Notas iniciais
Bem... No Mês de Aniversário da Fic, nada mais legal que presentear meus queridos leitores com mais um episódio da mesma! E neste vou mergulhar seis anos no tempo e voltar ao passado para começar a explicar as razões pelas quais Duel ajudou a Grand Chase no Pico Delevon, e também como Rey e Edna vão se se separar. De certa forma quem lê Em Nome do amor terá um trailer do que virá (mas de forma incompleta, já aviso, pois não posso contar tudo, não é?), uma vez que ambas as tramas se cruzam aqui. Espero que curtam o capítulo! Narsha Observação: * diálogos mantidos e/ou baseados no trecho original do site oficial de Grand Chase: Level-Up Games. Revisão: Melissa Rubio.

Primeira Guerra Mágica

A movimentação das tropas era grandiosa. Logo, era inevitável a inquietação entre os soldados diante da iminente missão. Um tanto mais quieto que o habitual, o líder Duel Pon Zec fitava atento um mapa disposto por sobre uma mesa, a qual ficava ao centro da ampla sala de reuniões de seu QG. Um grandioso forte, em meio a uma floresta de difícil acesso, vigiado em suas altas muradas por inúmeros soldados de sua confiança.

Ao seu lado direito estava um homem alto, o qual muito lembrava a Duel, com tez azulada, corpo esguio, porém seus olhos eram rubros — frios e ameaçadores ao mesmo tempo — e seus cabelos eram negros como a noite mais profunda.

— É uma região de penhascos e reentrâncias próximas... Um erro aqui e colocaremos em risco nossas vidas. — disse Duel pensativo.

— Somente os líderes inimigos estarão seguindo por ali nesse momento, pelo que soube a tropa principal deles está guardando os limites de Calnat. Se impetrarmos esse ataque e acabarmos com eles, essa guerra estará vencida. E, então poderemos dar fim à ameaça que representa Calnat. – rebateu o homem com confiança.

Edna deles se aproximou. Usava seu traje de guerra, uma bela armadura em tom azul marinho, com pedras mágicas ornando-a e com pequenas lascas de quartzo verde salientadas na altura de seus ombros. Tinha os lindos cabelos cor-de-rosa brilhantes e suas longas tranças caíam-lhe livremente até quase a sua cintura. A beleza dela, nem mesmo a armadura reduzia — de modo que Duel fitou-a maravilhado. O homem ao seu lado, por sua vez, possuía nos olhos um ar estranho e procurou manter-se indiferente.

— Estou pronta. Que estamos esperando para partir? — disse aproximando-se de seu amado e olhando-o de modo intenso.

— Tenho algo importante que quero fazer antes de partirmos — disse Duel lançando um olhar especial para sua mulher. Que diante disso fitou-o intrigada.

— Bem, vou deixá-los a sós.

— Prepare o regimento, partiremos em duas horas.

— Pensei que não me quisesse mais no comando das tropas — disse ele de modo amargo fitando a Duel.

— O episódio em Khalyr foi muito grave e, de fato, prefiro que você se mantenha afastado do comando. Mas isso é uma situação extraordinária e, conforme o resultado de nossos objetivos hoje, eu posso repensar a respeito de seu erro...

O homem deu um sorriso, mas seus olhos pareciam frios.

— Se é assim, farei o que me pede.

E tão logo este deixou a sala, Edna enlaçou o pescoço de seu amado, e ele envolveu-a em seus braços e, com paixão, beijou-a longa e demoradamente.

— Te amo Edna!

— Também te amo Duel. — ele afagou o rosto dela.

— Você parece preocupado. Qual a razão dessa sombra em seus olhos? — ela disse fitando-o.

— Não estou com bom pressentimento em relação a esse plano, Edna. E se for uma emboscada?

— Deixe de ser pessimista Duel, você tem Eclipse! E tem a mim! Que pode temer? — disse sorrindo.

— Você está certa querida. Tolice minha. — ele sorriu, tentando afastar a estranha sensação de aperto no peito.

— Tenho algo pra você, minha amada.

— Um presente? — os olhos dela se iluminaram.

—Sim, mas não um presente qualquer, algo que faz tempo que queria ter dado a você... E que sei lá por que diabos adiei… Na verdade é um presente a nós dois…

— Assim você está me deixando curiosa! — os olhos cor de esmeralda dela pareciam faiscar por tanta expectativa. Ele apenas sorriu — pela primeira vez em todo aquele dia, pois passara mais sombrio, mas sem entender por qual razão. Então, ele olhou-a com amor.

— Sei que vivemos todos esses anos como casados, mas não oficializamos isso...

— Nós nos amamos Duel e não é uma cerimônia que tornaria isso mais forte... Nunca te cobrei isso.

— Eu sei que não, mas, eu quero isso, entende? — os olhos esmeralda dela se perderam no brilho do tom de vinho dos olhos dele. Duel puxou um pequeno saquinho aveludado, de onde retirou dois anéis em ouro maciço trabalhado com turquesas como ornamento.

— Você aceita se tornar minha esposa, aceita se tornar a senhora Edna Verbier Pon Zec?

— É tudo que eu mais quero! —ela disse sentindo-se extremamente emocionada.

Então Duel colocou o anel em seu anelar esquerdo e Edna fez o mesmo com ele.

— Esses anéis são mágicos. E agora selam a nossa união e o nosso amor. Que será eterno, o qual nem a morte será capaz de separar. – ele disse. E havia verdade na força de suas palavras.

— Sim, eu serei sua para sempre. Mesmo que meu corpo pereça, minha alma continuará pertencendo a você, assim como já o é meu coração. — disse Edna.

Um vento repentino soprou nessa hora e um calafrio percorreu seus corpos. Duel não simpatizou com aquele vento. Mas, nada disse. Afastando, então, mais uma vez a sombra de seus olhos, ele tomou Edna em seus braços e, indiferente aos olhares de seus soldados e de transeuntes, carregou-a em seu colo até a residência do casal onde, com olhar enamorado, seguiu rumo ao aposento que há muito tempo era para eles um recanto de amor.

