe mostrava a escuridão na qual se encontrava o interior e Hinata hesitou por um segundo.

Estava sozinha, pois tinha amarrado o cavalo onde ele pudesse comer um pouco de grama, com muito frio e muito medo do que poderia encontrar ali dentro. Permitiu-se respirar fundo mais uma vez naquele dia antes de reunir ainda mais coragem para empurrar o resto da porta e, enfim, entrar. Não olhou para trás nem quando a porta se fechou sozinha, com receio do que poderia enxergar mesmo sem ter escutado nada.

Conforme sua vista se acostumava com a pouca claridade que entrava pelas vidraças atrás de si, Hinata pôde enxergar a decoração antiga e muitíssimo luxuosa. O hall de entrada estendia-se amplamente até um jogo de escadas que se dividia em outros dois lances em seu fim — um para a esquerda e o outro, para a direita. Abaixo de cada lance existiam dois pares de portas de madeira que deveriam dar para alguma espécie de salão ou antessala, ela presumiu.

Haviam dois portais, um a sua direita e outro a sua esquerda, que davam para outros ambientes: um parecia uma enorme sala de jantar, com uma longa mesa e pelo menos dez cadeiras em frente a uma lareira, obviamente apagada; o outro era uma sala de estar, pois tinha sofás, poltronas, mesinhas de centro por sobre tapetes chiques e também acomodava uma lareira.

Tudo parecia inacreditavelmente conservado e nem um pouco empoeirado, como se alguém limpasse o local todos os dias. Ou seria aquela uma das consequências da maldição? Não saberia dizer, claro, então postou-se a andar para o lado da suposta sala de estar, encontrando-a completamente vazia — como já era de se esperar. As janelas que não estavam cobertas pelas cortinas, deixavam entrar pouca luminosidade e, com isso, podia enxergar mais do que quando se encontrava no hall.

Seu coração encontrava-se deveras acelerado simplesmente pelo fato de estar ali, de ver com os próprios olhos a antiga moradia da família Uchiha… Porque tudo sempre pareceu um sonho distante; afinal, era só uma lenda, não era? Enquanto passava a mão pelo estofado vermelho do encosto de um dos sofás, constatando que era muito macio, Hinata percebeu: e se fosse, de fato, meramente uma lenda, um conto passado de pai para filho?

Levou a outra mão ao peito e espalmou-a ali, sentindo as batidas fortes da pulsação sanguínea. Mordeu o lábio enquanto erguia o olhar para ver acima da lareira, encontrando uma grande e envelhecida pintura, nela tinham três homens e uma mulher — certamente aqueles eram os membros principais dos Uchiha. Infelizmente não conseguia ver os rostos de nenhum dos homens, porque a pintura parecia ter sido rasgada por algum objeto muito fino exatamente sobre as cabeças. Via apenas o da mulher, que era belíssima e usava um vestido vermelho e dourado — destoando dos outros, que vestiam ternos pretos.

Bom, se tudo fosse mentira… Queria dizer, se tudo fosse apenas um antigo rumor, ainda poderia revistar o restante do castelo e descobrir o máximo possível.

Hinata não sabia, e nem sentia, mas estava sendo observada por quatro pares de olhos escuros. A grande fera escondia-se nas sombras, justamente no ponto cego da pouca luz das janelas, carregava a gatinha em seu ombro e ambos só esperavam a hora certa para aparecerem.

— Ela é linda, Itachii — Mikoto sussurrou, apertando as patinhas no ombro da fera.

— Sim, mamãe, a senhora já disse isso três vezes — Itachi tentou ao máximo murmurar de volta com sua voz tão grave e presente. — Shhh!

A garota tinha parado atrás de um sofá e olhava para a pintura que carregava tanta tristeza. Itachi a havia rasgado muitos anos antes, assim que sofreram a… Bem, assim que se tornaram o que eram naquele momento. Entretanto, arrependia-se amargamente de ter feito aquilo, pois não conseguia mais se lembrar tão bem dos rostos do pai e do irmão.

Imerso nesses pensamentos, Itachi estalou involuntariamente a língua no céu da boca e só percebeu que o fizera após escutar o som alto. Hinata arfou ao longe, virando-se rapidamente para a direção dele. Droga, pensou, ele precisava pensar logo em uma ideia para abordá-la antes que se assustasse. Mas Mikoto foi mais ligeira e desceu de suas costas, caminhando silenciosamente até a visitante.

