O Conto De Zero Zephyrum

14 Especial! Uma noite de Halloween?


Notas iniciais
Demorei muito! D:
Peço desculpas pelo especial atrasado, foi bem difícil escrever ele (vide o seu tamanho) (~;w;)~
Enfim, espero que gostem D:
Agora, com licença, vou tirar alguns dias de férias, vejo-os depois. 83
Boa leitura! ♥

Pude sentir meu corpo novamente, depois de tanto tempo... Mas, estava tudo tão frio. Levantei-me devagar, estava de noite, e eu estava no que parecia ser um bosque, as árvores eram realmente altas, seus troncos enegrecidos. Levantei-me devagar, minha cabeça girava, me sentia tonto...

Olhei ao meu redor mais uma vez, tentando encontrar algum sentido no que eu via, mas... Eu realmente não fazia a menor ideia de onde estava. Será que aquilo era alguma obra do Grandark? Uma memória certamente não era...

Suspirei. Onde raios eu estava..?

Foi então que senti ser vigiado, por alguma coisa... Parei naquele mesmo instante, olhando por cima do ombro e pelo canto do olho para uma árvore atrás de mim. Havia um brilho branco ali atrás e pude ver uma espécie de asa branca.

- Quem está ai?

A asa recuou um pouco mais atrás da árvore, mas, lentamente o que quer estivesse ali começou a sair lentamente. Senti meu corpo paralisar ao ver aquela madeixa esverdeada, os olhos azulados com aquele brilho estranho em sua pupila e o rosto meio infantil... Sem me conter mais, me virei imediatamente. A figura continuou escondendo parcialmente seu corpo e rosto atrás da árvore negra.

- Holy, o que está fazendo?

Holy pareceu ficar surpresa com o que eu disse, arregalando os olhos e recuando um pouco atrás da árvore. Mas, logo em seguida voltou a sair um pouco mais, do jeito que estava antes.

- Eu não sou Holy... Eu me chamo Pequeno Anjo.

- Pequeno... Anjo? Por quê?

- Bem... – Ela sorriu meio sem jeito, olhando para o lado. – Eu sou um anjo muito novo ainda, e meu superior me manda fazer algumas tarefas para poder evoluir...

Estranhei aquilo... Um anjo? Que raça era aquela? Aproximei-me, e apesar do Pequeno Anjo ter se escondido novamente atrás da árvore, continuei andando até poder vê-la direito. Ela usava um vestido semelhante ao da Holy, mas o vestido inteiro era branco com um tecido por cima, sendo esse me lembrava duma teia de aranha cor de creme de tantos buracos. O cabelo da estava preso de um modo diferente, com o lado direito preso um pouco atrás da cabeça por uma espécie de asa branca pequena e brilhante, deixando a maior parte do cabelo jogado sobre seu ombro esquerdo, mas uma boa parte também estava nas suas costas, sem nenhuma madeixa sobre o ombro direito. Era estranho ver o rosto da Holy com cabelo meio enrolado também...

Ela usava botas brancas também, mas não estavam sujas de terra. Aliás, ela própria parecia emanar uma luz branca, meio... Relaxante.

O Pequeno Anjo estava um pouco recuado, suas asas estavam recolhidas junto ao corpo. Suspirei novamente.

- E por que está aqui então?

- Uhm... Eu estou aqui por você. – Ela emendou imediatamente, batendo os dedos indicadores enquanto olhava para o lado. – Ás vezes as almas se perdem de seus caminhos e caem nesse plano... Dai é a minha missão leva-las para seu plano correto.

- Espere... O que?

A garota encheu seus pulmões de ar e me olhou nos olhos pela primeira vez.

- Se-Senhor... Eu sinto lhe dizer, mas... Você morreu.

Fiquei encarando ela, sem saber o que dizer. O Pequeno Anjo continuou a me encarar até aquela cara convencida começar a ficar com a boca tremendo, as sobrancelhas se juntarem em preocupação e então ela quebrou novamente toda aquela onda. A garota imediatamente levou as mãos à cabeça.