Duas horas depois, acompanhado por um regimento de duzentos soldados, Duel e Edna seguiram rumo ao local onde, segundo foram informados, os líderes dos Grupos pró Calnat estariam se dirigindo em direção ao Desfiladeiro Flamejante.

O caminho era sombrio. O ar gélido cruzava os penhascos que iam começando a erguer-se por entre a perigosa trilha por aonde iam, de modo que tocava seus rostos de forma cortante. E Duel, à medida que avançavam e que o caminho parecia ir estreitando-se em meio aos penhascos, foi sentindo seu coração ainda mais pesado, como uma sensação agourenta que parecia voltar a intensificar-se. Edna fitou-o, e com seu jeito jovial resolveu animá-lo. Estava feliz demais pelo “casamento” deles e não iria deixar seu amado abater-se justo agora que estavam tão perto de realizar seu sonho.

—* Amor, você está muito tenso. Relaxe! Pense que muito em breve teremos os líderes Calnatianos pedindo clemência!

—* Obrigado por tentar me animar, mas às vezes acho que você é a única que me entende... Será que esses tolos que estão se opondo ao nosso ataque não percebem a ameaça que Calnat representa para todo o universo?

— *Eles não possuem tua grandeza querido, muito menos tua visão sobre a grave realidade que nosso mundo se encontra... Mas já que insistem em serem estúpidos, não serei eu a negar a eles uma boa luta! — falou com um forte brilho no olhar.

— *Gostaria que você fosse um pouco menos impetuosa, minha amada.

— *Um ótimo conselho vindo de alguém que ao entrar em território inimigo olha pra trás para conversar comigo! Ai, ai, o que você faria se não fosse por mim, seu tolinho? —brincou.

Nesse momento, o regimento havia chegado a mais ou menos até a metade da fenda por onde caminhavam em meio aos grandes penhascos e que possuía uma circunferência de aproximadamente um quilômetro de largura. E foi com horror que Duel observou para o alto dos mesmos, bem como para o caminho a sua frente, o qual acabavam de deixar para trás. Estavam cercados.

— *Eu sabia! Era uma armadilha! — gritou Duel, recuando para junto de Edna e posicionando-se recostado as suas costas. Ambos fitavam apreensivos a todos os lados, e os soldados de seu regimento pareciam assustados.

— Entregue-se Duel e evite a morte de seus soldados! Vocês estão cercados! — gritou um homem que empunhava uma longa espada, e que ele reconheceu de imediato.

— Então é assim que você joga imortal! Armando ciladas?! Grande mérito em me derrotar assim!

— Não posso permitir que você destrua Calnat! Não posso deixar que continue com teus intentos malignos! — retrucou o homem, cujos cabelos negros e desgrenhados esvoaçavam com o vento.

— Calnat! Será que você não vê o perigo que eles representam? Eles são uma ameaça a todos nós!

— A única ameaça aqui é você! Ande, chega disso! Entregue-se!

— Isso Nunca! Terá de me matar primeiro!

O homem, então, movimentou sua mão e tão logo isso ocorreu uma saraivada de flechas caiu por sobre as tropas de Duel, que com ajuda de escudos defenderam-se. Porém, mesmo assim, muitos sucumbiram a esse primeiro ataque. Uma flecha atingiu Duel no ombro, perfurando sua armadura, mas ele a retirou, resistindo à dor. E, junto de Edna, partiu para um ataque corpo a corpo contra os soldados de Calnat. Estavam em grande desvantagem numérica e também em temos de posição, mas mesmo assim — se era chegada a hora de morrer, o fariam de forma honrosa ao lutar por aquilo em que acreditavam.

Um árduo e violento combate prosseguiu e, pouco a pouco, o regimento de Duel foi sendo dizimado, mas ele e Edna lutavam com bravura.

Foi quando o guerreiro de cabelos negros ergueu sua longa espada e, mirando Duel, que estava envolto por uma energia sombria, impetrou seu ataque. Vendo isso, a bela senhora Pon Zec desesperou-se.

— *Não! Meu amor, cuidado! ARGH! — gritou, lançando-se na direção de seu amado, de modo que o poder total da habilidade atingiu-a diretamente. E, assim, sendo assolada pelo poder sagrado de nove espadas.

— *Edna! — gritou Duel desesperado, vendo-a cair ao chão. Ele então cravou Eclipse ao solo e uma enorme fenda abriu-se diante do guerreiro que defendia Calnat, fazendo com que este e boa parte do regimento caíssem por terra. A verdade era que Duel ainda não dominava o poder de sua espada e, isso foi um ponto contra ele naquele momento.

Correu então até Edna e ergueu-a, de modo que a cabeça da jovem recostou-se ao seu peito. Ele havia se ajoelhado.

— Edna, não me deixe! Edna!

— Duel... — ela balbuciou, com dificuldade. Seu corpo sangrava. Mas, apesar disso, seus ferimentos aparentemente não eram fatais. O que contrastava com o seu estado cada vez de maior fragilidade. Uma fenda havia se aberto por entre os penhascos e Edna a visualizou.

— Fuja daqui Duel… meu fim chegou… salve-se meu amor!... A voz dela saía num sussurro.

— Isso nunca! Vou tirar você daqui!— ele disse, erguendo-se e a carregando em seus braços. Mas, flechas atingiram-no pelas costas, dificultando sua fuga. Edna o olhou e uma estranha aura escura de repente rodeou-a.

— Fuja daqui! Vá! – ela ordenou vendo que ele poderia morrer.

— Não posso!