— Ora, era só um gatinho! — disse para si mesma, soando muito aliviada. A gata miou e enroscou-se nas pernas de Hinata, o que fez a garota abaixar para acariciá-la.

Itachi tomou para si aquele momento como sendo o ideal para se revelar, por isso deu dois passos em frente de forma a deixar seu corpo exposto à luz. Ele soube que foi uma péssima ideia no instante seguinte, quando uma de duas enormes patas traseiras pisou com força no piso de madeira, fazendo um som forte e atraindo a atenção da jovem.

Ela ainda estava agachada, uma mão parada em Mikoto e a outra sobre um joelho, mas carregava a expressão aterrorizada que Itachi tanto temia. Ele conseguiu enxergar os olhos claros, tão diferentes dos que já havia visto, foscos pelo susto, as sobrancelhas arqueadas pela surpresa e os lábios entreabertos em um “O” mudo.

— Não tenha me- — o Uchiha não precisou terminar a frase, pois a jovem de cabelos escuros desfaleceu no segundo seguinte, caindo sobre o tapete.

— Parabéns, Itachi! Eu tinha tudo sob controle — Mikoto zangou-se, sentando-se ao lado da menina.

— E-eu achei que… — Deixou a frase no ar, aproximando-se de ambas. A mãe voltou a escalar seu grande corpo e a alojar-se em seu ombro direito.

— Achou errado — disse e deu-lhe uma mordida na orelha felpuda. Itachi reclamou, e Mikoto o mordeu de novo. — Vamos, pegue a menina e leve-a para um dos quartos! Depois vamos pedir que Minato cuide do cavalo e que Kushina prepare um jantar.

— Certo, mamãe. — Foi o que disse antes de abaixar e pegar o corpo leve da garota no colo.

Sentimentos vem

para nos trazer

Contrariando o que Itachi e Mikoto esperavam, Hinata não acordou para o jantar e acabou adormecendo até a manhã seguinte. Quando finalmente conseguiu recobrar a consciência, seu corpo ergueu-se de supetão, como se acabasse de sair de um pesadelo: suas costas estavam molhadas de suor, bem como a franja grudada na testa e a respiração ofegante.

Ela só tinha uma coisa em mente antes de acordar e consistia em uma figura muito maior que um homem comum, coberta de pelos muito escuros — uma espécie de juba em volta da cabeça —, grandes presas que ficavam para fora da boca… O que mais a assustava: olhos incrivelmente escuros; e o que mais estranhava: a criatura estava vestida. Naquele instante, Hinata não sabia dizer se havia sido, de fato, apenas um sonho. Não até abrir os olhos e perceber onde estava; ou melhor, onde ela não estava.

Era um quarto muito maior que sua própria casa, se fosse para ser sincera; tinha janelas grandes na parede oposta à cama, cobertas por grossas cortinas cor de vinho e bordas douradas; a cama na qual deitava poderia acomodar a ela e mais algumas pessoas, de lençóis e cobertores caríssimos de mesma cor da cortina, além de quatro travesseiros hiper confortáveis. Em frente à cama tinha um divã de madeira com acolchoamento vermelho e três almofadas; em cada lado da cama havia uma mesinha de cabeceira; à esquerda se encontrava a porta do quarto com uma penteadeira lindíssima de madeira do lado; à direita um armário com pernas moldadas no formato de uma ondulação vertical também era de madeira e jazia fechado.

A Hyuuga percebeu-se mergulhada em puro luxo, coisa que nunca imaginou algum dia chegar perto, e achava ainda estar sonhando. Repentinamente, a porta se abriu e um trolley de madeira passou por ela, parecendo rodar sozinho de encontro à beira da cama, e estava vazio até onde podia ver.

Bonjour! — Uma voz animada soou e Hinata inflou as narinas, balançando a cabeça de um lado ao outro à procura do dono. Quando voltou a olhar para o trolley, um grito atravessou sua garganta com o que encontrou: um pequeno candelabro dourado com perninhas, cabelos espetados e velas no lugar das mãos. — Ora, não precisa ter medo! — o ser disse e sorriu. Sorriu! Aquilo não poderia ser real.

— O-o quê?!