- Ah, meu Deus! Espere, desculpe Pai por ter usado seu nome em vão. Ma-Mas, é... Senhor, sei que é difícil aceitar a morte, mas, como eu posso dizer... Eu estou aqui para ajuda-lo, então pode contar comigo então... Err... Pode comigo contar! Argh!

O Pequeno Anjo continuava com as mãos na cabeça, parecendo completamente confusa. Suspirei e levei a mão ao alto da cabeça dela. Imediatamente a garota parou, me olhando atordoada, com seu rosto avermelhando de leve.

- Não se preocupe, estou bem.

- A-Ah...

Afastei minha mão dela e comecei a andar. Fosse onde eu estivesse pelo menos eu me sentia livre daquele lugar... Mas, ainda tinha que encontra-la, cumprir minha promessa... Senti uma mão agarrar eu pulso, detendo meu avanço, e ao olhar para trás, vi que era o Pequeno Anjo.

- Espere!

-... Mas você já me parou.

- Ahm? – Ela balançou a cabeça, me puxando para perto. – Não! Err... Eu não posso te deixar saindo por ai! Eu tenho que te levar para seu plano!

Suspirei. Podia não ser a Holy, mas era insistente igual.

- Mas eu não quero voltar para lá.

- O que?

- Eu sou um escravo, Anjo. E o pior é que sou um escravo da minha própria arma... Eu não sou forte para lutar e por isso...

Apertei meus punhos, olhando para baixo. Sim... Tudo isso era por que eu não era forte. Eu podia tê-lo derrotado, mas... Não consegui. Por que eu era tão inútil? Por que nunca conseguia fazer as coisas direito?

- Mas... Se você está aqui, é por que ainda tem algo que você quer do seu plano.

Levantei meu olhar para ela, estranhando o que ela falava.

- O que eu iria querer de lá?

O Pequeno Anjo soltou meu braço, olhando para cima pensativa.

- Bem... Normalmente os motivos são... Posses... Raiva... Ou uma pessoa.

Olhei para aqueles olhos azuis e não pude conter um sorriso. Mesmo longe de mim você parece sempre dá um jeito para ficar perto, como prometemos... O Anjo me olhou, ainda meio confusa.

- É algo assim?

- Sim... Existe uma pessoa... Eu prometi uma coisa para ela... Mas eu quebrei essa promessa.

Fechei meus olhos. E se Holy já tivesse acordado e descobrisse que sai da Grand Chase? Que eu a abandonei quando mais precisava? Não... Ela não iria me perdoar. Eu sequer consigo me perdoar, por que ela o faria?

Foi então que senti mais uma vez meu braço sendo puxado, mas dessa vez minhas mãos foram envolvidas pelas mãos do pequeno anjo. Eram quentinhas e macias... Olhei para aqueles olhos azuis mais uma vez, mostrando uma verdadeira determinação.

- Não desista! Eu sei que essa pessoa quer te ver novamente! Então... Você deve voltar!

- Como você sabe?

Ela recuou um pouco, aliviando a pressão que aplicava em minha mão e olhou para baixo, meio hesitante. Foi então que voltou o rosto para mim mais uma vez.

- Eu... Sinto. Por isso você não deve desistir! Por favor, venha comigo! Eu vou te levar até ela.

Suspirei. O que tinha a perder?

- Certo, vamos.

O Anjo me guiou pelo bosque até sairmos numa espécie de estrada... A terra era roxa, e a lua cheia brilhava no céu escuro da noite. Uma cerca enegrecida e de metal com flechas nas pontas delimitava a estrada e o campo que seguia até onde os olhos podiam alcançar. Mas, nenhuma grama crescia naquela terra morta.

A garota suspirou, olhando ao redor.

- Droga... Vai demorar chegarmos... Seria melhor se eu pudesse falar com a Ley.

- Quem é essa?

- É um... Demônio. Ela cuida dos portais por esse reino.

- Entendi... – Suspirei, sem realmente me importar com tudo aquilo.

- Meu chefe não vai gostar muito disso, mas... É necessário.

Estranhei ela ter dito aquilo, virando meu rosto para ela.

- Por que ele não gostaria?

O Anjo sorriu meio sem jeito, olhando para o lado enquanto batia os dedos indicadores.