— Por nosso amor. Se você me ama... Viva por nós… As lágrimas banhavam o rosto dele e também pendiam dos olhos de Edna. Mesmo assim, ele se recusava a atender ao pedido de sua amada e tentou carregá-la. Uma nova fissura abriu-se no solo — a instabilidade caótica emanava, e ele desequilibrou-se com o impacto de uma lança que lhe atingira o braço. E sem conseguir evitar, sua amada escorregou de seus braços e caiu para dentro desta. Ele, então, num movimento rápido, segurou sua mão.

— Não solte Edna, eu te imploro! Mas ela apenas o olhou.

— Amo você… salve-se… — disse, tentando sorrir em meio à dor que a acometia. E, então se deixou cair para dentro da fissura. Duel tentou impedir, mas em sua mão apenas o anel que havia lhe dado, e que era a aliança entre os dois, restara.

— Edna! Edna! — Ele gritou desesperado. Mas, não era possível ver o fundo daquela fissura. Gritos e urros, associados a flechas e lanças sendo lançadas o chamaram para a realidade em meio a sua dor, enquanto labaredas subiam ao alto, e, ele, hesitante, então fugiu em meio à sombria passagem.

Não muito longe dali, protegida pela densa vegetação de uma antiga floresta, situada numa área desabitada e bastante distante de vilarejos, uma imponente mansão erguia-se como um grande mausoléu, perdido no tempo e no espaço. Um lugar com ar melancólico e cujo interior, através de inúmeras passagens secretas, conduzia a áreas subterrâneas e cavernosas, onde um poderoso bruxo mantinha seus laboratórios em segredo.

Entretanto, num desses sinistros e frios laboratórios, uma jovem Asmodiana estava deitada em meio a um pentagrama. Em torno dele, chamas erguiam-se ao alto, sob a forma de ondulações escuras e crepitantes. Estranhos objetos rodeavam o corpo da moça e, em suas mãos, um punhado de fios de cabelo em tom róseo envolto por um lenço bordado com uma letra “E” em relevo estava disposto. Sendo que, aos pés da jovem, segurando em uma das mãos um velho livro amarelado pelo tempo, um Asmodiano velho e baixo terminava de pronunciar sombrias palavras numa linguagem remota. Perto deles, Peter Von Crimson, um homem alto e de ar nobre mantinha um ar aflito enquanto observava a tudo com expectativa e, junto deste um Asmodiano idoso — com trajes de serviçal — o acompanhava igualmente com ar preocupado.

Um sorriso macabro esboçava-se nos lábios do velho Bruxo Asmodiano, enquanto contas escuras se erguiam ao alto e se abriam liberando feixes de uma energia roxa escura — que saiu sob a forma de uma rajada rumo ao alto.

Sentindo dores pelos ferimentos causados pela poderosa técnica que a atingira, Edna — que havia caído junto a uma pequena saliência dentro da fenda— havia recobrado os sentidos e lutava bravamente para tentar salvar sua vida. Sentia ainda receio por Duel e não sabia se, de fato, ele estaria a salvo. E, por isso mesmo, resolveu lutar por sua própria vida. Com esforço, então começou a erguer-se a fim de tentar escalar a parede escorregadia da fissura.

Não mais se ouviam os gritos exaltados dos soldados ali perto, logo ela achou que seria um bom momento de deixar o local e ir atrás de seu amado, por quem temia pela vida. Seus ferimentos eram graves, sabia disso, mas ela era forte, iria sobreviver.

Foi quando estranhos feixes de luz sombria mergulharam na fissura e a rodearam, sob a forma de pequenas esferas — sete ao todo. Edna olhou para as mesmas, sem nada entender. Uma voz, ou um estranho murmúrio como um feitiço parecia ser trazido pelo vento e, das esferas, então, uma forte aura a envolveu e ela sentiu suas forças exaurindo-se. Uma sensação de sufocamento a abateu. O seu coração disparou violentamente. Tateou pelo chão desesperada, enquanto o clarão da lua mergulhava pela fenda, dando ao local um ar fantasmagórico. Sentiu um poder mágico atuando ali e lutaria contra isso, com todas as suas forças, por mais parcas que fossem.

O laboratório escondido nos subterrâneos cavernosos, próximos da grande mansão, era formado pelas paredes naturais de uma das grandiosas cavernas ali existentes. Este laboratório agora estava tomado por uma energia escura — que chegava a transmitir a sensação de sufocamento aqueles em que ali estavam. Sendo que o Gram Mago Oz era o único a parecer não sentir a força do poder que ali imperava. E todas suas forças, elas se concentravam na execução do ritual e de seus ocultos intentos.

Inimigo declarado de Duel Pon Zec, Oz — que a princípio havia rejeitado veementemente a possibilidade de ajudar a filha de Peter Von Crimson—, agora via nesse ritual uma chance única de vingar-se ainda mais de Duel e também de pôr em prática um experimento que há muito desejava ver se realmente era viável: o núcleo.

Um silêncio voraz dominava o local, cortado apenas pela voz grave e severa do Mago que ecoava pelas paredes rochosas. Gotas pendiam de algumas estalactites e o lugar estava frio.

Foi quando o serviçal de Peter Von Crimson, cujo nome era James, desviou seu olhar para trás em direção a uma saliente rocha não muito longe deles e visualizou um vulto.

—Tem alguém ali! — gritou, chamando atenção de seu patrão e de Oz, o qual diante do modo como despertou de seu transe, acabou perdendo a concentração em meio a seu ritual, momentaneamente surpreso.

— O quê? — disse, fitando a todos — com ar irritado.

— Ali! Apontou James, investindo contra o vulto, e atacando-o com rajadas de energia. Este, porém esquivou-se e saiu rapidamente do local.