Bonjour, mademoiselle! — ele falou, fazendo uma reverência. — Eu me chamo Uzumaki Naruto e estou aqui para guiá-la.

— Me guiar para onde? — esganiçou. — Isso tudo é um sonho?

— A senhorita não se lembra? — O homenzinho dourado pulou do topo do trolley para a cama. — Ontem a senhorita chegou no castelo sozinha e acabou desmaiando no meio da sala de estar... — ele dizia e as lembranças voltavam com força à mente dela. — Meu senhor lhe trouxe para cá e esperávamos a senhorita para o jantar, mas acabou adormecendo até agora.

Hinata tentava respirar fundo com o choque de realidade que a estava assolando. Muito bem, a única conclusão plausível a que conseguia chegar: tudo era real. Os contos, os rumores, as lendas, fosse o que fossem, passavam uma história real e ela estava definitivamente no centro de tudo. Seu coração batia descompassadamente, não poderia ser! Olhou mais uma vez para o homem-candelabro e arregalou os olhos: ou estava sonhando com o que poderia ser a realidade dos contos ou aquela era, de fato, a realidade dos contos.

— Eu estou na mansão Uchiha? — indagou, semicerrando os olhos em dúvida.

— Sim, sim, senhorita. Inclusive, o seu cavalo está muito bem hospedado em nosso estábulo — Naruto respondeu e olhou para trás, como se procurasse algo. — Shikamaru?

— Estou aqui embaixo, esperando. — Uma voz distante retrucou.

— Por que não subiu? — o candelabro perguntou, andando até a beira da cama com as mãos-velas na cintura.

— Porque seria muito problemático ter que descer de novo — dissera o outro ser que Hinata não podia ver. — São oito e meia, se é isso o que você quer saber.

— Sim, era mesmo. — E riu. — Bom, senhorita, sei que tem muito o que pensar, mas nós precisamos descer neste exato momento. — Ele fez um gesto de quem apontava para um relógio de pulso imaginário.

— Descer para que? Para onde?

— Para tomar café da manhã, é claro. Meu senhor e minha senhora a esperam.

Depois de se arrumar mesmo que minimamente, Hinata acompanhou o jovem candelabro chamado Naruto e o outro ser chamado Shikamaru — que ela descobriu ser um relógio de mesa com direito a um pêndulo atrás de uma pequena portinha de vidro e tudo. A garota ainda tentava processar aquilo tudo e, se aqueles dois objetos — os quais deveriam ser inanimados — podiam falar e entendê-la, então aquele ser… Aquele ser que vira no dia anterior…

— Senhor Itachi, senhora Mikoto — Naruto e Shikamaru saudaram. — Apresentamos a senhorita… — E deram espaço para que Hinata completasse, visto terem esquecido de perguntar-lhe seu nome anteriormente.

— Hyuuga Hinata — completou.

— A senhorita Hyuuga!

Ela parou de andar no mesmo instante em que abaixou a cabeça para uma mesura e, ao erguer novamente o tronco, pôde constatar o que pensara antes: o ser que vira na noite anterior era deveras real. Tão real que lá estava ele: sentado na ponta oposta da mesa de forma que poderia vê-lo perfeitamente bem, vestindo o que parecia um robe azul escuro felpudo. E, ao lado dele, ela reconheceu o gatinho preto que enroscara-se em suas pernas.

— Olá, Hinata. — A voz era feminina e ela presumiu, então, que na verdade era uma gata. — Seja bem-vinda, querida. — Certo, se ela não havia surtado com um candelabro e, posteriormente, com um relógio falantes, Hinata com certeza não surtaria com uma gatinha que falava. — Venha se sentar conosco, deve estar morrendo de fome.

E, de fato, a barriga dela doía por estar vazia. Portanto, a Hyuuga caminhou a passos curtos até a cadeira da ponta oposta, ficando a apenas três pares opositores de cadeiras distantes do incrível ser e da gatinha. O lugar havia sido preparado para ela e poderia escolher qualquer coisa para ser servida, dentre sucos, café, leite; e para comer: pães, torradas, bolo, brioches. Seu estômago roncou alto e a gatinha riu.