- Anjos e Demônios não se entendem direito... Quer dizer, os anjos normalmente fazem de tudo para trazer as almas para o céu e os demônios tentam perverte-los para se tornarem demônios também...

Estranhei aquilo. Parecia ser uma relação verdadeiramente tumultuosa e complicada... O Pequeno Anjo continuou meio hesitante, batendo dos dedos e olhando para os lados inquieta.

- O que foi?

- Ah! – Ela arregalou os olhos para mim, assustando-se, riu sem graça em seguida. – É que não podemos falar sobre isso... É contra as regras.

- Então por que está falando?

A garota me olhou estática, sem saber o que responder e com a boca aberta por causa disso. Pude notar seu rosto ficando cada vez mais vermelho. Cruzei meus braços, sem entender tudo aquilo. Ela era parecida com a Holy quando a conheci... Uma bola de luz surgiu repentinamente atrás do Anjo, se aproximando devagar. Instintivamente levei a mão às costas para pegar Grandark, mas quando senti minha mão apalpar o ar, senti um desanimo enorme se aplacar sobre mim. Eu ainda era dependente da mesma arma que me reduziu.

Mas, para minha surpresa a garota se virou para a bola de luz, exibindo um grande sorriso.

- Hugin, que bom que voltou!

A bola de luz emitia uma espécie de aura azulada, e entrou no peito do Pequeno Anjo. A garota ficou de olhos fechados e com as mãos sobre seu coração, mas após alguns segundos ela afastou as mãos, com um olhar preocupado.

- Stein está passando dos limites... Mas, que bom que ela conseguiu escapar. – Um brilho contente surgiu em seus olhos. – Tenho que contar isso para meu superior. Mas antes...

O Pequeno Anjo se voltou para mim e pegou em minha mão.

- Aonde vamos?

- Vamos falar com a Ley.

-x-

Andamos por um bom tempo. Diversas vezes vi outras daquelas bolas de luz que, o Anjo me explicou que eram almas perdidas.

- Por que não os ajuda?

Ela hesitou um pouco para responder aquilo, abaixando o olhar.

- Não tenho permissão...

Sei que... Ela parece não gostar do que faz. Apesar de que eu não entendo exatamente isso, sei que a Holy entenderia melhor. Ou até mesmo o Grandark. Droga, eu sou um inútil.

Enquanto estava pensando, o Anjo parou subitamente e olhei para frente novamente, vendo uma parede de árvores altas... Mas, elas pareciam ter rostos em seus troncos. A garota bufou, irritada.

- Raposa, apareça!

Segundos de silêncio se estenderam, iria tocar o ombro dela e perguntar o que estava tentando fazer quando um par de olhos vermelhos apareceu flutuando no escuro logo abaixo deles havia um sorriso grande. Aquilo... Era realmente possível?

- Olá, olá, o que posso fazer por você hoje? – A boca se mexeu, mesmo que um rosto não estivesse ali.

- Asin, não agora vai... Eu tenho que ver a Ley urgente.

- Ora, mas bem que você pode responder qual é a sua pressa.

- Eu tenho que ir falar com a Ley, e sei que ela não gosta de conversar durante o chá da meia-noite.

- Heh... Vejo que está melhorando pequena, me pergunto por que ainda não te promoveram ainda...

- É claro que sabe. – Pude notar um tom furioso no tom de voz da pequena.

- Não precisa se estressar, és um anjo, não? – Os olhos se viraram para mim, piscando. – Que bom que decidiu acatar meu conselho de não andar sozinha por ai.

- E-Ele não é minha companhia! Que-Quer dizer, é, mas bem... Enfim! Esse é o Zero, ele é a missão de hoje. – Ao terminar de dizer, espere ai um momento.

- Como sabe meu nome? – Virei imediatamente para o Anjo, surpreso.

Ela se virou meio sem jeito, mas quando foi responder, a boca flutuante de Asin falou antes.

- Ela é um Anjo Rastreador, ou pode chamar apenas de Anjo de Guarda temporário, mas não diga isso na frente deles, eles odeiam esse título. Heh...