As esferas em torno de Edna começaram a desaparecer e o ar voltou a seus pulmões. Entretanto, seu coração ainda parecia descompassado. Aproveitando-se disso, então, a jovem Asmodiana começou a escalar novamente a fenda e, apesar da dificuldade, conseguiu deixar seu interior alcançando as bordas e rastejando para longe desta. Focos de incêndio espalhavam-se consumindo corpos caídos ao chão, espirais de fumaça e cinzas subiam em direção ao céu levadas pelo vento. Edna ofegava e suas pernas pareciam ainda pesadas pela força do poder mágico que a havia atacado, mas, aos poucos, esse desconforto ia desaparecendo. E o seu coração e o seu sexto sentido diziam que ela devia fugir para o mais longe possível dali.

Com o cenho franzido, Oz se virou na direção de onde o vulto escapava furtivamente e em seguida fitou aos homens ali presentes.

— Não se preocupem, é apenas o idiota do meu aprendiz! Depois darei uma lição nele por ser tão enxerido! – havia rudeza no modo como ele falou. Os seus olhos estavam repletos de fúria. — Mas agora se calem ou querem que dê tudo errado aqui? E se isso ocorrer pode dar adeus a sua filha Peter!

— Isso não! — disse o homem nervoso, olhando para a jovem, cuja palidez e cianose indicavam que ela tinha pouco tempo de vida.

O velho Mago, então, caminhou até Rey; pegou parte da mecha de cabelos cor de rosa que estavam envoltos por um lenço, abriu novamente seu livro envelhecido e, concentrando-se, retomou o ritual voltando a pronunciar palavras em uma linguagem remota e sombria.

Foi nessa mesma hora que, para desespero total de Edna, as contas mágicas tornaram a surgir em torno dela. Ela ficou em pânico, porém tentou mover-se.

— Vão embora! Deixem-me! Ela gritou com medo refletido em seus olhos lacrimejantes.

Uma forte dor no peito a envolveu e ela caiu ao chão úmido pelo sereno da noite que avançava. Não conseguia respirar. Seu corpo não mais respondia. E a voz sombria de um homem pronunciando palavras diabólicas invadia seus ouvidos.

— Duel… — ela conseguiu ainda dizer, e este, longe dali, de alguma forma pôde sentir sua dor de algum modo, mas também estava gravemente ferido. Muitas flechas haviam-no perfurado o corpo pelas costas; lanças também o haviam atingido. Ele estava febril e delirava enquanto recebia cuidados de um velho homem leal à causa, que o acolhera em sua fuga.

— Edna… Edna... — Duel balbuciou ardendo em febre e movimentando a cabeça de forma aflita, de um lado para outro. O homem, rapidamente, depositou em sua testa uma nova compressa com água fria.

Edna sentiu-se sufocar. Logo em seguida, percebeu que tudo se tornou momentaneamente escuro e frio. Mas, de repente, se sentiu mais leve. Quando abriu os olhos estava em um lugar estranho e diante de uma garota — que, de certa forma, lhe dava os ares. Viu, então, o velho que murmurava algo aos pés da tal garota e, com desprezo, o reconheceu. Mas, antes mesmo que dissesse algo, sentiu ser envolvida por uma energia que a aprisionava, seu corpo parecia estar atando-se a grilhões pesadíssimos. Foi quando mergulhou num túnel escuro, e dentro deste paredes invisíveis aprisionaram-na.

— Está feito. — disse Oz fechando seu livro e dando por concluído o Ritual de Magia Negra que havia impetrado.

— E minha filha Rey? Ela está curada? — disse Peter Von Crimson.

Oz olhou para Peter Von Crimson com desdém. Sua voz saiu grave e fria ao responder:

— Veja por si mesmo. — disse, apontando para a jovem, cujo rosto havia recobrado um ar saudável e corado.

— Posso ir até ela?

— À vontade. — retrucou friamente Oz. — E já pode levá-la também. — Mas não se esqueça de deixar o combinado antes de sair.

— Sou um homem de palavra meu caro Mago. — James, entregue a ele o que lhe é de direito. — disse Peter enquanto aproximava-se da filha, a qual ainda permanecia desacordada.

— Sim, meu senhor. — retrucou o velho mordomo que o havia acompanhado desde o princípio nessa árdua jornada para salvar a jovem Rey.

— Antes que me pergunte — resmungou Oz, enquanto remexia no saco de linhagem repleto de moedas de ouro que James havia entregue a ele —, sua filha não vai acordar antes de três dias. É o tempo para a consolidação total da magia. E quando despertar, não se lembrará de nada do que houve aqui.

— Melhor assim. Não quero que ela descubra o modo como ficou curada. — disse Peter.

Oz soltou um riso macabro e disse: — Melhor mesmo que não saiba, para o bem dela...

— Que quer dizer com isso?

— Que há coisas que melhor ficam sepultadas, Sr. Peter. Agora vá. Leve sua filha daqui, e esqueça que um dia esteve em minha casa.

— Assim o farei, Sr. Oz. Não se preocupe.

Tão logo Peter Von Crimson deixou o local, carregando a filha nos braços, e junto de seu fiel mordomo James, Oz adquiriu um semblante ainda mais sombrio do que já apresentava. Apesar de satisfeito pelo sucesso de seus intentos, ele estava encolerizado. Oz cerrou seus punhos antes de pegar em mãos, novamente, seu cajado e seguir, via uma passagem secreta, rumo às dependências superiores de sua mansão. Zero aprenderia a obedecer a suas ordens e iria se arrepender por sua insolência, assim pensou.

Poucos minutos após o Gram Mago ter ficado diante de seu aprendiz e de lhe ter dito duras palavras, ruídos secos do açoite atingiram o corpo do rapaz, ecoados pelo vento, seguidos por seus gritos desesperados de dor... Eram tão intensos e assustadores que, em revoada, os pássaros que estavam pousados junto às árvores próximas da mansão fugiram para longe.

Uma hora depois, seguindo por uma trilha pouco visível, em meio à floresta que ladeava sua mansão, Oz chegou a uma pequena clareira, e, junto a uma parede rochosa que se erguia dando início a uma cadeia de montanhas ali próximas. E na base desta rocha havia uma velha cabana carcomida pelo tempo, mas ela erguia-se fragilmente se contrastada com a beleza do lugar.