— Eu sou Uchiha Mikoto, mãe desse grandalhão aqui, o Itachi — a gata disse. Estava sentada sobre a mesa, com uma tigela de vidro adornada com pedras brilhantes em frente, e seu rabinho de espanador ondulando. A fera nada dizia e nada demonstrava querer dizer, seus olhos tinham algo que as lendas carregavam de veracidade: eles tinham um brilho estranhamente triste. O coração de Hinata falhou uma batida ao constatar aquilo, mordendo o lábio inferior de forma involuntária.

— Pra-prazer em conhecê-los — gaguejou, buscando uma jarra de suco aparentemente de limão.

— O que faz aqui, senhorita Hyuuga? — Pela primeira vez, ela ouviu a voz grave e muito rouca, condizente com a estatura da fera.

— Isso são modos de tratar uma hóspede, meu filho? — Mikoto olhou feio para ele. — Desculpe, querida. Faz muito tempo que não recebemos ninguém e, bom… Itachi nunca foi muito bom com mulheres bonitas.

— Mamãe! — Itachi ralhou e Hinata segurou o riso.

— Ora, é verdade — Mikoto acentuou. — Então, querida — voltou-se para Hinata —, o que a traz aqui? Estava perdida?

— Na verdade não — a Hyuuga admitiu, esticando o braço para alcançar um croissant. — Eu vim por conta própria…

Mikoto soltou um gemidinho de surpresa e olhou de esguelha para o filho, como se dissesse que ela estava certa o tempo todo. Itachi revirou os olhos e continuou a comer uma baguete muito comprida recheada com peito de peru, queijo, alface e tomates. A gata caminhou até o filho a fim de subir pelo seu braço direito e seguir até o ombro, enquanto Hinata terminava de mastigar.

— E por quê? Não é muito perigoso para uma dama sair por aí, sozinha? — Dessa vez havia sido Itachi a dizer, Hinata sentia a hesitação na voz grave.

— Eu vim procurar a verdade por trás do conto da fera — respondeu com toda a coragem que ainda sobrara do dia anterior. — E não, o caminho até aqui foi bem tranquilo.

Itachi e Mikoto arregalaram os olhos escuros e se entreolharam, muito surpresos.

— O conto da fera? — Itachi quebrou o silêncio e riu sem graça. — E por acaso a fera sou eu? — Largou o pão que comia em cima de um prato e fechou as mãos em punho, as garras fincando na pele grossa da palma.

— B-bom… — Hinata engasgou com o suco. — Eu não sei, para falar a verdade. Vim aqui descobr-

— Que tal falarmos disso mais tarde? — Mikoto interveio, descendo do ombro do filho. — Vamos fazer um jantar e conversamos adequadamente, certo? Mais tarde Naruto levará seu almoço no quarto. — Hinata franziu as sobrancelhas. Por que não falar naquele instante? — Ah, estou muito curiosa para saber mais sobre esse conto da fera — a pequena gata finalizou e pulou da mesa para o chão. — Venha, Itachi.

A grande criatura levantou-se da cadeira, arrastando-a sem delicadeza alguma e seguiu a pequena mãe sem se despedir, deixando Hinata sozinha no ambiente. Não por muito tempo, pois Naruto e Shikamaru apareceram para fazer companhia a ela. O candelabro se sentou sobre um pote de manteiga e o relógio de mesa permaneceu em pé.

— Não me pergunte — Naruto começou, olhando a chama de sua mão-vela. — Pois eu sou apenas um candelabro.

— E eu apenas um relógio — Shikamaru se pronunciou.

Hinata permaneceu quieta e terminou de tomar seu café da manhã, sabia que eles estavam apenas querendo tirar a si mesmos de contexto. Com certeza ambos saberiam responder qualquer uma se suas perguntas, mas respeitaria se não quisessem. E ela percebeu também que os pequenos não comiam, apenas Mikoto e Itachi, o que era bastante plausível visto que se tornaram animais e não objetos inanimados. Entretanto, acima de tudo, ela ainda sentia como se estivesse vivendo um sonho.

Depois que voltou ao quarto designado a ela, Hinata encontrou suas coisas sobre a cama e, já que estava disposta a passar os próximos dias ali, decidiu que não haveria mal algum em guardar tudo no armário. Como não tinha muito — apenas algumas mudas de roupa; dois livros, o seu preferido e um de páginas em branco para ter onde escrever a história da fera; comida que não seria necessária; e ferramentas —, terminou rápido e se deitou na cama.