A garota se virou imediatamente para os olhos, não sei se ficou irritada ou não. Voltei minha atenção para aqueles olhos, aguardando o resto da explicação, mas para minha surpresa... Eles haviam desaparecido. Olhei ao redor, tentando entender o que havia acontecido. Ele foi embora?

- Aqui, senhor e senhorita. – A voz veio do alto de um galho, e quando olhei vi que era um garoto sentado na árvore, de cabelos brancos e com uma espécie de roupa oriental, tendo orelhas azuis parecidas com o de um felino no alto da cabeça, assim como uma cauda felpuda azulada balançando livremente, notei que eram os mesmo olhos vermelhos. – Bem, como eu dizia, nosso pequeno anjinho é um anjo rastreador, eles têm a missão de procurar por almas perdidas especificas por todos os reinos dos espíritos, e logicamente que eles possuem informações deles, idade, gênero, familiares, nome... O que aconteceu é que sua alma veio justamente parar aqui.

- E onde eu estou?

O garoto sorriu, pulando do alto da árvore, mas antes que chegasse ao chão ele desapareceu novamente. Olhei ao meu redor, procurando por seu novo lugar. Deparei-me com ele deitado de bruços a minha esquerda, na altura do meu rosto, apoiando a cabeça com a mão enquanto balançava as pernas no ar.

- Tem muitos nomes para esse lugar... Limbo, inferno, terra dos mortos... Eu prefiro o nome que os anjos usam: Anel.

- Por que Anel?

- É um motivo bem simples--...

- Aaaaah! – O Pequeno Anjo gritou, claramente irritada. – Chega de papo! Eu tenho que falar com a Ley!

O garoto riu, apoiando a cabeça com ambas as mãos, mas parou de balançar as pernas.

- Calma, pequenina, eu acho que não queremos que... – Antes de terminar a frase, o garoto empurrou a cabeça para cima, arrancando-a do lugar facilmente e a jogou para frente, sua cabeça deslizou como se estivesse numa pista lisa até parar na frente do anjo. – Perca a cabeça.

A cabeça riu enquanto o anjo continuou a encara-lo de maneira irritada, em seguida desaparecendo. O corpo se movimentou sozinho, colocando os pés no chão e cruzando os braços.

- Que tal uma pequena charada? – A voz ainda vinha da direção do corpo, mesmo que sem cabeça.

- Desde que nos leve para Ley, tudo bem.

- Muito bem! – O corpo do garoto começou a andar, gesticulando com as mãos enquanto falava. – Se você andar para frente você vira à direita, mas se você virar a direita você vai para trás.

O corpo do garoto desapareceu e atrás dele surgiu um caminho. Olhei ao redor, vendo que estávamos cercados por aquelas árvores com rostos, exceto pela nossa direita, esquerda, frente e trás, onde longos caminhos surgiram.

Quando voltei a olhar para frente, o rapaz estava de pé com a cabeça de volta no lugar, sorridente.

- A sua esquerda existe uma espada, enquanto logo atrás uma multidão te persegue. Escolha o caminho certo, ou o rosto perderá.

Ao terminar de dizer a charada, o rapaz desapareceu no ar. Suspirei.

Mas o que raios tudo aquilo significava?

- Certo... Não podemos virar a direita. – O Pequeno Anjo falou, suspirando.

Olhei-a surpresa, sem entender aquilo.

- Por quê?

- Se virarmos a direita vamos para trás, ou seja: a multidão nos alcançara.

- O que tem demais nisso?

- Vamos perder nossos rostos. – A garota olhou ao redor. – Vamos para frente primeiro.

Observei-a andar naquela direção sem nem mesmo pestanejar, mas, quando ia atravessar as árvores, ela desapareceu no ar.

- Mas... O que?

Andei naquela mesma direção. Bem, a missão dela é me levar ao meu destino. No meu destino, está a Holy... Eu preciso ir, mesmo que... Eu não entenda exatamente o que está acontecendo. Andei naquela direção, senti uma sensação estranha ao atravessar aquele exato ponto que ela atravessou, e enfim pude vê-la novamente, parada e de frente para mim, com as mãos atrás do corpo, sorrindo. Por que me sinto mais leve de ver o rosto da Holy sorrindo?