Oz, jamais havia mencionado a existência dessa cabana a ninguém e nem mesmo ao seu aprendiz Zero, apesar de frequentemente costumar ir até este local. Desde que fizera a melhor aliança que o destino pudera haver-lhe reservado, esse havia se tornado um itinerário rotineiro nas suas frequentes saídas noturnas.

Ele olhou de um lado para o outro, de modo precavido — como sempre fizera. Somente após isso entrou na cabana, onde uma luz amarelada, proveniente de algumas velas clareava o ambiente de modo precário.

E tão logo ali adentrou o homem que o aguardava e que estava postado próximo a uma velha estante de madeira corroída por cupins, voltou-se, fitando- o com ar inquiridor.

— Está acabado meu caro. Edna agora não passa de uma sombra viva enterrada no corpo daquela criatura inútil, filha daquele medíocre do Von Crimson! — disse Oz antes mesmo que lhe fosse perguntado.

— Desde que a alma dela e a de Duel jamais se encontrem novamente, a mim basta! Onde foi parar pouco me importa! — disse com um olhar repleto de mágoa.

— A essa altura, aquele idiota do Duel — prosseguiu então com um sorriso pérfido nos lábios — já deve estar conversando com o diabo! E espero que o corpo dele tenha sido jogado nas caldeiras de Calnat para alimentar suas fábricas! — Oz riu.

— Interessa-me apenas a espada. Quero a Eclipse.

— Sem Duel, pegar Eclipse não será problema algum.

— Hoje realmente foi um dia de glórias. — disse o velho Bruxo realmente com contento.

— Mas me diga Oz, não há como reverter essa magia e a alma de Edna escapar do corpo dessa garota? — retrucou o homem, deixando-se levar por uma repentina dúvida.

— Impossível! A Magia Negra que impetrei era uma magia proibida e antiga demais. — ele riu. — Ninguém jamais poderá reverter isso. Ao menos, nenhum ser mortal deste mundo. Somente um deus poderia, se assim o desejasse... Mas me diga que deus iria querer fazer isso? E por quê?

— Nenhum meu caro Oz, nenhum — disse com sarcasmo o homem. Ambos caíram em risada e deram grandes gargalhadas. E, por fim, brindaram com um copo de vinho seco e amargo – típico das regiões Asmodianas.

Séculos depois…

O negror da noite trazia junto consigo uma sensação de mal estar. E o vento abafado acariciou seu rosto de modo impiedoso.

Ao longe, os clarões dos raios cortavam a escuridão, seguidos por estrondos ensurdecedores. Mas, para ele era como se o nada o alterasse, pois estava mergulhado na dor que o consumia. Ele deixou-se cair de joelhos no chão, enquanto que por sua face lágrimas desciam copiosamente. Estava ferido gravemente e sangrava muito devido ao terrível confronto que tivera contra Zero; ao seu lado sua imponente Espada Eclipse, manchada pelo vermelho do sangue de seu oponente, estava jogada ao solo parecendo sentir a falta do espírito combativo de seu Mestre.

Havia perdido a identidade na busca por um meio de trazê-la de volta para si e, agora, era o fracasso que lhe apontava a lâmina e dilacerava sua alma.

Sua covardia trouxera a morte para a única mulher que amou em sua vida, e essa culpa jamais o abandonara. Assim como a dor da saudade e da solidão. E, em nome desse amor, postou-se a ir atrás de tudo que lhe trouxesse a esperança de poder redimir-se de seu erro e de poder voltar a estar junto de seu amor.

Entretanto, agora era a escuridão que o envolvia, como sempre fora por todos os longos séculos, onde a tristeza mergulhara em sua alma, bem como as sombras. A certeza de nunca mais poder sentir o perfume suave do corpo de sua amada junto ao seu, a melodia de sua voz enquanto lhe falava era tal qual um punhal cravado mortalmente em seu peito.

Soluços o acometeram. Ele se contorceu como se a dor que agora invadia seu espírito houvesse se tornado realmente uma dor física.

Havia sido um tolo, acreditado em apenas uma ilusão e, em sua cegueira, cometido muitos desatinos; Bardnard, na verdade, não passava de um louco, cujo único propósito, em sua ambição desmedida de se tornar um Deus, era dar fim a tudo — uma vez que pretendia fazer uso do Martelo de Ernasis e assim governar um mundo onde o vazio representaria sua visão doentia e deturpada da absoluta plenitude. E, desse modo, todas as promessas por ele feitas haviam se mostrado tão falsas quanto sua própria divindade.

Apercebeu-se disso tarde demais, mas não tão tarde a ponto de não impedi-lo. Mesmo assim, isso não lhe trazia conforto e nem apaziguava a lacuna latente em seu coração. E apesar de seu gesto altruísta levando consigo as memórias daquela que por tanto tempo fora a “chave”, bem como ter consigo a própria Bíblia da Revelação, não poderia mudar o passado e nem tampouco seu destino. Desaparecer para sempre levando consigo tais instrumentos de destruição talvez, de fato, fosse o mais certo a ser feito.

Outro clarão rasgou o breu noturno ao longe, ecoando um violento estrondo. E ele nem percebeu quando alguém se aproximou dele. Ao menos não antes do homem postar-se a sua frente.

Duel, com o espírito derrotado, ergueu os olhos marejados na direção do recém-chegado, mas sem fazer menção alguma de levantar-se ou defender-se. Ele desejava a morte.

— Então é assim que tudo termina para Duel Pon Zec?! — indagou Dio, fitando-o com um olhar frio.

Havia presenciado a luta épica que o Asmodiano travara contra Zero Zephyrum, pouco tempo depois de haver deixado, através de um portal dimensional, o Castelo de Calnat — minutos após Bardnard ter sido levado por Grandiel para seu eterno exílio dentro da Torre das Ilusões, e de Duel ter tomado para si as lembranças de Mari e a Bíblia da Revelação.

