O Conto Da Encruzilhada
1 Capítulo 1
Há muito tempo atrás, em uma encruzilhada não muito longe daqui, Dayane Ryan decidiu que mudaria completamente sua existência pacata. Ela pesquisou durante meses seguidos as lendas sobre o demônio das encruzilhadas e decidiu verificar sua autenticidade, sem se importar com o preço que iria pagar.
Outubro, sexta-feira 13, noite de lua cheia. Noite perfeita para um encontro com o mau. Essa foi à noite escolhida para visitar a encruzilhada – “A noite perfeita” como disse Dayane.
Dayane foi até uma encruzilhada longe da cidade, com sua caixinha de pedidos nas mãos.
Segundo lendas, coloca-se na caixa objetos de sorte, como um pé de coelho preto, uma ferradura e uma folhinha com um ritual de invocação e os seus três pedidos.
E foi isso que Dayane fez. Ela abriu um buraco na encruzilhada e enterrou sua caixa com algumas palavras em latim e seus pedidos:
1º Aprender a tocar violão;
2º Tirar boas notas;
3º Que o amor de sua vida a correspondesse.
Pedidos que qualquer adolescente faria.
Durante anos ela teve tudo o que desejou. Suas habilidades em tocar violão aumentaram repentinamente, assim como suas notas. Tudo ia bem. Gary, o amor de sua vida, a pediu em casamento uma semana depois.
Mas, no fim de cinco anos, cinco longos anos de casamento Gary morreu dilacerado por lobos.
Depois disso a vida de Dayane mudou completamente. Ela não tinha mais vontade de tocar ou ir para a faculdade. Dayane começou a fumar e perdeu o emprego, tudo estava dando errado.
Mas, lembremos que coisas ruins acontecem a todos. Dayane não fez nenhuma conexão o que fez há anos atrás.
Dayane estava prestes a ser despejada de sua casa por não pagar o aluguel, até que ela encontrou a casa perfeita e sua mãe, vendo que a filha realmente queria se reerguer, ajudou-a a comprar a casa que estava a venda por um preço agradável além de excelente localização – uma esquina rodeada de árvores frondosas.
Ao se mudar, Dayane não estava nada feliz em deixar a casa que viveu com Gary, sentia como se fosse deixa-lo no passado.
Ela fez as malas e deu adeus ao seu lar, indo em direção à uma nova vida.
Chegando lá, Dayane se sentiu feliz, afinal aquela casa era tão calma e tranquila, sem vizinhos a quilômetros de distância.
Dayane ficou encantada com a casa, o único problema era que havia mais retratos naquele lugar do que janelas, deixando o ambiente pouco iluminado durante o dia.
Conforme os dias se passavam Dayane, em vez de melhorar, piorava cada dia mais. Ela não saia para nada. Sua mãe tentava entrar em contato, mas Dayane a evitava constantemente. Seu vicio pelo cigarro aumentava por tentar esquecer Gary. Todas as noites ela tinha pesadelos horrendos com a morte de seu marido, pensava em enormes cães negros o arrastando para o inferno e isso a perturbava muito.
Com a aproximação de outubro, seus sonhos começaram a mudar. Os cães continuavam, mas não era apenas Gary que sofria os ataques, mas uma cantora que tocava antes no bar em que Dayane começou com sua carreira, e também Diego, o garoto que no 1º ano do ensino médio – cinco anos atrás – era o aluno mais inteligente da sala.
Até que certo dia Dayane não conseguia mais aguentar tudo aquilo sozinha. Relutante ela pegou o telefone e discou para Andressa, sua melhor amiga de infância.
Andressa foi imediatamente visitar Dayana.
- Posso saber o que houve com a senhorita, que não atende mais minhas ligações? – perguntou Andressa preocupada com o estado de sua amiga – Você não sai mais dessa casa, não retorna minhas ligações e… Meu Deus, você está fedendo! O que está acontecendo com você?
- Eu não sei. – respondeu Dayane com sinceridade, ela também estava assustada – Acho que estou ficando maluca!
- Provavelmente. – Andressa puxou Dayane para um abraço.
Dayane começou a chorar e pela primeira vez em muito tempo, se sentiu feliz.
- O que está acontecendo? – Andressa tornou a perguntar.
- A casa não me deixa sair – respondeu Dayane, secando seu rosto. – desde que me mudei para cá minha vida tem piorado. Eu já não tenho mais vida!
Andressa ficou desconcertada vendo Dayane naquele estado deplorável.
- Eu sonho todas as noites com Gary – continuou ela – e com Matilda e Diego. Eles me culpam por suas mortes, dizem que eu destruí a vida deles e agora eles vão fazer a mesma coisa comigo!
- Isso é horrível, mas a morte deles não foi sua culpa – Andressa tentou consolá-la, afinal, aquilo não tinha fundamento nenhum. – Mas por que você diz que a casa não te deixa sair?
- Todos os dias eu sinto… coisas. Sinto como se estivesse sendo vigiada. Por todo lugar que eu vou eu sinto esses retratos me olhando. Eu já tentei tirá-los, mas não consigo, e quando eu penso em sair é como se alguém estivesse me segurando aqui.
Mas Andressa não ouviu a última parte, de Dayane estar sendo segurada em casa.
- Retratos? – perguntou Andressa – Que retratos?
Dayane não conseguia acreditar que Andressa estivesse perguntando realmente aquilo.
- Que retratos? – falou Dayane ironicamente – todos estes!
E pela primeira vez desde que entrou na casa ela viu que nas paredes não havia retrato nenhum, mas sim diversas janelas.
- Ah meu Deus! – exclamou ela sem acreditar – Eu juro. Havia retratos aqui, por todas estas paredes!