Seria possível eles terem se ofendido com o termo “O conto da fera”? Esperava que não.

A Hyuuga não tinha muito o que fazer e, como Naruto não havia aparecido de novo depois que lhe trouxera o almoço, pensou que seria desrespeitoso sair para explorar o local sem autorização. Era mais do que óbvio não ser capaz de fazer aquilo sozinha, afinal, o lugar era enorme e tinha receio de se perder. E se tivessem lugares que não poderiam ser visitados? Quais outros objetos — que deveriam ser inanimados — eram, na verdade, personificados?

Levada pela curiosidade, mais uma vez, ela pegou o livro em branco, o lápis que levara e começou a escrever. Registrou desde o momento que saíra de casa até aquele, em que estava prestes a ter um jantar com…

Um jantar com a fera.

Itachi e Mikoto passaram a tarde discutindo sobre Hinata e suas pretensões no castelo. A mãe insistia que ela poderia ser a solução para todos seus problemas e Itachi tentava a todo custo convencê-la de que aquilo não iria acontecer. Afinal, ele pensava, ninguém em sã consciência seria capaz de se apaixonar por um monstro horrendo como era. Em meio àqueles termos, entraram no assunto delicado que era o conto mencionado pela Hyuuga.

— Eu nunca ia imaginar que pessoas ficariam sabendo disso. — Itachi andava de um lado ao outro enquanto Mikoto permanecia sentada sobre a longa mesa.

— Eu também não, meu filho. E me surpreende ainda mais que ninguém tenha aparecido em todos esses anos para averiguar... — ela dizia e seus olhos mantinham-se perdidos em um ponto além da janela.

— E logo uma garota acabou aparecendo… — Ele parou de andar ao lado de uma janela e observou o anoitecer. — Sabe, pensando bem, eu não me surpreendo em nada que tenha surgido essa “lenda” — ele fez aspas com os dedos de garras afiadas. — Tsunade com certeza espalhou o boato para que as pessoas não viessem ao castelo.

— Ou para que alguém viesse, no fim de tudo — Mikoto concluiu, o rabinho serpenteando no ar. — Talvez ela ainda esperasse que uma pessoa acreditaria em suas palavras e viesse para acabar com a nossa maldição.

Itachi balançou a cabeça em discordância.

— A senhora é muito otimista, mamãe.

— Se você não acredita que um dia possamos sair desse feitiço, meu filho, eu preciso acreditar...

Às 19 horas em ponto, estavam os três de volta à sala do café da manhã para o jantar — ou banquete, aos olhos de Hinata. A garota ainda tentava não se surpreender com tanta beleza que aquele castelo tinha, era tudo muito lindo e perfeitamente colocado, como se tivesse sido milimetricamente planejado — algo que ela não duvidava. Certamente demoraria para se acostumar.

Naruto apareceu aproximadamente uma hora antes para mostrar a Hinata onde poderia se lavar e trocar de roupa, presumindo que ela gostaria de tomar banho depois de uma longa viagem. Talvez ele estivesse só um dia atrasado para lhe oferecer o banho, mas a garota não reclamou; eles a tratavam muito melhor do que poderia imaginar.

— Esperamos que você esteja se sentindo em casa, Hinata — Mikoto foi a primeira a se pronunciar, sua tigelinha cheia com o que parecia salmão cru.

— Sim, senhora Mikoto — a Hyuuga respondeu. — Os senhores estão sendo muito bons comigo.

— Por favor, me chame apenas de Mikoto — a gata pediu, abaixando a cabeça em um gesto singelo.

— Tudo bem, sen- Mikoto! — Hinata hesitou, suas mãos nervosas se contorcendo sobre o colo.

— Bom, agora você pode nos contemplar com a história sobre o conto que mencionou mais cedo? Enquanto nossos amados não trazem a comida de vocês — a mais velha foi direto ao ponto e a garota quase engasgou com o ar que respirava.