Diante do sangrento embate que se desenrolou entre ambos, e do estado lastimável que Duel se encontrava quando, no derradeiro instante, tornou a adentrar em um Portal Dimensional, presumiu que este não havia ido muito longe. E vendo-o agora diante de si, prostrado, parecia-lhe algo surreal. O poder de Zero e de sua Mágica Espada Grandark teriam sido tão avassaladores a ponto de conseguir tal proeza? Algo lhe dizia que o fato de ter sido praticamente derrotado por seu maior inimigo não tinha nada a ver com isso e que o lastimável estado do Grande Guerreiro era motivado por algo muito mais forte.

—Dio...— limitou-se a dizer ao outro baixando a cabeça.

Um silêncio constrangedor instaurou-se por longos minutos, cortado apenas pelo retumbar dos trovões. E Duel tornou a erguer os olhos para o Asmodiano. Estavam sem vida, profundamente sombrios.

— Mate-me! — disse, com voz soturna. Sem alterações.

— Matá-lo? Por que eu deveria fazer isso? Você não é meu inimigo. Ao menos, não mais. – disse Dio, mantendo frieza em seu tom de voz.

— Pois se não sou, não hesite e faça o que te peço... Tudo acabou...

— Acabou? E o que nos disse no Castelo sobre apenas um novo começo?

Duel olhou-o sem mostrar emoção alguma em seus olhos.

— Realmente eu disse... mas não para mim.... – disse, de modo frio e olhando para Dio com repentino desespero, disse-lhe em tom de súplica: — Não há razão para hesitações! Mate-me!!! Ou será que pretende escarnecer em cima de quem já não passa de um monte de nada?!

— Ande, levante-se! — disse Dio com voz firme, fitando-o. E este lançou-lhe um olhar surpreso.

— De pé! Se quer tanto que eu dê cabo de sua vida então que seja numa luta justa!

— Você não entendeu Dio — disse o Guerreiro levantando-se com certo esforço. — Não pretendo lutar. Não há mais razão em prolongar uma vida que, para mim, não tem mais sentido... — as lágrimas ainda desciam por sua face. — Tudo está perdido! Bardnard era um patife e suas promessas tão mentirosas quanto ele próprio.... Minhas esperanças... Edna…

— E a Bíblia da Revelação, e as lembranças de Mari?

— Não haverá lembranças após minha morte... a Bíblia não passará de um artefato sem valor.... Dio fitou-o de modo sombrio.

— Arrependo-me por não ter deixado Zero dar o golpe de misericórdia.... Que seja então você a acabar comigo!

— Não diga tolices! Está agindo mais uma vez como um covarde! Tudo isso apenas por causa de uma mulher?

— Ora cale-se! Quem você pensa que é pra me dizer isso?! Você não sabe de nada! Você nem sabe o que é o amor!

— Se amor é isso, nos tornarmos idiotas! Prefiro mesmo não saber então. — respondeu, de modo seco.

— Você não entende... Não existe mais nada ... Morrer seria uma libertação. — disse Duel de modo melancólico, dando as costas para o Asmodiano e fitando a Espada Eclipse caída ao chão, parecendo tão morta como sua alma.

Dio continuava a fitá-lo.

— O que está esperando? — falou Duel, cujos olhos ametistas não espelhavam brilho algum, imersos na própria treva que abatia-se por sobre si. — Mate-me e acabe logo com isso!

— Se deseja tanto isso, então que seja! — disse Dio, com voz inalterada e um brilho gélido em seu olhar, erguendo sua Foice — cuja lâmina reluziu ao clarão de um raio. Duel apenas fechou os olhos.

— Não o mate Dio! — gritou Rey, que, sem conseguir entendera razão que a motivava fazer isso, atirou-se na frente de Duel, protegendo-o com o próprio corpo. Este abriu os olhos e fitou a mulher que o protegia, aturdido.

— Rey?! – disse Dio, surpreso com a repentina chegada da jovem e, principalmente com a atitude tomada por esta.

— Não faça isso! – suplicou ela com nervosismo, e o Asmodiano de cabelos cor de vinho lentamente baixou a Foice.

Ela voltou-se para Duel — e um brilho habitava em seus olhos como chamas esverdeadas. Ele a fitou e, seu coração acelerou. Algo nela, em seus olhos, em seu semblante, o inquietavam. E fazia com que ele lembrasse vividamente de Edna…

— Edna?!... Não, não... Quem é você afinal, mulher? Por que olho para você e, por um momento, a vejo? ... Essa última indagação saiu quase inaudível, mas a jovem, mesmo assim, ouvira.

— Não há tempo para explicações, não desista de mim… de Edna... — disse com esforço, pois a força de Edna a dominava nesse momento.

— Há algo que ainda pode ser feito. — disse ela, com voz em tom de súplica.

Duel a fitou de modo confuso. De alguma forma, ele sabia, ele sentia: Era Edna… Mesmo assim tentou negar isso.

— Algo? — repetiu, aproximando-se da jovem, e fitando-a diretamente nos olhos.

Dio os observava e um ciúme voraz o consumia. Embora soubesse da verdade.

— Eu já fiz tudo que era possível! Movi céus e terra e nada... Me humilhei, me tornei um lacaio na esperança de trazê-la de volta… Você não entende? Não há mais nada a fazer! Nada! Eu a perdi…

— Isso não é verdade… — os olhos de Rey pareciam vidrados. E Duel, por um momento, pôde ver nitidamente a imagem de Edna por detrás do corpo daquela jovem.

— Nem que meu corpo pereça, minha alma continuará pertencendo a você, assim como já o é meu coração... — ela disse num sussurro.

Duel, ouvindo isso, estremeceu. Eram as mesmas palavras que ele e Edna haviam trocado em seu juramento nupcial.