- Que bom que veio! Agora... – Ela olhou ao redor, parecendo em dúvida. – Uhm... Se formos para trás, acho que vamos para a direita... A esquerda é simplesmente esquerda, mas... Não acho que devemos ir ali ainda. Certo!

Ela voltou-se em minha direção mais uma vez, mas dessa vez andou diretamente até parar diante de mim, colocando as mãos em meus ombros e me fez virar em direção ao caminho que vim. Estranhei e olhei de canto para ela.

- Mas, vamos voltar por ai.

- Não vamos! Aquela raposa bobona só gosta de pregar peças para confundir as pessoas... Acredite em mim!

Pressiono meus lábios, mas aceno positivamente com a cabeça, decidindo seguir aquele caminho. Novamente sinto aquela sensação estranha, e ainda sinto as mãos dela em meus ombros. Sem perceber me sinto aliviado...

Continuamos andando até o centro daqueles caminhos, mas, dessa vez a nossa esquerda está coberto por arbustos espinhosos. O Anjo andou naquela direção sem nem mesmo hesitar. Engoli seco e imediatamente segurei seu braço para que não fosse. Ela virou o rosto em minha direção, claramente confusa sobre o que eu fiz.

- O que foi?

- Não dá para ir ali! Está cheio de espinhos!

O Anjo simplesmente sorriu para mim, como se estivesse se divertindo com alguma coisa... Por fim ela se voltou para mim mais uma vez e soltou a minha mão do seu braço. Senti um medo repentino, de que tivesse feito algo errado e a tivesse irritado, mas, diferente do que imaginei ela segurou minha mão, dando um sorriso.

- Não vamos nos machucar, certo?

- Mas...

- É uma ilusão.

- O que?

O Anjo deu um risinho, começando a andar de volta de encontro aos arbustos de espinhos. Não queria correr o risco de que ela se machucasse, mas... Se ela e Holy eram tão parecidas quanto eu imagino, sei que ela não está mentindo. Reunindo um pouco de confiança, sigo a garota.

A cada passo que damos em direção do caminho escolhido, eu olho ao meu redor e enfim percebo que a quantidade de rostos nas árvores haviam aumentado e até mesmo pareciam se mexer lentamente, abrindo mais a boca, os olhos vazios se arregalando ainda mais como se estivessem em um suplício sem fim. O formato das árvores se tornara mais retorcido, subindo em direção ao céu como se fossem labaredas gigantes. À medida que eu continuava olhando para aqueles rostos eles pareciam adquirir ainda mais vida, ao ponto de que lentamente pude começara e escutar seus gritos ecoando dentro da minha mente e a escuridão parecia me envolver novamente. Foi então que uma luz forte brilhou em meus olhos e desviei o olhar, cobrindo meu rosto por reflexo.

A luz foi diminuindo e aos poucos consegui abri os olhos novamente. Quando enfim pude enxergar novamente, vi que o Pequeno Anjo estava parado na minha frente, séria.

- Não olhe nos olhos dos mortos, Zero. Eles podem te levar.

- De-Desculpe.

Ela relaxou os ombros e suspirou aliviada, se virando para mim em seguida com um sorriso nos lábios.

- Tudo bem, o importante é que você não está machucado. – Então a garota voltou a segurar minha mão, sorridente. – Vamos, falta pouco!

Quando voltei a olhar em direção ao caminho, estávamos a poucos passos dos arbustos. Respirei fundo, sentindo certa inquietação e olhei-a novamente. O anjo retribuiu meu olhar, sorrindo de modo confiante. Apertei de leve sua mão e acenei positivamente com a cabeça, terminando o percurso.

Assim que atravessamos o terceiro arco de árvores e senti aquela sensação estranha passar pelo meu corpo mais uma vez, os arbustos de espinhos começaram a ter seus galhos cortados por uma espada invisível e veloz, impiedosa. Os arbustos foram cortados até sobrar praticamente nada do que um dia eu havia visto como um desafio, desaparecendo lentamente para então o caminho revelar uma espécie de clareira onde havia uma casa gigantesca feita de pedras. Creio que isso é o que chamam de mansão...