— Ah… — Hinata olhou para os lados e abraçou a si mesma, nervosa. — Não é uma história tão antiga, meu pai começou a contar para mim e meus irmãos quando ainda éramos pequenos… Bom, ele sempre começava dizendo… — Ela pareceu pensar um pouco, e então disse: — “Em uma noite muito fria e de tempestuosa neve, uma mulher de cabelos loiros e olhos âmbar adentrou a propriedade Uchiha com um único propósito: vingar a filha que tivera o coração estilhaçado pelo primogênito da abastada família. Antes que a tempestade de neve cessasse, ou que alguma pessoa pudesse se defender, ela invadiu o castelo e desferiu um feitiço sobre todos que lá viviam, transformando-os em objetos inanimados, e o causador da discórdia em uma monstruosa fera.”

Itachi se remexeu ao escutar a última palavra proferida pela jovem, que precisou respirar fundo antes de continuar.

— “Como punição por prometer amor e um futuro que jamais se concretizariam, a bruxa deu uma única brecha para que a maldição fosse quebrada: o filho mais velho — ou seja, a Fera — deveria conquistar a verdadeira paixão de alguma jovem. Pois só alguém de coração puro seria capaz de amar alguém tão monstruoso e libertá-lo da maldição. Dizem que a fera teria apenas quinze anos para consolidar o amor de alguém antes que a maldição se seguisse para a eternidade.” — Hinata terminou de contar com lágrimas nos olhos.

Não era exatamente o que o pai costumava dizer, entretanto, devido ao nervosismo, fora extremamente difícil se lembrar dos menores detalhes. E toda vez que pensava na dor que aquelas pessoas — ou seres, porque ela ainda não sabia o que realmente tinha acontecido — passaram por tantos anos, a Hyuuga chorava de soluçar. Aquela não havia sido uma exceção e as lágrimas já se preparavam para escorrer pelo rosto bonito.

Entretanto, uma gargalhada forte e muito alta reverberou por seus ouvidos, fazendo com que ela conseguisse, inclusive, sentir seu peito vibrando com o som. Itachi estava rindo o bastante para se sentir uma idiota, uma incrível idiota por ter contado aquela história. Por outro lado, não pôde deixar de se sentir aliviada, afinal, se ele estava rindo… Era por que tudo não passava de uma mentira, certo?

— É essa porcaria que as pessoas dizem lá embaixo? — ele perguntou no intervalo de uma das risadas. Mikoto permanecia quieta, com o rabo felpudo dançando pela mesa.

— Be-bem… Sim...? — A Hyuuga não sabia o que dizer, sentia-se uma tola.

— Eu achei bem interessante. — A gatinha mostrou as pequenas presas em uma espécie de sorriso. — Mas… E eu diria infelizmente… Isso não é verdade, querida, talvez nem um pedacinho. — E ela lançou um olhar por sobre os ombrinhos para o filho. — Itachi ficaria muito feliz em compartilhar nossa real história, não é mesmo, meu amor?

Itachi franziu o cenho e pigarreou, ajeitando-se corretamente na cadeira. Ele estava prestes a abrir a boca a fim de começar seu discurso quando a porta que dava para a cozinha se abriu e por ela passaram dois trolleys, os quais aparentemente andavam sozinhos. Logo atrás um dólmã branco com um grande chapéu flutuava sozinho, acompanhando o movimento dos carrinhos.

— Olá, Chouza — Mikoto disse, observando o aparente fantasma servir o filho. O chapéu se ergueu no ar, como se alguém o estivesse levantando, e Hinata entendeu aquilo como um cumprimento.

— Obrigado, Chouza — Itachi agradeceu, mas não tocou na comida.

— Obrigada, senhor Chouza — Hinata disse depois que o dólmã animado a serviu.

Em seguida, ele e os trolleys voltaram pela mesma porta que haviam entrado e o silêncio se acomodou à mesa. A garota quase salivava com o peixe assado em seu prato, o purê de batatas e os legumes salteados, mas precisava esperar que os anfitriões começassem a comer primeiro para demonstrar respeito.

— Você pode comer enquanto eu falo. — Itachi a tirou de seus pensamentos. E ele esperou até que a Hyuuga levasse a primeira garfada à boca para iniciar: — É verdade que fomos amaldiçoados, mas isso nada tem a ver comigo ter quebrado o coração de alguém. — Ela pôde ver o modo como a criatura segurou o riso.

— Itachi era a pessoa mais gentil que eu tive o prazer de conhecer em toda a minha vida, e não foi por eu tê-lo criado muitíssimo bem, não… — Mikoto interrompeu, lambendo a patinha. Hinata sorriu com o amor que a mãe falava do filho.