— Edna! — ele disse com avidez, mas os olhos de Rey se fecharam e ela perdeu os sentidos. Ele a amparou em seus braços, mas Dio aproximou-se, empurrou-o, e tomou Rey para si.

— Ela não é a sua Edna! — estava irritado e o ciúme o dominava. — Fique longe dela!

Duel estava confuso. Nada disse.

— Pegue Eclipse e dê o fora daqui! — a voz de Dio era grave e ele tentava conter-se, sabia que Rey não o perdoaria se fizesse algo contra o Asmodiano.

— Mas… — disse Duel.

— Vá para Astrynat e procure pelo Imperador, ao que parece ele é o único que realmente poderá ajudá-lo.

— O Imperador de Astrynat? – ele riu de modo irônico, recobrando o autocontrole. — Você está louco? Cometi erros demais para ser recebido com glórias em um local sagrado como aquele.... Assim que puser meus pés naquele Continente serei certamente preso e executado.

— Se isso ocorrer você terá realizado o que tanto queria. Não é mesmo? — ironizou Dio, ainda motivado pela voz do ciúme. Duel fitou-o, mas nada disse. Um pequeno fio de esperança tornava a dar um sentido para não mais desistir da própria vida.

— Se quer mesmo a sua Edna de volta é o que terá de fazer! — prosseguiu, Dio, de modo seco. — Senão, que se dane! Faça o que quiser!

Duel sentiu nitidamente a repentina irritabilidade no tom de voz do Asmodiano e, observando-o, compreendeu tudo. Dio amava aquela mulher. Mas, de alguma forma Edna estava ligada a ela e ele a traria de volta. Uma pequena luz voltava aos seus olhos.

— Estou cansado de falsas promessas — disse, ainda com certa amargura, recordando-se de Bardinard. — Mas se ainda existe uma esperança, por vã que seja... Tentarei uma última vez…

Nesse momento Rey recobrou os sentidos e Dio a abraçou com mais força, trazendo-a para junto de si, de forma possessiva.

— Ele não deve estar longe! — a voz grave e determinada ecoou não muito longe. — Grandark, eu sinto que ele está perto! Vamos, hoje teremos Eclipse!

— É o Zero! – disse Rey olhando para trás. — Ande, apresse-se!

Duel pegou Eclipse e olhou para Rey, pensativo, ao passo que Dio com ar sério mantinha agora uma expressão inexpugnável.

— Vá, Logo! — ela disse, com certa ansiedade. Em seguida, Duel abriu um portal dimensional. Fitou-a por mais um momento e desapareceu junto com este, segundos depois. Dio, porém sentia-se contrariado, e mantinha o braço em torno da cintura de Rey.

— Hei me largue Dio, não te dei essas liberdades! — disse afastando-se dele, mas não verdadeiramente incomodada. Ele a fitou, pelo visto ao menos um pouco da Rey de sempre havia voltado.

— Vocês viram Duel? — inquiriu Zero, que ali chegava segundos depois de este haver desaparecido pelo portal dimensional, e que, como Duel, estava bastante ferido. Tendo o corpo ensanguentado e movimentando-se com certa dificuldade.

— Sim, deparamos com ele, estava extremamente ferido.... Se esgueirou para dentro de um portal e desapareceu.

— Maldito! Isso não podia ter acontecido! — disse Zero, evidentemente contrariado enquanto cravava Grandark ao solo. — Ainda hei de lutar com você!

— Não se preocupe, queridinho.... Você acabou com ele! E no estado em que estava por certo não vai durar muito... — disse Rey de forma convincente. Dio a fitou, e permaneceu em silêncio.

Os demais membros da Grand Chase ali chegaram, estavam suados e cansados após a longa luta contra Astaroth, melhor dizendo Lorde Bardnard. Mas, havia um brilho especial em seus rostos: o brilho da vitória.

Um raio rasgou o horizonte escuro e a chuva começou a cair intensa. E, dessa forma, banharia a tudo com a pureza de suas águas, levando embora todo mal que tocara as Terras de Ernas. Era chegado o momento em que a paz retornaria aos Continentes finalmente.

Dois longos anos haviam se passado. Duel, de modo furtivo, passou a acompanhar meticulosamente a vida do Imperador de Astrynat: Alkyraz. Mas, a segurança em torno do mesmo era gigantesca e eram raros os momentos em que ele saía de seu templo. E, quando o fazia, era sempre acompanhado por um homem — que depois de inquerir aqui e ali, ele veio a descobrir se tratar do meio-irmão do Imperador — de nome Atron e que, como Alkyraz era uma espécie de Divindade, porém subjugada a ele.

Sem desistir, Duel mais uma vez seguiu o Imperador secretamente, e surpreendeu-se ao perceber que este havia dispensado a companhia de guardas e de Atron. Depois de tanto tempo, pareceu-lhe que finalmente o destino lhe acenava com uma oportunidade para se aproximar daquele que ele sabia ser, na terra, o representante Divino dos Deuses. Ele era quase como eles, um deus, porém em nível inferior em relação aos Deuses de Xênia.

O Divino Homem deixou Amaky, a capital do Império Astrynat, e rumou para uma pequena província dentro do Ducado de Shalay — de nome Survy. Um local de longos vales, altas colinas e longas plantações de vinhedos. Era primavera e pelos vales podiam-se ver as belas flores silvestres e multicores que nasciam e embelezavam a paisagem, ao mesmo tempo em que exalavam seu suave e delicioso perfume. E foi para um desses vales dentro, desta singela província ao norte de Amaky, que Alkyraz se dirigiu. Indo mais precisamente até uma velha construção em pedras, erguida em meio à vastidão de uma colina – a qual parecia estar esquecida pelo tempo. Lembrava uma velha casa de aldeões — mas por seu estado via-se que ninguém ali habitava.