O Anjo deu um pulo contente.

- Finalmente! Vamos, a Ley está lá dentro!

-x-

Assim que nos aproximamos da mansão, notei que as plantas do jardim, que construía toda a elegante entrada, possuíam folhas, apesar de estas serem arroxeadas num tom escuro. Pequenas árvores montavam o caminho em direção das portas principais, que eram elegantemente esculpidas com figuras semelhantes aos asmodianos onde suas mãos no centro das portas. Soergui minhas sobrancelhas, notando que os chifres daquelas figuras se projetavam para fora da porta como peças douradas.

O Pequeno Anjo parou a cerca de um metro da porta e estendeu a mão para que eu parasse também. Obedeci seu comando.

- Guardiões Duel e Edna, manifestem-se diante de mim!

Espere, ela disse Duel? As figuras começaram a se movimentar lentamente após as palavras do Anjo, seus rostos e torsos foram se descolando da porta, adquirindo traços, bocas e olhos mais detalhados, ganhando vida própria. Uma das figuras tinha um torso musculoso, o rosto era claramente masculino e, assim que terminou de sair da porta, reconheci os traços do Duel, meu alvo. A figura da direita, do contrário, seu torso possuía proeminências bem fartas, os traços eram realmente delicados, mas ao subir para seu rosto notei que, apesar de parecer uma figura verdadeiramente bela, sua feição possuía um tom destemido com um sorriso nos lábios. As duas figuras abriram os olhos e seus globos brilharam; o que se assemelhava a Duel tinha os olhos em um tom roxo-azul escuro, enquanto a outra figura mais feminina tinha os olhos num tom roxo-rosado.

- Quem vem lá? – Indagou ambas as figuras.

- Lime Serenity, o Anjo Rastreador.

A figura feminina deu um risinho, aparentemente contente ou achando graça de algo.

- Lime? Você vem vindo aqui com muita frequência, minha cara... Mas, sinto outra presença com você, semelhante aos demônios, mas... É diferente de tudo que já senti.

- Quem és tu? – Indagou a figura masculina, em um tom sério.

Continuei quieto e olhei para o Anjo. Ela retribuiu o olhar e estendeu a mão para as figuras, inclinando a cabeça de leve para o lado. Voltei a olha-los.

- Me chamo Zero.

- Zero? Igual a criação do Stein? – A figura feminina deu uma risadinha. – Interessante!

- Mas, apenas deixamos você passar, Lime, pois tem a confiança da Senhora. O que acha que garante que ele pode passar? – Falou o parecido com Duel.

- Ele é minha missão, eu me responsabilizo por ele.

- E se ele tentar matar nossa Senhora?

- Ele não iria tentar isso! – Lime, o Anjo, parecia ter ficado irritada ao ouvir aquilo.

- O que garante?

Enquanto os três permaneciam a discutir, um barulho chamou minha atenção. Voltei minha atenção para a origem do som, me deparando com um morcego de pé em uma das árvores, me olhando diretamente. Mas... Seus olhos eram verdes e brilhavam.

- Sente isso, Edna? — Perguntou a figura masculina.

- Sim, parece que ele também está aqui. – A figura feminina suspirou. – Grandark, sabemos que está aqui!

O morcego chiou mais uma vez, alçando voo e quando chegou ao lado da Lime, o animal fechou as asas ao seu redor e começou a crescer, suas asas se tornavam cada vez mais maleáveis enquanto o seu volume corporal aumentava. Até que então, quando aquela figura atingiu minha altura, suas asas se abriram com o som de um tecido sendo movido e sua face se revelou. Arregalei meus olhos por debaixo da máscara, sem acreditar no que estava vendo.

- Grandark?!

O homem de olhos verdes brilhantes, com uma pupila amarela fina e cabelos espetados para trás num tom verde-escuro e a franja cobrindo parcialmente seu rosto, virou-se para mim com um sorriso sádico nos lábios.

- Pode me chamar de Senhor da Destruição se quiser.