— Obrigado, mamãe — ele falou, erguendo a mão para passar um dedo peludo entre as orelhinhas dela. — Bom, nós não sabíamos o que estava acontecendo até o meu irmão mais novo contar… E o desgraçado ainda por cima nem contou tudo direito.

Itachi suspirou fundo com a lembrança.

— Tudo começou por volta de dezessete anos atrás, quando eu tinha dezoito e o Sasuke, quinze. Ele resolveu que seria uma ótima ideia se meter com bruxaria e procurou a mulher da floresta, essa tal loira de olhos âmbar que vocês mencionam na “lenda” — disse, fazendo aspas com os dedos. — Tsunade é o nome dela. E, por dois longos anos, Sasuke se encontrava com essa mulher num casebre no meio da floresta de Konoha para fazer sei lá o que. Ela ensinou diversas coisas ao meu irmão, e não eram nada boas para começo de conversa…

Ele olhou para a mãe, como se pedisse permissão para continuar. Mikoto balançou a cabeça, concordando.

— Como todo grande poder nas mãos de pessoas que não sabem controlá-lo, Sasuke sucumbiu e tudo passou a mexer muito com a cabeça dele. — Hinata ainda tentava comer e prestar atenção na criatura, mas tudo parecia tão inovador e interessante que ela acabava por esquecer. — Ele praticamente enlouqueceu, e tão jovem… Eu juro, se eu soubesse o que estava acontecendo, nada disso teria acontecido!

Fechou as mãos em punho, forte o suficiente para que as garras furassem suas palmas. Mikoto andou até o filho e pousou uma patinha sobre o braço dele, incentivando-o.

— Sasuke ficou insaciável, estava querendo mais e mais. Foi aí que ele contou tudo para a gente, mas já era tarde demais… Porque, naquela noite, meu irmão decapitou o próprio pai e usou o sangue dele para invocar… Invocar uma coisa das profundezas do inferno para que lhe concedesse poder suficiente para dominar o mundo... Como ele era uma criança inocente, não? — Itachi tinha aquele olhar cabisbaixo e sofrido que, Hinata lembrou naquele instante, era muito bem descrito pelos contos. — Aquele dia foi horrível, não existe uma palavra pior para descrever. Além de matar nosso pai, a invocação de Sasuke deu totalmente errado e o corpo dele se atrofiou no processo, além de nos transformar no que somos hoje.

As palavras de Itachi eram tão surreais que Hinata passou a preferir que a lenda fosse a história verdadeira. Os rumores haviam sido criados para encobrir uma realidade ainda pior e completamente sem volta; para esconder uma verdade horripilante, que parecia ter saído de um de seus piores pesadelos.

— Ele não resistiu, é claro… Procuramos a mulher da floresta, mas Tsunade não pôde fazer muita coisa. — Ele pigarreou. — É uma bruxa muito forte, entretanto, ela não pretendia levar sua magia para um patamar tão escuro quanto Sasuke. Ela não podia reverter a maldição por si só, então buscou meios de conseguir… — O olhar escuro se perdeu em algum momento de seu passado, deixando as pupilas contraídas e foscas.

— E… E ela conseguiu? — Hinata não sabia se perguntar aquilo era certo, mas a sua curiosidade, como sempre, era mais forte. — Ela conseguiu encontrar um método para reverter isso tudo?

— Como minha mãe disse, muita coisa não é verdade na história de vocês… Mas talvez nem tudo seja mentira… Essa, infelizmente, é a única parte que eu não vou poder te dizer se é verdade ou não, senhorita Hyuuga — ele respondeu e ela prendeu a respiração.

Ele estava dizendo que: um, não existia modo algum de reverter a maldição; ou dois, o que se conta nos rumores, sobre ele precisar conquistar a paixão de alguém, era ou não verdade? A garota hiperventilou por alguns segundos antes de controlar a respiração novamente, era muita informação para processar em um curto espaço de tempo.

— Agora que já sabe o que realmente aconteceu, você pode continuar a comer, senhorita Hyuuga.

E, com as mãos tremendo, Hinata levou um pedaço de salmão à boca.

Novas sensações,

doces emoções...

Notas finais
se for possível, comentem o que estão achando! ♥