Duel aproximou-se cautelosamente e ficou a observar, um tanto curioso, enquanto ficava a imaginar o que um homem da posição e do poder de Alkyraz fazia num local como aquele. E, foi então que o viu parar diante de uma espécie de esquife cristalino, feito por magia — onde o corpo de uma bela jovem de cabelos escuros parecia dormir serenamente. Duel fitou a cena, perplexo, enquanto viu Alkyraz depositar por sobre o mesmo um ramalhete de flores de um tom azul celeste. Ficou assim, a contemplá-la por longo tempo e, de repente, sem ao menos se voltar, dirigiu-se a Duel, surpreendendo-o.

— Aproxime-se rapaz! É chegado o momento de conversarmos. — a voz do Governante Máximo de Astrynat saiu solene, porém sem alterações.

Era um homem altivo — de estatura elevada, porte atlético e olhos de um caramelo profundo. Sua tez era alva e seus cabelos prateados caiam lisos até os ombros, contrastando com o tom vinho de sua túnica. Em suas costas longas asas brancas haviam repentinamente se materializado e pendiam majestosamente.

— Então minha presença já havia sido notada... — limitou-se a dizer Duel, deixando o pilar onde havia se recostado e indo até o Governante.

— Há muito tempo, meu caro. Faz exatamente dois anos que sei que me persegue.

Duel ergueu as sobrancelhas, realmente surpreso com a revelação. Sem dúvida, aquele homem era um Deus.

— Duel Pon Zec, seu nome. Algo muito importante o levou a impetrar essa arriscada busca para poder ficar diante de mim.

— Pelo visto vossa Majestade sabe de tudo… E eu pergunto, houve sentido em eu ter feito isso?

— Se esse Tudo for em nome do mais nobre de todos sentimentos mortais... E mesmo divinos… eu diria que Sim. Não foi em vão tua busca.

Duel sentiu seu coração acelerar. Teria ouvido certo. Alkyraz havia dito “sim”.

— Isso quer dizer — conseguiu balbuciar por fim, sentindo-pela primeira vez em toda sua vida, estranhamente nervoso.

Alkyraz ergueu-se e voltou-se para o jovem com olhar sóbrio. Havia imponência em seu modo de fitá-lo. Duel ajoelhou-se diante de sua Divindade.

— Você a ama? — ele disse, com sobriedade.

— Mais que tudo. Minha vida deixou de existir com sua morte… E isso só ocorreu porque fui um maldito covarde… Era eu quem devia ter morrido... Era eu e não Edna… — disse de modo sincero, sendo acometido pela força de todos os sentimentos que calava dentro de si. Em seus olhos, lágrimas se formaram. Alkyraz o fitou. Então tornou a olhar para o esquife onde, serena, a jovem de cabelos negros descansava seu sono eterno.

— Certa vez um jovem Deus apaixonou-se por uma mortal. Deixou-se seduzir pelo misterioso brilho de seus lindos olhos negros... De sua pele alva... De seus lábios puros... — disse ele, de repente, com os olhos tomados por uma estranha luz.

Duel o fitou, sem interrompê-lo. Seus olhos também pousaram no esquife a poucos metros de onde estava.

— E totalmente inebriado por este amor este deus esqueceu-se de todas as regras que o Deus Governante havia determinado. — ele se aproximou do esquife e tocou-o. — E esse Deus se entregou a esse amor e uniu-se a essa mortal, como se fossem apenas mais um homem e uma mulher que se amavam. E, nos braços dela, ele finalmente conheceu a sublimidade do amor… Um amor que gerou um fruto...

— O Deus Governante, ao saber disso enfureceu-se. Mas, não impediu o jovem Deus de continuar junto com a mortal. Desde que este jamais esquecesse de que seria fugaz sua felicidade. Enamorado, ele aceitou isso. E viveu os meses mais felizes de sua eterna vida… Porém, uma grande febre assolou várias regiões do mundo mortal e a amada desse Deus foi contagiada... E impedido de interceder por ela, ele a viu morrer em seus braços… — havia lágrimas nos olhos do Imperador, que lhe desceram reluzentes pela face.

Duel havia compreendido tudo. O Deus a quem ele se referia era ele próprio. E a mulher mortal era a jovem que jazia no cristalino esquife.

— Você sabe o que é ser um Deus e não poder interceder pelo único ser que lhe fez perceber a grandiosidade do sentimento nomeado amor?

— Posso imaginar... Essa sensação de vazio me acompanha. Mas, não sou um deus… Mesmo assim creio que o sentimento é o mesmo...

— O sentimento sim, mas a dor do Deus é pior, porque ele teria poder para salvá-la, mas o desejo de um Deus de hierarquia maior... O desejo de seu próprio pai o impediu…

— Compreendo.

— Não pude fazer por Hanna— disse voltando-se e fitando Duel nos olhos. – Porque minha Divindade está limitada aos desejos de Thanatos e aos seus desígnios. Devido a isso não posso usar meu poder para benefício próprio. Mas, isso não me impede de fazê-lo para ajudar alguém por quem não tenho nenhuma relação direta. Os olhos de Duel se iluminaram ao ouvi-lo.

— Irei ajudá-lo. Eu a trarei de volta pra você.

— Obrigado meu Senhor. Obrigado. — disse com voz carregada pela emoção.

— Mas...

Duel ergueu os olhos, o coração estava inquieto e, olhou para o Imperador com apreensão.

— Você sabe que tudo tem um preço, não? Você está disposto a pagar esse preço?

— Seja o que for… Por Edna eu o farei.

Continua...

Notas finais
Estamos muito perto do final do Livro I e, como viram muita coisa está sendo esclarecida... Rey... Edna... Duel... Dio... Alkyraz... Vamos ver como ficará isso... Mas emoção é que não vai faltar até o fim! Há muito por vir, contudo, eu precisava esclarecer isso antes. Não quero deixar pontas soltas e havia prometido explicar sobre Rey e Edna. Obrigada por acompanharem!