Temi que ele fosse me levar de volta para o exilio na escuridão ou que até mesmo Lime estivesse em risco no momento, mas... Ele sequer parecia reconhecer-me. Dei um passo para trás, por segurança. Ele continuou me olhando, aparentemente meio confuso sobre o que eu estava fazendo, mas deu de ombros e voltou-se para o Anjo.

- Como vai, pequena? Hoje eu vi alguém muito parecida com você, até achei que tivesse aceitado meu convite!

A garota bufou.

- Eu não vou ceder meu sangue, Grandark.

O homem suspirou aparentemente decepcionado, apesar de continuar sorrindo.

- Claro que não, se fosse fácil assim... – Repentinamente Grandark se aproximou bruscamente do Anjo, parando alguns centímetros do seu rosto. – Não teria graça.

Senti raiva de ver aquela cena e, mesmo sem entender direito o que estava acontecendo, segurei os ombros da garota e puxei para junto de mim, afastando do Grandark enquanto o encarava. Ambos me olharam surpresos, sem entender o que eu fiz, mas imediatamente ele riu, ajeitando a postura.

- Certo, certo, entendi o recado! Mas não pense que vou desistir.

- O que você está fazendo aqui? – Lime indagou, sem afastar minhas mãos dos seus ombros.

- Bem... Zero fugiu de casa e achei que seria sensato te procurar, uma vez que vocês dois são tão unidos, provavelmente ele iria te procurar, porém... Vejo que encontrei outra coisa.

- Estou tentando leva-lo de volta para o reino dele.

- Então esse é o motivo? – A figura masculina na porta falou novamente, chamando nossa atenção. – Por que não disse logo?

- Mas eu disse!

- Eu não lembro ter dito especificamente que tinha que leva-lo de volta... – Respondeu a figura feminina.

O Anjo respirou fundo, passando a mão no rosto. Aquilo era estranho... Como era mesmo que a Holy me explicou sobre situações assim? Engraçado? Só sei que provavelmente devo estar executando o sorriso. Lime afastou a mão do rosto e olhou para as portas.

- Deem passagem!

As figuras da porta se entreolharam e fecharam os olhos, voltando para dentro dos seus lugares. Quando terminaram de fundir novamente com as portas, suas mãos, que antes estavam unidas, se soltaram e enfim as portas duplas se abriram.

Demos de cara com um demônio, como eles chamam, bem alto e musculoso, com cabelos branco amarrados e uma barba rasa. Ele estava curvado e usava roupas semelhantes ao de um mordomo. Após alguns segundos, o demônio voltou a ficar ereta e colocou os braços atrás do corpo.

- Sejam bem-vindos a mansão dos Crimson River.

-x-

O demônio, que se apresentou como Jeeves, nos guiou pelos corredores da mansão até chegarmos diante de uma porta ricamente entalhada com labaredas e com peças de ouro encaixadas na porta. O mordomo abriu a porta e se curvou, dando passagem para nós.

O quarto que entramos agora era grande, mas estava bem escuro. Algumas labaredas roxas estavam espalhadas pelo ambiente, criando o mínimo de iluminação. Assim que meus olhos se acostumaram com a escuridão, pude ver que havia uma cama gigantesca no centro do quarto, onde corpos se remexiam lentamente. Olhei para Lime, ela havia desviado o olhar para o chão, e quando olhei para Grandark, ele parecia... Bem animado.

- Senhorita Ley... – O mordomo falou, posicionado um pouco na nossa frente.

Os corpos pararam de se movimentar e pude escutar o som de alguém reclamando. Uma das pessoas que estavam ali se levantou, usando o lençol para cobrir parcialmente o corpo. Era uma mulher, e pelo o que eu conseguia ver, parecia ser muito parecida com a figura feminina da porta...

- Quem são eles, Jeeves?

- Senhorita Ley, esses são Lime, Zero e Grandark. Eles estão aqui par--...

- Não posso mais abrir portais. Agora saiam.

- O-O que?! – O Anjo se manifestou, claramente atordoado. – Mas nem falamos o que queríamos!

- Todos querem portais, é só por isso que vem me visitar.

- Bem... Devo dizer que seu companheiro não veio aqui por causa de portais... Certo, foi por algo parecido, circular e--...