- Calma, está tudo bem – Andressa tentou acalmá-la – Você deve ter tirado e não se lembra.
- Não. – Dayane se recusava a crer que aquilo realmente estava acontecendo.
Lá fora estava anoitecendo, várias estrelas começavam a sair.
Um instante de silêncio se estabeleceu na sala enquanto Dayane tentava se acalmar.
- Hoje faz cinco anos – falou Andressa olhando pela janela.
- O que? – perguntou Dayane que não havia escutado direito.
- Hoje faz cinco anos – repetiu Andressa.
Dayane se lembrou daquela noite e do que havia pedido, algo que ela evitava há muito tempo. Quando, de repente a imagem da encruzilhada veio em sua mente.
- Foi aqui! – exclamou ela se levantando, deixando Andressa ainda mais assustada.
- O que? – perguntou Andressa.
- Foi aqui! – Dayane foi até o armário, pegou uma pá e saiu – Foi nessa encruzilhada. FOI AQUI!
Dayane parou bem no meio da esquina de sua casa, as árvores uivavam com o vento forte que soprava.
Ela começou a cavar desesperadamente. Andressa foi atrás dela e estava espantada com o que estava presenciando. Até que a pá bateu em alguma coisa sólida.
- Não acredito! – falou Andressa enquanto Dayane retirava sua caixinha de madeira do lugar que havia deixado há cinco anos.
Dayane abriu o pequeno baú e lá dentro o papel com seus pedidos estavam intactos, como se ela tivesse acabado de enterrar.
- Isso vai acabar! – disse Dayane com um olhar perturbado, arrancando o isqueiro do bolso. Ela pensava que se destruísse o baú sua vida voltaria ao normal, sem visões de pessoas na janela, sem presenças e o melhor de tudo, sem pesadelos.
- O que você pensa que vai fazer? – Dayane ouviu Andressa perguntar bruscamente – Espero que você saiba que isso não vai funcionar.
Dayane ficou assustada com o jeito que Andressa falou com ela, quando se lembrou de que ela nunca contou seu segredo a ninguém, nem para Andressa que era sua melhor amiga.
Dayane olhou para Andressa e viu algo ainda mais aterrorizante – os olhos de Andressa estavam negros, com a luz da lua iluminando uma parte de seu rosto, mostrando os ossos em sua face assustadora.
Andressa sorriu, mas aquela não era Andressa.
- Isso não vai funcionar.
Dayane segurou forte a caixa junto a seu peito. Os uivos do vento nas árvores não eram mais apenas uivos, mas se transformaram em rosnados ferozes que se aproximavam cada vez mais.
- Há cinco anos fiz três coisas para você, agora está na hora de me pagar!
- Mas eu já paguei! Você me tirou o Gary, você me tirou tudo! – falou Dayane chorando.
- Eu tirei Matilda e Diego do seu caminho, para que você fosse a melhor e Gary, bem… seus cinco anos se passaram!
Dayane empurrou Andressa e correu em direção a casa, se trancando lá dentro.
As luzes começaram a piscar até apagarem de vez, a casa estava iluminada apenas pela luz da lua que entrava pelas dezenas de janelas da casa, mas não eram mais janelas, eram quadros novamente. Mas agora todas as janelas estavam preenchidas com as imagens de Matilda, Diego e para seu horror, Gary. Eles estavam rondando a casa para que Dayane não conseguisse sair.
- Você estragou minha vida! – falou Matilda da janela.
- Você destruiu meu futuro! – acusou Lucas.
- Você me matou! – falou Gary encarando Dayane. Andressa parou ao lado deles com um sorriso assustador.
Dayane estava desesperada, sussurrando para si mesma: “Eu estou ficando maluca”, “Isso não está acontecendo”. Ela fechou os olhos e fez algo que nunca antes havia feito – rezou.
As vozes aumentavam cada vez mais, repletas de acusações.
“Isso não está acontecendo. Não há nada aqui!”
As vozes se calaram. Não havia som nenhum, apenas a respiração de Dayane.
Ela abriu os olhos lentamente, com medo do que iria encontrar ao seu redor, mas não havia nada, a não serem os quadros que já existiam nas paredes da casa.
- Eu estou ficando maluca! – sussurrou ela para o Hall vazio.
Quando Dayane ouviu som de patas ecoando pela cozinha e sala, entrando no hall.
Seus olhos viraram lentamente em direção à sala, enquanto todo seu corpo tremia de medo.
Ela gritou ao ver dois enormes cães negros a cercando.
Sem ter mais para onde ir, Dayane subiu correndo as escadas e se trancou em seu quarto. Os cães quase arrancavam a porta. Dayane, com muito esforço, empurrou a cômoda para tentar conter os animais. Ela olhou ao redor, procurando um meio de fugir, quando avistou Gary na janela.
Dayane correu para fechar as cortinas quando viu na encruzilhada um homem enterrando uma caixa. Era quase meia noite, os cinco anos mais felizes de sua vida estavam se esgotando, os cães estavam conseguindo derrubar a porta.
Em seu desespero, Dayane pegou o isqueiro, querendo por um ponto final naquilo tudo. Ela abriu seu baú, apanhou o papel com seus pedidos e pôs fogo, que se espalhou para o resto do quarto.
O fogo começou a consumir tudo ao redor e os cães continuavam na porta. Dayane não tinha para onde fugir, o fogo a cercava e os cães já estavam dentro do quarto.
A casa continua lá, intacta até hoje. Sem nenhum arranhão ou misera queimadura. Ela continua existindo para que outras pessoas sejam atormentadas por escolherem um caminho mais fácil para realizarem seus objetivos.
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