- Fica quieto, Grandark! – O Anjo gritou e, pelo o que pude ver, seu rosto estava vermelho.

Pude escutar a mulher dando um riso, se ajeitando para ficar sentada na nossa frente enquanto jogava o cabelo para trás.

- Muito bem, pelo menos temos um não tão verme entre vocês. Mas isso é irrelevante no momento...

- Fico contente por não me considerar um verme, senhorita Ley. – Comentou Grandark, sorrindo. – Até por que, quem está mais próximo aqui de ser um verme é você.

Pude vê-la, mesmo no escuro, fazer uma careta ao ouvir aquelas palavras.

- Se querem um portal, por que não falam com esse morceguinho de araque?

- O que? Mas... Ele é apenas um vampiro!

Grandark riu ao ouvir as palavras do Anjo, e acabou olhando para baixo. Quer dizer então independentemente de onde eu estou ele vai continuar tendo aquela quantidade de poder? Isso é realmente... Desestimulante.

- Eu não sou apenas um vampiro, mocinha! – Grandark disse. – Eu sou O Vampiro! O Rei da Noite! O Original! O Amaldiçoado!

- Se podia então abrir o portal, por que não o fez mais cedo? – Indagou Lime, ainda abismada.

- Por que você, um anjo, anda com demônios e com o renegado de Deus?

Lime olhou para Grandark durante alguns segundos, boquiaberta e claramente sem resposta. Olhei para o “vampiro”, me perguntando o que ele estava querendo dizer com tudo aquilo, mas ele simplesmente sorria. Como assim renegado de Deus? O Pequeno Anjo suspirou, abaixando os ombros.

- Eu só estava querendo ver até onde vocês iam. – Justificou Grandark logo em seguida, risonho. – Muito bem, para onde ele tem que ir?

Imediatamente Lime apalpou o próprio corpo, procurando por alguma coisa até que, tirando de um bolso oculto na saia, um pequeno papel dourado. Ela o abriu.

- Dimensão de Ernas.

- Certo, abram espaço ai um pouco.

Formamos um semicírculo com Grandark na nossa frente. Olhei para Lime, ela parecia meio nervosa ou até mesmo... Triste. Acho que era esse o sentimento que me explicaram. Quando iria perguntar o que havia de errado, escutei Ley reclamando.

- Vocês vão abrir um portal, aqui, no meu quarto?!

- Sim. – Respondeu Grandark, impassível.

- Mas não!

- Olha minha cara de quem se importa.

Enquanto o riso do Grandark começou a ecoar pelo ressinto, uma fissura se abriu diante dos nossos olhos, com um brilho esverdeado ao seu redor. Não que seja um mistério para mim esse tipo de coisa, o Olho Maligno consiste com ele viajando para Elyos e então ressurgir em Ernas para atingir nossos oponentes*...

- Espere... Você pode REALMENTE abrir portais interdimensionais?! – Gritou Lime, ainda abismada.

- Claro que sim. – Respondeu o vampiro de modo impassível, suspirando. – Se eu não criasse, os humanos saberiam facilmente da minha existência e eu não poderia mais me alimentar. É bom variar de restaurante.

Olhei para aquela fissura negra. Foi uma aventura breve em outro mundo... Mas, sei agora que eu tenho que voltar, tentar lutar, mesmo sendo fraco como sou... Fizemos uma promessa. Senti uma mão tocar meu ombro e olhei para o lado, vendo que o pequeno Anjo se aproximou, com um sorriso nos lábios. Foi então que ela ficou na ponta dos pés e aproximou o rosto do meu, encostando os lábios na minha bochecha e então se afastou, colocando as mãos atrás do corpo.

- Um beijo de anjo para iluminar seu caminho! – Ela sorria, de forma calma. – Vá para seu destino.

Acenei positivamente com a cabeça e entrei no portal.

Era hora de voltar.

Notas da Autora:

*“[...]o Olho Maligno consiste com ele viajando para Elyos e então ressurgir em Ernas para atingir nossos oponentes”: Essa é apenas uma teoria.

Notas finais
Admito que a música que me inspirou foi essa daqui:
http://www.youtube.com/watch?v=P12WoHe-sTE

Até a próxima x3